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quarta-feira, 3 de junho de 2015

Uma realidade conhecida e exercida pelo pensamento



"O problema principal do elenco de teses consiste na demonstração de que a filosofia é uma teoria de verdade, e não propriamente uma teoria do ser ou Ontologia, teoria essa que se erige perante uma realidade conhecida e exercida pelo pensamento, reconhecendo-se como o mundo sensível é real, mas a cujo íntimo só à filosofia, e não à ciência, é dado aceder."

Pinharanda Gomes
do Posfácio a
"As teses da Filosofia Portuguesa", de Orlando Vitorino
Guimarães (2015)

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Distribuição da pobreza

"O governo das sociedades contemporâneas é orientado segundo um princípio absolutizado e universalizado, a que tudo se deve subordinar: o princípio da economia. O predomínio absoluto deste princípio começou por constituir a arma que conquistou para a burguesia o domínio das sociedades. Conquistado esse domínio, logo o princípio da economia se revelou instrumento da mais flagrante e dolorosa injustiça. Multiplicaram-se as suas vítimas vertiginosamente, até abrangerem a quase totalidade dos homens. Quando essa injustiça, assim estabelecida, ficou patente e adquiriu as proporções de escândalo, procurou-se atribuir às modalidades e processos de aplicação do princípio, não ao próprio princípio, a sua origem e causa. Mantendo-se assim, no seu pedestal, esse princípio absoluto e único, reforçando-o e elevando-o até mais alto, dividiram-se em duas correntes principais os adoradores do ídolo - chamaram-se uns socialistas, chamaram-se outros capitalistas. O que os distingue é apenas a modalidade, o processo daquilo que ambos os grupos designam por «distribuição da riqueza», designação sarcástica pois do que efectivamente se trata é da «distribuição da pobreza». De qualquer modo, o ídolo é o mesmo, o princípio fica intocável e sua soberania continua a ser total. (...)"

 Orlando Vitorino 
"Suaves Cavaleiros" «A Ilha», nº4/1 a 14, Jan.1971

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Ferrer-Correia, Orlando Vitorino e Robert Gulbenkian

António de Arruda Ferrer-Correia, Orlando Vitorino e Robert Gulbenkian no 25º aniversário do Serviço de Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian. Fonte: Boletim Informatvo da FCG VI Série, nº 4, Março de 1985.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Razão pura


"A possessão da natureza só ficará plenamente justificada, só se tornará inteiramente possível e só atingirá a finalidade que, por intermédio da ciência, se propôs e nos nossos dias parece já ter alcançado, quando a natureza se afigurar ao homem como mundo de ilusão e da fábula, mundo portanto sem realidade, sem essência nem necessária existência, mundo de formas e corpos que, em si inertes e sem vida, são movidos por forças que em si próprios não contêm mas lhe são alheias e extrínsecas e não neles, mas só no pensamento abstracto ou do que chegará a chamar-se «razão pura», revelam seu segredo. (...)"

Orlando Vitorino
Refutação da Filosofia Triunfante, (1976) pp. 63-64

sábado, 19 de maio de 2012

"Aparentemente conciliador mas intimamente revulsivo."


"103.º Dia

Com o seu inesgotável talento, aparentemente conciliador mas intimamente revulsivo, António Quadros descreve, numa palestra pública, como é que, há longos longos anos, o Estado não atende à voz dos «intelectuais», fenómeno que explica a crise que, há longos longos anos, se instalou entre nós. Não atende, quer dizer, não entende. Porque é que os «intelectuais» não deitam mão ao Poder?"

104.º Dia

(...) Que obstáculo se interpõe entre os «intelectuais» e os poderes do Estado? Shakespeare, que sabia destas coisas, fez dizer a Júlio César: «Cássio é homem perigoso. Lê muito e pensa demasiado».
Vou eu andando na rua a pensar nisto tudo e dou de caras com o Manuel Múrias que logo, truculento como uma personagem shakespereana me atira: «Sou muito seu amigo, mas já preveni na família: este Orlando Vitorino é o homem mais perigoso que há em Portugal. Se ele ganha as eleições, sou o primeiro a fugir». Não há dúvida: o Múrias também sabe destas coisas."

Orlando Vitorino
em "O processo das Presidenciais 86",
(1986), p. 62

sexta-feira, 9 de março de 2012

Meu Caro António Quadros

António Quadros, António Telmo e Maria Antónia
"Estremoz
31 de Maio de 1986

Meu caro António Quadros

(...)

Eu vejo no seu livro [Portugal, Razão e Mistério], não obstante o seu autor parecer ou julgar dizer o contrário, uma dimensão interior, quiçá inconsciente, convergindo com a posição dos nossos mestres [José Marinho e Álvaro Ribeiro]. A imagem da Pátria é a de um povo nómada, navegante do tempo por sete graus sucessivos; se a ideia não fosse prejudicada pela imagem genealógica da árvore cujas raízes afundam na terra megalítica, o mesmo paradigma numeral explicaria talvez nos sete climas dos barcos que construímos cortando a árvore. Mas a minha alegria é a de ver que o grupo da filosofia portuguesa se revela bem vivo, no pensamento, através de livros de excepcional valor, como os do Orlando [Vitorino], os do Pinharanda [Gomes], os seus. Disse-me um dia o António Quadros, na minha casa em Estremoz, que não lhe parecia que nenhum de nós fosse capaz de realizar uma obra verdadeiramente filosófica como a do Álvaro Ribeiro ou do José Marinho. Vamo-nos superando e este seu livro é já um grau acima dos outros. O que nos dirão o segundo e terceiro volumes?
Só depois, pelo menos do segundo, uma vez de posse de todos os elementos do seu pensamento, lhe escreverei a carta prometida. Esta é mais o testemunho da minha amizade e da minha solidariedade espiritual consigo. Interessa-me particularmente a relação que estabelece entre a Igreja de Pedro e a Igreja de João, mas, antes da publicação do segundo volume, é prematuro reflectir consigo sobre essa relação, pôr interrogações, levantar obstáculos, traçar vias.
(...) Faço votos que obtenha a mais vasta e, sobretudo, profunda influência.
Aproveito a ocasião para lhe agradecer os dois volumes de «Fernando Pessoa». Aqui também todos temos de reconhecer que o António Quadros é o único que tem sabido pôr as coisas no lugar sobre o grande poeta e quem quiser estudá-lo e compreendê-lo terá de passar através do que V. tem vindo a escrever.
Creia que sou inteiramente sincero. Se não o fosse, não teria junto atrás um apontamento de objecção que desenvolverei na carta prometida.

Um grande abraço (...)

António Telmo"

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Correio da Manhã, 4 de Dezembro de 1986.

Orlando Vitorino
Correio da Manhã - Perante tantos e tão grandes ataques, onde poderemos encontrar o Pensamento português?
Orlando Vitorino - Ao lado de toda esta acção política efectiva, comandada por um pensamento político estrangeiro, tem continuado a desenvolver-se o Pensamento português. O que existe do patriótico em Portugal está concentrado, ou melhor, está refugiado desde há dois ou três séculos no Pensamento filosófico.
(...)
CM - E a Filosofia portuguesa tem força para sobreviver e ajudar Portugal a resistir?
OV - Com certeza. Temos o exemplo do Leonardo Coimbra, a figura central da Filosofia portuguesa, que viveu nas condições mais hostis, mais desfavoráveis, e conseguiu ser o maior filósofo contemporâneo, não só de Portugal como de toda a Europa. Leonardo Coimbra resistiu às maiores intrigas políticas, urdidas quer através dos partidos da época quer através do Parlamento. 
A força de uma Filosofia reside na verdade do pensamento por ela transmitido e, depois de Leonardo Coimbra, essa verdade de pensamento foi pacientemente sistematizada por um homem chamado Álvaro Ribeiro, tarefa a que entregou toda a sua vida, com ausência total de ambições e com sacrifício do seu bem-estar.

Excerto de uma entrevista a Orlando Vitorino. 
Texto de  Victor Medanha. Correio da Manhã, 4 de Dezembro de 1986.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Crença

"Crer é atribuir realidade. (...) A crença absolutiza. Faz da atribuição subjectiva da realidade o absoluto de que dependem todos os seres reais. E quando os princípios acabam por ser degradados em objecto de crença - que é o que a política faz da verdade, da liberdade e da justiça - o domínio dos homens fica entregue à tirania. (...) A religião é o arcano da política como o proselitismo é o modelo da doutrina partidária."


Orlando Vitorino
A Idade do Corpo; Fenomenologia do Mal
Teoremas (1970)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Fenomenologia do Mal

"O mal não é um problema. (...) O mal é, pelo contrário, algo que se inclui em todo o objecto do pensamento. (...) O mal é um mistério. (...) O mal é, pois, incognoscível ao homem."

Orlando Vitorino
A Idade do Corpo; Fenomenologia do Mal
Teoremas (1970)

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Jesué Pinharanda Gomes

"Fui há anos à sua casa em Santo António dos Cavaleiros entrevistá-lo. Modesto, discreto, quase hesitava em produzir uma que fosse afirmação definitiva. Tratei-o por «doutor». Disse-me que o não era. Como nos acompanhava uma estante de livros sobre teologia tentei corrigir, afirmando que seguramente teria estudos no Seminário (como tantos do seu tempo). Disse-me que também não. Era um auto-didacta. As tertúlias de Lisboa tinham sido, nos cafés, a sua sala de aulas. A Filosofia Portuguesa o seu amor.
Trabalhava na Massey Fergunson na venda de tractores. Estudara nas horas livres, pela noite fora. Lera na Biblioteca Nacional no tempo em que ela abria à noite. Tirava à boca para comprar livros. Instruía-se sempre. Escreveu nem sei quantos livros. Tentei encontrá-los todos. Teve a gentileza de me oferecer alguns.
A entrevista era sobre tudo e sobre nada. A minha ignorância impedia-me de formular as perguntas certas, a sua sabedoria vedava-lhe respostas simples.
À saída mostrou-me uma pequena gaiola, extasiado ante uns passarinhos e os ovos que chocavam. A vida cumpria-se. Uma vez cruzei-me com ele na Lapa. Ia consolar o Orlando Vitorino, fazendo-lhe companhia.
Nasceu em Quadrazais, mas renasce como exemplo no coração de cada um. Um dia um jornal, creio que o Diário de Notícias, perguntou-me qual foi a pessoa que mais me impressionou. Disse: Jesué Pinharanda Gomes. (...)"

José António Barreiros

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Uma escola de filosofia


"A fecunda vitalidade da filosofia portuguesa manifesta-se, mais que na sua perduração, no desenvolvimento da tese inicial: de problema, que se tratava de resolver, passou a designação e constituição de uma escola de filosofia. Do que ainda não há, porém, adequada percepção é a de que esta «escola» se tornou muito mais do que a afirmação de uma exigência patriótica. A filosofia portuguesa passou a ser, já hoje é, a consciência da perpetuidade da filosofia clássica."

Orlando Vitorino

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Conversa entre Orlando Vitorino e João Luís Ferreira

João Luís - Quer falar de arquitectura para uma revista que se intitula “Utópica”?
Orlando Vitorino - Porque não? A contradição pode ser estimulante.

J.L. - Onde está, neste caso, a contradição?
O.V. - É que toda a arquitectura é tópica. A utopia é o que não tem lugar. Ora nada pode haver sem lugar, o que é sobretudo evidente na arquitectura.

(...)

J.L. - Os “caminhos na utopia” conduzem, portanto, à anti-utopia?
O.V. - Sim. Mas há sempre a possibilidade de entender a utopia como um idealismo provocado por uma justa reacção ao que se encontra institucionalizado. Neste caso, dir-se-à utópica a procura de caminhos (já não na utopia como queria M. Bubber) que o institucionalismo - regimes políticos, universidades, opinião pública... - tem por função impedir. Creio que é este o caso da sua revista “Utópica”. Podemos, portanto, conversar.

J.L. - Diga-me então: que é a arquitectura?
O.V. - É lugar e proporção.

J.L. - Que é o lugar?
O.V. - É, primeiro, a negação do espaço.

J.L. - Como nega o lugar o espaço?
O.V. - Marcando-lhe limites, definindo-o.

J.L. - A definição é negação?
O.V. - Foi o que nos ensinou Espinoza, que era geómetra, ao pôr como princípio de imaginar e pensar que “toda a afirmação é negação” pois nega o que fica fora do que se afirma.

J.L. - Onde começa a arquitectura?
O.V. - Começa ou na Grécia ou no Céu ou no Céu e na Grécia.

J.L. - E o Egipto?
O.V. - Aí, foi só geometria. Faltava a proporção para ser arquitectura.

J.L. - Julguei que na Grécia só havia começado a filosofia.
O.V. - A filosofia é o embrião que contém todas as artes.

J.L. - Tudo, então, é filosofia?
O.V.- Nada é sem filosofia.

J.L. - Onde está, no embrião, a arquitectura?
O.V. - Na geometria.

J.L. - Foi por isso que Platão escreveu sobre os umbrais da escola: “só entram os que são geómetras”?
O.V. - Exactamente.

J.L. - Que é a geometria?
O.V. - É a primeira determinação do lugar e a primeira negação do espaço.

J.L. - Diz-se que os gregos ignoraram o infinito. Foi por serem geómetras?
O.V. - O infinito é a negação do limite, portanto do lugar. Onde está o infinito, não há geometria. há só matemática.

J.L. - Os gregos não foram matemáticos?
O.V. - Aristóteles deixou escrita a refutação da matemática. Dos modernos, só Hegel compreendeu e repetiu a refutação. Dos contemporâneos, só Leonardo Coimbra.

(...)

J.L. - Qual o lugar arquitectónico do homem. É a cidade? É a casa?
O.V. - Hegel, que era nórdico e, como protestante, “trazia o Deus na barriga”, disse que a primeira obra arquitectónica é o templo a que chamou “a casa de Deus”.

J.L. - Está certo?
O.V. - Está errado. Tudo o que é do homem tem início no homem.

Revista Utópica (1988)
Entrevista completa pode ser lida aqui.