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terça-feira, 5 de maio de 2015

Sobretudo o grito

"E o grito - sobretudo o grito - que se vai atenuando, mas que ainda ecoa, como último sinal de triunfo de quem acabou a violência e está farto de matar (...)"

Raul Brandão
Os Pescadores (1923)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Os meus actos

"É saudade, mas não é só saudade. Isto vem de muito fundo. Os meus actos são guiados por mãos desaparecidas e a minha convivência é com fantasmas. (...)"

Raul Brandão
Os pescadores (1923)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

A vila é a vida que é o simulacro

“A vila é um simulacro. Melhor: a vida é um simulacro. (...)"

Raul Brandão
Húmus (1917)

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Há almas embrionárias


"Há almas embrionárias, velhos lojistas que olham para si próprios com terror. A maior parte da gente, nasce, morre sem ter olhado a vida cara a cara. Não se atrevem ou ignoram-na: a outra existência falsa acabou por os dominar. Não há mascara que não custe a arrancar, há mentiras que têm raízes mais fundas que a verdade. Por isso, para uns não morrer é continuar a jogar o gamão pela eternidade, para outros é juntar uma moeda a outra moeda, um dia a outro dia inútil. Sempre... Já na botica dois idiotas recomeçaram com escrúpulo uma partida que deve durar cem anos, e o bocal amarelo, as moscas mortas estão ali com outro ar. Fixaram-se. Estão ali embirrentas e sórdidas para toda a eternidade. Pouco e pouco o sonho dissolve, a nódoa d'oiro alastra. Vai mexer com o subterrâneo, acorda os mortos, desenterra o sonho submerso há dois mil anos, sobressalta o instinto, bole com todas as almas sobrepostas até ao fundo da vida. Transforma, volta a existência do avesso, deita o muro abaixo. Por ora é só uma ideia, mas sai-nos de cima o peso do mundo... Mexe em tudo, revolve todas as raízes que se apoderaram da vila. O sonho cai na regra, no charco de interesses, na hipocrisia que se não atreve, nos dentes afiados que se transformaram em sorrisos, na paciência de quem espera uma herança com vagares de quem tece uma teia. Certas existências são formidáveis, outras existências são como alcovas onde nunca entrou a luz (cheiram a relento) e onde agora se agita e gesticula um ser desconhecido. Certas existências são feitas de ódio minúsculo, de inveja que sorri porque nem a inveja se atreve. Certas existências são crepusculares. Em certas existências são os mortos que ordenam, muito mais vivos e imperiosos depois que estão no sepulcro. Quase toda esta gente se desconhece. Nunca se atreveram e agora perguntam-se: Sou eu? sou eu? Aqui estou eu que finjo que sorrio, e acabo por fingir toda vida. (...)"

Raul Brandão
Húmus (1921)

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

10 Escritores x 10 obras = 100 anos de Literatura Portuguesa


Procurando o recuo suficiente para me dar objectividade crítica e pesando os factores simultâneos de originalidade de pensamento, de qualidade estética, de ressonância dentro da cultura portuguesa, de assunção de valores que considero pessoalmente essenciais, de empenhamento do próprio autor e buscando ainda não me circunscrever apenas à esfera literária citarei estes dez livros:

  • História de Portugal, de Oliveira Martins
  • Sonetos Completos, de Antero de Quental
  • Os Maias, de Eça de Queiroz
  • A Ideia de Deus, de Sampaio Bruno
  • Pátria, de Guerra Junqueiro
  • Regresso ao Paraíso, de Teixeira de Pascoaes
  • Húmus, de Raul Brandão
  • O Criacionismo, de Leonardo Coimbra
  • Mensagem, de Fernando Pessoa
  • Poemas de Deus e do Diabo, de José Régio


António Quadros
10 Escritores x 10 Obras = 100 anos de Literatura Portuguesa
Diário de Lisboa, 7 de Abril de 1970

terça-feira, 11 de maio de 2010

António Quadros no Marão em casa de Teixeira de Pascoaes

"Lá fora, vinhedos, abelhas zumbindo, a serra escalvada, o Marão. Um corpo vivo, o corpo da natureza, Marános, toda aquela terra áspera, rugosa e dura latejando em Deus e para Deus, procura lentíssima de um destino. Percebemos então, nesse momento, percebemos quase sensorialmente como o poeta pudera experimentar uma saudade do divino na energia que fazia pulsar as entranhas da terra, que rasgava as fontes, que fazia correr os riachos pelas faldas da serrania, que explodia as sementes e as conduzia à apoteose da árvore, da flor, do fruto. A mesma saudade que nos prendia à terra e às suas raízes, a mesma saudade que nos atraía para um oculto esplendor. [...] Ali sentado, absortos, esquecidos do nosso eu, foi então que erguemos os olhos e o vimos, aquele quadro assinado por um pintor que julgáramos apenas escritor: Raul Brandão. Era o retrato da natureza viva e mágica que o último romântico, Teixeira de Pascoaes, nos quisera ensinar a sua poesia. Natureza mágica, natureza com alma, natureza com espírito, natureza divina. Mas natureza, também, sofredora, carecente, portadora de um pathos... Na sala havia outros quadros do autor do Húmus. Retratos um pouco rudes, porventura imperfeitos sob o estrito ponto de vista plástico, mas muito próximos da intuição pascoalina de uma natureza saudosa, uma natureza teleonómica, em movimento para a sua própria essência através das formas e das cores que compõem a sua existência."
António Quadros
Estruturas Simbólicas do Imaginário
na Literatura Portuguesa,
Átrio (1992) p. 59