quarta-feira, 26 de maio de 2010

A propósito do texto em baixo

"[...] Ah! Adivinho-te a nova curiosidade. Prevejo-te a perguntar-me: - Mas porquê, e para quê, da intimidade das quentes confissões, amarfanhada arrastaste a confidência melindrosa até à barra glacial da indiferença pública? Porquê?
 Pois, na verdade, redargo, não atendeste em que falei daquele meu livro, má coisa, publicado em 1874?! Eu consagrei esse livro à memória de meu pai, falecido a 23 de Fevereiro. Com efeito, era, em parte, o reflexo do ensino que ele me ministrara contra as superstições, e aí estava bem. Mas excedi-o pela vilta de ímpias audácias. E aí não podia estar pior.[...]"
Sampaio Bruno
A Ideia de Deus, Lello & Irmãos - Editores, 1987, p. 34

terça-feira, 25 de maio de 2010

Da análise da crença cristã

"[...] Agora cumpre-nos tão somente declarar bem alto que o cristianismo é uma religião obsoleta, anacrónica, moribunda; uma religião que assenta sobre os cadáveres dos desgraçados, sobre as ossadas denegridas dos queimados vivos. Sim! Uma religião que, depois de mentir à razão e à consciência pelos seus dogmas estultos, pelos seus livres santos, pelas suas doutrinas canónicas, acende fogueiras e levanta forcas, queima em Espanha, trucida em França, delira satanicamente em Roma, uma religião, cujos textos servem assim os padres, uma religião que aspira à catolicidade, à suprema, ao despotismo, é uma religião toda humana, com os nossos vícios e paixões, com a nossa cólera e o nosso furor, é uma religião verdadeiramente infame. [...] Quando o povo pensar, compreenderá tão bem os seus deveres morais e eis que eu já não sou destruidor de todo o edifício social. [...] Querer que o cristianismo seja a religião do futuro seria querer que ontem fosse hoje. Seria um não senso e uma blasfémia. [...]"
Sampaio Bruno,
Analyse da Crença Christã, (1874)
Typ. de Arthur José de Sousa, Porto, pp.311-312

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Da Felicidade

"Não creio que se possa definir o homem como um animal cuja característica ou cujo último fim seja o de viver feliz, embora considere que nele seja essencial o viver alegre. O que é próprio do homem na sua forma mais alta é superar o conceito de felicidade, tornar-se como que indiferente a ser ou não feliz e ver até o que pode vir do obstáculo exactamente como melhor meio para que possa desferir voo. Creio que a mais perfeita das combinações seria a do homem que, visto por todos, inclusive por si próprio, como infeliz, conseguisse fazer de sua infelicidade um motivo daquela alegria serena que o leva a interessar-se por tudo quanto existe, a amar todos os homens, apesar do que possa combater, e é mais difícil amar no combate que na paz, e sobretudo conservar perante o que vem de Deus a atitude de obediência ou melhor, de disponibilidade, de quem finalmente entendeu as estruturas da vida."
Agostinho da Silva
Aproximações
Guimarães Editores, (1960) p.51

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Teoria do Ser e da Verdade


"Assim nos interessa todo o outro do amor, como desamor, abominação e ódio insofrível, assim nos interessa todo o outro da crença, não só como descrença e irremediável cisão aceite, mas como ateísmo, na extrema oposição ou contraposição à fé, à religião e à própria ideia de Deus. [...] Tornou-se grau a grau apreensível que quem nega tem profunda razão de negar. E como se distingue, pode perguntar-se, o heróico portador da negação extrema, do verdadeiro filósofo ou do santamente sábio? A resposta necessariamente advém: aquele tem ainda a razão na opaca sombra, a este foi dado já fazê-la emergir na diáfana luz da ideia ou do unívoco e cindido mas consistente amor."
José Marinho
Teoria do Ser e da Verdade
Guimarães Editores, (1961), pp. 130-131

domingo, 16 de maio de 2010

O movimento fenomenológico em portugal e no brasil


Índice
António José de Brito
nota sobre o aparecimento da fenomenologia em portugual

Clara Morando
alexandre fradique morujão - considerações sobre os seus "estudos filosóficos"

António Braz Teixeira
o realismo fenomenológico de júlio fragata

Renato Epifânio
entre josé marinho e leonardo coimbra: da onto-fenomenologia à cisão extrema

Manuela Brito Martins
eduardo abranches de soveral: alguns apontamentos sobre a escola fenomenológica portuguesa

Manuel Cândido Pimentel
gustavo de fraga: entre fenomenologia e metafísica

Nuno Freixo
maria manuela saraiva e a fenomenologia: entre husserl e sartre

André Barata
experiência, comunicação e ética. perspectivas sobre a etapa derradeira do pensamento de joão paisana

António Paim
o movimento fenomenológico brasileiro

Constança Marcondes César
arte e tempo em maria do carmo tavares de miranda

Paulo Moacir Godoy Pozzebon
a escola filosófica de lovaina e sua influência no brasil

Creusa Capalbo
a filosofia e a fenomenologia no brasil atual

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Do destaque separativo ou da cisão primordial

o que a verdade do Ser em qualquer forma de existência institui, ou constitui, inalterado permanece na própria alteração
José Marinho

António Quadros e o Culto Popular do Espírito Santo

O Culto Popular do Espírito Santo é, muito possivelmente, o acto simbólico que melhor ilustra o essencial da cultura portuguesa no pensamento de António Quadros. Dir-se-ia que, tal como Agostinho da Silva, não muito distante do primeiro a este respeito, António Quadros retira desta celebração a nota essencial da Cultura Portuguesa através do que considerou ser, com o povo português firmando o Culto, o paradigma simbólico da revelação do Espírito.
"Nas Festas do Império portuguesas, criadas por Dinis e Isabel, o homem de baixa condição, o pobre ou a criança sobre cuja cabeça era e ainda é colocada a Coroa do Imperador do Espírito Santo, coroa fechada e encimada por uma pomba branca, símbolo tradicional do divino Paráclito, é por assim dizer o profeta do Império do Espírito Santo de amanhã, iniciando o ritual e as festas, tal como se realizavam, a correlação das crenças e das ideias, das classes e das formas […] a Festa do Império constitui o paradigma simbólico e ritual do projecto áureo português, projecto religioso universal através da iniciativa dionísica, que irá guiar e iluminar singularmente a história nacional no seu período mais fecundo e criacionista." (Quadros, 1987: 45)  
Embora não se saiba ao certo a data exacta do início das celebrações, as suas origens remontam ao início do século XIV. É conhecida a influência da Teologia de Joaquim de Flora, abade cisterciense nascido no século XII, para o nascimento deste culto em territórios de língua portuguesa, nomeadamente em Alenquer, Açores e Brasil (*1).
Importa saber que a teoria joaquimita divide a história em três idades diferentes: a Idade do Pai, a Idade do Filho e a Idade do Espírito Santo. “A idade do Pai corresponde a um tempo criador e legislador, a idade do Filho a uma época de Amor e de caridade e a Idade do Espírito Santo a uma era de graça plena.” (Pinho, 2008: 1114) ou, nas palavras de António Quadros, a um tempo “ […] em que os homens, entregues a uma vida piedosa, ascética, caritativa, já não dependerão das Leis do Pai ou do Filho e já não se terão de guiar dominantemente pelo Antigo ou pelo Novo Testamento, mas antes por um Quinto Evangelho […]” (Quadros, 1987: 25) A teoria da Trindade de Flora foi difundida pelos franciscanos um pouco por toda a Europa. Foi por intermédio de Arnaldo Vilanova, médico da Princesa Isabel de Aragão, futura mulher de D. Dinis, que terão chegado as teorias joaquimistas a Portugal. “Algumas fontes afirmam que Vilanova iniciou a Rainha Santa nas teorias joaquimitas ou na perspectiva radical que os franciscanos dela fizeram, que, ao serem partilhadas com D. Dinis, terão conduzido os monarcas a criar o Culto do Espírito Santo.) (Pinho, 2008: 1114)
António Quadros também apoia a ideia de que a criação do Culto Popular do Espírito Santo em Portugal foi, na realidade, da responsabilidade dos dois monarcas. A primeira celebração teria acontecido por ordem destes em Alenquer, no ano de 1296, antes até da construção da Igreja do Espírito Santo naquela vila. Nos escritos de Flora, a era do Espírito Santo teria início no ano de 1260, D. Dinis, como se sabe, nasce, curiosamente, precisamente um ano depois, para, na perspectiva de António Quadros, “[…] encetar o ano 1º da Idade do Espírito Santo.” (Pinho, 2008: 1114)
"Teria este facto, porventura visto e sentido por ele próprio como providencial, influído no gesto de criar a Festa e a Cerimónia da Coroação simbólica do Imperador do Espírito Santo, tal como se realizou pela primeira vez em Alenquer (cuja Capela do Paço é dedicada ao Paráclito e onde estava a nosso ver o Políptico de Nuno Gonçalves) e logo em muitos lugares do Reino?" (Quadros, 1987: 39) 
António Quadros acredita que sim, e terá mesmo sido o primeiro a salientar este aspecto, que se juntava a um outro já amplamente discutido: o acesso providencial de D. Dinis ao trono. Até por que, para o autor de Portugal Razão e Mistério, não se tratou apenas de uma festa, de uma enigmática coroação tripla, mas sim de um “[…] acto intencional e pesado de simbolismo, tão intencional e pesado de simbolismo, que sem uma reflexão sobre o seu sentido não se nos afigura possível entender o movimento teológico da pátria portuguesa neste período áureo e axial. (Ibidem, p. 40). Em qualquer dos casos, é relevante procurar compreender de que modo o nascimento do Culto Popular do Espírito Santo se relaciona com a reflexão de António Quadros acerca da razão teológica de Portugal. É com base na teoria da Trindade formulada por Joaquim de Flora, que António Quadros entende que: “A razão de Portugal, a razão de ser de Portugal é antes de tudo uma razão teológica, isto é, uma razão aberta para com um telos ou um fim que é a justificação última do seu movimento no tempo e no destino.” (Quadros, 1987: 14) É sua convicção que Portugal está destinado a realizar fins superiores e universais, ou por outras palavras, que é dotado de um projecto áureo de realização universal. É com base nisto, que nasce no seu pensamento a necessidade de esboçar e propor uma arqueologia da tradição portuguesa, “[…] visando não só a procura daquele projecto áureo interrompido ou esquecido, mas cifrado nos sinais, nos símbolos e nos textos que dele […] ainda subsistem.” (Ibidem, p. 18)
Para António Quadros é no reinado de D. Dinis que se realiza a paideia original portuguesa, “[…] abrindo-se então um novo ciclo teológico na vida portuguesa, criando-se entre nós uma paideia original e surgindo uma dimensão inédita da cristandade e da europeidade.” (Quadros, 1987: 15) António Quadros quer com isto dizer que D. Dinis ao instaurar o Culto do Espírito Santo e as Festas da Coroação do Imperador, ao «oficializar» a língua portuguesa, tornando-a obrigatória em todos os documentos públicos, ao fundar o Estudo Geral, (a Universidade Portuguesa), “[…] criando-se entre nós um magistério teológico, filosófico e ético […]” (Ibidem, p. 16) e, finalmente, ao salvar e conservar a Ordem dos Templários, “[…] estabeleceu os fundamentos da paideia singular, de cujas ramificações nos tempos subsquentes nasceria o novo Portugal.” (Idem)
Foi também no reinado de D. Dinis, congnominado, aliás, de o Lavrador, que outros marcos importantes aconteceram, precisamente no empenho, dir-se-ia que simbólico neste contexto (*2), que demonstrou em relação ao próprio fomento da agricultura e do cultivo da terra, a que se lhe associa a prosperidade a grandes zonas rurais. Em qualquer dos casos, o conhecimento de António Quadros acerca do Culto do Espírito Santo, importa sobretudo pelo facto de que o seu pensamento acerca da cultura, encontra aqui, na nossa perspectiva, o seu substrato. A realização popular do Culto, manifesta precisamente o percurso do conhecimento em direcção ao espírito. Por outro lado, pressupõe a realização de um projecto, de um cultivo, que não se esgota na sua dimensão artificial, mas que se realiza, precisamente na conciliação entre natureza e espírito. Ora, para António Quadros, tal como para Agostinho da Silva, o essencial da cultura portuguesa não é constituído “[…] por algo concreto e observável a partir do comportamento dos portugueses […] Mas é inseparável desse mesmo comportamento, desses “sinais” que a acção concreta dos portugueses, criativa e revolucionária em muitos casos, foi produzindo desde a sua origem.” (Gama, 2008: 303) É precisamente a partir desta lição e das iniciativas de significado profético de D. Dinis, que António Quadros entende que Portugal se tornou numa Pátria “[…] de vocação universalista, espiritualista e criacionista.” (Quadros, 1987: 16) e que a cultura portuguesa tem uma missão de diálogo entre o humano e o divino. Ora, esta ideia, determina de forma decisiva todo o seu pensamento acerca da cultura portuguesa. É que, para António Quadros, “[…] se se mantém aberta a comunicação entre o culto e a cultura, através de uma filosofia dinamizante, tão certo é ser o culto o fornecedor dos fins superiores que movimentam para o futuro o pensamento, que de outro modo não ultrapassaria o estádio animal da adopção do meio. (Quadros, 1967: 24)
António Quadros Ferro
(Setembro de 2009)
Notas:

1 - Sabe-se que estas cerimónias se realizaram praticamente do norte ao sul do país, inclusive em Lisboa, mas também em Arruda dos Vinhos, Sardoal, Portalegre, Marvão, Aljezur, etc. Há ainda registo de coroações em Angola, Estados Unidos da América e Índia. António Quadros assistiu pessoalmente a algumas das celebrações, nomeadamente em 1985, na celebração das Festas do Penedo.
2 - Na medida em que a própria evolução do termo cultura “[…] deriva filologicamente de processos agrícolas ou hortícolas de cultivar o solo e de aumentar a fauna e a flora. […] Colere a raiz latina da palavra significa cultivar mas também habitar para adorar e proteger de que deriva cultus. (Pires, 2006: 39)

Bibliografia citada
- Gama, José (2008) Cultura e Filosofia – Estudos sobre o pensamento português, Braga: Universidade Católica Portuguesa de Lisboa – Publicações da Faculdade de Filosofia.
- Pinho, Romana Valente, (2008), “Deus na tradição do pensamento contemporâneo português: a contribuição de António Quadros”, Xavier, Maria Leonor L. O. (org.) A Questão de Deus na História da Filosofia, Sintra: Zéfiro, pp. 90-93.
- Pires, Maria Laura Bettencourt, (2006) Teorias da Cultura, Lisboa: Universidade Católica Portuguesa.
- Quadros, António (1967), O Espírito da Cultura Portuguesa – ensaios, Lisboa: Sociedade de Expansão Cultural.
- Quadros, António (1986), Portugal Razão e Mistério I, Lisboa: Guimarães Editores, Lda.
- Quadros, António (1987a), Portugal Razão e Mistério II, Lisboa: Guimarães Editores, Lda.

terça-feira, 11 de maio de 2010

António Quadros no Marão em casa de Teixeira de Pascoaes

"Lá fora, vinhedos, abelhas zumbindo, a serra escalvada, o Marão. Um corpo vivo, o corpo da natureza, Marános, toda aquela terra áspera, rugosa e dura latejando em Deus e para Deus, procura lentíssima de um destino. Percebemos então, nesse momento, percebemos quase sensorialmente como o poeta pudera experimentar uma saudade do divino na energia que fazia pulsar as entranhas da terra, que rasgava as fontes, que fazia correr os riachos pelas faldas da serrania, que explodia as sementes e as conduzia à apoteose da árvore, da flor, do fruto. A mesma saudade que nos prendia à terra e às suas raízes, a mesma saudade que nos atraía para um oculto esplendor. [...] Ali sentado, absortos, esquecidos do nosso eu, foi então que erguemos os olhos e o vimos, aquele quadro assinado por um pintor que julgáramos apenas escritor: Raul Brandão. Era o retrato da natureza viva e mágica que o último romântico, Teixeira de Pascoaes, nos quisera ensinar a sua poesia. Natureza mágica, natureza com alma, natureza com espírito, natureza divina. Mas natureza, também, sofredora, carecente, portadora de um pathos... Na sala havia outros quadros do autor do Húmus. Retratos um pouco rudes, porventura imperfeitos sob o estrito ponto de vista plástico, mas muito próximos da intuição pascoalina de uma natureza saudosa, uma natureza teleonómica, em movimento para a sua própria essência através das formas e das cores que compõem a sua existência."
António Quadros
Estruturas Simbólicas do Imaginário
na Literatura Portuguesa,
Átrio (1992) p. 59

quinta-feira, 6 de maio de 2010

A propósito da fotografia em baixo

"[...] Acabemos com a polémica por a ignorarmos santamente, sendo ora platónicos ora aristotélicos, insubstanciais substantes e complementares de nós próprios, indefiníveis e vincados, inexistentes e de um bruto peso, sem um escaninho em que nos metam e neles todos cabendo, tão amplos que os enchamos e tão exíguos que haja sempre lugar à multidão. [...]"

Agostinho da Silva,
Para Álvaro Ribeiro: sete notas a dez anos cada
disponível aqui.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

O grupo da Filosofia Portuguesa e não só


1ª fila: Sant'Anna Dionísio, Padre Dias de Magalhães, Agostinho da Silva, Maria Violante Moreira, João Botelho, José Marinho. 2ª fila: Pinharanda Gomes, Eduardo Salgueiro, António Quadros, Francisco Sottomayor, Álvaro Ribeiro, Afonso Botelho, António Alvim, Armândio César, Francisco da Cunha Leão, Maria Leonor C. Leão, Augusto Saraiva, Vasco da Gama Rodrigues e três amigos de Agostinho da Silva, entre outros.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Do 57

“Não se aperceberam ainda os espíritos distraídos, anacrónicos ou utópicos, de que a cultura portuguesa está a atravessar por uma transformação tão profunda que alguns dos seus mais brilhantes pilares ameaçam ruir diante da impaciência das novas gerações." Manifesto de 57, in 57, I (1957), p.2

domingo, 2 de maio de 2010

"Do Diabólico ao Simbólico: A Filosofia de Vilém Flusser"

Colóquio Internacional Do Diabólico ao Simbólico: A Filosofia de Vilém Flusser. Dias 3 e 4 de Maio no anfiteatro IV da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Programação aqui.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

A morte antes da morte

"[...] Começamos a morrer quando deixamos para trás a infância, isto é, quando perdemos a ingenuidade, o optimismo, a capacidade de rir com as manhãs soalheiras do universo. Começamos a morrer quando a sombra alastra em nós de tal modo, que nenhum calor já é capaz de nos reconfortar. Começamos a morrer quando se acumulam exessivamente na nossa alma as células gastas das ilusões perdidas. [...]"


António Quadros
A Morte antes da Morte,
In: “Sílex”, Lisboa, n.° 4, Set. 1980, pp. 3-8

Heteronímia e Alquimia ou do Espírito da Terra ao Espírito da Verdade

"[...] Perguntamo-nos hoje, ao acompanhar os desenvolvimentos ainda mais recentes da psicologia, que significado real terá tido a simulação ou o fingimento de Pessoa, no sentido corrente destes termos, e como ele próprio os definiu, falando para estranhos ou para um público vago. Perguntamo-nos se os heterónimos não correspondem simplesmente a cisões reais e inescapáveis de uma individualidade que quase diríamos infinitamente complexa, mas tomando ela consciência plena do fenómeno e procurando assumi-la e, em último termo, sublimá-la. Entre a individualidade e a personalidade interpõe-se a máscara ou persona, que é a projecção de uma síntese de traços caracterológicos, inclinações anímicas e complexos afectivos. Usada desde muito cedo, senão abusada pelo voluntarismo do orgulho (eu sou quem sou, eu sou coerente comigo próprio, não há em mim contradições), a persona confirma e acentua o que se chama a unidade personalística. Os heterónimos seriam pois, se porventura analisados por Janet, Morton Prince ou Jung, «parcelas de personalidade», coexistentes e independentes, caracterologicamente diferenciadas e até com memória própria que, confrontando-se no teatro do inconsciente, mas reconhecidas pela consciência vigilante do poeta, viveriam o que este definiu como «um drama em gente».
António Quadros
Fernando Pessoa, Vida, Personalidade e Génio,
Publicações Dom Quixote, (2000), 5ª edição, pp. 278-279

sábado, 24 de abril de 2010

António Quadros, O Escritor e a sociedade

“Fora da solidão da criação o escritor não existe como escritor, é um homem social. (...) mas é quando ele está só que estabelece a maior comunicação com o maior número de pessoas. Porque a solidão criativa é de certo modo um diálogo com os outros, enquanto, por outro lado, pode parecer paradoxal (...) a vida pública do escritor é quando há menos diálogo com os outros (…) é um acidente, é qualquer coisa artificial e um pouco superficial. Não é aí que ele se realiza. É quando está só que o escritor comunica com os outros e digamos mais do que isso, comunica com o Universo.”  António Quadros (O Escritor e a sociedade, RTP, 1983)

quinta-feira, 22 de abril de 2010

António Quadros sobre Fernando Pessoa

"[...] Os citados críticos franceses, [Patrice Delbourg, Jean-Pierre Thibaudat, etc.] deslumbrados pelos sinais mais exteriores e espectaculares da personalidade literária de Fernando Pessoa, insistiram sobretudo nos aspecto inovadores e modernistas da sua obra, na questão intrigante dos heterónimos ou na inteligência prodigiosa de todos os seus escritos. Se ficássemos por aqui, no entanto, pouco avançaríamos no conhecimento da poética pessoana. É que se Pessoa foi um inovador, foi também um expressor de princípios e arquétipos que transcendem as categorias do tempo; se foi um moderno e um modernista, foi também um incansável pesquisador e assuntor do tradicional, do secreto, do mítico, do enigmático, do que se perdeu ou esqueceu e contudo está vivo, porque é talvez perene na cultura portuguesa e universal mais profunda; se, com a invenção dos heterónimos, exprimiu como ninguém a cisão psicológica e espiritual da alma humana, através do drama da sua própria alma, conflitualmente dividida em estratos sobrepostos, ao mesmo tempo nunca deixou de perseguir o nódulo interior ou o princípio de unidade, orientador da reconvergência possível, como telos ou fim último da gesta humana neste mundo de geração e de corrupção; e se a sua fulgurante inteligência analítica dá por vezes impressão de sofística ou dialéctica (tal a facilidade com que manipula os conceitos mais difíceis) há sempre nela, ao mesmo tempo, uma sinceridade, uma autenticidade, um pathos de sofrimento, de angústia e também de incansável determinação próxima da santidade intelectual, que dá grandeza heróica à sua obra, vista no seu conjunto como uma peregrinação sofrida e mantida para o absoluto ou mesmo para o divino, no paradigma fáustico, mas ultrapassando-o em momentos excepcionais de conhecimento merecido e alcançado. [...]"
António Quadros
Obra Poética de Fernando Pessoa, Poesia - I, (1902-1929),
int. e org. de António Quadros, Publicações Europa-América

terça-feira, 20 de abril de 2010

Texto de Álvaro Costa de Matos sobre o 57

A história do Movimento da Cultura Portuguesa e do Jornal 57, fundado e dirigido por António Quadros, é um dos temas do último número da Revista Jornalismo & Jornalistas (Jan/Mar, 2010) disponível aqui. O texto é da autoria de Álvaro Costa Matos, coordenador da Hemeroteca Municipal de Lisboa.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

António Quadros sobre...

A Torre de Barbela de Ruben A.

"[...] Se o romance Caranguejo (1954), escrito ao contrário, de diante para trás, com uma atmosfera kafkiana, permanece um dos marcos principais da nossa mais inovadora novelística dos últimos 35 anos, e se os três volumes de O Mundo à Minha Procura (1964-1968) contituiem paradigma da autobiografia primordial, em que o eu-omphalos, o eu-umbigo do mundo, é o herói de um mito solar em desagregação, oscilando entre a auto-ironia crítica, a saudosa elegia dos paraísos perdidos e a secreta, silenciada esperança numa regeneração do cosmos em sua volta. A Torre de Barbela, um dos romances mais originais que entre nós foram escritos, é a obra prima, escrevemos no In Memoriam, de um Ruben minhoto enxertado de surrealista metafísico e de comediógrado à Ionesco. [...]"

António Quadros
Estruturas simbólica do imaginário na literatura portuguesa
Átrio, 1992, p.185

sábado, 17 de abril de 2010

Mircea Eliade sobre E. M. Cioran

"[...] Conhecia muito bem Cioran. Já éramos amigos na Roménia, nos anos 1933-1938 e fiquei feliz de o reencontrar aqui, em Paris. Admirei Cioran após os seus primeiros artigos publicados em 1932, quando tinha apenas vinte e um anos. A sua cultura filosófica e literária, os místicos alemães e Açvagosha. Por outro lado, possuía, muito jovem ainda, um espantoso domínio literário. Tanto escrevia ensaios filosóficos como artigos panfletários com um poder extraordinário. Podemos compará-lo aos autores dos apocalipses e aos mais famosos panfletários políticos. O seu primeiro livro em romeno, Nos Cumes do Desespero, era apaixonante como um romance e simultaneamente melancólico e terrível, deprimente e exaltante. Cioran escrevia tão bem o romeno que não podíamos imaginar que um dia mostraria a mesma perfeição literária em francês. Penso que o seu exemplo é único. É verdade, desde sempre, tinha admirado o estilo, a perfeição estilística. Dizia, muito sério, que Flaubert tinha razão quando trabalhava toda a noite para evitar um subjuntivo... [...]"


Mircea Eliade

A Provação do Labirinto, Diálogo com Claude-Henri Rocquet
Publicações Dom Quixote, 1987, pp.74-75

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Forças terrenas



"[...] a saudade vence a irreversibilidade do tempo e a distância do espaço, efectua a síntese, ou mais a união do espaço e do tempo, anulando sua aparente diferença e desunião: e anulando-os finalmente como forças terrenas. Se quisermos apontar na espiritualidade mundial outro princípio semelhante e inserto numa dada filosofia, lembremos o ioga na filosofia indiana. A saudade é, tal o ioga, na sua vera tradução, união. E ambos como dimensões específicas de duas grandes espiritualidades mundiais; situadas, uma num extremo atlântico da Europa, outra no centro da Ásia. E duas formas diferentes que tomou o mito da reintegração, o que está primordialmente na saudade e no ioga. E ambos como disciplinas de ascese, visando a perfeição do ser e estar no mundo, num estado de consciência superior. [...] Mas, notável diferença, a saudade, pelo homem português, levou esse princípio à sua manifestação na História pela Descoberta da terra e do céu. Embora haja também no ioga esta dimensão cósmica, ela não se projectou num acto histórico realizado efectivamente na realidade. Na introversão da alma indiana e não-vontade de intervenção no mundo alheio, mas voluntariamente limitando-se sobre si, não houve essa outra projecção no plano histórico, tal como a nação portuguesa; uma concepção espiritual traduzida extrovertidamente num feito à medida universal, abrindo novo ciclo, a Idade Moderna."


Dalila Pereira da Costa
As Margens Sacralizadas do Douro Através de Vários Cultos.
(Lello Editores, 2006: p.101)

Poemas de Frei Agostinho da Cruz

Alta Serra deserta, de onde vejo
As águas do Oceano de uma banda,
Da outra, já salgadas, as do Tejo.

Integrado no ciclo Portugal Renascente (iniciativa conjunta dos Cadernos de Filosofia Extravagante e da Nova Águia, em parceria com a Câmara Municipal de Sesimbra), tem lugar no próximo dia 24 de Abril, sábado, pelas 15:00, na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal de Sesimbra, o lançamento de Poemas da Montanha, recolha de poesias de Frei Agostinho da Cruz que conta com um prólogo de Dalila L. Pereira da Costa e tem a chancela da Serra d’Ossa. A apresentação da obra estará a cargo de Luís Paixão.
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Frei Agostinho da Cruz (Agostinho Pimenta) nasceu em Ponte da Barca, no Alto Minho, no dia 3 de Maio de 1540 e morreu em Setúbal em 1619. Em 1560 entrou como noviço no Convento de Santa Cruz da Serra de Sintra e aos 21 anos de idade fez-se capuchinho tomando o nome pelo qual viria a ser conhecido. Frei Agostinho da Cruz foi nomeado guardião no Convento de S. José de Ribamar aos 65 anos, vivendo a partir daí como eremita na serra da Arrábida, onde permaneceu por 14 anos vivendo do que a natureza oferecia. Foi poeta mas queimou quase toda a sua poesia. Os poemas que restaram foram publicados em 1771 primeiro e em 1918 depois. Morre no dia 14 de Março no Hospital de Nossa Senhora Anunciada em Setúbal.

Sobre Frei Agostinho da Cruz, Teixeira de Pascoaes escreveu: “Todo o espírito superior, na luta vencedora contra a materialização, ou se mata, como Antero de Quental, ou, como Frei Agostinho da Cruz, força a barreira tenebrosa e ajoelha, rezando, aos pés de Deus...” Teixeira de Pascoaes, Os poetas lusíadas, Assírio e Alvim, Lisboa, 1987, p. 115

terça-feira, 13 de abril de 2010

Biblioteca de António Quadros

A biblioteca de António Quadros está a partir deste mês disponível para consulta. A grande maioria dos livros que o escritor reuniu, anotou e sublinhou ao longo da sua vida encontram-se agora na sede cultural da Fundação António Quadros em Lisboa.  Mais informações aqui.

Da «Ode aos mitos ibéricos»

Maravilhoso e vil
este mundo é outro e é o mesmo,

forma dramática ou épica de luta
pela vida mais verdadeira e mais real
que o homem em seu sonho escuta.

António Quadros
(Imitação do Homem, odes, Textos Espiral, 1966)

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Da «Ode à noite»

Três vezes interroguei a providência
e três vezes me respondeu o imenso lamento
do perene humano sofrimento,
porquê, para quê?
de onde, para onde?

António Quadros
(Imitação do Homem, odes, Textos Espiral, 1966)

sexta-feira, 9 de abril de 2010

António Quadros sobre..

António Sérgio

"Sérgio passou como um furacão pela vida cultural portuguesa. Idealista, foi sobretudo um guerreiro, um paladino, um voluntarista. Quis demolir para reconstruir, mas principalmente demoliu. A sua obra teve desmedida influência e, depois dele, nada ficou igual ao que era. Para o melhor ou para o pior. Quanto a nós, para o pior...
[...] Foi um pensamento essencialmente redutor. Um pensamento constantemente apostado em reduzir o complexo ao simples, o enigmático ao claro, o curvilíneo ao rectilíneo, o múltiplo e o diverso ao uniforme, o imenso ao mínimo, o espiritual ao material e o antropológico ao sociológico.
[...] Depois de supervalorizar uma sociologia horizontal, matemática e genérica, ignorando (ou ocultando) os dados da antropologia cultural, da psicologia, da caracterologia, da psicanálise, etc. (o que era muito mais fácil no seu tempo), tratava-se para Sérgio, de mostrar como tudo quanto é sociologicamente insignificante, na realidade... não existe.
[...] José Marinho esclareceu-o perfeitamente: em António Sérgio, a razão aparece-nos «sem o próprio conceito» [....]"

António Quadros
Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista II, pp. 23-24
(Guimarães, 1983)

quinta-feira, 8 de abril de 2010

António Quadros sobre...

OS PASSOS EM VOLTA, HERBERTO HELDER

"Os passos em volta, superam aquele realismo ingénuo de uma positividade extrínseca e social e, se não desembocam numa concepção plena e consciente de outra realidade mais real, pode dizer-se que estão a caminho. Herberto Helder dá neste livro o passo da crítica, problematização de uma realidade apreendida por exclusiva via sensorial, e por isso insatisfatória. No entanto, dir-se-ia que a vagabundagem, o isolamento, a inquietação - leitmotivs constantes de conto para conto -, que caracterizam as suas personagens autobiográficas, surgem como fuga não ao tipo de realidade de que partiu, mas ao tipo de realidade a que dir-se-ia não quer chegar. [...]"

António Quadros
Crítica e Verdade, Introdução à actual Literatura Portuguesa 
(Clássica Editora, 1964)

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Delfim Santos em diálogo



Livro de homenagem a Delfim Santos com cordenação e introdução de Cristiana de Soveral e Paszkiewicz e textos de Norberto Ferreira da Cunha, António Braz Teixeira, Manuel Ferreira Patrício, Renato Epifânio, Joaquim Domingues, Celeste Natário e Alberto A. Abreu. (Porto, Caixotim, 2010)

quarta-feira, 31 de março de 2010

"A situação pedagógica e a ideia de morte"

"[...] Admitindo, contudo, que, relativamente à essência, a lei eliminou a morte, resta ainda o amplo domínio da existência, onde os reflexos legislativos não chegam para iluminar as consciências. É que a morte tem a sua estática e a sua dinâmica, não por si, que o nada não possui movimento próprio, mas pelas consciências que do nada se apercebem. [...]"

Afonso Botelho, Revista Espiral número duplo 8/9 p.38

quarta-feira, 24 de março de 2010

O «Eros e Psique» de Pessoa, proposta de uma hermenêutica

"[...] A Princesa dorme sempre e sonha; sonha com o Príncipe ou Eros que a virá libertar. Mas, dentro do sonho, o Príncipe descobre que não é outra coisa senão a própria Princesa, e, portanto, que ele próprio não tem realidade, sendo ilusórias as provas vencidas. Adormecida ou inconsciente, a Princesa ou a Psique projectou-se para um caminho iniciático que a levou à descoberta da sua solitude essencial; o Príncipe ou Eros não representava afinal outra coisa do que o desejo vão de um outro que não existe. E daí, porque o outro não tem realidade, porque é unicamente uma emanação do sonho ou do pesadelo, torna-se-lhe um fantasma. [...] O Príncipe e a Princesa, Eros ou Psique, brevemente se separam, mas para uma iniciação vital, cujo termo foi o regresso à casa do eu, foi o reencontro e a fusão última e definitiva do que devém e se projecta com o que é e está. Agora, o Neófito ou o Inciado está pronto para aceitar totalmente o ascetismo, a santidade e o heroismo de uma missão de inteiro compromisso, sem partilhas, sem distracções, sem divisões, no voto de castidade e de privação dos antigos cavaleiros. [...]"

António Quadros, Revista Persona, nº 4, 1981, pp. 37-42

terça-feira, 23 de março de 2010

João Alves das Neves sobre António Quadros

"[...] o que mais me aproximou de António Quadros foi o seu fervor pelos mil e um aspectos da Cultura Portuguesa. com relevo para as relações entre os 8 paises de idioma comum, perfeitamente caracterizados nos seus artigos e livros. É claro que um dos nossos temas ´preferidos foi a obra de Fernando Pessoa, mas os seus comentários sobre o diálogo cultural luso-brasileiro despertaram-me o maior interesse.
Em 1988, coordenamos na Academia Paulista de Letras, em São Paulo, o I Encontro de Estudos Pessoanos, do qual participaram destacados ensaístas brasileiros e portugueses, assinalando, entre outros, João Gaspar Simões, Teresa Rita Lopes e António Quadros, conforme ilustra a revista cultural Comunidades de Língua Portuguesa (agora, com 22 volumes publicados!). Foi no decurso desse diálogo lusíada que da admiração intelectual passamos à amizade. [...]"
João Alves das Neves
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segunda-feira, 22 de março de 2010

Pela mão de António Quadros

"[...] Sim, foi António Quadros quem me deu a conhecer a filosofia portuguesa, quando ela já era um corpo sedimentado e sistematizado. Pela sua mão fui percorrendo os caminhos de um Leonardo Coimbra, Álvaro Ribeiro, Santana Dionísio, José Marinho, para chegar a Brás Teixeira, Sinde Monteiro, Elísio Gala, a tantos outros que estou a ofender não lhes mencionando o nome. Conheci entre os vivos apenas Pinharanda Gomes, porque o entrevistei. O meu modo isolado de ser vedou-me outras companhias. Guiado pelas veredas íngremes da saudade e pelas alturas da Tradição, desvendando lápidas ocultas e submetido a sortilégios e outros encantamentos de um mundo maravilhoso, foi sobretudo através dele que aprendi que só há uma filosofia magnífica da existência fora do que sofremos ser o raquitismo do existente, nas terras a que a razão não ascende, de que o racional ignora os segredos. [...]"
José António Barreiros
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