sábado, 7 de julho de 2007

Movimento do Homem

"Estamos debruçados sobre o papel branco, como sobre o espelho labiríntico da nossa alma enigmática. Escrevemos, pensamos, libertamos inteiros compartimentos fechados, e logo outros escondidos e logo aqueles, invisíveis, de que jamais suspeitáramos. Existiam realmente, esses universos que o pensamento nos cria, a partir às vezes de uma imagem, de uma palavra, de uma sombra? Sentimos que nunca mais acabaremos, até ao último dia, até ao último minuto, até à última inspiração, de nos aproximarmos, de abrirmos novas portas, de descobrirmos novos espaços. Visitámos em Creta, o labirinto de Cnossos, o palácio onde o signo do labris, o duplo machado sacrificial, foi desenhado em cada divisão acrescentada ao projecto primitivo. Assim, sabemos que um labirinto não é uma série cifrada de corredores, mas uma imensa habitação que se vai construindo através dos tempos, aumentada e remodelada de geração para geração, sendo cada compartimento absolutamente necessário e funcional. Enganam-se aqueles psicanalistas que julgam ter encontrado o mecanismo secreto, a fotomontagem das almas. Uma alma, quando é explorada, penetrada, analisada, quando, sobretudo, se assume como reveladora do cosmos e representante infinitamente complexa do infinitamente grande, amplia-se, cresce, vai formando, lenta e incansavelmente, um corpo invisível, dia a dia maior, dia a dia diferente. (…) Assim, o papel branco do escritor é como a superfície cutânea, na qual um abcesso de fixação vai drenando o curso evolutivo do seu pensamento. O importante é que o canal nunca se feche, entre a elaboração conceptual e a expressão exterior. O importante é que o labirinto nunca se dê por concluído, nunca degenere em sistema circular, nunca se circunscreva num muro, nunca feche a última porta. (...)"

António Quados
O Movimento do Homem 
Sociedade de Expansão Cultural (1963)

quinta-feira, 5 de julho de 2007

dedicatória de antónio quadros em o «anjo branco anjo negro»

"Dedico estas breves histórias a Mircea Eliade, o Mitólogo, que do claro-escuro nocturno do seu pequeno jardim de cascais levou a minha infância à visão do maravilhoso possível a W. Somerset Maugham, o Contista, que numa tarde perdida de Lisboa me revelou a profundeza da intuição que pode haver sob a máscara irónica de quem suporta e vence um destino social a Álvaro Ribeiro, o Filósofo, que naquele assasinado café romântico do Rossio, onde os espelhos barrocos reflectiam ao infinito a imagem dos seres, pouco a pouco me ensinou a pensar como se o pensamento não fosse um absoluto, mas sim o homem pleno e movente, finitamente em busca de si mesmo a Salvador Dali, o Pintor, que na baía irreal de Port-Lligat, onde vogam cisnes e barcas de pescadores, reencontrei igual a si mesmo, sério, ardente e espectacular, fazendo da arte, não um fim, mas um outro elemento de viagem, luta e visão. à Mulher Eterna, fonte da vida, que no desenho do espaço e no ritmo do tempo, inlassàvelmente e com beleza se no momento excepcional, ensaia uma transcendência e invoca uma reintegração que do Homem esperam a palavra retardada e conclusiva."
"Olhamos para dentro de nós e apercebemo-nos que fomos pouca coisa, de que somos pouca coisa. Escrevemos livros, sobretudo um livro, montámos toda uma teoria de respostas satisfatórias para as nossas mais fundas interrogações, julgámo-nos senhores de um saber superior ao da maioria dos nossos amigos ou comtemporâneos, mas sempre a mesma pergunta contundente e inevitável. O que se encontra, meu Deus?"António Quadros, Uma Frescura de Asas

sexta-feira, 29 de junho de 2007

interrogar é já crer, a descrença humana não existe.
In ode à crença, 1996

segunda-feira, 25 de junho de 2007

António Quadros

"o escritor e a sociedade", programa de Álvaro Manuel Machado (RTP, 1983)

domingo, 24 de junho de 2007

O tempo de Deus é o tempo da atenção. O tempo de Deus é hoje.

in, Histórias do Tempo de Deus.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Poesia chorada, como o mar sob a chuva?
Poesia aflita, como um farol no denso nevoeiro?
Poesia angustiada, como a futura mãe?
Alegre o olhar, os meus dedos são mensageiros dos deuses
E cantam o que me sobra e eu não sei entender.
Alegre o coração, escapa-se de mim um fumo de dor,
E enquanto rio, sou também lágrimas e soluços.
O acordo é uma promessa do paraíso perdido mas não morto,
pois as suas portas choram por mim em mim.

o banquete infinito, antónio quadros
todos o sábados, no miniscente de luis carmelo escavações contemporâneas - o sorriso do arquivo no tempo da rede

Segundas- João Pereira Coutinho
Terças - Fernando Ilharco
Quartas - Viriato Soromenho Marques
Quintas - Bragança de Miranda
Sextas - Paulo Tunhas
Sábados - António Quadros (org. António M. Ferro)

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Carta a António Quadros - João Bigotte Chorão
António Quadros - o perfil de um pensador, por João Ferreira

Trata-se de um dos mais ativos e produtivos escritores portugueses do século XX. Oriundo de uma família de intelectuais, teve em seu pai Antônio Ferro, amigo de Fernando Pessoa e editor do primeiro número da Revista “Orpheu” e na mãe, a poetisa Fernanda de Castro, incentivadores para uma avançada cultura, erudição e apego às letras. Nascido em Lisboa em 1923, freqüentou em sua juventude, a Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa onde ganhou o diploma de Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas. Sua trajetória de intelectual e de escritor, começou muito cedo. Foi um dos fundadores dos jornais de cultura Acto (1951), 57 (1957) e da revista Espiral. Tornou-se um dos diretores do Serviço e Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, sucedendo a Branquinho da Fonseca e a Domingos Monteiro com quem trabalhou desde o início deste serviço. Foi um dos organizadores e membro da primeira direção da Sociedade Portuguesa de Escritores.Como poeta, ficcionista, crítico, pensador, filósofo e cientista da cultura, cultivou com brilho a literatura de idéias. É claro que os arquivos da família Ferro, a Biblioteca Nacional de Lisboa, o Centro Nacional de Cultura, as editoras Europa-América, Lello & Irmão Editores e Publicações Dom Quixote, e os testemunhos dos membros ainda vivos do grupo da Filosofia Portuguesa e seus amigos intelectuais deverão ter ainda muitas memórias, informações e um rico arquivo bibliográfico para enriquecer sua memória. Apesar de estarmos longe dos arquivos lusitanos, vamos tentar agregar, mesmo assim, alguns dados ao alcance do nosso conhecimento para que não se prolongue por mais tempo na Internet o injusto vazio da memória desta grande figura da cultura portuguesa do século XX.