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quarta-feira, 8 de julho de 2015

Ferreira de Castro e os jovens autores do romance nordestino

"É pouco referida a influência que os dois primeiros romances de Ferreira de Castro, Emigrantes e A Selva, tiveram nos jovens autores do romance nordestino da década de 1930, nomeadamente Jorge Amado e José Lins do Rego. Creio que Álvaro Salema terá sido o primeiro a escrevê-lo explicitamente. Numa excelente conferência sobre «O romance brasileiro actual», proferida no início dos anos sessenta, António Quadros, já em balanço final e referindo-se à tradição portuguesa da ficção narrativa do Brasil, associa o portuguesíssimo e universalista escritor português sem outra razão aparente que não seja a de evocar o poderoso romance que tem por cenário a magnitude vegetal amazónica, ora edénica ora -- as mais das vezes -- infernal, descrita como nenhum brasileiro o fizera. (...)"

Ricardo António Alves

sábado, 9 de agosto de 2014

Ribeiro Couto


"Cabocla é um poema. O poema do sertão, o poema da moça de estaçãozinha pobre que Ribeiro Couto trazia dentro de si desde as suas primeiras viagens pela serra acima. 
No símbolo que encerra, Cabocla está na linha da Cidade e as Serras de Eça de Queiroz e Pureza de José Lins do Rego. No ataque à artificialidade da vida citadina e na apologia da vida simples, «natural». (...) Mas enquanto em Eça ou Lins do Rego este símbolo toma uma importância considerável, para não dizer fundamental, em Cabocla, a sua importância é apenas acessória. Porque tudo o que não seja poema, neste romance, é acessório. (...)"

António Quadros
"Cabloca, o romance da saudade", Modernos de Ontem e de Hoje
Portugália Editora (1947), p.180

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"Sabíamos, pela direção do rumor, qual das crianças se movera na cama, no quarto ao lado. Robertinho tinha mau dormir e dava surdos pontapés na parede. Mariazinha sonhava em voz alta. Meu conhecimento do chão era minucioso. Evitava todas as tábuas em falso, todas as asperezas que podiam magoar-me os joelhos, todos os trechos do corredor em que o madeiramento rangia. Adivinhava no escuro os pontos da parede em que me podia apoiar sem enfiar a mão em buracos do adobe, que sugeriam sempre a vida obscura de desconhecidos insetos. (...)"


Ribeiro Couto
Cabocla (1931)

terça-feira, 22 de julho de 2014

Pedra Bonita de José Lins do Rego


"José Lins do Rego, escritor nordestino, da Paraíba, foi e continua a ser um dos romancistas brasileiros mais apreciados em Portugal, onde estão editados quase todos os seus livros. Não poderemos considerá-lo um autor regionalista, porque procura dar e dá a visão em profundidade da paisagem humana, social e física do Nordeste, quer no sentido da sua identificação, quer num sentido psicológico, sociológico e ético, nunca cedendo à tentação, comum nos anos trinta e quarenta, de fazer literatura de subordinação ideológica ou política.
De entre os seus melhores romances (...) Pedra Bonita avulta como um dos mais poderosos, senão o mais radical e profundo no esboço das suas figuras de tragédia, embora num contexto aventuroso, épico e místico. Tem continuação em Cangaceiros, mas agora antes com acentuação no tema do cangaço onde se misturam o crime, a vingança, o carisma heróico do bandido, um código de honra, a violência desapiedada, a luta do bem e do mal, o ódio e também por vezes a força de sentimentos recalcados como o amor filial ou fraternal, pois Domício, o tocador de viola, irmão de Bentinho, um dos fanáticos da Pedra, acabou por juntar-se ao chefe dos Cangaceiros, o seu outro irmão, Aparício. Pedra Bonita não narra propriamente os episódios de 1838, atrás citados. É sobretudo o romance do destino implacável, do fado inescapável, do mythos trágico no sentido grego. Se o mito sebástico fora até aqui patriótico, entre saudosista e profético, simbólico de uma esperança ou de uma aposta no maravilhoso, de um dinamismo messiânico, embora onírico, mas representativo de um pathos nacional, Lins do Rego ergue, com o seu António Bento, uma figura de tragédia sertaneja, segundo o arquétipo das personagens de  Ésquilo e de Sófocles. (...)"

António Quadros
Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista (1983) p. 202

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

José Lins do Rego



"Nos romances de Lins do Rego, nada é feito em função das personagens, como no caso de Érico Verissimo, nem em função do tema, caso de Jorge Amado. Tudo é feito em função do seu lirismo temperamental, tendo como principal objectivo, a valorização desse lirismo. Lins do Rego afasta-se, assim, dos dois polos, à roda dos quais mais tem girado a literatura moderna: romance de análise e romance de tese. Não se trata de um lirismo do tipo Saroyan, a que poderemos chamar de lirismo simbólico, nem tão pouco de um lirismo do tipo Katherine Mansfield, lirismo proveniente da análise individual, ou de um lirismo do tipo Alain Fournier, lirismo de ambientes e de uma concepção isolada da realidade. Se quisermos empregar sínteses, diremos de preferência que o lirismo de Lins do Rego é dramático. Pessimista e triste. Melancólico, numa palavra. A melancolia das pequenas povoações perdidas no interior do Brasil - Pureza, Pedra Bonita, o Assú - daquela vida parada, sem horizontes, sempre a mesma. Aqueles homens sós, aqueles dramas sem projecção, isolados, paisagens grandiosas e esquecidas, esquecimento, o tempo que corre e nada acontece, nada, sempre a mesma vida, constituem matéria de Lins do Rego. Homens do interior e a paisagem, e o ambiente a pesar sobre eles, e um pequeno-grande acontecimento que vem agitar aquela tranquilidade, eis a essência dos seus romances. (...)

António Quadros
"O lirismo de José Lins do Rego", Modernos de Ontem e de Hoje
Portugália Editora (1947), p.132

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

"António Quadros um jovem crítico português"


"Talvez não estejamos desligados de Portugal, dos escritores portugueses contemporâneos, tanto quanto se diz. Há sempre os leitores de António Sérgio, João Gaspar Simões, Casais Monteiro, José Osório de Oliveira, Manuel Anselmo, sem falar dos poetas, é de um crítico jovem que quero tratar, de António Quadros, que reuniu em "Modernos de ontem e de hoje", os seus ensaios literários dos vinte anos, um voluminho simpático (Portugália Editora, Lisboa) que nos traz um mundo de escritores, de artistas que lhe serão caros e que encontram eco na nossa sensibilidade.  António Quadros diz as coisas que ele pensa com um jeito (fino, essa delicadeza incomum em alguns críticos, e os seus ensaios acabam sendo uma ronda amorosa em torno de escritores e ideias. Ronda de que ele não exclui os brasileiros, um José Lins do Rego, um Ribeiro Couto, um Enrico Verissimo. (...) António Quadros mostra, à medida que vamos entrando na sua intimidade, no seu convívio com os livros, uma inteligência muito sensível que pouco tem de adolescente, de vinte anos, que mais parece revelar um velho habitus literário. (...) Não sei de nada sobre ele a não ser este livro, não conheço referência a ele em outros escritores, mas acho que sei alguma coisa, acho que sei um pouco desta sensibilidade devotada ao belo, ao humano, que se oferece à gente neste volume de trezentas páginas. Os seus ensaios provam uma vivência literária e um estado intelectual e lírico que a gente encontra com menos assombro num Roberto Alvim Corrêa, num Augusto Meyer, para falar nos nossos, do que neste companheiro de vinte anos. (...)"

Carlos David
"Um jovem crítico português", Letras e Artes (Suplemento de "A Manhã") 
16-03-1952