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domingo, 2 de dezembro de 2012

Ardentes e sinceros

"Sejamos todos nós, escritores e artistas, ardentes e sinceros missionários da verdade mais vitalmente profunda que soubermos conquistar pela beleza das palavras e das imagens."

António Quadros
A Existência Literária (1959), p. 36.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Fidelidade essencial

"Quando Fernando Pessoa identifica a pátria com a língua e não a língua com a pátria está proclamando a sua fidelidade essencial ao espírito, e não às manifestações mais terrenas e contingentes que são as nações e as sociedades." 

 António Quadros

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Regresso de Fernando Pessoa


"[Fernando Pessoa] toma a decisão da sua vida: regressar a Portugal, de onde partira com 8 anos, deixando a mãe, o padrasto e os irmãos na África do Sul e arriscando-se a viver num meio que lhe é praticamente desconhecido. Assim, em Agosto de 1905, com 17 anos, parte para Lisboa, para se matricular no Curso Superior de Letras. Quais os motivos desta decisão, que deve ter sido dramática para um homem da sua sensibilidade? Não será difícil conhecê-los e compreendê-los. Sozinho com a mãe, depois do desaparecimento do pai e do irmão, sobre ela terá projectado toda a sua afecticidade e dela ao mesmo tempo terá recebido o amor exclusivo que as suas carências infantis exigiam. Mas o segundo casamento, a mudança súbita de vida, a difícil integração num novo lar que não terá sentido como inteiramente seu, o nascimento, um a um, dos irmãos, que decerto mobilizaram a maior parte da atenção, do carinho e até do tempo da sua mãe, também partilhados com o padrasto, que tomava o lugar do pai, tê-lo-ão acossado à solitude e à mágoa insatisfeita de que dá testemunho a sua poesia do Cancioneiro. (...) Uma das grandes linhas de força da personalidade e da obra de Fernando Pessoa, o sentimento patriótico, mergulha efectivamente as suas raízes emotivas nessa múltipla saudade: saudade do pai, saudade do lar e da família em que "ninguém estava morto", saudade da Pátria onde fora feliz, onde ficara o Pai e com o Pai se lhe identificaria pouco a pouco a sensibilidade, na imaginação, na memória inconsciente. (...)" 

 António Quadros 
Bruxelas, Junho de 1989

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Sentido, lógica...justificação?


‎"Reencontrará o Estado português o seu sentido, a sua lógica e a sua justificação? (...) Terá a grandeza de estimular discretamente e sem exigências de pagamento os nossos pensadores e personalidades criadoras, em vez de os marginalizar por razões políticas, universitárias ou outras?"

 António Quadros

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Ser português é uma filosofia

"Compreendi que, para pensar a existência, devia assumir e desposar os modos de existência que me eram próximos e palpáveis. Ser português era a categoria metafísica da minha raiz. A partir daqui cresceria a minha árvore ou outra opção não teria senão o destino de líricos ou historiadores que vem sendo fado de tantos dos que entre nós se dedicam ao pensamento.
(...) Ser português é, desde logo, uma forma de comunicação do homem com o mundo. Ser português é um pensamento. (...) É uma filosofia. (...)"

António Quadros
"A Cultura Portuguesa perante o Existencialismo"
em Sartre e o Existencialismo de Ismael Quiles
(Arcádia, 1959), pp. 30-31

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Em sinal de luto

Sampaio Bruno

"Nada me demoveu. Fui inabalável. Não estou arrependido. Abandonei a política para sempre. Mas deixei crescer as barbas, em sinal de luto. Grandes barbas semeadas de cãs, a forma que encontrei para todos se lembrarem, ao cruzarem-me na rua, da minha mágoa por um regime que ajudei a implantar, mas que tendo-se desviado do caminho certo, seguia por atalhos precários e perigosos."

António Quadros
com Sampaio Bruno na primeira pessoa
em Uma Frescura de Asas (1990) p. 114

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Invasão

"A sociedade possessiva invadiu o domínio imaterial das ideias."

António Quadros
Franco-Atirador, (1970), p.134

Do mito

"O homem age inconscientemente, os seus gestos inscrevem-se em inércia, visto que o movimento real é o mito."

António Quadros
Introdução à Filosofia da História 
(1982), p. 227

Pruridos

"Nunca os teorizadores de uma filosofia portuguesa ou de uma filosofia de língua portuguesa pretenderam afirmar uma sua existência positiva com finalidades de enaltecimento nacionalista e restrictivo, e muito menos criar uma tradição filosófica para satisfação de pruridos autolátricos, castiços ou aristocráticos."

António Quadros
O Movimento do Homem
(1963), p. 317

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Religioso ou laico

"Religioso ou laico (...) que haja movimento do homem e que este não seja apenas positivo, material e técnico."

António Quadros
Jornal 57, nº 7, Novembro de 1959

domingo, 2 de setembro de 2012

Da razão social

"Não sabemos se há Deus? Não temos um critério de verdade que digira os nossos actos? Procedamos como se Deus existisse, como se o Estado fosse justo, como se a razão pura tivesse em si a garantia de uma autenticidade. Por outras palavras, e encarando o problema do ponto de vista político: como se o maior número, ou a razão social, constituíssem o selo da verdade; como se o super-homem, ou a razão da vontade, justificassem o direito pela própria virtude da vontade mais forte; como se o indivíduo, ou a razão psicológica fossem justificados em fazer prevalecer, contra o mundo, a superioridade do «ego»; ou ainda como se um futuro ou a razão histórica constituíssem critério para o drama dirigido do presente."

António Quadros
A Existência Literária (1959), p.118

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Modo de ser em sociedade e no mundo

"Talvez a última palavra nos pertença, a nós, portugueses, se soubermos quem somos e para que somos, não tanto à luz de uma vontade de afirmação nacionalista quanto à de um modo de ser homem em sociedade e no mundo."

António Quadros
Portugal, Entre Ontem e Amanhã
(1976), p.309

terça-feira, 22 de maio de 2012

Não foi de burro

"Não foi de burro, ajaezado à andaluza, mas de smoking, isto é, de grande burguês em traje de gala ou de «lepidóptero» engalanado, o que ia dar ao mesmo (...)."

António Quadros
da Introdução a Obra Poética Completa, de Mário de Sá-Carneiro
Publicações Europa-América (1991), pp. 19-81

Uma nova realidade aqui


"Talvez que o mais original da escrita de Mário de Sá-Carneiro seja não propriamente o insólito das situações e das personagens que elaborou, projecções de uma realidade-além e de um homem-Outro, isto é, dupla aspiração quimérica de uma objectividade e de uma subjectividade diferentes das que o envolvem e definem social e psicologicamente no extrínseco do ser, mas o modo surpreendente como utilizou os adjectivos e os advérbio ao serviço da tal diferença, procurada e obtida, fazendo-os caracterizar ou ferir os substantivos e os verbos (...) de forma tão singular, bizarra, insólita e contudo intencional, que dir-se-ia pretender o escritor a criação de uma nova realidade aqui.

António Quadros
da Introdução a Obra Poética Completa, de Mário de Sá-Carneiro
Publicações  Europa-América (1991), pp. 19-81

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Da arte de contar


"A arte de contar mergulha as suas raízes num mundo primitivo ou primordial que, no entanto, nos habita ainda. Arcana ars foi o centro irradiante de onde nasceram, em formas cada vez mais independentes e separadas, a poesia, o drama, o actual romance e, até, a filosofia, se nos lembrarmos de que nos filósofos pré-socráticos, mesmo num Platão ou num Plotino, o mito mal se deixa cobrir pela reflexão. Contar foi reconstituir em palavra, em voz e em música os actos originais que fundaram o cosmos e o homem. Contar, imitando o ritmo do verso o próprio ritmo da natureza e dos ciclos criadores estabelecidos pelos deuses e, pelos génios e pelos heróis, foi manter viva, através de gerações e para além do tempo, uma tradição apontando a mitos antigos e eternos pelos quais os homens se habilitariam ao «conhece-te a ti mesmo» que, em Sócrates, aparece repetido e todavia de certo modo negado. Contar foi, afinal, interpretar o tempo presente à luz de um tempo cujos pontos idênticos e equidistantes existem infinitamente longe no futuro, de tal modo que, em última análise, passado e futuro se dão as mãos graças à palavra, anuladora do tempo, do contador de mitos ou de histórias. Assim, no mais significativo dos contos em terra portuguesa originados, o conto dos Lusíadas-argonautas que Luís de Camões narrou em estâncias epopeicas, a gesta do descobrimento é actualizada em mito, não com algo que existe no passado, mas com algo que coexiste e coexistirá sempre ao tempo dos Portugueses, dinamizando toda a sua história e marcando ao futuro uma interpretação que transformará o ciclo da viagem-tempestade-descoberta-regresso em substância de uma vida reintegrada nos arcanos divinos - pois também o homem parte, sofre e só depois de se encontrar poderá reintegrar-se no seio de uma realidade transcendente e primordial. (...)"

António Quadros
Do prefácio a Adeus, Amigo!... (1960)
de Maria Irene Dionísio

terça-feira, 15 de maio de 2012

No caminho para uma comunhão futura

‎"Justiça, liberdade e desenvolvimento iluminar-se-iam sob um novo foco e poderiam reconciliar-se no caminho para uma comunhão futura, se pudéssemos colocar ao seu lado, no mesmo plano de urgência, os valores da beleza, de amor e de verdade."

António Quadros

sexta-feira, 11 de maio de 2012

1888


"A avaliar por alguns textos até 1979 ainda inéditos e publicados em Sobre Portugal*, Fernando Pessoa terá chegado a admitir que o Encoberto era... ele próprio. Esta convicção é rastreável pelo menos entre as datas de 1925 e 1928 ou 1929, não é tão insólita como pode parecer à primeira vista, se considerarmos:
  1. A adesão de Pessoa ao conceito de uma República Aristocrática; logo, a transferência de uma Rei hereditário para uma personalidade «eleita» do alto.
  2. A desilusão, não só pela morte de Sidónio, mas sobretudo pela pouca influência que o Presidente-Rei deixou atrás de si.
  3. A sua exigência de um Quinto Império, não material, mas cultural e espiritual.
  4. O seu conceito de que os verdadeiros criadores de civilização são as grandes figuras intelectuais, como  Camões, Shakespeare - e o anunciado Supra-Camões dos artigos de 1912 na Águia.
  5. A sua insinuação de que esse Supra-Camões viria a ser o poeta então desconhecido que já experimentava dentro de si a força de um grande génio criador.
  6. A consciência da sua espiritualidade supranormal, ponteada de inspirações, iluminações, visitações enigmáticas e até fenómenos místicos, conforme vimos no capítulo anterior.
  7. Daí, a crença de que ele próprio era, como vimos, um Emissário, comissionado do Alto para trazer uma Mensagem de salvação ao povo português.
  8. Crença esta por assim dizer confirmada pela sua descoberta de que a Ordem Templária de Portugal estaria extinta em dormência desde cerca de 1888, data do seu nascimento, e de que, por conseguinte, o testemunho lhe fora passado por força do destino.
  9. E, por outro lado, a convicção de que ninguém, como ele próprio, teria entre os seus contemporâneos a capacidade de ser mais paradigmaticamente português, isto é, de ser tudo, de todas as maneiras, ou, como cantou pela voz de Álvaro de Campos no extraordinário poema, já citado, Afinal a melhor maneira de viajar é sentir - sentir de todas as maneiras (...)
  10. A certeza de que ninguém, entre os Portugueses, preencheu tão cabalmente aquela condição, ele que foi não só Fernando Pessoa, mas também Campos, Reis, Caeiro (...) desta forma realizando em sia, de forma fingida mas real, aquela supra-humanidade ou aquela semidivindade que funda o paganismo. Lembremos aqui a sua citação de Píndaro: A raça dos deuses e dos homens é uma só.
  11. Enfim, a sua descrição astrológica de uma das quadras do Bandarra, a que mais adiante nos referiremos.
Assim este homem ensimesmado, angustiado, quase apagado e aparentemente modesto, por alguns anos guardou para si, com a megalomania do génio, não diremos a convicção, mas a suspeita de que, mais do que um Emissário, seria talvez um Intermediário pesado de transcendência, esse encoberto misterioso predito pelo Bandarra e que teria vindo a esta terra infeliz para fundar o Quinto Império, o Império do Espírito Santo. (...)"

António Quadros
"1888" em Fernando Pessoa - Vida, Personalidade e Génio (1984) , pp. 244-248


[Sobre este assunto vale ainda a pena ler o texto "Fernando Pessoa - Eu ser descoberto em 2198", de Jerónimo Pizarro publicado na Revista Ler nº 109, Janeiro de  2012, disponível aqui.]

*Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

O toiro celeste passou


"O Toiro Celeste Passou [Afonso Botelho, 1965] não é apenas a sua melhor novela: é também, não hesitamos em afirmá-lo, uma das mais invulgares novelas com que pode contar a nossa literatura contemporânea. (...) A novela flui com naturalidade, a partir de um dado inicial ou fabuloso, de função provocadora e dialéctica. (...) Este processo dá efectivamente à novela um cariz existencial que se irá confirmando pouco a pouco. Apresenta-nos Afonso Botelho a dialéctica da honra e da verdade, que também pode traduzir-se como dialéctica do personalismo e da filosofia. Mas onde, quanto a nós, Afonso Botelho supera a interpretação puramente kafkiana ou existencialista, é na coincidência com outras dimensões que abrem a simbólica da novela a uma amplitude muito maior. (...) Sejamos um pouco mais precisos. A novela abre com uma epígrafe aparentemente enigmática, mas que justifica inteiramente o seu titulo: Nout, a deusa do céu, acolhia o sol como o Toiro celeste, incarnação da virilidade (Textos da Pirâmide). Logo, apresenta-nos quatro amigos, de caracterologia diferente e bem marcada, jogando às cartas e conversando. Qual seria a sua reacção quando postos face a face com a sua própria verdade, com a verdade que o homem-pessoa, que o homem-convencional oculta de si próprio e sobretudo dos outros? É então que, provocado e invocado pelo diálogo, o toiro celeste passa, deixando na cabeça de cada um o ornato que tradicionalmente significa a infidelidade da mulher. (...)"

António Quadros
"Entre o Amor a Morte, entre a Honra e a Verdade" 
em Estruturas Simbólicas do Imaginário na Literatura Portuguesa (1992), pp. 158-159
[de artigos publicados no Diário Popular, de 11-08-1966 e de 19-03.1967]

terça-feira, 10 de abril de 2012

Filosofia insuficiente


"A filosofia dos liceus é pobre demais, historiográfica de mais, esquemática demais para substituir o acesso a uma filosofia do ser e do espírito, a uma filosofia do homem, a uma filosofia da sociedade, a uma filosofia da ciência, a uma filosofia da natureza, a uma filosofia da técnica, a uma filosofia do direito e da política, sem as quais não se atinge mais do que um saber fragmentário, cindido do real, inapto para a integração do homem na problemática do viver e do conviver, útil para o desempenho limitado da profissão escolhida, mas insuficiente para que o licenciado possa dar uma colaboração criadora, inventiva, personalizada e cumulativa à sociedade onde deveria inserir-se de modo dinâmico e harmónico."

António Quadros
Franco-Atirador (1970) p.228

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Gostava de ser pulgão e viver numa roseira

Georges Duhamel

"Sou incorrigível. Cheguei hoje a esta conclusão luminosa. Dela se liberta, pouco a pouco, uma verdade de tal maneira amarga, que chega a ser reconfortante. Sim, sou incorrigível, eu e todos os homens. Se os homens pudessem melhorar, seria muito triste pensar que não o fazem. Mas pensarque não têm esse poder, leva-nos, pelo menos, a uma infinita indulgência. Indulgência que, no fim de contas, não consigo sentir, visto que a indulgência me falta por natureza, e a natureza é imutável. É bem claro. Não pode ser mais claro. Devia ter sido razoável e não ter querido coisas extravagante! Santos! Minha mãe talvez seja santa. Minha mulher, também. (...) Neve. Frio. Economizo o mais que posso, pois este fim de mês, que também é fim de ano, é particularmente duro. Quase tudo o que me restava, dei-o à minha família. Vivo acocorado junto a um fogãozinho  que anda ao retardador. Enquanto escrevo, observo a mão que segura a caneta. Pertencerá a Salavin? Nunca a tinha examinado tão cuidadosamente. Não me agrada. É feia. Nem sei como pude julgar que viria a ser qualquer coisa de puro, tendo umas mãos assim.
Gostava de ser pulgão e viver numa roseira."

Georges Duhamel
Diário de Salavin (1945)
Trad. de António Quadros