"Sou a perdida unidade que a inteligência sozinha não pressente..."

terça-feira, 26 de Janeiro de 2010

do Movimento do Homem

"O presente é fugaz e não nos interessa verdadeiramente, a não ser como insatisfação e inquietude. Cada instante do presente aparece-nos possuído do desejo - não de aguardar passivamente o que sucederá -, mas de conceber a forma de melhorar, aperfeiçoar, desenvolver gradualmente a situação anterior. Só o futuro tem realidade atêntica, porque lhe fazemos face constantemente."

António Quadros, (O Movimento do Homem, 1963: p. 284)

terça-feira, 12 de Janeiro de 2010

Quadros e Bruno - A Ideia de Deus


"Tendo a coragem do pensamento e a audácia da linguagem importa isto dizer que Deus é omnisciente actualmente, mas não é omnipotente. Deus não é indiferente à nossa dor por isso a sua maldade possível não pode alucinar-nos. Ele não goza de uma plena felicidade egoista; também ele sofre, da diminuição do espírito puro e do mal da criatura, espírito alterado, ascendendo na sua convergência do regresso."

António Quadros, Uma Frescura de Asas, p. 123


sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010

A Fundação António Quadros completa hoje o 1º ano


terça-feira, 29 de Dezembro de 2009

Livro de Fundo

"(...) Mas haja ou não haja razão, neste final de Maio de 57, o barómetro acusa bom tempo e, climaticamente, acreditamos em António Quadros, acreditamos em todos os que falam na fé, na certeza, na esperança de redenção social do homem. (...)"

Texto de Afonso Cautela publicado na «Inventário», página do jornal «A Planície» que sucedeu a «Ângulo das Letras», 15-6-1957.

Continuar a ler
aqui.

quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009

Da Língua Portuguesa

"O descobridor da psicanálise era um racionalista, que teve sempre o cuidado de substituir os termos por que tradicionalmente se designam os elementos e as forças da vida psíquica por palavras aceites no domínio científico. Se soubermos, conforme ele nos ensina sobretudo na sua «Interpretação dos Sonhos», desdobrar o que foi dobrado, extrairemos talvez dos seus livros muito mais do que uma explicação sexualista do homem, segundo o monismo antropológico que vulgarmente lhe é atribuído. Em termos aristotélicos, dir-se-ia que se a «libido» constitui a causa substancial, o conhecimento é a finalidade de que a palavra é o princípio formativo. Com efeito, o elemento filológico é fundamental em Freud. A palavra actua entre o inconsciente e o consciente, de tal modo que é pela atenção aos seus movimentos que se explicam os actos falhados, as nevroses, os sonhos, - enfim, toda a vida psíquica do homem e da mulher.
Pondere-se a importância de tudo isto. Em primeiro lugar, as línguas não serão, como se tem querido, instrumentos quase físicos, ou, pelo menos, tão relacionadas com certos mecanismos fisiológicos que se possam estudar, na sua natureza e evolução, dentro dos quadros fonéticos da filologia alemã; não serão, em segundo lugar, sistemas de expressão de ideias e de emoções, conforme querem os gramáticos e os estilistas de formação germânica; e estarão, por conseguinte, muito mais desligadas das funções cerebrais do que pensam quantos se agarram ainda a uma fisiologia ultrapassada. (...)
Com efeito, e conforme vimos, a acção de uma língua não se exerce apenas à superfície. É uma relação orgânica. E cabe perguntar, neste momento se um homem português sonha com um homem estrangeiro. A pergunta, por insólita, parece idiota. Nós, pelo contrário, achamo-la comparável àquela que o tribunal exlesiástico que julgou Joana d'Arc fez à Santa e que consistia em saber em que língua Deus se lhe tinha dirigido, quando ouviu as vozes interiores."

António Telmo, "Da Língua Portuguesa", Espiral nº4/5, p.58

terça-feira, 22 de Dezembro de 2009

IFLB

Da Filosofia Portuguesa

"Em sua radicalidade, o problema da filosofia portuguesa é o problema da filosofia. Universal no seu anseio e destino, como busca plural e convergente da verdade, sempre e a cada momento recomeçada e posta em causa, interrogação cuja resposta não esgota nem capta de uma vez por todas o perene sentido da existente e suas razões, a filosofia, enquanto tal, isto é, enquanto pensar no homem e do homem, participa da sua própria condição de ser situado no mundo, numa pátria, numa língua, numa cultura, num culto. Individual e nacional no seu ponto de partida e em sua raiz, múltiplo na aventurosa variedade do caminhos especulativos que se lhe abrem, o filosofar é também, e simultaneamente, universal no sentido último da sua indagação e finalidade. Deste modo, contrapor abusivamente ao carácter nacional da filosofia a sua universalidade seria o mesmo que negar à ave o voar só por ter pernas, na feliz imagem de um pensador contemporâneo."
António Braz Teixeira, "Da Filosofia Portuguesa", Espiral nº 4/5, p.42

terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

Viagem desconhecida

"Maior é o desejo sem limites que inspira aos frágeis humanos, frustrados desde o príncipio."

António Quadros, do poema A Outra Face, in «Viagem Desconhecida», p. 66.

quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009

Sobre o grupo da Filosofia Portuguesa

"Desapareceremos para sempre do mapa, como dizem os augures da desgraça, ou acabará enfim por vencer a razão portuguesa, a filosofia portuguesa, o pensamento de Portugal, expresso afinal pelos melhores, de entre os portugueses deste século?"
António Quadros, in Manuel Gama «Pensar a Europa a Partir do Movimento da Filosofia Portuguesa», Op. cit., p. 275

quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

Carta de António Quadros a Eduardo Lourenço

Excerto da correspondência publicada na Colóquio/Letras, n.º 171, Maio 2009, p. 262-268.

Lisboa 24 de Setembro [de 1968]

"É possível que as notícias cheguem aí primeiro do que esta carta. Por enquanto (dia 26), a situação é esta: Salazar em coma; Presidente da República multiplicando políticas e démarches; boatos vários a este respeito, o mais insistente dos quais é o de que o candidato nº 1 é o Marcello Caetano, que se propõe uma certa liberalização (…) E, curiosamente, ambiente de calma. Mau grado o fogo de vista da imprensa e da rádio, a verdade é que o povo parece anestesiado. (…) Da Oposição, nada: nem um manifesto, nem um cartaz, nem uma folha clandestina. (…) Perdemos o sentido da Política e da História. Durante 40 anos fomos conduzidos pela mão por um Pai que sempre nos dominou com facilidade. Tudo o que sabemos fazer é interrogar os cinco minutos seguintes: morrerá, não morrerá? Quem será o Delfim? E é tudo. Os próprios críticos perderam a experiência da crítica. Os democratas não sabem que é e como se vive em democracia. Tenho a impressão de que todos os protestos eram atitudes, não actos e de que agora, os inimigos do velho Rei não sabem o que fazer. (...)"

segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

até que ponto o presente

“Temos de compreender até que ponto o presente, sendo a intercepção dos caminhos percorridos no passado e a percorrer no futuro, é a única realidade que conta na ordem do tempo.”
António Quadros, A Existência Literária

a terra é a matriz

"A terra é a matriz; a semente é o elemento fecundante; a flor e o fruto são os produtos. Da mesma forma, a pátria histórica, social e linguista é a matriz que, fecundada pelas sementes universalizantes de um culto que visa a realização final do reino de Deus e do Amor sobre a terra, produz a personalidade espiritual de uma cultura qualificada."
António Quadros, O Espírito da Cultura Portuguesa, (1967) Lisboa: Sociedade de Expansão Cultural.

domingo, 11 de Outubro de 2009

Ciclo de simpósios sobre os teoremas do «57»

III SIMPÓSIO
21 de Novembro, às 15:00
Livraria Fonte de Letras, Montemor-O-Novo
Apresentadores: António Carlos Carvalho, Cynthia Guimarães Taveira e Luís Paixão
O ciclo de simpósios dedicado aos 12 Teoremas do 57 - Actualidade dos Teoremas do Movimento de Cultura Portuguesa, que os Cadernos de Filosofia Extravagante têm vindo a organizar, ao longo do corrente ano, na Livraria Fonte de Letras, em Montemor-o-Novo, regressa no próximo dia 21 Novembro, às 15 horas. Será o terceiro encontro desta série, e nele participarão, como apresentadores, António Carlos Carvalho (teorema do Teatro), Cynthia Guimarães Taveira (teorema das Artes Plásticas) e Luís Paixão (teorema da Arquitectura).

terça-feira, 18 de Agosto de 2009

Os diapositivos de António Quadros

"Esta noite sonhei que tinha encontrado os diapositivos do António Quadros. Sei bem o que isso significa para mim: António Quadros era um apaixonado pelas velhinhas igrejas românicas que se encontram por esse Norte adentro, às vezes em lugares de difícil acesso, sobretudo longe dos percursos apressados dos turistas. Mas ele fazia questão de as fotografar e de preservar as imagens delas nos seus diapositivos, cuidadosamente catalogados e arrumados num compartimento da antiga sede do IADE. Imagino que os diapositivos não estarão perdidos, mas sim guardados pela família de António Quadros, juntamente com o resto do seu espólio. [...]"

terça-feira, 14 de Julho de 2009

14 de Julho de 1923

António Quadros faria hoje 86 anos. Para quem, como eu, o tem visitado quase diariamente através da leitura da sua obra, do estudo da sua vida e pensamento, mas sobretudo pelo privilégio que me concedeu de, como seu neto, ainda o ter em minha memória, este é só mais um dia em que não será esquecido.
Como o próprio um dia escreveu ninguém morre na saudade e na memória, o tempo que flui não é um grande cemitério.

quinta-feira, 4 de Junho de 2009

Sou compelido a conceber messianicamente o Homem como ser-para-a-redenção.

António Quadros

quarta-feira, 3 de Junho de 2009

A libertação do ensino

"À exactidão das ciências matemáticas, aplicada ao saber da alma e do espírito, opuseram-se directamente as doutrinas existenciais, que libertaram assim o sujeito do conhecimento da total abstracção a que os seus atributos humanos estavam subordinados. Com efeito, pode considerar-se que esta libertação despertada no plano cultural e no especulativo, trouxe para a razão prática dos estudantes, a consciência da sua humanidade e da autonomia do verbo aprender, que os justifica como sujeitos do conhecimento."

· Afonso Botelho, “O existencialismo e a libertação do ensino”, 57 – actualidade, filosofia, arte e ciência, literatura

quarta-feira, 27 de Maio de 2009

o pensamento filosófico

“Quando se diz que o pensamento filosófico é nebuloso, que a sede da sofia está na nuvem, reconhece-se, por via indirecta da caricatura, que a lógica é ascendente e alada, que o seu caminho está entre a terra e o céu.”
Álvaro Ribeiro, O Problema da Filosofia Portuguesa, Lisboa, Editorial “Inquérito” p. 73

quarta-feira, 13 de Maio de 2009

Sobre o nosso sistema educativo

“Olhando de alto, observa-se que, ao longo da sua aprendizagem, o aluno apenas estudou para os sucessivos exames com que pretenderam medir a sua memória e a sua inteligente maleabilidade […] No que se refere ao ensino propriamente dito, o símbolo da sua expressão não é vertical mas horizontal. Longe de promover uma ascensão espiritual, busca promover um alargamento em superfície. […] Já escrevemos, ao que parece com certo escândalo, que o problema crucial do nosso tempo, para a geração de 1950, não é o social nem o político, mas o educativo”.
António Quadros, «A Angústia do Nosso Tempo e a Crise da Universidade»

quarta-feira, 25 de Março de 2009

Filosofia

Não há filosofia sem filologia.
(...)
Só o pensamento criador e criacionista é verdadeiramente filosófico.
(...)
O pensador estrangeirado é afinal aquele que saiu de si para ser um outro que nunca poderá ser, a menos que por completo se desintegre do organismo cultural que é o seu de origem.

António Quadros, «A Filosofia Portuguesa - de Bruno à geração do 57»

quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

PRIMEIRO SIMPÓSIO SOBRE OS TEOREMAS DO «57»‏

É já no próximo domingo, dia 1 de Março, pelas 15 horas, na Livraria Fonte de Letras, em Montemor-O-Novo, que se inicia o ciclo de simpósios "12 Teoremas do 57 – Actualidade dos Teoremas do Movimento de Cultura Portuguesa". Há uma alteração ao programa do simpósio inaugural, que, como os restantes, é promovido pelos "Cadernos de Filosofia Extravagante". Assim, e diversamente do que fora anunciado, será Isabel Xavier, e não Pedro Sinde, a apresentar o teorema relativo à poesia. No mais, tudo se mantém igual: António Telmo apresentará o teorema relativo ao romance, e Elísio Gala fará o mesmo quanto ao teorema relativo à antropologia. Os "Cadernos de Filosofia Extravagante" estão em www.filosofia-extravagante.blogspot.com

sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

Teoremas do 57

Ao longo de 2009, os Cadernos de Filosofia Extravagante promovem em Montemor-O-Novo, na Livraria Fonte de Letras (sita na Rua das Flores, 10/12, junto à Câmara Municipal), um ciclo de quatro simpósios dedicados à apresentação e ao debate dos 12 Teoremas do «57», originalmente publicados em Dezembro de 1957, num número duplo (3-4) daquele órgão do Movimento de Cultura Portuguesa.

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sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009

São Francisco de Assis, ontem e amanhã. No oitavo centenário do seu nascimento.

Por António Quadros (1982), aqui.

quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009

Ensaio "Os três problemas portugueses", por António Quadros

Parte 1
Parte 2
Parte 3
Parte 4
Parte 5

Daqui: http://espiral-dourada.blogspot.com/

domingo, 18 de Janeiro de 2009

António Quadros – Breve sinopse bio-bibliográfica

por António Quadros Ferro, terça-feira, 14 de Outubro de 2008

"António Gabriel Quadros Ferro, nasceu em Lisboa, em casa dos seus avós paternos na Rua dos Anjos, a 14 de Julho de 1923. Frequentou o Liceu Pedro Nunes e esteve, por influência do seu pai, matriculado na Faculdade de Direito de Lisboa. Viria no entanto a desistir do curso, para o qual dizia não estar vocacionado, para ser aluno na Faculdade de Letras no curso de Ciências Histórico-Filosóficas, curso que viria a concluir em 1948 com uma dissertação sobre arquitectura portuguesa. Em 1947 já havia publicado «Modernos de Ontem e de Hoje», o seu primeiro livro. A sua obra poética chegaria nos dois anos seguintes com a publicação de duas colectâneas de versos, «Além da Noite», (1949), e «Viagem Desconhecida», (1950). Em 1946, começa, nos Serviços Culturais da Câmara Municipal de Lisboa a sua actividade profissional. No ano seguinte casa com Paulina Roquette, e em 1952, nasce António, o primeiro dos seus três filhos. Mafalda nasceria em 1953 e Rita em 1955. Em 1953, junta-se à tertúlia que dois filósofos portuenses, discípulos de Leonardo Coimbra, Álvaro Ribeiro e José Marinho, organizam na Brasileira do Rossio. Ali encontrou o que dizia não ter descoberto na faculdade: a filosofia viva e criadora, em verdadeira e visionária ebulição. Nessa altura já mantinha com Orlando Vitorino a revista Acto, e escrevia intensamente na imprensa, com especial destaque para as colaborações na página cultural do Diário de Notícias, na altura orientada por Natércia Freire. Neste período, é marcante a reflexão de António Quadros, Afonso Botelho e Orlando Vitorino, sobre a Universidade, tema já herdado dos seus mestres Álvaro Ribeiro e Delfim Santos. Em 1956 António Quadros, agita a Faculdade de Letras com a publicação de «A Angústia do nosso Tempo e a Crise da Universidade», onde escreveria sobre os métodos e a orientação pedagógica e cultural da Universidade.

Em 1958 ingressa no recém-criado Serviço de Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, sucedendo a Branquinho da Fonseca, e onde viria a exercer funções por mais de 20 anos. Por iniciativa de António Quadros nasce o ‘movimento de cultura portuguesa' e com ele o jornal 57, (1957-1962) do qual foi director. Com o denominado grupo da filosofia portuguesa promove os colóquios O que é o ideal português (1961) e Criação Artística (1962). As respectivas conferências, sobre O ideal português na filosofia e A criação poética, contam com a participação de outros artistas e intelectuais, como Domingos Monteiro, Cunha Leão, António Duarte, Bernardo Santareno e António de Macedo. Em 1959 publica mais duas obras ensaísticas, «A existência literária» e «Crítica e Verdade». No ano seguinte revela-se o António Quadros pessoano, com a publicação de «Fernando Pessoa a Obra e o Homem». Nesse mesmo ano escreve o seu primeiro livro de contos, «Anjo Branco, Anjo Negro» e em 1963 publica o seu primeiro grande livro de Filosofia da História, «O movimento do Homem». No ano seguinte funda e dirige a revista de filosofia e cultura Espiral, da qual sairão 13 números, publicados entre 1964 e 1966. Em 1965 inicia a sua ligação ao Brasil e à Universidade de Brasília, onde, a convite de Agostinho da Silva, participa em diversas conferências sobre a filosofia e cultura portuguesa. Nesse ano edita o volume de contos «Histórias do Tempo de Deus», premiado com o Prémio Ricardo Malheiros da Academia de Ciências de Lisboa e o Prémio de Novelística da Casa da Imprensa. Em 1966 regressa à poesia com a publicação do volume de odes «Imitação do Homem» e um ano depois reúne ensaios literários e histórico-filosóficos no livro «O Espírito da Cultura Portuguesa». Funda em 1969 o IADE, passando a director-geral em 1971, cargo que manterá até ao agravamento da doença que o vitimou. Naquela escola, lecciona durante vários anos as disciplinas de História de Arte e Cultura Portuguesa e Deontologia da Comunicação, disciplina que também ensinaria na Universidade Católica Portuguesa. «Ficção e Espírito – Memórias Críticas», (“Um livro ensaístico, mas entrecortado de páginas memoralistas.”) é publicado em 1971. Dois anos depois publica «Pedro e o Mágico», contos para crianças, galardoado com o Prémio Nacional de Literatura Infantil desse ano. Nos anos seguintes publica, «Portugal entre ontem e amanhã» (1976) «A Arte de Continuar Português» (1978) dois volumes de «Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista» (1982/1983) galardoados com o Prémio de Ensaio do Município de Lisboa, prémio que viria a receber novamente no ano seguinte com um novo estudo sobre Fernando Pessoa, «Fernando Pessoa Vida Personalidade e Génio». Em 1986 e 1987 publica os dois volumes de «Portugal Razão e Mistério», considerado por muitos uma das suas melhores obras, que faziam parte de uma trilogia que nunca chegaria a completar. Em 1990, publica «Uma Frescura de Asas», um romance inspirado no últimos dias da existência de Sampaio Bruno, e que eram já, também, o prenuncio dos últimos de António Quadros. Em 1991 publica «Memórias das Origens, Saudades do Futuro», e no ano seguinte, já gravemente doente, a obra «Estruturas Simbólicas do Imaginário na Literatura Portuguesa». António Quadros viria a morrer nesse mesmo ano, no dia 21 de Março de 1993, vítima de tumor cerebral.

Pensador, crítico, tradutor e professor, também poeta e ficcionista, António Quadros foi também fundador da extinta Sociedade Portuguesa de Escritores, membro da comunidade científica da Universidade Católica Portuguesa, do Centro de Estudos de Pensamento Luso-Brasileiro (CELBRA), Membro-correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e da Academia Brasileira de Filosofia e co-fundador do Instituto Luso-Brasileiro de Filosofia, sediado em Lisboa. Traduziu Albert Camus, Jean Paul Sartre, entre outros. De referir ainda as inúmeras obras prefaciadas, organizadas e anotadas. Quadros foi praticante de vários géneros, do ensaio à poesia, da ficção à reportagem e crónica e recebeu diversos prémios pela sua actividade literária sendo condecorado com a Ordem Britânica da Rainha Vitória. Três dias depois do seu falecimento a Assembleia da República manifesta o seu pesar e nesse mesmo ano o Instituto de Filosofia Brasileira reúne um importante conjunto de estudos sobre a sua vida e obra com textos de Afonso Botelho, António Braz Teixeira, João Bigotte Chorão, Paulo Borges, Jorge Preto, Francisco Soares, entre outros.

Nos anos seguintes publicam-se diversos estudos sobre António Quadros: no dia 29 de Outubro de 1995 a Fundação Lusíada, organiza um colóquio sobre a vida e a obra do filósofo, com orações de Pinharanda Gomes, Orlando Vitorino, António Cândido Franco, Luís Furtado, Dalila Pereira da Costa, entre outros. Daqui resulta uma importante Sabatina de Estudos da obra de António Quadros e uma contribuição bibliográfica de enorme interesse. Já em 2007 o Centro de Filosofia da Universidade de Letras promove o projecto «A Questão de Deus» dividido em duas partes, “A Questão de Deus, História e Crítica” e a “Questão de Deus na História da Filosofia”. Romana Valente pinho apresenta o trabalho: Deus na tradição do pensamento português contemporâneo: a contribuição de António Quadros. A mesma autora, no 1º nº da Revista Nova Águia, 1º semestre de 2008 publica o trabalho: António Quadros Pátria Real e Pátria imaginária.
Finalmente em Janeiro de 2009, por iniciativa de Mafalda Ferro e com o apoio de familiares, amigos, filósofos, escritores e artistas, nasce a Fundação António Quadros Cultura e Pensamento, que hoje reúne grande parte do espólio do escritor e procura também contribuir para o estudo da sua vida e da sua obra."

quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

Fundação António Quadros

É um orgulho anunciar que a Fundação António Quadros foi no dia 8 de Janeiro de 2009, oficialmente reconhecida.

Mais notícias em breve.
Esta fotografia foi tirada em casa de António Quadros em Novembro de 2007. Organizava-se o espólio para a Fundação.

quarta-feira, 17 de Dezembro de 2008

Fernando Pessoa

(…) Quais as razões psicológicas da inaptidão para o amor concreto e real – anímico e físico –, tão dolorosamente manifestada por Fernando Pessoa? Já vimos que o poeta foi um idealista e um grande romântico. E já observámos o seu lado-Álvaro de Campos, isto é, uma certa pulsão homossexual, transparente nalgumas das Odes do «engenheiro naval» e confessada em página íntima, onde diz: «sou um temperamento feminino com uma inteligência masculina»; e «É uma inversão sexual frustre. Pára no espírito».Junto de Ophélia, o problema pode ter estado prestes a resolver-se, apesar das interferências (episódicas) de Álvaro de Campos, isto é, do seu demónio interior, talvez menos antimulher do que anticasamento. (…)
[António Quadros, Fernando Pessoa – vida, personalidade e génio, Publicações Dom Quixote, 1984, pág. 174]

terça-feira, 11 de Novembro de 2008

Jornal de Letras 31.8,1988

O júri constituído por António Quadros, Arnaldo Saraiva, Carlos Reis, Cristina Ribeiro e Teresa Rita Lopes decidiu atribuir ao mais recente romance de Virgílio Ferreira o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores relativo a 1987. Foi uma história exemplar de Unanimidade ´"Até ao fim".

segunda-feira, 27 de Outubro de 2008

Dos Arquétipos do Ideal Português às Instâncias da Realização de Si

Reflexão de Paulo Borges a partir de «O Espírito da Cultura Portuguesa» de António Quadros

Publicou António Quadros em 1967, em O Espírito da Cultura Portuguesa, um ensaio onde, procurando formular o que seria o “ideal português”, na linha das preocupações da Renascença Portuguesa, enuncia “um grupo de dez palavras ou cifras, cujo sentido ideal e simbólico se desdobrou na nossa cultura em vários planos significativos, desde o literal ao simbólico, do poético ao artístico e mesmo ao filosófico”. Diz serem “arquétipos” [...] cuja conjugação desenha porventura [...] o ideal português” e que seriam tónicas profundas do “nosso modo de filosofar” ou “palavras-mães” “que nos soam tão familiares [...] que nem reparamos na originalidade das meditações que nos sugerem”. Ilustra-o com sintéticos mas fecundos desenvolvimentos da premência na história, na cultura e no pensamento português, bem como das sugestões filosóficas e universais, das palavras nesta ordem apresentadas: Mar, Nau, Viagem, Descobrimento, Demanda, Oriente, Amor, Império, Saudade, Encoberto”.

I - Saudade
II - Oriente
III - Encoberto
IV - Demanda
V - Viagem
VI - Nau
VII - Mar
VIII - Descobrimento
IX - Amor
X - Império

Paulo Borges

quarta-feira, 22 de Outubro de 2008

Pai, a noite (texto de Rita Ferro)

Acordei com falta de paternage: uma saudade metafísica, um ódio pelo irreparável que não vos descrevo. Foi hoje, depois de acordar e antes de abrir os olhos, que passei revista às coisas que o meu pai me dizia e as confrontei com a minha vida. Sosseguei, porque ele passou pelo mesmo, mas partiu em paz. Quando, por razões pragmáticas, se é obrigado a viver sem transcendência, há ideias que parecem zombar da nossa condição. Mas só por fora. Enfim, tentarei reproduzir o diálogo que travámos, não sei se consigo; estes estados de semi-consciência são como os sonhos: parecem enormes, mas duram instantes. «Pai, eu não sou bonita...» «Filha, toda a beleza é aviso.» «Pai, eu não sei o que ando cá a fazer...» «Filha: percorre o teu caminho até ao fundo, e, com os versos que achaste, aumenta o Mundo!» «Pai, dois divórcios no papo e continuo sem saber o que é o amor...» «Filha: não sentirás tu a saudade do amor que não mereceste, de uma outra liberdade?» «Pai, eu tenho medo da morte...» «Filha: Sê um princípio, não um fim. Que depois de ti, as tempestades sejam outras e as lágrimas mais leves!» «Pai, eu não valho nada...» «Mexe-te: é preciso imitar Deus e criar outrem que não tu fora de ti.» «Pai, o tempo de Deus já lá vai...» «Enganas-te: o tempo de Deus é o tempo da atenção. O tempo de Deus é hoje.» «Pai, já tinha idade para não fazer asneiras...» «Não é verdade: a infância é eterna.» «Mas acha normal que eu tenha saudades do meu urso?» «Acho, mas cuidado: o infantilismo dos adultos é pior do que o seu demonismo.» «Não sei, queria tanto ter nascido num mundo melhor...» «Filha, confia em mim: esse mundo melhor é o mundo em que vivemos.» «Pai, por que é tudo tão difícil?» «Filha, simplificar não é assim tão fácil, no nosso tempo.» «Pai, a gente assiste a tanta batota...» «Não faz mal: o erro não é só educativo, é também cultural.» «E as mentiras que ouvimos, pai?» «Também fervo: o uso desonesto da palavra é um dos maiores flagelos da humanidade de hoje.» «E as guerras, pai, admitem-se?» «Filha, como homem cristão, a guerra é para mim um escândalo. Mas escândalo que me leva a tentar compreender...» «Pai, tenho remorsos: às vezes morrem-me pessoas queridas e esqueço-me delas no dia seguinte.» «Não tenhas: todo o amor que aparentemente morreu é todavia vivo» «O pai não está a perceber: eu já nem chorar consigo!» «É natural, querida: que humano hoje, pode e sabe não ser desumano?» «Pai, o pai também pecou?» «Claro, filha: fui puxado, atraído...» «Pai, às vezes sou má, outras vezes boa, e por muito que me esforce não consigo mudar.» «Sossega: se o homem é contradição e identidade, se o homem é vário e inconsciente, se o homem é bom e mau, se o homem é perene alteração, se o homem é repouso e evolução, abandono e vontade, acção e contemplação, egoísmo e ascetismo, se o homem simplesmente é, e se no seu ser cabe todo o universo, filha, assume-te simplesmente inteira, e nada excluas: a sensação ou a fé.» «Pai, ainda bem que partiu antes: nunca Portugal se deixou abandalhar a este ponto...» «Não te rales, canta comigo: ó meu Portugal que foste, que foste grande no mundo, abre as asas, abre as velas, revela o teu ser profundo!» «Pai: o pai acha que há salvação num mundo onde os filhos espancam os pais e as mulheres mandam os bebés de encontro às paredes?» «Filha: na hora destinal do fim, no limite do fracasso, no tempo cadente da derrota, eu canto, eu canto a esperança...» «Pai, os outros fazem-me sentir estúpida...» «Graças a Deus: Ele quis que, no fundo do abismo, os homens uns dos outros degraus fossem.» «Pai, lá fora ninguém nos liga...» «Tem calma: a nossa Arte contém todos os elementos necessários para se impor ao respeito e à admiração do Mundo.» «Pai, quem tem razão? A esquerda ou a direita?» «Querida: nenhum sistema ou nenhuma ideologia pode hoje considerar-se a salvo de suspeita, pode ver-se como solução absoluta, universal e salvadora.» «Sabe, pai? Eu já não acredito em nada...» «Filha, interrogar é já crer. A descrença humana não existe.» «Pai, serei ao menos mulher?» «Não sei, mas aprende: uma só mulher contém todas as mulheres e todas as mulheres não são ainda a mulher.» «Mas o pai sabe tanto...» «Enganas-te: só houve em mim perguntas sem respostas.» «Não minta, pai.» «Não minto: fui a perdida unidade que a inteligência sozinha não pressente.» «Mas, pai, eu não sei nada!» «E eu? Eu que tanto procurei luz e só encontrei noite?» «Noite?» «Sim: três vezes, noite, me debrucei sobre as ciências do sensível, três vezes me julguei vencedor, e três vezes reconheci que o resultado enganador era ainda, noite, a tua voz imperceptível; três vezes, noite, pedi à memória, à minha e à outra, à essência da história, a visão do amanhã, o dom da profecia, a luz no futuro projectada, prévia vidência da finalidade destinada; três vezes, noite, volvi o teu seio, três vezes filho da memória, três vezes agente da história, e apenas ao de leve logrei tocar na fugidia, fugaz razão, que atribuímos à acção, sem jamais todavia dominar, a absoluta verdade e liberdade do ser em perpétua criação.» «Pai, que estafadeira...» «Filha, que gozo!»

Rita Ferro (filha de António Quadros) aqui e aqui

segunda-feira, 13 de Outubro de 2008

Nova Águia Nº 2 - 2º Semestre 2008

ANTÓNIO VIEIRA
& o futuro da lusofonia

Inclui:
Texto de Adriano Moreira
O Território e o Mapa de João Teixeira da Motta (Com cartas de Agostinho da Silva, Cruzeiro Seixas, Dalila Pereira da Costa e António Quadros)
Inédito de Jean-Yves Leloup




http://www.zefiro.pt/
http://www.novaaguia.blogspot.com/
(Lista actualizada dos lançamentos da Nova Águia)

segunda-feira, 29 de Setembro de 2008

A Vida dos Livros

"António Quadros no seu utilíssimo “Uma Viagem à Rússia – Impressões e Reflexões” (Lisboa, 1969) afirma recordar «as multidões sorumbáticas e caladas com que me acotovelei (…) no metro de Moscovo, no Gum (grandes armazéns), na Exposição dos Progressos Soviéticos. Recordo os sonhos, as aspirações, as exaltações, as euforias e a animação dialéctica dos livros de Gogol, Dostoievsky, Tolstoi ou Tchekov. Total desfasagem. No entanto, o povo russo sabe recolher-se nostalgicamente na sua ‘ducha’ (a alma individual), faz sentir o seu espírito religioso nas tão belas melodias folclóricas que continua a cantar (…). Acorre às manifestações artísticas, ainda que estas sejam quase sempre muito convencionais – e é capaz de produzir na clandestinidade, obras de génio e liberdade, como ‘O Mestre e Margarida’, ‘Doutor Jivago’ ou ‘O Primeiro Círculo’». A desfasagem começa, no entanto, a desaparecer com a abertura de fronteiras. Premonitoriamente, à distância de quarenta anos, o ensaísta soube captar o essencial de uma sociedade que estava apta a renascer, pelas suas raízes. Sentimo-lo nos dias de hoje. O espírito da abertura de horizontes vai regressando.(...)" Guilherme d'Oliveira Martins
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segunda-feira, 28 de Julho de 2008

Homenagem a António Quadros

António Quadros se estivesse vivo faria 85 anos. O desafio é este: enviem-nos um pequeno texto, um poema, um verso ou apenas uma frase em sua memória. O quinto é da autoria de: Klatuu Niktos (poema) e Ruela (ilustração).

ANTÓNIO QUADROS

O homem inteiro, rijo, de gestos elegantes,
Impecavelmente vestido, de voz franca,
Com uma presença de sabedoria e educação
Supremas, veio cumprimentar-nos, a nós,
Os petizes sem nome. A mão era forte,
Segura, fraterna. Um mestre, um sábio?
Mais que mestre e sábio: um cavaleiro
De Portugal, porque só os que demandam,
Os que conhecem o valor do sacrifício e
O caminho na noite trazem para os outros
Um coração fundo e palpitante nas mãos.

Depois cerraram-se cortinas, lajes, portas.
Não a memória, não o exemplo e o Graal.


Participaram neste desafio Mafalda Ferro, Maria Ana Ferro, Romana Valente Pinho , Cecília Melo e Castro, Klatuu Niktos e Ruela.

sábado, 26 de Julho de 2008

Homenagem a António Quadros

António Quadros se estivesse vivo faria 85 anos. O desafio é este: enviem-nos um pequeno texto, um poema, um verso ou apenas uma frase em sua memória. O quarto é da autoria de: Cecília Melo e Castro.

"Foi na década de 80 que a convite de António Quadros, ingressei nesta Instituição – a que nos habituámos chamar de “Comunidade IADE” e que tão boas recordações mo trazem à lembrança, fazendo com que os seus princípios e o seu pensamento norteiem toda a minha postura nesta nossa “Casa”. Começo então por citar António Quadros, lendo um pequeno excerto do “Proémio” do seu livro “Memórias das Origens – Saudades do Futuro” para enquadrar o meu singelo depoimento sobre a importância que a sua visão do mundo, de Si mesmo e do Outro, representou e representa ainda, tanto para mim.

Assim, escreve:

“......A memória das origens é a recordação velada do princípio do ser, que é também o princípio do nosso ser. A pergunta sobre quem somos é inseparável da pergunta sobre de onde vimos.
Estas interrogações temos de nos fazer, como indivíduos-pessoas, como portugueses, como seres humanos, se desejamos ser mais do que entidades vegetativas, fruidoras da existência ou seus destroços, simples predadores ferozes ou tontas borboletas encadeadas pelas cintilações do próximo, do imediato, do que apenas interessa à superfície sensorial do nosso eu.
Quem somos? Que deve a nossa identidade aos nossos pais e avós? Como nos marcaram eles, na espiral genética e na herança moral e cultural? Até que ponto devemos ser-lhes fieis e a partir de onde podemos ou devemos resistir-lhes, afirmando a nossa liberdade?......” e mais à frente: “....Às perguntas sobre quem somos e de onde vimos acrescenta-se necessariamente uma terceira: para onde vamos.....” e ainda: “.......A saudade do futuro é uma paixão que animou toda a nossa história, como inspira toda a nossa cultura, fautora de acertos ou de erros, mas sempre omnipresente. O hoje é uma passagem evanescente entre um ontem que remonta às origens e um amanhã que é para nós mais, bem mais do que um mundo simplesmente melhor do que este, é um reino da primazia do espírito e dos seus valores, para o qual, consciente ou inconscientemente, trabalha tudo o que em cada um de nós é altruísta, dadivoso, generoso, visionário….”

Ora é então por aqui que eu pretendo construir este meu momento de reflexão, mais do que um simples depoimento, sobre o que me liga ao pensamento de António Quadros, atrevendo-me a citá-lo como acabei de o fazer, quando afinal falo sobre a minha produção artística que tão bem entendeu, acarinhou e incentivou.

Numa época em que se tornava muito difícil comunicar “Arte Electrónica”, então chamada de “Infopintura”, a um público consumidor em que as tintas, os pincéis e a tela, eram os instrumentos e suportes privilegiados da pintura clássica, António Quadros, tal como Stockausen afirma, “viu mais, ouviu mais e sentiu mais.” Apoiou desde a minha primeira exposição toda a minha criação artística, classificando-a de “inovadora e de um grande sentido estético”.

Afirmava que era pela esfera das emoções “como eu me propunha” que entendia a minha expressão plástica e poética, quando “olhava, sentindo” repetindo as minhas palavras, “os espaços imagéticos das minhas memórias” que, como eu afirmava, “teriam começado antes de existir, nas moradas seguras dos meus encantamentos.”

Num mundo cada vez mais global e massificante, verberativamente mais prosaico e em que os espaços comunicacionais se elevam como máquina destruidora da razão, fala-se muito hoje de afectos, de Inteligência Emocional, num paralelismo de resposta quase estigmatizante.

Sendo que a questão das emoções remonta mesmo a Aristóteles, passando por Cícero, Pascal, Nietzsche, Sartre, Platão e tantos outros cujas referências seriam aqui exaustivas, todos eles, de uma maneira ou de outra, me influenciaram nesta minha forma de ver e sentir o mundo e a minha relação com “o outro”. António Quadros com a sua enorme compreensão e teorização sobre a minha produção artística, só pode enriquecer a minha lista de “citados”. Concordava particularmente comigo, quando eu afirmava que se tratava de “uma nova forma de Comunicar, oferecendo um novo espectáculo do Olhar e uma nova maneira de Ver, porque de novas emoções se enchem os nossos Sentidos, quando se Ouve o poder imagético das nossas Memórias.

“Memórias das Origens – Saudades do Futuro”

David Hume (filósofo do século XVIII, no seu “Tratado da Natureza Humana” (1740), concebeu a comunicação ou “consumo” das obras de arte como regulado por dois princípios: a “Novidade” e a “Facilidade”. Só a novidade é capaz de estimular a criatividade e levar ao consumo ou desejo de posse. Mas só a facilidade permite que o consumidor frua, entenda e goze.
É pois necessário um equilíbrio entre a novidade e a facilidade, pois a novidade total é difícil de fruir e a facilidade é contrária à novidade.

Dir-se-á, pois, “a contrário sensu” que vivemos anos privilegiados para a prática de um novo conceito de Arte, aproveitando os meios tecnológicos ao nosso alcance, como meio de resistência à aculturação, a esse nada padronizado, que tende a suprimir o gesto e o risco da invenção do novo. É precisamente no sentido da apropriação dos meios operandis à escala ciberneto-global que penso ser hoje, o grande desafio à nossa própria capacidade de criação e fruição, propondo-nos um modo diferente de estar no mundo e na criação artística, usando os mesmos meios que outros usam para controlar as nossas vidas. (Um pequeno parêntesis para chamar a atenção para a nova guerra que começou esta noite).

Era este pensamento que partilhava com António Quadros e que o mesmo tanto estimulou, que me fez compreender que estava no caminho certo quanto às minhas opções estéticas, que ele próprio discutia com o Prof. Dr. Rui Mário Gonçalves, que à época me propôs ao prémio Unesco de Arte e Ciência.

Na sua afirmação:“......há no ser humano uma virtualidade de grandeza interior, uma capacidade de visão, de criação e de dádiva, que não podem ser ignoradas e de que dão testemunho os espíritos superiores que neste mundo viveram ou vivem e que também encontram expressão no próprio, inconfundível e levitante de cada paideia como projecção, que é, do devir civilizacional e civilizador de uma comunidade.....” não disse, mas atrevo-me a dizê-lo eu, esse ser humano de que fala, foi e é de facto, o próprio António Quadros.

Como ele mesmo escreveu, citando Teixeira de Pascoaes: “o futuro é o passado que amanhece”, eu acrescento:
“Amanhã, os cavalos serão aves com longas asas de marfim” mesmo que no reino da Utopia.
Para terminar, nada melhor do que um pequeno poema de Paulo Anes que de certo modo traduz a minha grande admiração por António Quadros e pela Instituição que fundou, o IADE!

Parto de Fé

Saio à procura
do que quer que seja
e o que quer que seja
onde quer que esteja
está sempre aqui.

Obrigada Dr. António Quadros por acreditar no meu trabalho académico e artístico! Farei o possível por não o desiludir!"
Participaram neste desafio Mafalda Ferro, Maria Ana Ferro, Romana Valente Pinho e Cecília Melo e Castro.

sexta-feira, 25 de Julho de 2008

Homenagem a António Quadros

António Quadros se estivesse vivo faria 85 anos. O desafio é este: enviem-nos um pequeno texto, um poema, um verso ou apenas uma frase em sua memória. O terceiro é da autoria de: Romana Valente Pinho.

"Apontamento Biográfico
António Gabriel de Quadros Ferro nasceu na cidade de Lisboa no dia 14 de Julho de 1923. Se fosse vivo faria 85 anos. Filho dos escritores António Ferro (1895-1956) e Fernanda de Castro (1900-1994), António Quadros licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e dedicou-se, durante toda a sua vida, à filosofia, à literatura e à arte de uma forma geral. Por esse motivo, fundou, entre outras instituições, a Associação Portuguesa de Escritores e o Instituto de Arte, Decoração e Design (IADE). Na sua actividade profissional fundou e dirigiu alguns dos periódicos mais importantes do seu tempo, a saber, Acto, 57 e Espiral. Discípulo de Álvaro Ribeiro (1905-1981), foi um dos membros mais activos do grupo da Filosofia Portuguesa. Morreu no dia 21 de Março de 1993, com apenas 69 anos.
Apontamento Crítico
A filosofia da cultura portuguesa que António Quadros defende está associada ao projecto áureo e universal destinado aos portugueses, cujos pressupostos se baseiam na paideia dionisíaca, essencialmente no Culto do Espírito Santo. Esta apologia propõe uma visão ecuménica para o cristianismo e para o catolicismo. O autor crê que, num tempo futuro, todas as grandes religiões se fundirão entre si por meio da Nova Aliança e estabelecerão uma nova Era - a do Espírito Santo. Tal Idade promover-se-á em direcção a um movimento universal e ecuménico e realizará a Profecia que está revelada no Apocalipse de São João: o re-estabelecimento da Nova Jerusalém. Este Tempo ou Idade do Espírito Santo que o autor propõe é inspirado na hermenêutica joaquimita das Três Idades que Jaime Cortesão (1884-1960) e Agostinho da Silva (1906-1994) discutem nas suas obras. Deste modo, à semelhança destes dois autores, António Quadros apresenta uma leitura muito mais fiel àquela que foi veiculada pela tradição do franciscanismo espiritual do que à interpretação deixada pelo próprio Joaquim de Fiore. Tal reflexão conduzirá Quadros a um questionamento acerca da ideia de Deus e da ideia de Pátria.
O pensamento de António Quadros acerca de Deus poder-se-á enquadrar, de um ponto de vista estrito, no seio daquilo que se convencionou chamar movimento da filosofia portuguesa e, genericamente, no contexto da tradição cristã e agostiniana que, desde Paulo Orósio (385-420), vigora em Portugal. Tal reflexão desenvolve-se, portanto, no enquadramento de um conjunto de postulados que são caros aos pensadores da filosofia portuguesa. O que António Quadros parece defender é que, à semelhança do povo de Israel, Portugal é também um povo eleito por Deus. Embora todas as nações, em si, sejam, plurais, diversas e diferentes, parece que Portugal é mais plural, mais diversa e mais diferente do que todas as outras. E só o é porque Deus assim o quis, porque a ele confiou um projecto maior, a saber, purificar a razão humana por meio do Espírito Santo. Independentemente de os portugueses terem sido eleitos por Deus ou, como preferia Agostinho da Silva, se terem auto-eleito para a edificação de uma empresa universal, o que importa realçar é a característica dessa demanda. Quadros sintetiza-a, à maneira camoneana e pessoana, enquanto epopeia de Deus através do homem português, como aventura de Deus na terra.
Todos os aspectos que António Quadros trata na sua obra relativamente à ideia de Deus e à noção de Pátria estão intimamente relacionados com a crítica que, desde o século XVII, se faz a uma suposta estrutura psicológica e cultural do ser português e que ganhou mais evidência através do polemismo que António Sérgio (1883-1969) lhe empregou. Desta forma, a análise da polémica que António Sérgio erige em torno do sebastianismo torna-se fundamental por variados motivos. Em primeiro lugar porque o autor de Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista concede demasiada importância aos polemismos sergianos, ou seja, tende a qualificá-los como redutores e ameaçadores da sobrevivência da lusitanidade; em segundo porque considera que o sebastianismo abarca a essência do ser português; e em terceiro porque o ideólogo dos Ensaios permite-nos questionar acerca daquilo que está para cá da dimensão mitológica e imaginária do movimento sebástico e que, ao contrário do que supõe António Quadros, não é algo unicamente historicista, sociológico, reducionista e menor. Uma leitura entrecruzada da polémica sergiana com o projecto áureo português proposto por Quadros conduzir-nos-á a uma reflexão mais apurada sobre a conceptualização de uma filosofia da cultura portuguesa.
Reconstituamos a polémica e analisemos, com isenção, os argumentos de cada lado. É a partir da sua colaboração n’ A Águia, logo após a implantação da República em Portugal, que António Sérgio se manifesta contra os princípios que orientam, em certa medida, a edição dessa revista por Teixeira de Pascoaes (1877-1952). A bem da verdade, António Sérgio não conseguiu distinguir o D. Sebastião histórico do movimento mítico-saudosista que se fundou a seguir ao seu desaparecimento no deserto marroquino e, nesse ponto específico, António Quadros tem razão. No entanto, este último relevou todos os aspectos negativos que conduziram a tomada do Norte de África, por parte do Rei Desejado, ao fracasso e à perda da independência portuguesa. Para o autor de Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista, à semelhança de Pascoaes, o abismo em que Portugal caiu (o Portugal real e histórico), constituiu-se enquanto catarse e permitiu que o país se elevasse para uma dimensão superior, espiritual, mítica que transcende qualquer queda histórica, objectiva e factual. Ao menosprezar esta vertente a favor de uma outra que enaltece apenas a poesia, o romantismo, a mitologia, Quadros também errou e, em certa medida, cometeu o mesmo pecado que Sérgio cometera: confundir dimensões que, a priori, não podem sequer tocar-se, quanto mais reunir-se. Uma coisa é filosofar a propósito daquilo que é misterioso, simbólico, enigmático, arquetipal, inefável, essencial, mitológico, outra é confundir ou misturar dimensões, como se cada uma pudesse influir categorialmente na outra. Tanto António Sérgio como António Quadros não conseguiram distinguir os erros do D. Sebastião histórico do romantismo do D. Sebastião mitológico, por exemplo. Ora, o âmago da polémica reside precisamente aqui. Sérgio, e outros como ele que defendem o racionalismo e o idealismo crítico, denunciam os malefícios que foram impregnados à educação dos portugueses por via de uma exaltação messiânica, profética, romântica e saudosista da historiografia lusitana e que, no seu entender, conduziram Portugal para a inércia, para o atraso social e cultural, para o conservadorismo, para a pequenez mental. Por sua vez, António Quadros, e todo o movimento da filosofia portuguesa, consideram que Portugal é detentor de um projecto áureo, universal e congregador para toda a humanidade e que, por esses motivos, não poderá ater-se somente àquilo que é temporal, contemporâneo, progressista, mas, acima de tudo, àquilo que extrapola este patamar e se ocupa do mito, dos símbolos, dos arquétipos e das formas."

(adaptação livre de PINHO, Romana Valente, Deus na tradição do pensamento português contemporâneo: a contribuição de António Quadros, In: A Questão de Deus: História e Crítica)

Participaram neste desafio Mafalda Ferro, Maria Ana Ferro e Romana Valente Pinho

quinta-feira, 24 de Julho de 2008

Homenagem a António Quadros

António Quadros se estivesse vivo faria 85 anos. O desafio é este: enviem-nos um pequeno texto, um poema, um verso ou apenas uma frase em sua memória. O segundo é da autoria de: Maria Ana Ferro (neta).

"Às vezes é preciso um esforço. Procuro não me prender às imagens de hoje que já não são iguais. Ele não era assim. Era como eu o via. Havia a cultura e as letras e os pensamentos, havia tanto que ainda está por descobrir. Havia uma mente para além do tempo e do espaço e à frente desse tempo e desse espaço. Ele era como eu o vejo. Para além dos feitos e dos ganhos e dos percursos e dos textos e das teses e do talento. Era tudo isso que era ser tão grande, mas era ainda maior quando sabia ser pequeno.

António Quadros, um grande pensador, um enorme homem, sabia tão bem ser pequeno, como nós.E travámos o carro por culpa da família de elefantes invísiveis, e recebemos de Natal uma casa de montar onde passámos meses a fio, e recebemos os miminhos vindos de outros países, os doces. E vimos dar na missa uma nota e ficámos impressionados, e rimo-nos com a água quente para regar o jardim e recebemos 50 centávos por cada duas favas que apanhássemos e jogámos futebol na praia, brincámos com os truques das mãos quando se finge ser capaz de cortar e voltar a colocar um dedo, perdemo-nos com os bonecos de movimentos perpétuos e as bonecas que vão da maior para a mais pequena e se encaixam umas nas outras e hoje sabemos que se chamam matrioshka's. E sentímos aquele cheiro todo a livros e questionámos a pulseira com as duas bolinhas que tinha no braço e achámo-lo por isso moderno e observámos o seu tique com os dedos de uma só mão que tocavam um no outro, o indicador e o polegar e o outro tique do pescoço e queríamos tanto comer dos seus aperitivos de queijo e questionámos o porquê de só comer marmelada, queijo e banana ao jantar e o porquê de guardar todos os seus remédios num cesto que era um galo... E a maneira de se sentar na cadeira na praia com as mãos em cima do joelho e um panamá azul claro e quando saltava a rede no court de ténis sem pestanejar e chateáva-se quando dúvidavamos que nos adorava e adormecia com um garfo na mão para acordar e ainda se lembrar do sonho e às vezes fingia ouvir-nos e estava a ser o outro homem que também era tão bom... Não é só disto que me lembro...Ele era um mágico. E é assim que ainda o vejo, como o homem que escreveu uma simples e incrível história para crianças. («O Pedro e o Mágico») A luz que há de ficar para sempre nas nossas vidas, mesmo que nunca nunca mais se veja um pirilampo. "

Participaram neste desafio Mafalda Ferro e Maria Ana Ferro.

Homenagem a António Quadros

António Quadros se estivesse vivo faria 85 anos. O desafio é este: enviem-nos um pequeno texto, um poema, um verso ou apenas uma frase em sua memória. O primeiro é da autoria de: Mafalda Ferro (filha).

"Como todas as meninas, adorava o meu pai. Era o melhor do mundo. Sabia contar histórias melhor que os outros pais. Brincava comigo como se, também, fosse pequenino. Perseguia-me de gatas pela casa fora, até a minha mãe ralhar com ele. Ria até as lágrimas lhe caírem pela cara abaixo. Olhava-me sempre com um sorriso cúmplice e amigo. Quando eu estava triste ou alguém era mau comigo ele dava-me um beijinho e dizia-me que gostava muito de mim e, nada mais tinha importância. Quando me levava à escola, já sabia que se iam zangar comigo pois ia chegar atrasada mas não me importava, pois com ele havia sempre uma aventura ou uma história. Às vezes dizia piadas sem graça nenhuma mas ria-me porque gostava dele. Tinha amigos muito chatos. Quando estava com eles, a ler, a escrever ou a comer aperitivos, não tinha paciência para mim e eu ficava triste. Tinha um mundo que era só dele e de alguns amigos. Nesse mundo ele era muito sério. A minha mãe zangava-se quando ele lá estava. No domingo, a seguir à missa da uma, no Loreto, o meu pai ia para a Brasileira tomar café e falar de coisas que eu não entendia. A minha mãe levava-nos para a Benard com as suas amigas chiques que tinham filhos bem vestidos e sorridentes. Mas, apesar dos rins de chocolate, eu queria ter ido com o meu pai. A seguir íamos todos almoçar ao “Noite e Dia”, porque a criada tinha folga aos domingos.
Adorava brinquedos de corda. Já eu era crescida e ainda ele descobria uns feirantes à beira da estrada que vendiam ursinhos aos saltos. Ficava tristíssimo porque queria comprá-los e não sabia para quem. No fundo, era ele quem lhes achava graça. Odiava livros de quadradinhos. Dizia que nos estragavam o português. Um dia queimou na lareira uns do Mandrake que uma amiga me tinha emprestado. Fartei-me de chorar e ele ficou aflitíssimo mas… a língua portuguesa era uma prioridade, lá em casa."

Jornal 57

Manifesto do 57 aqui.

sexta-feira, 18 de Julho de 2008

"A estranha aventura de Sintra"

"E Cíntia, como lhe chamavam os gregos e os túrdulos, deriva o nome de Sintra. Cíntia era então, para sábios e poetas, o promontório da lua. O promontório da lua! Fantástica, misteriosa designação... Que realidade escondida, que verdade ignorada entreviram, lucidamente, os nossos longínquos antepassados? Nada ficou escrito, e a tradição oral não conserva vestígios dos reines sonhados, dos caminhos pressentido-os. Os séculos foram passando e, pouco a pouco, os homens foram destruindo implacavelmente os velhos mitos. Não importa. Nós sentimos, nós sabemos que só eles tinham razão, que Sintra não é um lugar como outro qualquer, que Sintra caiu entre nós por qualquer morta aventura, que Sintra não nos pertence, e nós não a merecemos porque não cremos na sua estranha origem. Condições climatéricas, natureza do terreno, constituição geológico ? Mentira, horrível mentira! A força que alimenta os fetos, erguendo-os até ao céu, e dando-lhes natureza de Piore, a seiva que oferece às flores tão belos e variados matizes, as mil tonalidades do verde, a harmonia duma paisagem em que os rochedos e os penhascos se conjugam com as camélias e com os cisnes brancos, o sangue que palpita nas veias da serra de Sintra, vêm da lua, da nuvem, de toda a parte, menos deste mundo. Os que amam Sintra, os adeptos da sua doce religião pagã, sabem-no bem. É um mundo diferente, onde a beleza é o ar que se respira, e a poesia é a própria respiração. Este ponto fresco do vale, em que o olhar sobe, trepando a vegetação da montanha, atravessando as paredes frias do Palácio da Pena e perdendo-se ao longe, para lá do dia e da noite; aquele panorama do Castelo dos Moiros em que, sentados nas ameias gastas da muralha, avistamos o mar confundido com o céu; aquele outro lugar onde o Paço Real de Sintra, pesado de história, se esconde por detrás dum muro inteiramente coberto de musgo velho—ou o momento irreal em que a vista da serrania, com o céu, a floresta, e a rocha, o cheiro húmido da erva medrando em todo o lado, o fino som da água caindo da fonte e das aves cantando nas copas das árvores, se transformam numa única sensação, nova, selvagem e indiferenciada—, nada disso pode fazer parte da nossa humanidade.
Estivemos em Sintra há pouco, por uma tarde calma, uma tarde de silêncio e de frescura. Visitámos as belas salas do Paço, onde viveram os reis de Portugal, percorremos as ruelas estreitas e íngremes, as escadarias tortuosas serra-acima, emolduradas de céu e de montanha, descemos ao vale onde os riachos frios alimentam canaviais ondulantes, e onde as mulheres lavam a roupa rindo e cantando, passeámos nos caminhos poéticos, profundos de sombra e verdura das pequenas quintas cercadas de muros altos, cobertos de trepadeiras, fomos a Monserrate, onde a colina é verde e a água é escura como um mistério, funda como a própria existência, admirámos a beleza cuidada do Parque de Pena, e estivemos também no palácio, donde a vista da terra não tem fim, e a vista do céu parece ter limites, passamos por todos os pontos consagrados de Sintra, os Capuchos, Seteais, a Fonte dos Passarinhos... O trabalho do homem, em Sintra, não briga com o trabalho da natureza, antes o auxilia—e disso nos devemos orgulhar, nós,- portugueses. Que naquele ponto da terra, o homem tenha recuado, tenha hesi V, indica um respeito, uma admiração, que não fazem parte da sua índole. O homem apagasse, ocupa voluntariamente ali, a posição de segundo plano. Porquê? Que poder sobrenatural se desprende das faldas luxuriantes da serra? Sintra é a terra das interrogações, das surpresas. Porque é que naquele recanto nevoento, se juntam plantas e flores dos cinco continentes? Porque é que as nuvens vêm cobrir, a todo o instante, os seus píncaros que não ultrapassam, no entanto, os quinhentos e quarenta metros? As nuvens buscam o promontório da lua, saudade dum planeta ou duma estrela onde estiveram um dia. Ah, sim! Sintra nasceu de qualquer aventura esquecida pelos séculos, e veio até nós como cometa, bólide de outros espaços e outras dimensões. E como se compreendem à luz desta realidade, as sombras e as encostas verdes de Monserrate, os pequenos lagos tranquilos da Pena, os rochedos bravios da serra, as ramagens intermináveis das fervores, formando um tecto de penumbra, os arbustos desconhecidos na Europa, as quintas emolduradas na natureza, os campos de flores, como se compreende o mistério enevoado de Sintra? Abandonemos inteligência, lógica, raciocínio. Sintra é para sentir, e só sentindo, se pode conhecer. Abandonemos regras e ciências: é a única maneira de possuir a eterna poesia de Sintra.
Aqui deixamos a brisa da mensagem que uma tarde mansa e silenciosa de Sintra, nos ofereceu. Tinha acabado de chover havia pouco tempo.: As nuvens, opacas e cinzentas, afastavam-se pouco a pouco, levadas por uma breve aragem. Dum momento para o outro, o céu ficou descoberto e o azul invadiu a atmosfera, tal um sorriso súbito. Desprendia-se da terra um cheiro de ervas molhadas e de folhas a secarem. O sol chegou também, um sol fresco e alegre, e ficaram mais brancas as penas dos cisnes que, de novo, um a um, se lançavam à água. O Castelo e o Palácio, que antes se erguiam sombriamente, ficaram mais leves, mais claros, como se tivessem esquecido o passado e tornassem à vida. Do vale, as vozes e os ruídos do trabalho no campo ganharam sonoridades e ecos. O canto dum rouxinol cresceu no silêncio, atravessou matas e penedos, e foi-se perder, para lá dos contornos da montanha. Foi como uma revelação. A presença de qualquer coisa mais, a presença duma voz surda e irreal, a presença dum mundo diferente tornou-se-nos evidente e irrefutável. Mensagem invisível e impalpável, ela tocava-nos, todavia, e manifestava-se como sentimento nunca experimentado. Era a lembrança, a saudade da estranha aventura de Sintra, do promontório da lua Quem duvidar, quem zombar desta vida transcendente que a alimenta, então nunca poderá, realmente, entrar em Sintra."
«A Estranha Aventura de Sintra», António Quadros

terça-feira, 15 de Julho de 2008

«Diário Popular», 26 de Janeiro de 1974

"Meu Caro Afonso Cautela:
É com amizade, com simpatia e com apreço que, desde há anos, venho seguindo a sua actividade de intelectual e de escritor. Desde há quantos anos?! Lembro-me, como se fosse ontem, dos seus esforços por impulsionar e valorizar a vida cultural do Alentejo. Do seu combativo suplemento no jornal A Planície, de Moura. Da carta que um dia o grupo de jovens reunidos em sua volta enviou para o meu 57 -- jornal que se queria de pensamento activo e português. Da visita que certa tarde, perdido, lhe fiz na Aldeia de S. Luís, onde era professor e onde procurava uma espécie de ascetismo humilde no ensino de uma escola primária. Da sua passagem pelas Bibliotecas Itinerantes da Fundação, como encarregado.
Depois, a sua vinda para Lisboa, as suas actividades relacionadas com o cinema, as suas intervenções jornalísticas, as suas antologias, por exemplo: a antologia de Poesia Portuguesa do pós-Guerra ( 1945-1965) , organizada por si em colaboração com Serafim Ferreira para a Ulisseia. E, mais recentemente, a sua preocupação com o futuro da humanidade, o seu interesse por tudo quanto se relaciona com futurologia e prospectiva. A este respeito, até tivemos, há meses, um projecto comum, aliás gorado! Foi quando tive ocasião para conhecer a grande documentação que sobre o tema você possui.
Nada me admirou, por conseguinte, a orientação da colecção Dossier Zero, por si dirigido e organizado para a Arcádia e que acaba de publicar um livro antológico, arrepiante pela multiplicidade e extensão dos sinais que apresenta quanto ao porvir do planeta, e a que você deu o título pessimista de Os últimos Dias da Terra.
Nesta ordem de ideias, você organizou também para semanário de grande divulgação um inquérito acerca da situação do mundo e do homem daqui a 100 anos. Convidou-me a colaborar, eu disse-lhe que sim, mas o tempo passou e nada lhe dei, afinal o inquérito saiu sem a minha prometida colaboração e decerto não perdeu nada com isso!
Porque não respondi ao seu inquérito?
Porque, depois de muito moer e remoer a sua pergunta, cheguei à conclusão de que é totalmente impossível responder-lhe, pelo menos em termos racionais ou racionalistas!
Para onde vamos? Quem seremos?
Talvez que o astrólogo do seu bairro, meu caro Afonso Cautela, lhe dê uma resposta...
O Jean Viaud apresenta no número de Janeiro da revista Horoscope , a lista das predições feitas por ele nos últimos anos e que resultaram certas: desde a revolução na Hungria ao assassínio de Kennedy, desde o escândalo Watergate até ao novo conflito israelo-árabe e à crise do petróleo...
Seria tentador, por outro lado, fazer de profeta, como Jeremias ou Daniel, mas confesso que me sentiria bastante (?!) ridículo se o tentasse, a não ser que fosse um génio da prosa e do pensamento, como o padre António Vieira; a sua História de Futuro não rivaliza com os acertos fantásticos de Jean Viaud, mas é uma das mais magistrais peças especulativas e literárias que jamais se escreveram.
O engano do nosso grande Vieira não terá sido tanto o de afirmar e proclamar os nossos mitos, o do Quinto Império e o do Encoberto - até porque o mito é uma prodigiosa força capaz de impulsionar todo um povo para o futuro -, como o de os querer traduzir em termos muito concretos, muito históricos, muito positivos.
A mitogenia do Encoberto era demasiadamente grandiosa para caber na pele de D. João IV e o Quinto Império era sonho excessivo para o Portugal dos Braganças, mesmo senhor do Brasil, que mais tarde Guerra Junqueiro (um sebastianista desiludido e em processo de transferência do mito da sua expressão monárquica para a expressão republicana) cobriria de sarcasmos no poema A Pátria.
Os discípulos de Vieira, mais prudentes, aceitam também a profecia, mas não arriscam situá-la no espaço e no tempo.
Fernando Pessoa ainda aponta Sidónio Pais como o possível Encoberto ( Ode ao Presidente Rei Sidónio Pais) , mas na Mensagem já não se arrisca em apostas positivas. Agostinho da Silva faz depender o advento do Império (mais espiritual do que terrenal) de condições: sociais, morais, culturais...
Fora dos âmbitos da astrologia ou da revelação profética, meu caro Afonso Cautela, penso que nada é possível adiantar sobre o futuro. Fracassaram todas as tentativas de considerar a história como uma ciência, no sentido de lhe descobrir princípios inalteráveis e leis estáveis. O conhecimento do passado (sujeito a uma enorme margem de erro e às interpretações subjectivas ou ideológicas dos historiadores, aliás) pouco ou nada nos adianta acerca do conhecimento do futuro, porque a existência do homem em sociedade e os próprios homens na sua estrutura biopsicológica se encontram sob a influência de demasiados factores aleatórios, imprevisíveis, incontroláveis.
Já dizia Sampaio Bruno que «ninguém, à luz de toda a sociologia moderna, depois de ler todo Comte, todo Spencer, todo Gillings, todo este, todo aquele, pode escrever uma página, uma linha sequer desse volume inescrevível da história do futuro. Eu posso prever em astronomia , mas não posso prever em política. Sei a que horas, minutos e segundos há-de ser o eclipse do sol, mas não sei sequer se haverá eclipse do ministério..."
A futurologia e a prospectiva poderão predizer, por exemplo, índices de desenvolvimento ou de aumento de custo de vida, mas a curto prazo - e desde que as condições do presente não se alterem muito. Veja-se o que aconteceu com a crise do petróleo, que é um bom paradigma da impossibilidade de previsão histórica: os futurólogos que tinham calculado o desenvolvimento industrial europeu nos próximos anos ou que tinham marcado datas à unificação da Europa tiveram de baixar bandeira, porque tudo é agora completamente diferente. Até as ameaças, da poluição ou do esgotamento dos recursos energéticos, adquirem uma nova tonalidade. E que dizer das transformações sociais, políticas, morais, religiosas, económicas? Da balança de poderes? Da evolução da Rússia e da China? Da promoção ou estagnação dos povos africanos, agora que o mundo industrializado tem outras preocupações? Quem previu o fenómeno "hippy" e a fome de misticismo de muitos jovens divorciados da sociedade de consumo? Um sem-número de interrogações e de dúvidas!
Em última análise penso, muitas vezes, caro Afonso Cautela, que todos nós, há 5000 anos ou nos dias de hoje, no Tibete ou em Lisboa, tivemos e temos em frente de nós o mesmo inevitável apocalipse: o da nossa própria morte individual. E é a nossa única certeza histórica...
Quanto ao que será o mundo daqui a 100 anos nada poderei, pois, adiantar. Por certo que é fundamental tomarmos em linha de conta os avisos que você salutarmente vai reunindo no seu Dossier Zero. Tempos houve (nos fins do século XIX) em que a ideologia da ciência e do progresso acreditou num futuro risonho e cor-de-rosa; sabemos hoje que a ciência não tem em si o poder de conferir a felicidade aos homens e que, ao progresso das ciências, das técnicas e das indústrias não correspondeu idêntica evolução nos planos moral e espiritual, a pontos de nos vermos hoje numa situação de desorientação e de perplexidade gerais.
Mas, se não podemos ser muito optimistas, não tombemos, por outro lado, no absoluto pessimismo. Ao lado de motivos de desânimo, há também motivos de esperança.
O homem é e será sempre o homem; capaz do mal, mas também do bem; de matar e de salvar; de destruir e de construir. Há forças, poderes, factores aleatórios, correntes vitais e espirituais que nos ultrapassam e cuja direcção nos não é permitido perscrutar, a não ser por hipótese.
Perante o nebuloso futuro deverá importar-nos principalmente o exprimirmos e projectarmos os valores que poderão tornar melhores os dias do porvir: os valores da verdade e de amor, de liberdade e de justiça, de espiritualidade e de beleza, que teremos de assumir estóica e corajosamente nas nossas vidas particulares, antes de os expandirmos e divulgarmos, seja sob que orientação acharmos preferível.
E termino com mais uma esplêndida citação de Sampaio Bruno, esse pensador ainda tão mal conhecido dos próprios portugueses: " Tudo o que existe tem de passar, mas as gerações sucedem-se e é maravilhoso que, sendo tudo o mesmo, tudo é diverso."
Um abraço do seu amigo
António Quadros"

segunda-feira, 14 de Julho de 2008

14 de Julho de 1923, nascia em Lisboa António Quadros.

"Só há em mim perguntas sem resposta:
Instinto para amar, para durar,
A grande porta abrir-se-á um dia,
E tudo será noite, ou vida, ou luz..."

domingo, 6 de Julho de 2008

25 DE MARÇO DE 1993

Eduardo Luís Barreto Ferro Rodrigues.Eduardo Ribeiro Pereira.Eurico José Palheiros de Carvalho Figueiredo.Fernando Alberto Pereira Marques.Fernando Manuel Lúcio Marques da Costa.Guilherme Valdemar Pereira d'Oliveira Martins.Gustavo Rodrigues Pimenta.Helena de Melo Torres Marques.Jaime José Matos da Gama.João António Gomes Proença.João Eduardo Coelho Ferraz de Abreu.João Rui Gaspar de Almeida.Joaquim Américo Fialho Anastácio.Joaquim Dias da Silva Pinto.Joel Eduardo Neves Hasse Ferreira.Jorge Lacão Costa.José Alberto Rebelo dos Reis Lamego.José Barbosa Mota.José Eduardo Reis.José Ernesto Figueira dos Reis.José Manuel Lello Ribeiro de Almeida.José Manuel Oliveira Gameiro dos Santos.José Manuel Santos de Magalhães.José Paulo Martins Casaca.José Rodrigues Pereira dos Penedos.José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa.Júlio da Piedade Nunes Henriques.Júlio Francisco Miranda Calha.Laurentino José Monteiro Castro Dias.Leonor Coutinho Pereira dos Santos.Luís Filipe Marques Amado.Luís Manuel Capoulas Santos.Manuel Alegre de Melo Duarte.Manuel António dos Santos.Maria Julieta Ferreira Baptista Sampaio.Maria Teresa Dória Santa Clara Gomes.Raúl d'Assunção Pimenta Rêgo.Rogério da Conceição Serafim Martins.Rui António Ferreira da Cunha.Rui do Nascimento Rabaça Vieira.Vítor Manuel Caio Roque.
Partido Comunista Português (PCP):
António Filipe Gaião Rodrigues.António Manuel dos Santos Murteira.Apolónia Maria Alberto Pereira Teixeira.Jerónimo Carvalho de Sousa.João António Gonçalves do Amaral.José Fernando Araújo Calçada.José Manuel Maia Nunes de Almeida.Lino António Marques de Carvalho.Luís Carlos Martins Peixoto.Maria Odete dos Santos.Octávio Augusto Teixeira.
Centro Democrático Social (CDS):
Adriano José Alves Moreira.António Bernardo Aranha da Gama Lobo Xavier.José Luís Nogueira de Brito.Juvenal Alcides da Silva Costa.
Partido Ecologista Os Verdes (PEV):
André Valente Martins.15abel Maria de Almeida e Castro.
Partido da Solidariedade Nacional (PSN):
Manuel Sérgio Vieira e Cunha.
Deputados independentes:
Mário António Baptista Tomé.João Cerveira Corregedor da Fonseca.
O Sr. Presidente: - Srs. Deputados, o Sr. Secretário vai dar conta dos diplomas que deram entrada na Mesa.
O Sr. Secretário (João Salgado): - Sr. Presidente e Srs. Deputados: Deram entrada na Mesa, e foram admitidos, os seguintes diplomas: projecto de lei n.º 281/VI-Introduz alterações à Lei n.º 86/89, de 8 de Setembro (Lei do Tribunal de Contas) (PS), que baixou às 1.ª e 6.ª Comissões, e projecto de deliberação n.º 61/VI - Atribuição à Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias da competência para apreciação das questões respeitantes ao Regimento e mandatos (apresentado pelo Presidente da Assembleia da República).
O Sr. Presidente: - Srs. Deputados, o Sr. Secretário vai proceder à leitura dos votos n.º 71/VI e 72/VI- De posar pela morte do escritor António Quadros (apresentados, respectivamente, pelo PS e pelo CDS, PSD, PS e PCP).
O Sr. Secretário (João Salgado): - Sr. Presidente e Srs. Deputados: O voto n.º 71/VI é do seguinte teor.

O escritor António Quadros, figura destacada da corrente de pensamento denominada filosofia portuguesa, consagrou a sua vida e a sua obra a estudar e a pensar Portugal, a sua razão, o seu mistério, o seu destino.Espírito aberto e tolerante, foi um homem generoso que privilegiou o debate de ideias e mereceu o respeito de diferentes quadrantes da vida cultural portuguesa.A sua morte é uma perda de vulto para a nossa literatura e para a nossa cultura.A Assembleia da República manifesta o seu pesar pela morte do escritor António Quadros e apresenta condolências à sua família.
O voto n.º 72/VI é do seguinte teor.
António Quadros, falecido no passado dia 21, fica como uma referência forte na corrente da filosofia portuguesa, aliando na sua vastíssima obra a dedicação à investigação, na área da cultura, com a assumida missão pedagógica e a adesão a um conceito transcendente de portugalidade.A Assembleia da República manifesta o seu respeito e admiração pelo ilustre desaparecido e apresenta pêsames à família enlutada.
O Sr. Presidente: - Para se pronunciarem sobre os votos de pesar, inscreveram-se os Srs. Deputados Manuel Alegre, Rui Carp, Adriano Moreira, Manuel Sérgio, Octávio Teixeira e André Martins.Tem a palavra o Sr. Deputado Manuel Alegre.
O Sr. Manuel Alegre (PS): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: António Quadros pensou, estudou, escreveu Portugal. Proeurou a sua razão, o seu mistério e o seu destino. «Para servir Portugal», dizia, «é preciso começar por pensar Portugal em simpatia com a grandeza, com o sofrimento e com a dinâmica criacionista, embora tantas vezes bloqueada, do seu povo».

segunda-feira, 16 de Junho de 2008

“(…) o homem sem pátria, o homem sem história, o homem sem família, sem crenças, sem paisagem…. Triunfa a arquitectura para habitação de homens abstractos: as casas são todas iguais, as ruas são todas iguais, o arquitecto deixou de ser um artista para ser um politico (…) Triunfam a pintura e a escultura abstractas: assim como o artista abstracto ignora e despreza as formas dor corpos, ignora e despreza igualmente a forma das almas (…) Triunfa a literatura em que as personagens se poderiam substituir por outras indiferentemente (…) Triunfa a moda uniformizante. (…) Um cavalo ou outro cavalo? É o mesmo. O que importa é que o cavalo obedeça às rédeas e se integre na monotonia do seu viver quotidiano. Um homem ou outro homem? É o mesmo. O que importa é que o homem obedeça às leis e integre passivamente na máquina da produção e do consumo, de forma a não criar problemas. (…)”

António Quadros in, A Angústia do nosso Tempo e a Crise da Universidade (1956)

segunda-feira, 9 de Junho de 2008

pergunta

(a António Quadros)

_______________________(por Francisco Soares

"Na cela onde medito,
Erodindo-se a vida,
Recordo, e deixo escrito
O enigma da partida.
A própria situação
Em que me encontro agora
É de luz e prisão,
É de mágoa e de glória.
O respirar é brando
E revulsivo o olhar —
Ainda vislumbrando
Perigos sem lugar.
A terra que murmura
Abraçando os sinais
De uma noite escura,
Esfuma-se no cais...
Tudo se depura.
Sobe a voz ao vento
E trémula, insegura –
Na canção do tempo
O silêncio escoa –
A boca se esvazia
E — leve — a coroa
De espinhos caída.
O som de uma pluma,
Nem tanto, falava,
Arcaico, e nenhuma
Palavra se escutava.
Contemplo-me, calmo,
A respirar calado.
Ouço-me, sossegado:
Já não posso dar-me...
E, porém, a luz
Que diviso agora
Nem sequer reduz
A beleza da hora.
Vejo a longa sala
Com as almas dentro:
Ora ocas de gala,
Ora em pensamento...
E porém o peso
Que me fecha os olhos
Não o sinto ou penso:
Pára-nos, e foge-nos.
Cinzas do apagado
Fogo se atearam
E é só luz a chama
Do espírito no ar:
Já não anda cego
O navio, fica
Vazio; surpreso,
O enigma não
Se explica.
O lábio está preso
À porta fechada;
A cela onde rezo
Esfria, abandonada.
Mas quem é que fala
Commigo e, ao sê-lo,
Porque não me cala?
Porque vou sabê-lo?
...
Depois era o céu
Límpido do sul
Delido no seu

Infinito azul."

segunda-feira, 2 de Junho de 2008


Romana Valente Pinho, no 1º número da revista «Nova Águia» sobre António Quadros (p. 90-93)

António Quadros: Pátria Real e Pátria Imaginária

"Na esteira de Luís de Camões, António Vieira, Sampaio Bruno, Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Leonardo Coimbra, Raúl Leal, Fernando Pessoa, José Marinho, Álvaro Ribeiro e Agostinho da Silva, António Quadros (1923-1993) defende que a nação portuguesa na sua essência (...) é dotada de um echaton, de uma razão teológica, que consiste num diálogo ou numa dialética entre o humano e o divino: «Talvez nenhuma história humana, como a portuguesa, em seu esplendor, em seu claro-escuro e em seu negrume, seja tão dramaticamente exemplar desta dialéctica.» (...) E nem poderia ser de outra forma, porque os povos não são iguais, diferem pelo seu composto étnico, pela língua que falam, pela estrutura cultural em que se enquadram, pela sua religião ou religiões dominantes, pelas vicissitudes da sua história particular, pelo seus sistema de ideias, mitos e tendências afectivas, pelo seu ritmo evolutivo segundo um modelo próprio embora implícito, aliás adequado à substância específica da sua realidade humana e social, enfim pela revelação que a todos os níveis lhes é concedido em sua experiência de ser. (...)"

domingo, 1 de Junho de 2008

Notas sobre António Quadros, no serpente emplumada de Paulo Borges

quarta-feira, 21 de Maio de 2008

“(…) a irresponsabilidade surge (…) em três instâncias. Quando o artista ou o poeta fixam o homem num presente estático e fixo; quando o amarram ao passado; quando o utopizam no futuro; por outras palavras, quando se imobiliza o tempo para melhor corresponder às exigências clarificantes da razão pura. (…)"

António Quadros, «A Existência Literária»

(...) Fazer arte é pois um acto de tremenda responsabilidade existencial. (...)

António Quadros

domingo, 18 de Maio de 2008

"(...) Traumatismo profundo, que afecta fundamentalmente o próprio ser humano. No mundo robotizado dos «gadgets», o homem é menos homem. Tudo se complica em sua volta e dentro dele. Os ideais que persegue são aleatórios e ilusórios, deixando atrás de si um travo de amargura e de desespero. Não há tempo nem espaço, para a crença, para o amor, para o espírito, para a arte. É o cultivo do superficial e o medo cada vez maior da profundidade.(...)"

António Quadros, «Franco Atirador»

segunda-feira, 12 de Maio de 2008

“A literatura afastou-se pouco a pouco, não só das teses, mas ainda das ideias e dos ideais (..) literatura superficial, pura expressividade de criadores ou produtores suspeitos de arriscar no mais além do que o seu olho, o seu ouvido, a sua perspectiva subjectiva, instantânea e ante-metafísica, (…) arte que não põe problemas e não faz pensar.”

António Quadros, «A angústia do nosso tempo e a crise da universidade»

sexta-feira, 9 de Maio de 2008

"(...) Tento em vão abrir os olhos. Há como que uma fina volúpia neste estonteamento, nesta nebulosidade. Batem à porta. Quem está aí? Sinto uma mão que, subtil, pousa no meu ombro. Escuto uma voz com uma inflexão recôndita e meiga. Conheço-a. Um frémito, uma aragem, uma vaga claridade. Alguém me disse um dia: vem, João. Outrem me solicita, agora: vem. É uma voz interior ou exterior? Há uma sombra morna e doce, há um perfumoso afago de cabelos inefáveis. Há uma frescura de asas. Há uma vaporosa, ondulosa coluna que me leva consigo, condescendente nos flutuantes movimentos do meu corpo. Vou. "

António Quadros, «Uma Frescura de Asas»

quinta-feira, 17 de Abril de 2008

O vento vem aí

"Debruça-se, calado, sobre um livro.
O gesto é lento, os olhos sérios, quietos.
Antes como depois, morte e silêncio.
Que ficou desse instante satisfeito,

Cheio de um pensamento definido,
De um sonho a realizar-se, de um ideal?
O vento levou tudo, varreu tudo.
Murmurou por momentos um adeus,

- ou seria o lamento das folhagens?,
E logo foi varrer outros destinos...
Não é triste, poeta? Esta lágrima

É o movimento, o instante: tem-no a ele,
E a um cortejo de sombras, infinito.
Adeus, amigo, o vento vem aí..."

António Quadros, in «Viagem Desconhecida»

sexta-feira, 28 de Março de 2008

"Meu Eu, meu Deus: vencida a auto-divinização egolátrica, quebrada a casca do ensimesmamento pequenamente lírico e empecido, o eu pode tornar-se espelho de transcendência, caminho de diálogo com algo que o excede «ser mediador» para uma outra e a mesma realidade: a do Deus que nos fala e em nós fala no nosso próprio ideal, no nosso próprio movimento, ainda que o investamos de outros nomes, ou a do Deus que por vezes ao longo da jornada, mais cedo ou mais tarde, dificilmente, penosamente, agraciadamente, aprendemos a reconhecer sob mil máscaras que permitem a nossa liberdade..."

António Quadros, in «Ficção e Espírito»

sexta-feira, 14 de Março de 2008

Ode ao Anjo de Portugal

Altas, altas asas, recolhidas,
um dúbio sorriso, uma expressão
de alegria serena, talvez de ironia,
talvez ainda de êxtase ou paixão,
não sei,
a própria face do enigma, como a esfinge,
não sei, que o tempo,
corruptor do símbolo e da pedra
altera ou finge
a palavra dita e silenciada.

Diogo-Pires-o-Moço te esculpiu,
o povo te esqueceu,
fecharam-te em Coimbra num museu,
porque esse que teu ser mediu
não do português uma clara existência quis fixar,
mas a perturbante essência libertar.

Escândalo o teu olhar de paz,
escândalo ontem e hoje a tua beleza intemporal,
escândalo o não pareceres Portugal
na aparência angélica que nos dás.
Olhamos-te, nós, os impacientes
olhamos-te, os saudosos, os furiosos,
porque tarda a hora de o sonho se cumprir,
porque em nossa volta, descontentes,
só vemos sonhos frustrados,
seres dilacerados,
o campo de Alcácer Quibir
ainda e sempre,
orgulho e corrupção,
coragem e miséria,
as guitarras, a traição,
a pátria dividida,
a pressa, a inteligência transviada,
El-Rei Dom Sebastião,
o seu fracasso, a sua ilusão,
a morrer ainda, devagar,
por esse país fora,
nas cidades, nas aldeias, nas montanhas,
a morrer de luxo e de pobreza,
de vaidade, de tristeza,
de curtas ambições,
de poder desregrado,
de habitual monotonia,
a morrer em almas indigentes,
em espíritos carecentes
de alegria criadora,
de entusiasmo, de amor,
Dom Sebastião a morrer dentro de mim
dentro de mim que somos todos,
nas nossas cruéis batalhas interiores
entre a visão radiante do futuro
e a realidade pesada e envolvente
do presente.

Mas altas, altas asas recolhidas,
a própria face do enigma, como a esfinge,
assim Diogo Pires te viu
e para o amanhã que é hoje te esculpiu…
Apostou na esperança, contra dúvida!
Apostou na confiança de que em breve
as grandes asas vão abrir-se porventura
e de que o corpo da pátria, leve, leve,
é ser das alturas que perdura,
apostou que o povo da aventura,
filho do mar,
pai da descoberta,
apostou que a nau fracta do ocidente
no tempo encontraria
a sonhada harmonia
dos seus poetas,
dos seus profetas,
e com clara certeza realizaria,
cedo ou tarde,
depois de quedas e infernos,
depois de abjecções e cobardias,
depois de se ter cindido
e consumido
na inveja, no ódio, na baixeza,
na sujeição, na descrença, na incerteza,
no culto dos eventos positivos,
na negação da própria alma futurante,
cedo ou tarde criaria
o quinto império do amor,
o quinto império do espírito universal,
senhor
da fraternidade enfim,
da justiça e liberdade
fundadas na verdade
que a razão inquieta demanda,
como nau de descoberta rumando ao horizonte
na aliança do leme e do mistério.
Ninguém morre na saudade e na memória,
o tempo que flui não é um grande cemitério
onde jaz sepultada toda a história.
A beleza do Anjo de Coimbra
é o que resta
da gesta.
A sua paz, o seu sorriso,
é o ser português, inteiro e puro
voltado para o futuro.

Ó Portugal,
teu ser no mundo é divisão,
teu ser em Deus é união,
mas o enigma do teu mito em acto
descobre-se no anjo que é o teu retrato.


António Quadros

sábado, 8 de Março de 2008

Fernanda de Castro, sobre António Quadros no periodo da sua juventude:

Calado, tranquilo, sem fazer ondas, seguia serenamente o seu caminho, sem sobressaltos, mas de maneira eficiente e segura. (in Ao Fim da Memória)

sexta-feira, 7 de Março de 2008

"As caravelas já não partem deslumbradas a desvelar o Cabo. Não. O tempo é outro. Mas os pescadores portugueses continuam na praia a fixar com olhos estáticos o mar infindável e a viver e a lutar e a sofrer e a morrer o destino do mar.
E na imaginação das crianças e dos adolescentes, no inconsciente dos adultos frustrados numa fixação à terra que lhes parece injusta e odiosa, a ideia da aventura, da viagem, do descobrimento palpita como uma promessa e como uma fascinação."

António Quadros

terça-feira, 4 de Março de 2008

“O patriotismo emocional é um fogo de palha, que ora se inflama à notícia de um efeito desportivo, ora se afunda por completo ao aceitar sem um assomo de resistência as leis, os actos de governação, as propostas politicas, culturais ou estéticas mais radicalmente avessas aos interesses nacionais, à vontade de regeneração segunda a identidade portuguesa ou às traves mestras da nossa estrutura cultural.” António Quadros (in, Portugal Razão e Mistério)

quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2008

o escritor e a sociedade, programa de Álvaro Manuel Machado (RTP, 1983) Continuação


António Quadros from António Quadros Ferro on Vimeo.

segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2008

A.Q sobre Caranguejo de Ruben A.

O leitor não deixará de ficar impressionado perante certas páginas em que a sátira é mais violenta, em que tamanha lucidez no delirio das palavras e das ideias. E, deixemos aqui a seguinte legenda: estamos em presença de um romance que, mais do que qualquer obra que tenhamos lido nos últimos anos, corrobora dolorosamente a necessidade urgente de uma profunda reforma educativa.

terça-feira, 12 de Fevereiro de 2008

Sobre António Quadros, texto de Pedro Calafate

Foi um dos principais impulsionadores da geração do "57", impulsionado pelo magistério de Álvaro Ribeiro, e por isso fortemente empenhado na formulação de uma «filosofia portuguesa».É pois relevante a leitura do manifesto do grupo reunido em torno da revista 57, de que António Quadros foi director. Aí se indicam as chamadas «enfermidades» da cultura nacional, analisadas na base de um muito claro comprometimento com uma «filosofia da pátria». Como causas da referida doença nacional elegem a influência exagerada de correntes estrangeiras, com os seus vários «ismos», fossem elas o escolasticismo, o positivismo, o racionalismo ou o marxismo, embora com uma significativa excepção aberta para o caso do existencialismo.Esta excepção é relevante porque para António Quadros e de um modo geral para o «grupo da filosofia portuguesa», aqueles vários «ismos» impunham um universalismo sujeito à ideia de «mesmidade», esvaziando o heterogéneo em favor do homogéneo. Nesta base, a atenção dada por António Quadros ao existencialismo, para o qual fora sensibilizado pelo seu mestre Delfim Santos, na Faculdade de Letras de Lisboa, tinha menos a ver com o seu acolhimento e difusão em bloco, pois que recusa a ideia sartreana de uma moral sem Deus, do que com o que no existencialismo se abria como possibilidade de atenção ao concreto, ao homem concreto e singular, «esse desconhecido», levando-o a defender, em Introdução a uma Estética Existencial, que o conceito de existência se deveria assumir como primitiva categoria do ser.Daí que tanto o existencialismo como a «filosofia portuguesa» lhe parecessem meios privilegiados para conduzir ao florescimento da nossa raça. Como pano de fundo, vislumbra-se a questão das filosofias nacionais e o valor da filosofia portuguesa, portadora dos valores futuros, muito na linha de Álvaro Ribeiro, que em vez da relação hegeliana entre o ser e o não ser, preferia a relação mais aristotélica entre a potência e o acto, sendo a potência a categoria do possível, donde emergia a tentação do profetismo e do messianismo. Não que para António Quadros a verdade possuísse fronteiras, mas sim que a filosofia, por ser via e caminho, as teria certamente, não tanto físicas, mas sobretudo espirituais.António Quadros prosseguiu nesta linha de pensamento durante mais de três décadas, ligado ao que já alguns chamaram uma «patriosofia», desenvolvida em duas vertentes complementares: uma vertente estética, ligada à fenomenologia da arte portuguesa, com especial atenção ao que considerava ser a sua dimensão simbólica, como via de conhecimento indirecto do que de mais profundo e enigmático existe no homem, em linha prosseguida por Lima de Freitas e por Afonso Botelho (Introdução a uma Estética Existencial, 1954); e uma vertente orientada para a filosofia da história portuguesa, de feição escatológica, explorando as virtualidades do mito e da saudade como sua expressão sentimental (Introdução à Filosofia da História, 1982; Portugal Razão e Mistério, 1987; Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista, 1982)Em ambos os casos, o que confere unidade à sua obra é o propósito de determinar uma razão de ser para Portugal, fundindo «memória de origens e saudade do futuro», um futuro que generosamente acreditava estar reservado ao advento do Espírito Santo, assumindo-se aí Portugal na sua teleológica razão de ser, agente principal de um projecto aureo de realização espiritual da humanidade (Portugal, Razão e Mistério).A abertura a estes domínios do simbólico em estética e do mitológico em história, participava também da recusa de um racionalismo estrito, defendendo antes uma razão que se não pode desligar da consideração dos diversos graus da experiência do ser, mesmo aqueles que se afiguravam anteriores à lógica e ao conceito, atendendo por isso ao lugar do mistério e do enigma.

É-nos difícil, hoje, termos uma noção exacta do que o Orpheu representou. Talvez que o mais fiel documento desse período seja o artigo de evocação que o fino e inteligente humorista que foi Augusto Cunha, amigo de Mário de Sá-Carneiro e cunhado de António Ferro, escreveu para a revista Atlântico, em introdução à sua página «Um serão paulista» (contemporânea aliás ao lançamento do paulismo). Vale a pena transcrever ao menos um excerto.
As mais audaciosas e estranhas produções, umas propositadamente excessivas na forma e no conceito, outras premeditadamente exageradas no seu destrambelhamento, preconcebidamente irritantes e ofensivas da rotina e dos cânones literários então correntes, nasceram desse movimento irreverente e iconoclástico que perturbou a tranquilidade até aí gozada na pacifica pacatez do nosso meio lite­rário, irritou os críticos e provocou a indignação do grande pú­blico, habituado ao lirismo ingénuo e calmo e ao romantismo dos folhetins.
Com Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, constituíam os mais assíduos elementos do grupo: Luís de Montalvor, Pedro de Mene­ses, Almada Negreiros, José Pacheco e António Ferro, que foi o editor do «Orpheu», apesar dos seus 19 anos - idade em que legalmente o não podia ser.
Por vezes, no «Martinho», apareciam também Santa Rita Pintor, chegado havia pouco de Paris e de quem se contavam as mais estranhas blagues, as mais sensacionais boutades, os mais espirituosos ditos.
Já a sua figura, no meio apagado e morno do café, fazia sensação. O seu ar fúnebre emergindo do fato preto, a sua figura esguia e angulosa, o colarinho muito largo e direito, meio coberto por um laço também preto, o chapéu negro enterrado na cabeça rapada à navalha, o próprio galgo hierático, que o acompanhava e ficava em atitude submissa junto da mesa onde ele se concentrava a encher largas tiras de papel, davam-lhe um aspecto estranho, quase irreal, naquele ambiente banalíssimo e burguesmente pacato do café.
A ideia de uma revista literária de novos moldes e novos ritmos, no propósito de «formar, em grupo ou ideias, um número escolhido de revelações em pensamento ou arte», partira de Luís Montalvor e de Ronald de Carvalho que no Brasil tinham projectado criar uma publicação - «Orpheu» - destinada a provocar uma renovação do gosto e a reunir novos desejos e características de arte e de beleza.
O primeiro número da revista, em cuja introdução Montalvor explicava os propósitos e intenções de «Orpheu», foi, para o grande público, a ruidosa e sensacional revelação da nova escola literária.
O poema «Os Pauis», de Fernando Pessoa, dera ao movimento o nome de guerra: - o Paulismo.
Nas longas conversas de café, nas digressões nocturnas pelas ruas da Baixa, discutindo em voz alta por forma a despertar as atenções e a curiosidade intrigada da multidão, os componentes do grupo tinham criado uma série de novas formas e de audaciosas expressões, procurando todos, numa estranha competição, exceder-se a si próprios e a cada um, em exotismos, em extravagantes conceitos e opiniões, nas mais imprevistas e complexas frases deliberadamente destoantes da vulgaridade corrente e, quase todas, com o principal propósito de irritar.


António Quadros, F. P., Vida, Personalidade e Génio, pp. 78-79.

sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2008


segunda-feira, 21 de Janeiro de 2008

De imagem em imagem
navegador do visível e do invisível,
o homem perde ou acha a miragem...

quarta-feira, 12 de Dezembro de 2007

sobre o livro de António Quadros: Uma frescura de asas

domingo, 9 de Dezembro de 2007

Rua António Quadros

Cerimónia de inauguração da Rua António Quadros:

sábado, 15 de Dezembro de 2007 pelas 11h.

quinta-feira, 6 de Dezembro de 2007

Todas as recensões de António Quadros na Fundação Calouste Gulbenkian

Eis um exemplo: Narciso e Goldemundo de Hermann Hesse


sexta-feira, 30 de Novembro de 2007

António Quadros Ferro, neto do escritor, teve a gentileza de me comunicar hoje, dia 29 de novembro de 2007, a boa nova da atribuição do nome de António Quadros a uma rua de Cascais. Recebi o mail de António Quadros Ferro, em Brasília, por volta das 18:00 horas. A reação imediata que tive foi compor uma notícia em forma de verso e colocá-la em http:www.usinadeletras.com.br, site brasileiro onde colaboram cerca de 8.000 escritores, entre os quais muitos portugueses. Para que mais leitores tomem conhecimento da figura invulgar de António Quadros. Fui amigo e companheiro de luta de Antônio Quadros pela afirmação de uma filosofia Portuguesa, colaborador de sua revista "Espiral". Fui também um dos primeiros conferencistas do Centro Nacional de Cultura, a que ele estava ligado juntamente com Afonso Botelho, António Braz Teixeira e Orlando Viorino. Minha conferência no Centro Nacional de Cultura foi em 1955. Eis a íntegra da memória que coloquei para ele no site brasileiro: www.usinadeletras.com.br.


A RUA DE UM PRÍNCIPE DA CULTURA PORTUGUESA EM CASCAIS
João Ferreira 29 de novembro de 2007
Agora ele está ali, em Cascais,
Cidade bela e nobre de Portugal,
Numa rua que tem seu nome
Escritor António Quadros (1923-1993)
Silencioso
Majestático
Pronto para ensinar
Para moradores da rua e transeuntes
O que foi Portugal histórico, sua tradição
E modernidade cultural
Ele será patrono e titular deste espaço
Para ser lembrado como português exemplar que viveu intensa paixão de amor às letras pátrias

Como símbolo de luta pelas causas maiores portuguesas
Ficará ali como senhor de um reino de cultura que está arquivado no simples enunciado e lembrança de seu nome
Como senhor nobre
Que incessantemente buscou e espalhou pelos cantos do mundo o saber e a cultura
Desde os maiores mitos
Até aos vultos mais representativos da cultura Portuguesa do século XX
Será sempre lembrado como editor e divulgador de Fernando Pessoa e do modernismo português
Como pesquisador, e divulgador de Pascoaes e Agostinho da Silva
Como alto representante do movimento da Filosofia Portuguesa
Como fundador do movimento 57
E da revista Espiral
Como autor de muitos livros... A toda a hora, na Rua António Quadros Muita gente perguntará Querendo conhecer sua biografia
E outras tantas pessoas saberão responder
E glorificar
Este grande cidadão português
Saberão filiá-lo a António Ferro, seu pai
E a Fernanda de Castro, sua mãe
Dois titulares da Literatura e da cultura Portuguesa
E a uma nobre família culta
Onde há descendentes escritores
De nome nacional
E na história urbana de Cascais
A rua António Quadros
Ficará como um livro exposto
E à disposição para quem o quiser abrir
E exercer a cidadania da memória!

João Ferreira
Brasília, 29 de novembro de 2007
Rua António Quadros:

António Quadros morreu em 1993 e não em 1994, como a placa indica.
Erro já comunicado pela familia do escritor à Câmara Municipal de Cascais.

quinta-feira, 29 de Novembro de 2007




Rua António Quadros já existe. É em Cascais, perpendicular à Rua Adelino Amaro da Costa.
Só tardiamente tive conhecimento do ciclo A Filosofia Portuguesa no Século XX dedicada ao movimento da filosofia portuguesa e, especialmente, a António Quadros. António Braz Teixeira foi o orador. Foi no passado dia 20, na Sociedade Histórica da Independência de Portugal.

quarta-feira, 28 de Novembro de 2007

alguns livros, em casa de antónio quadros
(...)Era um farol na noite escura; e a noite tornou-se mais noite, desde que a Morte o levou.

david mourão-ferreira, sobre António Quadros

terça-feira, 27 de Novembro de 2007

Altas, altas asas, recolhidas,
um dúbio sorriso, uma expressão
de alegria serena, talvez de ironia,
talvez ainda de êxtase ou paixão,
não sei,
a própria face do enigma, como a esfinge,
não sei, que o tempo,
corruptor do símbolo e da pedra
altera ou finge
a palavra dita e silenciada.

Diogo-Pires-o-Moço te esculpiu,
o povo te esqueceu,
fecharam-te em Coimbra num museu,
porque esse que teu ser mediu
não do português uma clara existência quis fixar,
mas a perturbante essência libertar.

Escândalo o teu olhar de paz,
escândalo ontem e hoje a tua beleza intemporal,
escândalo o não pareceres Portugal
na aparência angélica que nos dás.
Olhamos-te, nós, os impacientes
olhamos-te, os saudosos, os furiosos,
porque tarda a hora de o sonho se cumprir,
porque em nossa volta, descontentes,
só vemos sonhos frustrados,
seres dilacerados,
o campo de Alcácer Quibir
ainda e sempre,
orgulho e corrupção,
coragem e miséria,
as guitarras, a traição,
a pátria dividida,
a pressa, a inteligência transviada,
El-Rei Dom Sebastião,o seu fracasso, a sua ilusão,
a morrer ainda, devagar,
por esse país fora,
nas cidades, nas aldeias, nas montanhas,
a morrer de luxo e de pobreza,
de vaidade, de tristeza,
de curtas ambições,
de poder desregrado,
de habitual monotonia,
a morrer em almas indigentes,
em espíritos carecentesde alegria criadora,
de entusiasmo, de amor,
Dom Sebastião a morrer dentro de mim
dentro de mim que somos todos,
nas nossas cruéis batalhas interiores
entre a visão radiante do futuro
e a realidade pesada e envolvente
do presente.

Mas altas, altas asas recolhidas,
a própria face do enigma, como a esfinge,
assim Diogo Pires te viu
e para o amanhã que é hoje te esculpiu…
Apostou na esperança, contra dúvida!
Apostou na confiança de que em breve
as grandes asas vão abrir-se porventura
e de que o corpo da pátria, leve, leve,
é ser das alturas que perdura,
apostou que o povo da aventura,
filho do mar,
pai da descoberta,
apostou que a nau fracta do ocidente
no tempo encontraria
a sonhada harmonia
dos seus poetas,
dos seus profetas,
e com clara certeza realizaria,
cedo ou tarde,
depois de quedas e infernos,
depois de abjecções e cobardias,
depois de se ter cindido
e consumido
na inveja, no ódio, na baixeza,
na sujeição, na descrença, na incerteza,
no culto dos eventos positivos,
na negação da própria alma futurante,
cedo ou tarde criaria
o quinto império do amor,
o quinto império do espírito universal,
senhor
da fraternidade enfim,
da justiça e liberdade
fundadas na verdade
que a razão inquieta demanda,
como nau de descoberta rumando ao horizonte
na aliança do leme e do mistério.
Ninguém morre na saudade e na memória,
o tempo que flui não é um grande cemitério
onde jaz sepultada toda a história.
A beleza do Anjo de Coimbra
é o que restada gesta.
A sua paz, o seu sorriso,
é o ser português, inteiro e puro
voltado para o futuro.

Ó Portugal,
teu ser no mundo é divisão,
teu ser em Deus é união,
mas o enigma do teu mito em acto
descobre-se no anjo que é o teu retrato.

AQ

quarta-feira, 21 de Novembro de 2007

"Sou a perdida unidade que a inteligência sozinha não pressente..."

Reflexões sobre o Escritor

O escritor não tem verdadeiramente um lugar na sociedade, e isso paga-o em humilhações sem conta. O trabalho intelectual é de todos o mais mal remunerado. As iniciativas dos intelectuais são acolhidas com sorrisos. Ficamos então irremediavelmente desonrados, perante uma sociedade que em última análise triunfa?

in, revista Espiral (1966)

quarta-feira, 14 de Novembro de 2007

"Toda a beleza é aviso."

AQ
"Ó meu Portugal que foste,
Que foste grande no Mundo,
Abre as asas, abre as velas
Revela o teu ser profundo"

AQ

segunda-feira, 22 de Outubro de 2007

(...) Filosofar não é (...) somente construir grandes sistemas metafísicos demonstradores da agilidade e da fantasia da razão humana; não é desistir de conhecer as causas para se limitar a descrever as leis; não é substituir a exigência da verdade pelas exigências momentâneas da vontade; não é, tão pouco, repousar simplesmente sobre textos que, adlulterados por intermediários, tradutores e adaptadores, mais não comunicam do que fragmentos ou facetas isoladas da verdade. Filosofar é reflectir e racionalizar, tanto ou mais do que os textos, seja o idioma nacional, portador de palavras intraduzíveis e inefáveis, sejam as tradições escritas e orais da pátria do filósofo (...), sejam as obras poéticas, sejam as manifestações artísticas, sejam as revelações colectivas e particulares, e seja, por último, a experiência individualmente inspirada e comunicada ao pensador. (...)

António Quadros

quinta-feira, 18 de Outubro de 2007

O finalismo e o a-finalismo do nosso sistema educativo

(…) ao estudar, o fim do aluno é hoje «passar o exame», «ter o diploma» - e nada mais. O seu objectivo é quase unicamente utilitarista. Pretende o diploma porque o diploma dá acesso a posições social e economicamente compensadoras. Daí a sua total obediência, para não dizer escravização, à ciência do professor, que pode ser falsa, incompleta, desactualizada, pervertida e burocratizada, mas que não constitui para o aluno mais do que «o obstáculo que é preciso transpor», sem análises nem afirmações de personalidade que estariam deslocadas. Por sua vez, o professor, uma vez instalado na sua posição liceal ou universitária, limita a sua acção ao ensino de um conjunto de conhecimentos especializados, sujeitando inteiramente o aluno, ou a uma preguiça que o impede de actualizar-se constantemente no seu ramo de saber, ou a uma incapacidade intelectual para transcender o «conhecimento do compêndio», ou à especifica direcção cultural do seu espírito (…) observa-se que, ao longo dos anos da sua aprendizagem, o aluno apenas estudou para os sucessivos exames com que pretenderam medir a sua memória e a sua inteligente maleabilidade às atitudes culturais e espirituais mais diversas; e que esta diversidade heteróclita, acumulada nos anos cruciais da sua evolução mental, o levaram a deter-se cepticamente à beira dos grandes problemas da existência, não os vivendo heroicamente, mas, pelo contrário, substituindo, em todas as ocasiões, a verdade pela utilidade e pelo interesse.(…) o aluno universitário sabe mais do que o liceal – mas não sabe melhor. Ao obter, finalmente, o seu diploma de curso superior, o licenciado olha para trás e lamenta o tempo que perdeu em todas as matérias que fogem à sua especialização. Essas matérias assemelham-se às peças de «puzzle»: mas nunca as conseguiu reunir e agora já é tarde. Não se lhe apresentaram como «necessárias», como harmoniosamente ligadas, como tendendo, com a lógica indestrutível dos acordes diferentes, mas unidos, de uma sinfonia, para um mesmo objectivo.Licenciado, pode vir a ser um bom especialista, um bom profissional. Como homem, porém, será o que os caprichos da sua existência extra-univertária dele fizeram: família, cultura literária, influência de formas artísticas, amigos, formação religiosa ou política…E como estes factores sociais sofrem da mesma crise, espelhando a errada formação escolar básica, o resultado é a vida, em todos os seus planos antropológicos, cosmológicos ou teológicos, se reduzir à vida de cada um; cada homem passa a considerar-se o princípio e o fim de todas as coisas, a razão do «ego» domina as outras, a existência é um campo de batalha, não entre o bem e o mal, mas entre o «eu» e os «outros».


António Quadros, «A Angústia do nosso tempo e a crise da universidade»

domingo, 14 de Outubro de 2007

Oferecer aos homens da terra uma antevisão do céu conseguida por meios humanos...

António Quadros, in Introdução a uma Estética Existencial

quinta-feira, 11 de Outubro de 2007

o espanto, o absurdo, o sonho, a vida (o génio de raul brandão e o humus)

terça-feira, 9 de Outubro de 2007

requiem para um amigo que vai morrer, que já morreu

Movem-se os outros
À tua volta
Falam, suspiram,
Pensam em ti.
Olham-te e choram
Lembrando os tempos
Em que brincavas
No teu jardim
A vida é curta,
Curta demais.
Foge a alegria,
Foge a tristeza,
E fica apenas
Um quarto escuro
Um corpo imóvel
E uma saudade.
Olhos fechados,
Olhos de pedra,
És uma coisa
Não és mais nada.
Nem mesmo um beijo
Eles te dão.
Nem uma carícia
Na tua face.
Caem as lágrimas
Mas é mentira.
Tu já não és,
Só eles são.
Fazem projectos
Pensam em si,
Sob a trizteza
Luz e ambição.
Há já desejo
No olhar daquele.
Há já ternura,
Na alma da mãe.
Vem a vaidade,
Surge a inveja,
Mas a alegria
Submerge tudo.
E eles já sonham
Com a luz do sol,
E eles já sonham
Voltar a rir.
A vida é curta
Curta demais.
Vamos viver
Que o tempo passa.
Vais a enterrar.
Mas há as flores.
Desces à campa
E as aves cantam.
Há uma angústia,
Mas é o medo
Mas é a piedade
Da nossa dor.
E a terra cobre
O ser que foste,
E uma oração
Sobe para os céus.
Salva-o Meu Deus,
Ele era bom...
Só nesse instante,
Foste chorado:
Logo a seguir
Há que viver.
Repousa em paz
Não fazes falta.

Passaram anos
E a tua imagem
Assiste à vida...
Numa moldura.
E a tua imagem
Já nem sequer
Inspira aos teus
Uma lembrança.
Serves apenas
Para enfeitar
Uma saleta.
Não tenhas pena,
Pois todos morrem,
Pois todos passam,
E a morte ri
A par da vida.


António Quadros, «Viagem Desconhecida»

quarta-feira, 3 de Outubro de 2007

(...) Chamamos-lhes alunos. Deveríamos antes chamar-lhes discípulos, se fossemos capazes de ser mestres. (...)

António Quadros

terça-feira, 11 de Setembro de 2007

criação e criador

Visionamos a história como uma gama labiríntica e extremamente complexa de movimentos de primeira e de segunda instância, que mutuamente se buscam e se completam, se corrompem e se regeneram, se transformam por queda para logo se superar, concorrendo para uma mesma finalidade escatológica, mas sempre decorrentes do passo decisivo do homem, que não os originou, pois o consequente não pode originar o antecedente, mas que se finalizará como entidade mediatriz entre criação e criador.

António Quadros, in, Introdução à Filosofia da História

quinta-feira, 6 de Setembro de 2007

O arquétipo do homem português

O homem português, ou melhor, o arquétipo do homem português é o que emerge e se revela em determinados períodos históricos favoráveis, mas é também o que se oculta ou é ocultado, o que se reduz a uma vida estagnada e recalcada, nos períodos em que se desfaz a sua «paideia». Uma «paideia», ao modo grego, é a solidariedade e a univocidade entre a estrutura cultural e o sistema educativo de um povo, ambos se ordenando a um «telos» ou a um fim superior, que todos então sentem como seu, pelo qual vivem, lutam e sacrificam se necessário for. Sem a restauração de uma «paideia» essencialmente portuguesa, não deixando de ser universal, será difícil, se não impossível, que o homem português se reencontre, numa reinvenção que ou começa pelas elites, pelas classes letradas, ou nunca mais será possível. Sem uma «paideia» portuguesa renovada jamais poderemos ter uma pátria portuguesa dinâmica, criadora de valores, voltada para o futuro a partir das suas raízes e das suas linhas genéticas fundamentais, sem as quais a nossa identidade se perderia num progressismo vazio e superficial.
Recorrendo à metáfora camoniana, assistimos nos últimos anos à vitória do Velho do Restelo sobre o Gama, o mesmo é dizer, da terra sobre a água e sobre os elementos aéreo e ígneo. (…) O que parece dominar hoje em Portugal é a face negativa, nocturna, decaída do arquétipo, do modelo ou da imagem sublimatória que o português já teve de si próprio e o levou a ousar rasgar os seus trilhos na superfície do mundo ou da vida. (…) Vivemos hoje um período de menoridade e de adolescência regressiva em que, predominando o intelecto passivo, as pessoas se auto-satisfazem e auto-iludem com os lugares-comuns ideológicos, com os discursos demagógicos e com as ideias convencionais de gerações que, para repudiarem um certo tipo histórico de nacionalismo, perderam a própria identidade e já não sabem quem são ou para que são, como portugueses.

António Quadros In, «Portugal, Razão e Mistério»

quinta-feira, 23 de Agosto de 2007

Poética Contraditória

Não digas o que sabes nos teus versos,
Deixa para trás a ciência e a consciência;
Tudo aquilo que em ti não for ausência
São ideais perdidos, ou submersos.

Abandona-te às vozes que não ouves,
E liberta os teus deuses nos teus dedos;
Não busques os sorrisos, mas os medos,
E o que não for ignoto e só, não louves.

Ser misterioso e triste, é ser poeta:
Mesmo a luz que palpita nos teus cantos.
É uma imagem heroica dos teus prantos.

Percorre o teu caminho até ao fundo,
E com os versos que achaste, aumenta o mundo.
Não sejas um escritor, mas um profeta.


António Quadros in, «Viagem Desconhecida»

quinta-feira, 16 de Agosto de 2007

[a António Quadros]



Eu não sei se o meu falecido avô paterno está vivo. Não tenho todavia em mim qualquer sinal da sua extinção. Pergunto por isso o que acontece ao nada quando não desaparece? O passado não sou eu mesmo – somente a saudade tomando conta desta ideia individual que guardo unicamente para mim, somente a saudade visível mas aparente ganhando espaço, crescendo comigo no meu movimento, a saudade no seu lugar recôndito, inerte, impassível, indiferente, em última análise, inexistente, sendo coisa nenhuma que alguém estupidamente transporta. A saudade que não tenho, que não quero e que não tive: uma coisa cega dos sentidos, ou do coração. A saudade não pensada, perdida, imaculadamente vivida, esmorecendo com o passar dos dias, ausentando-se com o extenuar da memória, extinguindo-se por completo no momento da nossa morte. A saudade que não existe e que ninguém merece. Por isso a saudade que sinto é em si fecunda, e exige ser gravada. Não a concebo separada da existência que a sofre. Não a entendo longe do pensamento que a imagina. Não a vejo, apesar de tudo, longe do espírito de quem verdadeiramente a sente. É por isso que a vida, como tantas vezes foi descrita, encontra-se na maioria das vezes sob algo maior. Há, em certa medida, uma morte antecipada, um silêncio surdo. Talvez a existência em certas ocasiões não exista em si mesma. Assim como a morte, a morte de alguém. Quantas pessoas conhecemos sem as conhecermos, ou quantas vidas achámos conhecer sem nunca as ter conhecido? Fica apenas uma imagem insegura de alguma coisa que apenas vimos passar. O luto é também ele menor e impassível. Por isso não acredito que o entendimento se interrompa assim. A aventura, a do conhecimento, seja ele qual for, deve perdurar. Deve seguir o seu movimento. Pulsando continuamente em nós, sem remissão. Repetindo-se e transformando-se connosco, numa relação contínua, por vezes dolorosa, mas que perdura, que vive, que verdadeiramente vive! Só no lugar onde a criação acontece, só nesse fulgor onde a verdade se encontra, só no silêncio dessa procura e espera, só no apelo dessa nossa solidão, só no nosso próprio medo, só no anseio da nossa interioridade, só na vontade de criar, de crer e de alcançar, só aí, só aí ascendemos e encontramos.

terça-feira, 14 de Agosto de 2007

o movimento

"o movimento é a libertação (e não a dependência) do potencial do ser"
antónio quadros

segunda-feira, 30 de Julho de 2007

Sábado, 28 de Julho - mais um excerto da obra de antónio quadros

O Mito Verdade ou Alienação
"(…) o mito é uma história exemplar e simbólica que, pelos actos dos seus protagonistas e pelo sentido do seu enredo, testemunha de uma antiquíssima experiência humana, mais profunda, de certo modo, do que a imagem cientifica, moderna e oficial das culturas; é a arca ou o arcano de uma indizível e longa revelação ôntica; é a codificada suma das intuições e de iluminações, de poemas e de filosofemas espontâneos ou aprendidos na vasta gama que vai das formas de cultura e aculturação à inspiração pessoal do transmissor ou do rapsodo; e é o que traz ao presente os segredos antigos e restantes de velhas civilizações e culturas, modificados embora por um percurso semântico difícil de seguir, de capitular e de sistematizar, mas que nem por isso deixa de ser ou deve deixar de ser para nós uma verdadeira «carta de prego», lançada remotamente ao mar do tempo por viajantes desconhecidos, nossos irmãos. José Marinho, um dos poucos filósofos que, depôs de Oliveira Martins, Sampaio Bruno e Aarão de Lacerda, meditou entre nós a essência do mito, escreveu pertinentemente que «todo o poeta verdadeiro, todo o artista autêntico é filómito, e é-o necessariamente. Não há arte sem imagem, e se a imagem meramente virtual não se insere no mundo próprio dos mitos, a imagem simbólica insere-se sempre no mundo mítico». E isto porque o mito corresponde a uma experiência originária que o poeta não pode encontrar no círculo limitado da sua visão pessoal ou da sua existência social."


in Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista

segunda-feira, 23 de Julho de 2007

Sábado 21 de Julho - mais um excerto da obra de antónio quadros

«Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista»

"(…)Importa sublinhar, antes de mais nada, que o mito implica uma fundamental distinção entre o sagrado e o profano.O mito é uma imitatio dei, «uma imitação das desta divinas», na expressão de Mircea Eliade. Inserido no mundo profano, o homem não tem verdadeira realidade enquanto não consagra os momentos essenciais da sua existência ao mito que os fundamenta e sustenta. Diz ainda Mircea Eliade que «o homem sé se tornou um autêntico homem, conformando-se ao ensinamento dos mitos, quer dizer, imitando os deuses[1]». Há duas histórias: a sagrada e a humana, tal como há dois tempos: o mítico e o profano. Mas a história humana e o tempo profano só adquirem realidade quando subordinados à história sagrada e ao tempo mítico, que lhes conferem carácter de eternidade. Esse carácter de eternidade é precisamente o que o homem religioso procura para transcender a evanescência e a morte. Daí que o mito exija actualizações cíclicas: os ritos.É indispensável neste ponto distinguir entre «essência do mito» e a sua «estrutura dinâmica e teleonómica», sempre unidas e complementares quando se trata de um verdadeiro mito, isto é, de um mito com raiz no sagrado e no numinoso. Adiantamos que a mitologia marxista ou materialista, exprimindo embora por transferência psicológica, a forma mais exterior do essencial mítico, só se identifica, no entanto, em plenitude, com a sua teleonomia. A sua dialéctica não é mais, efectivamente, do que uma substituição semântica; trata-se de um dinamismo teleonómico, em que as teses e as antíteses correspondem exactamente ao jogo de protecções e de obstáculos que encontra o herói mitológico na sua aventura sagrada, até se atingir, necessariamente, o cenário idílico da vitória dos deuses sobre os titãs, da fundação cosmogónica, da paz sem história, que constitui o «happy end» dos contos de fadas.

[1] Mircea Eliade, «O Sagrado e o Profano (trad. Portuguesa), Lisboa, Livros do Brasil, s.d., p.

sábado, 14 de Julho de 2007

Sábado 14 de Julho - mais um excerto da obra de antónio quadros

O português quer viver, crescer e de um modo geral ser, mas afeiçoou-se a convicções negativistas, nomeadamente ao nível político e educativo, que o conduzem a um auto-envenenamento mental. É porque não acreditamos em nós próprios, no que somos e valemos, no nosso pensamento e na nossa cultura, que em vez de pensarmos a partir daí a renovação das nossas leis, das nossas instituições ou dos nossos sistemas, constantemente, em sucessivos remendos, nos limitamos a importar, a repetir, a copiar ou a adaptar, ao mesmo tempo que nos autocriticamos sem medida e nos negamos. Disse-o de uma forma lapidar Fernando Pessoa, num pequeno texto que por várias vezes tenho citado: «uma nação que habitualmente pense mal de si mesma acabará por merecer o conceito de si que anteformou. Envenena-se mentalmente.» Daí que, acrescentou, « o primeiro passo para uma regeneração, económica ou outra, de Portugal, é criarmos um estado de espírito de confiança – mais, de certeza, nessa regeneração.» Vivemos hoje um período de menoridade e de adolescência regressiva em que, predominando o intelecto passivo, as pessoas se auto-satisfazem e auto-iludem como os lugares-comuns ideológicos, com os discursos demagógicos e com as ideias convencionais de gerações que, para repudiarem um certo tipo histórico de nacionalismo, perderam a própria identidade e já não sabem quem são ou para que são, os portugueses. (…) devido ao cientismo e ao tecnicismos predominantes que o positivismo nos trouxe, sem o acompanhamento de uma educação do intelecto para o desenvolvimento das faculdades superiores do homem, o nosso ensino público dirige-se à mentalidade pueril, não logrando a elevação do intelecto passivo e adolescente até ao intelecto activo e adulto, o que explica a facilidade com que o estudante cai nas mais quiméricas, utópicas ou demagógicas ideologias, com pouca ou nenhuma capacidade de eleição ou de análise.(…).


Conferência proferida em 13 de Dezembro de 1983 subordinada ao tema geral “Que Cultura em Portugal no próximos 25 anos?"

14 de julho

14 de Julho de 1923 nascia em Lisboa

António Quadros

"Só há em mim perguntas sem resposta:


Instinto para amar, para durar,


A grande porta abrir-se-á um dia,


E tudo será noite, ou vida, ou luz..."

segunda-feira, 9 de Julho de 2007

Biblioteca António Quadros


A Biblioteca compreende actualmente cerca de 6000 títulos monográficos, cerca de 60 títulos de publicações periódicas, das quais de 15 são publicações estrangeiras.

sábado, 7 de Julho de 2007

sábado, 7 de julho de 2007 - mais um excerto da obra de antónio quadros

Estamos debruçados sobre o papel branco, como sobre o espelho labiríntico da nossa alma enigmática. Escrevemos, pensamos, libertamos inteiros compartimentos fechados, e logo outros escondidos e logo aqueles, invisíveis, de que jamais suspeitáramos. Existiam realmente, esses universos que o pensamento nos cria, a partir às vezes de uma imagem, de uma palavra, de uma sombra? Sentimos que nunca mais acabaremos, até ao último dia, até ao último minuto, até à última inspiração, de nos aproximarmos, de abrirmos novas portas, de descobrirmos novos espaços. Visitámos em Creta, o labirinto de Cnossos, o palácio onde o signo do labris, o duplo machado sacrificial, foi desenhado em cada divisão acrescentada ao projecto primitivo. Assim, sabemos que um labirinto não é uma série cifrada de corredores, mas uma imensa habitação que se vai construindo através dos tempos, aumentada e remodelada de geração para geração, sendo cada compartimento absolutamente necessário e funcional. Enganam-se aqueles psicanalistas que julgam ter encontrado o mecanismo secreto, a fotomontagem das almas. Uma alma, quando é explorada, penetrada, analisada, quando, sobretudo, se assume como reveladora do cosmos e representante infinitamente complexa do infinitamente grande, amplia-se, cresce, vai formando, lenta e incansavelmente, um corpo invisível, dia a dia maior, dia a dia diferente. (…) Assim, o papel branco do escritor é como a superfície cutânea, na qual um abcesso de fixação vai drenando o curso evolutivo do seu pensamento. O importante é que o canal nunca se feche, entre a elaboração conceptual e a expressão exterior. O importante é que o labirinto nunca se dê por concluído, nunca degenere em sistema circular, nunca se circunscreva num muro, nunca feche a última porta.

António Quados, 'O Movimento do Homem'

quinta-feira, 5 de Julho de 2007

dedicatória de antónio quadros em o «anjo branco anjo negro»

Dedico estas breves histórias a Mircea Eliade, o Mitólogo, que do claro-escuro nocturno do seu pequeno jardim de cascais levou a minha infância à visão do maravilhoso possível a W. Somerset Maugham, o Contista, que numa tarde perdida de Lisboa me revelou a profundeza da intuição que pode haver sob a máscara irónica de quem suporta e vence um destino social a Álvaro Ribeiro, o Filósofo, que naquele assasinado café romântico do Rossio, onde os espelhos barrocos reflectiam ao infinito a imagem dos seres, pouco a pouco me ensinou a pensar como se o pensamento não fosse um absoluto, mas sim o homem pleno e movente, finitamente em busca de si mesmo a Salvador Dali, o Pintor, que na baía irreal de Port-Lligat, onde vogam cisnes e barcas de pescadores, reencontrei igual a si mesmo, sério, ardente e espectacular, fazendo da arte, não um fim, mas um outro elemento de viagem, luta e visão. à Mulher Eterna, fonte da vida, que no desenho do espaço e no ritmo do tempo, inlassàvelmente e com beleza se no momento excepcional, ensaia uma transcendência e invoca uma reintegração que do Homem esperam a palavra retardada e conclusiva.
(...)Olhamos para dentro de nós e apercebemo-nos que fomos pouca coisa, de que somos pouca coisa. Escrevemos livros, sobretudo um livro, montámos toda uma teoria de respostas satisfatórias para as nossas mais fundas interrogações, julgámo-nos senhores de um saber superior ao da maioria dos nossos amigos ou comtemporâneos, mas sempre a mesma pergunta contundente e inevitável. O que se encontra, meu Deus?

António Quadros, «Uma Frescura de Asas».

domingo, 1 de Julho de 2007

O futuro da cidade

"(…) o retrato psicológico e psicográfico de Lisboa não ficaria completo sem um aprofundamento da arquitectura que, em Lisboa, mais perfeitamente assume a verdade portuguesa, a dimensão da natureza. Ela é como que o coroamento ou a culminância de uma vivência que, quanto a mim, está espelhada e espalhada em toda a cidade(...)"

Segundas - João Pereira Coutinho Terças - Fernando Ilharco Quartas - Viriato Soromenho MarquesSextas - Paulo Tunhas Sábados – António Quadros (António M. Ferro, Org.)

sexta-feira, 29 de Junho de 2007

interrogar é já crer, a descrença humana não existe.
In ode à crença, 1996

segunda-feira, 25 de Junho de 2007

António Quadros

"o escritor e a sociedade", programa de Álvaro Manuel Machado (RTP, 1983)

domingo, 24 de Junho de 2007

O tempo de Deus é o tempo da atenção. O tempo de Deus é hoje.

in, Histórias do Tempo de Deus.

sábado, 23 de Junho de 2007

O sorriso do arquivo no tempo da rede (hoje: António Quadros - António M. Ferro, Org.)
Mito e Utopia, «o movimento do homem»
(…)o mito do regresso ao Paraíso, poetado entre nós por Teixeira de Pascoais, atravessa desde o orfismo vários tempos, civilizações e mesmo religiões, transposto em diversas línguas, com diferentes imagens e personagens, mas articulando-se sempre à apetência dinâmica numa relação vivaz de ideal e real. É um mito que, constituindo-se revelação sobrenatural acerca de princípio e fim, exprimindo a possibilidade maravilhosa de génese e redenção constantemente se coaduna ao meio, que é o homem. Entre o Deus, dimanante da génese e o Deus absorvente da redenção, situa-se o homem viandante. Temos pois, idealmente, um princípio e um fim do movimento humano. Não poderá este movimento reger-se apenas por fins e princípios ideais, mas no plano existencial, ele manifesta-se por dois modos, pela saudade e pela razão. A saudade, que é um sentimento de feição religiosa, um sentimento por assim dizer numinoso, isto é um sentimento que ultrapassa e transcende o fenómeno, porque radica no nómeno e pode, por conseguinte, não ter sequer a mínima determinação fenomenológica, a saudade é a típica expressão sentimental do mito. O mito parte do homem, regressa ao homem, e sempre o dinamiza algo de pré-racional, uma apetência de todo o ser, lembrança e desejo talvez, como o definiu Pascoais, algo, já noutro plano, que manifesta aquela mesma noção de que um estado não é em si, pois se une moventemente ao que foi (lembrança) e ao que será (desejo).
(…) se ao mito se liga o sentimento da saudade, à utopia e à ucronia, liga-se o sentimento da angústia, que constitui a ontológica e sentimental pedra angular dos modernos sistemas metafísicos da Alemanha e da França. Compreende-se facilmente porquê: a saudade implicando a perda, a ausência, o desgarramento, todavia não exclui o desejo, a expectativa, a esperança, já que a margem de enigma e mistério do mito deixa à acção humana uma liberdade de decisão e iniciativa; correlativamente a angústia, emparedada entre o nada e o não ser, traduz o inelutável de um movimento todo exterior, que antecipou abusivamente o seu fim, que o acredita mentalmente já realizado e julga em consequência de estar à beira de um destino definitivo, de uma coisificação de determinado estado de consciência, que aparentemente é ou será «o melhor dos mundos», mas ao qual falta o que é acima de tudo essencial para o movimento humano.

sexta-feira, 22 de Junho de 2007

III – PRINCIPAIS LINHAS QUE CARACTERIZAM SEU PENSAMENTO E PRODUÇÃO LITERÁRIA E CRÍTICA (do ensaio de joão ferreira)

No estudo da obra e do perfil intelectual de António Quadros, é fundamental detectar algumas linhas básicas que caracterizam sua luta cultural e toda a sua personalidade de pensador e de escritor. Entre elas, colocamos: o franciscanismo, a paidéia e a identidade portuguesa, o estudo da espiritualidade e da simbologia heterodoxa do movimento religioso do Espírito Santo em Portugal desde o reinado de D. Dinis, no século XIV, o império do Espírito Santo, a existência literária portuguesa, o marco da especificidade da culturalidade portuguesa, a existência da filosofia portuguesa, a figura poética e pensadora de Fernando Pessoa, o modernismo português, os marcos referenciais do movimento da Presença e do Neo-realismo Português, o maravilhoso, o sagrado e o mítico, artes símbolo e arquétipos, Agostinho da Silva, profeta do III milênio, misticismo e espiritualismo na cultura portuguesa, existencialismo como problemática da existência e a fenomenologia como método de análise e interpretação,etc. E muitas mais linhas são passíveis de estudo em sua obra.

quinta-feira, 21 de Junho de 2007

Poesia chorada, como o mar sob a chuva?
Poesia aflita, como um farol no denso nevoeiro?
Poesia angustiada, como a futura mãe?
Alegre o olhar, os meus dedos são mensageiros dos deuses
E cantam o que me sobra e eu não sei entender.
Alegre o coração, escapa-se de mim um fumo de dor,
E enquanto rio, sou também lágrimas e soluços.
O acordo é uma promessa do paraíso perdido mas não morto,
pois as suas portas choram por mim em mim.

o banquete infinito, antónio quadros
todos o sábados, no miniscente de luis carmelo escavações contemporâneas - o sorriso do arquivo no tempo da rede

Segundas- João Pereira Coutinho
Terças - Fernando Ilharco
Quartas - Viriato Soromenho Marques
Quintas - Bragança de Miranda
Sextas - Paulo Tunhas
Sábados - António Quadros (org. António M. Ferro)

quarta-feira, 20 de Junho de 2007

Carta a António Quadros - João Bigotte Chorão
António Quadros - o perfil de um pensador, por João Ferreira

Trata-se de um dos mais ativos e produtivos escritores portugueses do século XX. Oriundo de uma família de intelectuais, teve em seu pai Antônio Ferro, amigo de Fernando Pessoa e editor do primeiro número da Revista “Orpheu” e na mãe, a poetisa Fernanda de Castro, incentivadores para uma avançada cultura, erudição e apego às letras. Nascido em Lisboa em 1923, freqüentou em sua juventude, a Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa onde ganhou o diploma de Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas. Sua trajetória de intelectual e de escritor, começou muito cedo. Foi um dos fundadores dos jornais de cultura Acto (1951), 57 (1957) e da revista Espiral. Tornou-se um dos diretores do Serviço e Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, sucedendo a Branquinho da Fonseca e a Domingos Monteiro com quem trabalhou desde o início deste serviço. Foi um dos organizadores e membro da primeira direção da Sociedade Portuguesa de Escritores.Como poeta, ficcionista, crítico, pensador, filósofo e cientista da cultura, cultivou com brilho a literatura de idéias. É claro que os arquivos da família Ferro, a Biblioteca Nacional de Lisboa, o Centro Nacional de Cultura, as editoras Europa-América, Lello & Irmão Editores e Publicações Dom Quixote, e os testemunhos dos membros ainda vivos do grupo da Filosofia Portuguesa e seus amigos intelectuais deverão ter ainda muitas memórias, informações e um rico arquivo bibliográfico para enriquecer sua memória. Apesar de estarmos longe dos arquivos lusitanos, vamos tentar agregar, mesmo assim, alguns dados ao alcance do nosso conhecimento para que não se prolongue por mais tempo na Internet o injusto vazio da memória desta grande figura da cultura portuguesa do século XX.