quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Fernando Pessoa, Poeta, Profeta e Alquimista do Verbo


"[...] O Primeiro Fausto deveria ordenar-se segundo quatro grandes temas cujos títulos são sintomáticos: O mistério do mundo; O horror de conhecer; A falência do prazer e do amor; O temor da morte. Mistério, horror, falência, temor...

Mas, se uma parte considerável da sua lírica ortónima, em contraponto com o radicalismo daquela tentativa dramática, nos aparece de facto como profundamente ensimesmada, registo de uma desoladora solidão individual, documento de uma tocante sentimentalidade frustrada, projecção de uma incerteza angustiada, às vezes angustiada quanto à vida de relação e até à vida de pensamento, contudo a nota mais forte da obra que conseguiu erguer e nos legou é dinâmica, interventora, frequentemente polémica, criacionista.

Assumir na poesia a cisão dilacerante com que se encontrou ao tomar consciência do seu Si conflitual e praticar uma constante intra-análise psíquica, eis o que o libertou para a exigência de uma univocidade por assim dizer escatológica, para a procura de uma identidade ética e sublimatória, para a entrega a uma obediência supra-egolátrica ou supranarcísica, que nele foram aliás sempre problemáticas e que constituíram a longa iniciação da sua vida." 

António Quadros, "Fernando Pessoa, Poeta, Profeta e Alquimista do Verbo" em Estudos sobre Fernando Pessoa no Brasil, Revista Comunidades de Língua Portuguesa (1985), p. 28.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Acto - fascículos de cultura, 1 e 2

"Por demais sabemos que nunca o exemplo estrangeiro estimulou profundamente o surto das nossas virtualidades; e muito menos agora, quando a Europa tenta em vão equacionar o seu problema cultural, poderíamos confiar com carácter de exclusividade nos agentes das culturas estranhas que nas suas malas diplomáticas nos trazem os destroços de doutrinas refutadas."
Do jornal Acto, (1951/1952) publicaram-se dois números. O primeiro fascículo, com direcção de António Quadros e Orlando Vitorino, sai no dia 1 de Outubro de 1951. Reúne textos de António Quadros, Augusto Frederico Schmidt, José Blanc de Portugal, José Marinho, Lêdo Ivo, Luís Washington, Manuel dos Passos, Mário de Sá-Carneiro, Martins Correia, Orlando Vitorino, Ortega y Gasset, Raúl Leal, Sant'ana Dionísio e Texeira de Pascoaes.

O 2º e último fascículo do Acto, publicado no dia 1 de Março de 1952, contém textos de Álvaro Ribeiro, António Quadros, Benedetto Croce, Cunha Leão, Delfim Santos, Hein Semke, Luís Washington, Orlando Vitorino, S.S. o Papa Pio XII, Raúl Leal e ainda ilustrações de Couto Viana e Martins Correia.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

António Quadros e os animais

"Um dia, quando tinha quatro ou cinco anos, entrou na cozinha. Apesar das minhas recomendações, a Maria do Porto estava completamente proibida de matar fosse o que fosse em casa. Mas teimosa como era, um dia comprou uma galinha viva e matou-a em cima da mesa da cozinha no momento exacto em que o António entrou. Quando viu a galinha a espernear e a mesa coberta de sangue, teve um choque tão grande que, aos gritos e desfeito em lágrimas, se agarrou às saias da Maria, dando-lhe murros nas pernas com as suas mãozinhas crispadas. Eu peguei nele ao colo, levei-o para o quarto e comecei a dizer coisas à toa, coisas sem sentido que não serviam para nada, pois, de facto, não sabia verdadeiramente como fazê-lo compreender e aceitar aquela atrocidade. A certa altura, como supremo argumento, disse-lhe que a galinha estava muito velha, muito doente e que mesmo as pessoas quando estão muito velhas e muito doentes têm de morrer. Ele então olhou-me com os seus grandes olhos azuis marejados de lágrimas: - Morte morrida, sim, morte matada, não!"

Fernanda de Castro, Ao Fim da Memória, vol. I, pag. 279

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Algo de novo

"O aparecimento do jornal 57 e o conjunto das iniciativas que lhe estiveram associadas significou algo de novo na vida cultural portuguesa, onde, pela primeira vez, a reivindicação da autonomia nacional se fazia a partir de uma perspectiva essencialmente filosófica. O facto de o movimento reunir, para além de algumas personalidades conhecidas, um notável conjunto de jovens, boa parte deles quase inéditos, prestou-se a que - à imagem do que acontecia com outros grupos de intelectuais - se tivesse começado a falar no 'grupo da filosofia portuguesa'. O certo é que, não obstante as mudanças que o tempo propicia, com a progressiva afirmação da individualidade de cada um, os homens da filosofia portuguesa constituíram porventura o conjunto mais dinâmico e coerente de quantos animavam a vida cultural portuguesa, numa diversificada manifestação de criatividade que ia desde a poesia, o teatro e a novela, ao cinema, à conferência, ao jornalismo e ao ensaísmo filosófico."

Joaquim Domingues, «Às novas gerações da filsofia portuguesa» in No signo do 7: 150 anos de filosofia portuguesa: actas dos colóquios. Coord. ed. Guilhermina Ruivo, Maria José Albuquerque, Pedro Martins.  Sesimbra: 2008.
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Joaquim Carneiro de Barros Domingues, mais conhecido por Joaquim Domingues, nasceu na cidade do Porto, no dia 9 de Abril de 1946. É professor, ensaísta e um dos principais investigadores da obra de Álvaro Ribeiro e Sampaio Bruno. Entre 2000 e 2005 editou a revista Teoremas de Filosofia.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Colóquio "A Obra e o Pensamento de António Telmo"


O Instituto de Filosofia Luso-Brasileira promove, dias 14 e 15 de Fevereiro, no Palácio da Independência em Lisboa, o Colóquio "A Obra e o Pensamento de António Telmo".

Programa14 de Fevereiro, 2ª feira

10h00: Sessão de Abertura
António Braz Teixeira

11h00: Comunicações
Joaquim Domingues, «António Telmo: o homem e a obra»
Abel de Lacerda, «Um olhar de António Telmo na simbólica de Prestes João»
Roque Braz de Oliveira, «António Telmo e os caminhos da hermenêutica»
Carlos Vargas, «A ironia em António Telmo»

13h00: Intervalo para almoço

14h30: Comunicações
Paulo Teixeira Pinto, «Portugal sem segredos»
Mário Rui, «António Telmo e as Três Tradições do Livro»
Manuel Gandra, «Linhagem seminal e espiritualidades bastardas – finais de todos os tempos e no contexto lusíada»
Luís Paixão, «O número 8 na obra de António Telmo»

16h30: Intervalo para café

17h00: Comunicações
António Carlos Carvalho, «Os nomes de António Telmo»
Cynthia Taveira, «António Telmo e a inversão dos candelabros»
Rui Lopo, «Significado e Valor da Filosofia em António Telmo»
Pedro Martins, «António Telmo e Luís de Camões»

19h30: Jantar no Círculo Eça de Queiroz. Inclui, a partir das 21h, apresentação de uma obra inédita de António Telmo, por Nuno Nazareth Fernandes.


15 de Fevereiro, 3ª feira

11h00: Comunicações
João Cruz Alves, «Testemunho sobre um homem novo»
António Quadros Ferro, «Correspondência entre António Telmo e António Quadros»
Elísio Gala, «Língua e Pátria»
Renato Epifânio, «A ideia de Pátria em António Telmo»

13h00: Intervalo para almoço

14h30: Comunicações
Carlos Aurélio, «Religiosidade e razão poética em António Telmo»
Paulo Borges, «O último texto de António Telmo: "O acabar da história [...] bruscamente engolida pelo nada que essencialmente é"»
António Cândido Franco, «António Telmo e o Surrealismo»
Rodrigo Sobral Cunha, «O viajante»

16h30: Intervalo para café

17h00: Testemunhos
Manuel Ferreira Patrício
Pedro Sinde
Paulo Santos
Pedro Ribeiro
Pinharanda Gomes

António Telmo Carvalho Vitorino nasceu em Almeida, Beira Alta, a 2 de Maio de 1927. Foi, a convite de Agostinho da Silva e Eudoro de Sousa, durante três anos, professor de Literatura Portuguesa na Universidade de Brasília. Mais tarde, dirigiu a Biblioteca de Sesimbra e leccionou a disciplina de Português em Estremoz. Publicou, entre outras obras, Arte Poética (1963), História Secreta de Portugal (1977), Gramática secreta da língua portuguesa (1981) e Filosofia e Kabbalah (1989). Morreu no dia 21 de Agosto de 2010.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Nem mestres nem discípulos

“Onde não havia mestres nem discípulos, mais valia permanecermos imunes ao que restara da triste corrosão do tempo e do persistente veneno positivista. Mais tarde, a nossa suficiente classificação final deixou-nos livres para fazermos, fora da Universidade, o verdadeiro curso universitário que nela não encontrámos.”

António Quadros, «O Espírito da Cultura Portuguesa», (1967), p. 246

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Livros do Desassossego


"Nesta nova organização que ora apresentamos ao público, fica convenientemente respeitada, não a unidade do Livro [...] mas a sua realidade plural, consistindo esta realidade em não haver um, mas dois Livros do Desassossego: o de Fernando Pessoa ele próprio, simbolista, decadentista, transcendentalista, neo-romântico; e o de Fernando Pessoa-Bernardo Soares, ainda nalguns aspectos simbolista, também em muitos aspectos decadentista, mas fundamentalmente divagante, sonhador, coloquial, diarístico, confessionalista, homem comum, pequeno empregado comercial a sonhar com o infinito do seu quarto andar da Rua dos Douradores."

António Quadros

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Tradução de António Quadros

"A srª. de Bornes levou-a (a Henriqueta) para um sanatório de Auteuil. Morreu, dois meses depois, de uma doença que não era mortal. Por outras palavras, apesar das precauções tomadas, suicidou-se tomando veneno”.

Jean Cocteau, Thomaz, O Impostor, Edição Livros do Brasil, Lisboa, 1955, p.187

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Tradução de António Quadros


"[...] Nem sequer tinha a certeza de estar vivo, já que vivia como um morto. Eu, parecia ter as mãos vazias. Mas estava certo de mim mesmo, certo de tudo, mais certo do que ele, certo da minha vida e desta morte que se aproximava. Sim, não sabia mais nada do que isto. Mas ao menos segurava esta verdade, tanto como esta verdade me segurava a mim. Tinha tido razão, tinha ainda razão, teria sempre razão. Vivera de uma dada maneira e poderia ter vivido de outra dada maneira. Fizera isto e não fizera aquilo. Não fizera uma coisa e fizera outra. E depois? Era como se durante este tempo todo tivesse estado à espera deste minuto... E dessa madrugada em que seria justificado. Nada, nada tinha importância e eu sabia bem porquê."

Albert Camus, O Estrangeiro

António Quadros, Amorim de Carvalho, entre outros

Círculo Eça de Queiroz. 1960.
Arquivos da Casa Amorim de Carvalho


No primeiro plano, o terceiro a contar da esquerda: Padre Moreira das Neves; no segundo plano, a contar da direita: Luís Forjaz Trigueiros, Eça Leal, António Quadros e Amorim de Carvalho.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Reunião do Conselho Consultivo da Fundação António Quadros

Ontem, dia 29 de Novembro de 2010, realizou-se no Círculo Eça de Queiroz, em Lisboa, a 2ª reunião do Conselho Consultivo da Fundação António Quadros. A sessão, presidida por Mafalda Ferro, António Roquette Ferro, Luís Gomes, Francisco d'Orey Manoel e Mário Quina, contou com a presença de António Braz Teixeira, António Quadros Ferro, Paulo Borges, Rita Ferro, Gonçalo Sampaio e Melo, Madalena Jordão, José Guilherme Victorino, entre outros membros do Conselho Consultivo.

Neste encontro, foi apresentado o plano de actividades para 2011, assim como o orçamento deste ano e do ano seguinte. Para além disto, discutiram-se todos os assuntos relacionados com os objectivos culturais da Fundação António Quadros. O anúncio da constituição do Prémio António Quadros Cultura e Pensamento em 2011 foi uma das grandes novidades apresentadas na sessão de ontem.

Desde a sua constituição, a Fundação tem vindo a realizar diversas actividades de indiscutível valor cultural e cientifico, nomeadamente a conservação e restauro de documentos e obras de arte que mantém no seu espólio, a organização e descrição da biblioteca de António Quadros e de todos os seus documentos e ainda o apoio sistemático à investigação.

Mais sobre a Fundação António Quadros aqui.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

António Quadros sobre António Telmo

"Conheci-o há pelo menos quarenta anos na «Universidade» da Filosofia Portuguesa, como ele atraído pelo magistério marginal de Álvaro Ribeiro e José Marinho, discípulos de Leonardo Coimbra, para quem a filosofia não era um modo de vida, mas um modo de ser…
Essa «Universidade» informal teve como sedes, primeiro o Café Palladium, onde ainda apareciam às vezes o Casais Monteiro, o Jorge de Sena, o Eudoro de Sousa, o José Blanc de Portugal, o António Banha de Andrade, o Eduardo Salgueiro ou o Domingos Monteiro, depois a Brasileira do Rossio, onde assentou arraial durante os anos em que nós lançámos com entusiasmo e espírito de desafio o Acto, o 57, a Espiral, anos em que aqueles nossos mestres saudosos publicaram, o primeiro A Arte de Filosofar (em 1955) e A Razão Animada (em 1957), o segundo a Teoria do Ser e da Verdade (em 1961). Mais tarde, outros cafés tomaram o lugar daqueles, o Colonial na Almirante Reis ou o Estrelas Brilhantes em Campo de Ourique… [...]"

António Quadros Continue a ler aqui.

Coitado do pobre Antero


Coitado do pobre Antero,
desnudado, analisado,
Não já o corpo, seu espírito,
Dissecado, Autopsiado.

Matou-se, mas era livre,
Liberdade era o seu bem,
Agora sua alma triste,
Já nem liberdade tem.

O que não disse, ele disse,
O que escreveu não pensou,
O que disse ele desdisse,
O que pensou não amou.

Coitado do pobre Antero!
Quero vê-lo, mas não posso...
Roubámos-lhe a liberdade,
Já não é dele, é só nosso.

António Quadros
por ocasião do Colóquio Anteriano em Ponta Delgada (14-10-1991)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Revista Cultura Entre Culturas nº 2

Já está à venda o 2º número da revista Cultura Entre Culturas, dedicada ao encontro entre o Ocidente e o Oriente. Para além das homenagens a Raimon Panikkar e António Telmo, recentemente falecidos, podem ler-se ensaios de Carlos João Correia, Rui Lopo, Amon Pinho e Paulo Borges e ainda textos de Ricardo Ventura, Matthieu Ricard, Françoise Bonardel, Miguel Gullander, Duarte Drumond Braga, entre outros.


Próximos Lançamentos

19 de Novembro, 21.30
Auditório da Câmara Municipal de Barcelos

23 de Novembro, 21.30
Clube Literário do Porto
Rua Nova da Alfândega, 22

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Histórias do Tempo de Deus


"Cada um dos contos que integram as Histórias do Tempo de Deus tem como eixo simbólico a reflexão sobre algumas das chaves de acesso à grande obra universal. Embora o diálogo filosófico e a construção das personagens enquanto tipos que permitem apresentar as "demonstrações alegóricas de ideias-tese preestabelecidas" (Ferreira, José Antunes - Introdução a Histórias do Tempo de Deus, Lisboa, Edições do Templo, 1979), confiram à obra o sentido de um "tratado completo de cosmologia" (id. ib.), de uma "teoria da alma, considerando-a na sua essência, na sua evolução, na sua transfiguração após a morte" (id. ib.), a verdade é que a reflexão filosófica não se sobrepõe a uma construção narrativa que permite vários níveis de leitura e, embora impondo a reflexão sobre uma macroestrutura densamente urdida e firmada na obra ensaística e filosófica do autor, não sobrecarrega uma forma narrativa enigmaticamente sedutora na sua aparente linearidade."

Histórias do Tempo de Deus. In Infopédia. Porto: Porto Editora, 2003-2010. [Consult. 2010-11-11]. Disponível em http://www.infopedia.pt/$historias-do-tempo-de-deus

Onde estás?


Os meus olhos não te vêem,
O meu nariz não te respira,
Os meus ouvidos não te ouvem,
O meu paladar não te apercebe,
Os meus dedos não te tocam,
Onde estás tu, Deus, que não te sinto?
A minha imaginação não te inventa,
O meu subconsciente não te revela,
A minha lógica não te deduz,
O meu espírito não te ensina,
A minha inteligência não te compreende,
Onde estás tu, Deus, que não te sei?
A minha paz precisa-te,
A minha ignorância busca-te,
A minha alma chama-te,
A minha fé espera-te,
A minha vida suplica-te,
Onde estás tu, Deus, que não te encontro?

António Quadros, Além da Noite, Parceria António Maria Pereira, 1949, p.127

sábado, 6 de novembro de 2010

Sampaio Bruno morreu há 95 anos


"Não é absurdo (digamos: ridículo) conceber que toda esta laboriosa evolução mundial se operou, opera, operará para que o Sr. Fulano saiba bem física e o Sr. Beltrano não tenha segundo no cálculo? [...] Saber por saber é uma espécie de masturbação superior. [...] Porque o desfecho e remate do homem não é gozar-se, repita-se. Se o mundo não existe para que o homem saiba, odioso seria fantasiar que o universo continua subsistindo para que o desfrute o homem. [...] O fim do homem neste mundo é libertar-se a si, libertando os outros seres. [...]"

Sampaio Bruno, A Ideia de Deus, (1902)
Livraria Chardron - Lello & Irmão Editores, pp. 468-469

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Da Literatura Portuguesa

"A interpretação  [fenomenológica] tem em regra o seu ponto de apoio em centro alheio ao movimento intrínseco que a inspira e tende a sobrepor um elemento a todos os outros, coisificando e limitando a pluri-dimensionalidade fenoménica."

António Quadros
"Da Literatura Portuguesa, Ensaio de Interpretação Fenomenológica"
Revista Espiral, nº4/5,  pp 57-71

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Nota à margem

Neste mundo em ruínas, onde não se escuta absolutamente nada, a não ser o silêncio e o "trabalho persistente do caruncho que rói há séculos na madeira e nas almas" (Raul Brandão) com a internet, pelo meio, a mudar-nos o cérebro, é preciso procurar no passado quem nos apazigue o sofrimento e nos salve a alma.

Sabemos como a felicidade e a perfeição dos homens deixou de ser uma utopia, para se tornar num simulacro tão ou mais falso do que o mundo mais utópico que alguma vez a humanidade concebeu. Mas que importância podem os escritores, os artistas e os filósofos ter, se também eles, na sua grande maioria, participam na construção dessa visão, pela conivência com que vivem e pensam este mundo, ora recusando fundamentalistas e obtusos outras formas de se fazer cultura, ora desistindo e entregando-se sem reservas ou autonomia, a bem da fraternidade, a interesses próprios?

Existe no homem, desde há largos anos, a ideia de que a cultura não serve para nada. Em sentido amplo, ou, simplesmente, em sentido restrito, tudo, no que lhe diz respeito, é o mesmo. A cultura é desprezada, quando não absolutamente esquecida. Subsiste ainda entre nós, a sensação de que o mundo se divide em duas partes e, bem vistas as coisas, talvez seja verdade. O fosso está cada maior, mais fundo do que no passado.

Seria de esperar que o mundo das ideias e o outro, tão diferentes entre si, se encontrassem (como quem, depois de ultrapassar as suas fronteiras, encontra do outro lado um inimigo ou apenas algo ou alguém que não conhece) porém, acomodados pelo reconhecimento da mediocridade alheia e assustados pelo desconhecido à sua frente, desprezam-se e recusam, com os meios que têm ao seu alcance, por ignorância ou excesso de sabedoria, a existência do outro nas suas vidas.

Não se conhecem, não se vêem, não sabem que o outro é seu semelhante. E nós, tão indiferentes ao mundo como os outros, cúmplices como eles quanto ao resto, já não sentimos nenhuma estranheza ou vontade.
António Quadros Ferro

terça-feira, 26 de outubro de 2010

António Quadros sobre Delfim Santos

"[...] Delfim Santos é a nosso ver o protagonista de um diálogo fecundo, o diálogo do pensamento português com a filosofia alemã, do qual vieram a resultar uma crítica e uma fundamentação teóricas de grande qualidade, estimulantes em aspetos essenciais para a nossa cultura ou para a nossa criatividade filosóficas. É curioso observar que os primeiros escritos de Delfim Santos, era ainda estudante universitário e nos primeiros anos da sua formatura, isto é, entre 1929 e 1932, foram de natureza espiritualista e cristã, numa linha de pensamento protestante e evangélica, tendo sido publicados, quase todos, na revista portuense, ligada à Igreja Evangélica, intitulada precisamente Portugal Evangélico. Dadas as tradicionais relações da teologia reformada ou protestante com algumas facetas mais características do pensamento germânico, em geral voluntarista e imanentista, não é para admirar que ao contrário da tendência habitual da cultura portuguesa para privilegiar o diálogo com a cultura francesa, Delfim Santos antes tenha escolhido o estágio em centros de estudo predominantemente austríacos e alemães."

António Quadros - "Delfim Santos: Introdução ao pensamento filosófico e pedagógico", Lisboa: Leonardo, Ano 2, num. duplo, set. 1989, 22-29, 91. Artigo completo aqui.

sábado, 23 de outubro de 2010

sobre a liberdade

“[…] Ora só pode entender-se que uma sociedade é verdadeiramente livre ou em potência de liberdade quando os cidadãos atingirem um grau mínimo de autonomia individual, isto é, quando souberem conjugar o seu emprenho pessoal nos interesses superiores da polis com a capacidade de optarem por si próprios, compreendendo a todo o momento o que de fundamental está em jogo e estando aptos a resistir à pressão intelectual que sobres eles é exercida pelo poder ou pelos poderes, através das mil formas de sedução, de propaganda, de manipulação e de «formação», que visam usá-los, por vezes mais do que servi-los.
A liberdade de pensamento é pois a primeira das liberdades e precede-as. Mas a liberdade de pensamento não é um dado natural, é uma difícil conquista, é, digamos, uma iniciação, que parte da descoberta da nossa própria subjectividade e que se desenvolve, escreve Álvaro Ribeiro noutro livro, no trânsito do intelecto passivo para o intelecto activo ou da menoridade intelectual para a maioridade mental. A liberdade do pensamento implica uma iniciação, uma descoberta e também um movimento ineterrupto e de algum modo ascético para o saber.”

António Quadros
Memórias das Origens - Saudades do Futuro
 Publicações Europa-América, 1992, pág. 302
*via cadernos de filosofia extravagante

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Tendências dominantes da filosofia portuguesa no séc. XX

“ […] A questão da filosofia portuguesa, tal como se põe a partir da década de quarenta, encetada por Álvaro Ribeiro na sua obra O Problema da Filosofia Portuguesa, radica, pois, da revalorização dos chamados pensadores de transição […] Não devidamente valorizados no seu tempo, tiveram de esperar duas ou três décadas para serem lidos e considerados como o germe da questão que prioritariamente no ocupa, a questão da filosofia portuguesa. Com efeito, do movimento da reabilitação destes pensadores, da leitura atenta da evolução dos seus escritos, nasce a caracterização mais ou menos sistemática das tendências que presidem ao nosso genuíno modo de filosofar.”

Maria José Cantista, "Tendências dominantes da filosofia portuguesa no séc. XX : algumas achegas acerca da contribuição de José Marinho" in Revista da Faculdade de Letras, Univerdade do Porto, Série de Filosofia, nº 9, (2ª série) 1992, pp 73-101 Continue a ler aqui.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

«Ratos, Camaleões, Rinocerontes, etc. (pequeno estudo zoológico)»

"Modestamente, venho-me dedicando há anos a estudos de zoologia. Sem pretender rivalizar com os grandes investigadores deste ramo científico, resolvo-me todavia hoje a publicar algumas notas, aliás seleccionadas de entre muito material acumulado e que um dia valerá a pena reunir e sistematizar para a posteridade.


Os ratos
Estes pequenos roedores são na realidade tímidos e vulneráveis. Escondem-se durante o dia, mas de noite (assustadiços como são) conseguem alimentar-se de sobejos e detritos, circulando nos forros das casas, nos canos de esgoto, nas lixeiras. Têm um instinto seguro. Quando a casa começa a arder, ei-los que fogem imediatamente em massa, antes de o perigo se tornar mortal. Escolhem então outra casa, outro lar. E de novo irão prosperar à sua maneira tímida e nojenta, em novos forros, em novos canos de esgoto, em novas lixeiras.

Os camaleões
São um fenómeno único de adaptação ao meio ambiente. Ante os riscos que a natureza e o mundo zoológico prodigam, não combatem nem fogem, mudam de cor. Quietos, adquirem por um prodígio inexplicável as tonalidades da vegetação com que procuram confundir-se. Pretos ou vermelhos, verdes ou azuis conforme convenha, qual a sua real identidade, qual a sua cor de origem? Impossível sabê-lo, o que neles é verdadeiro é a mentira das suas mudanças oportunas.

Os rinocerontes
Pesados, pré-históricos, olhos pequenos, investem a direito. São um anacronismo, um regresso ao tempo dos dinossauros. O seu galope assusta. Quem não é por mim é contra mim, parecem dizer.
Perante a investida, muitas das presumíveis vítimas preferem transformar-se, elas próprias, em rinocerontes, e juntar-se à manada pré-histórica. Foi o zoologista iminente Eugénio Ionesco quem pela primeira vez observou este fenómeno, a que chamou rinocerite e que é afinal uma versão activista da passiva camaleonite.

Os carneiros enraivecidos
Depois de abordar a problemática zoológica-transformista da rinocerite, o mestre Ionesco investigou o tema afim da carneirite. Interessou-se especialmente pelos carneiros enraivecidos, parecidos com os rinocerontes em fúria, se com menor majestade, certamente com maior capacidade gregária. Contudo, já se viu um rebanho inteiro de carneiros enraivecidos? Fica em aberto este grande problema. identificados por laços irracionais e emocionais, os carneiros enraivecidos tanto poderiam destruir tudo à sua frente, como precipitar-se de cabeça baixa no abismo. Por isso, mais tarde ou mais cedo há que rarificá-los e integrá-los com as ovelhas - vencê-los pelo número.

As ovelhas
Houve, há e haverá ovelhas. É inevitável a existência beatífica do rebanho de ovelhas, que dominam em geral a agressividade dos carneiros, até pela sua quantidade. Aquecendo-se umas contra as outras, descobrem instintivamente o êxtase da unidade, a que os mal intencionados chamam uniformidade. Bem enquadradas pelos cães de fila, que as conservam juntas, deixam-se conduzir docilmente seja para onde for, pacíficas e alvares; para o pasto, para a tosquia ou para o abate. Aliás, não importa para onde as conduzem. São uns seres cómodos e confiantes. A sua docilidade guiada, vigiada e igualizada é a sua felicidade e a sua segurança- O rebanho é que é o fim.

As aves de rapina
De garras aceradas, descem vertiginosamente das escarpas. Carnívoras, baixam sobre a ovelha incauta e contra elas é impotente o cão de guarda. Organizam-se batidas, mas há sempre inacessíveis ninhos de abutres ou de águias, desconhecidos dos caçadores zelosos. Aves de rapina desaparecem, mas outras continuam, para que não fique perturbado o equilíbrio ecológico.

Os chacais
As grandes feras da selva andam acompanhadas, à distância de bandos de chacais. As grandes feras morrem, outras as substituem, mas os chacais permanecem fiéis ao seu instinto de devoradores cobardes: seja qual for o rei da floresta, eles constituirão a guarda de vassalos aduladores, que dos seus restos se alimentam.

Os porcos
Na pocilga, engordam. Comer é o seu fito. Se o alimento falta, os seu grunhidos lancinantes atroarão o universo inteiro. Quem poderá então resistir a esse coral patético vindo das pocilgas?

Os crocodilos
Durante horas ou anos estiveram imóveis, apagados e anónimos, à espera da sua oportunidade. Súbito, ela chega: e o que parecia um tronco de árvore caído, é de repente uma boca hedionda toda feita de dentes aguçados, que apanha e dilacera o transeunte ingénuo ou distraído.

As formigas
Laboriosas e idênticas, trabalham todo o dia e todo o ano; laboriosas e idênticas, controem o formigueiro, onde repartem entre si o produto do seu incansável labor. A sociedade das formigas é a maravilha fatal da natureza. Complexada, a sociedade humana procura imitá-la, mas sem um verdadeiro êxito. Tanta desordem, no nosso mundo mal planificado, mal programado e mal igualizado. Quando é que os homens conseguirão finalmente expurgar a heresia da personalidade?

Os jovens lobos
Em alcateias, os lobinhos sanguinários (desobedecendo aos seus maiores) atacam quantos se lhe opõem. Matar e devorar o que ainda é vivo e lhes resiste é a sua filosofia barbárica e carnívora. O sangue ardente que lhes corre nas veias, só pode ser aplacado em grandes rituais obscuros de sacrifício. Oiçam-nos que uivam, antes de atacarem a manada de gordos ruminantes. Os velhos lobos recomendam-lhes prudência, moderação, inteligência. Se quiserem um dia ser formigas, têm de aprender a ser menos impulsivos.

Os cães
Há os cães de estimação e há os cães de circo. Há os cães domésticos, que fazem habilidades caseiras, e há os cães de guarda bem treinados, que obedecem cegamente às ordens dos pastores. Há os cães vadios, farejando, famélicos, os caixotes de lixo, e há os cães raivosos, que se vingam de o serem. Há os cães-polícia, prontos a saltar à garganta dos adversários ou dos invasores da propriedade, e há os mastins, babando-se em ódio, que são atiçados, tornados ferozes, lançados contra os homens. Mas a raça dos cães é sempre uma raça dependente e submissa. Guardando as ovelhas ou atirando-se às gargantas, o rosnar dos cães é a voz do seu dono.

Os burros
Espessos e obstinados que sejam, acabam sempre por ser montados. Têm longas orelhas ponteagudas, mas o mal é que não se vê com as orelhas. Ficam na sua, teimosos, porque nada entendem e nada sabem, a não ser de forragens e de pastos. Zurram como vivem: pequenamente, feiamente, estupidamente. Mas têm uma metafísica; a metafísica do coice.

Os papagaios
É na verdade curiosa a predisposição fonética dos papagaios. Basta ensinar-lhes uma palavra, uma palavra sonora, uma palavra fácil, uma palavra de passe, uma palavra de ordem, que eles aprenderão a dizê-la, e a repeti-la, e a voltar a repeti-la até à exaustão. Experimentem fazer a experiência com um grupo de papagaios. É um coro impressionante e convincente, pois dir-se-ia até que sabem o que vocejam ou gritam. Bem treinados, calculem, são capazes de dizer frases inteiras. Mas o seu pensamento rudimentar, nos seus cérebro minúsculos, é apenas fonético. É um eco mecânico, é um reflexo condicionado, é uma voz de papagaio."

António Quadros in A Arte de Continuar Português, Edições Templo, 1978, pp.139-144 (o texto, todavia, é de Maio de 1975)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

da Filosofia

"Nem a filomitia em si própria (o amor dos mitos), nem a filo-epistemia (o amor das ciências), nem sequer a filognosia em geral (o amor da gnose), nem a filopistia (o amor da crença ou da fé) e, muito menos a filotecnia (o amor das técnicas, hoje paixão que tende a anular os primeiros estádios para o saber), podem bastar-se a si próprias, aspirar um estatuto de independência. [...] A alternativa vitoriosa é a vigente: um agir intermédio de ideias feitas, um pensar por estereótipos, uma prática sem teoria, um estarmos fora de nós para não estar em parte alguma, apenas os passivos, dóceis, domesticados, seguidores de ideologias, de doutrinas, de normas ditadas de fora, que nos transformaram pouco a pouco, de povo criador de civilização que fomos, em povo mimético, compensando os seus complexos e recalques com o discurso provinciano da "opção europeia" extrapolada mimeticamente para lá das meras práticas do mercado."

António Quadros, "Álvaro Ribeiro, mestre da geração do 57", in Revista Leonardo (I, nº2) pp. 16-17

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Sartre e o existencialismo vistos por um filósofo católico (de Ismael Quiles e António Quadros)


Índice completo aqui.

Ismael Quiles Sanchez Pedralba, (1906 - 1993) foi um teólogo e filósofo espanhol fortemente influenciado por Martin Heidegger, Gabriel Marcel e Karl Jaspers. Escreveu, entre outras obras, La persona humana (1942), Aristóteles: vida, escritos, doctrina (1944), Filosofía del cristianismo (1944), Heidegger y el existencialismo de la angustia (1948), Sartre y el existencialismo del absurdo (1952), Más allá del existencialismo: filosofía in-sistencial (1958), Metafísica budista (1967), Filosofía y mística: yoga (1967), Filosofía y religión (1985).

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Conferência de António Quadros


Romantismo e misticismo na pintura de Teresa de Saldanha - 1988


"O homem europeu de 1820 herda de 1789 a revolta contra toda a autoridade eclesiástica ou teológica, mas apura o seu liberalismo e projecta-o no plano de uma espécie de religião de natureza transcendental. Aliás, a palavra alemã stimmung, mais do que a palavra sentimento, define com outra precisão o que é a vivência romântica: é, digamos, o estar em simpatia com o outro, e no plano das relações humanas a stimmung só encontra tradução na ideia de comunhão entre “o amador e a coisa amada”. Não é de modo algum despropositado considerar que o amor é a forma suprema do romantismo; a ponte, o elo de ligação entre dois seres, homem e mulher, não é o contrato de casamento, não é a vontade de constituir família, não é sequer a atracção sexual, embora possa também ser tudo isto secundariamente porque é essa espécie de milagre indefinível, pelo qual dois seres distintos, sem razões que como tal possam ser reconhecidas, entram em simpatia, em comunhão, em stimmung. É o que Goethe chamava, e deu o título ao seu famoso romance, as afinidades electivas; trata-se de uma afinidade por assim dizer inata entre dois seres, que, reconhecendo-se, se elegem mutuamente, aspirando a uma fusão completa, como no mito antigo, então de novo em grande voga, de Tristão e Isolda, que segundo Denis de Rougemont é o fundamento do amor no Ocidente. [...]"

Continue a ler aqui.

António Quadros (Por ocasião do 150º aniversário do  nascimento de Madre Teresa Saldanha, 1988, Fundação Calouste Gulbenkian)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

António Quadros, "Uma alma delicada" (Jornal Público, 21-03-2003)

Por Rita Ferro

Fica aquele olhar azul, torturado e amável. Vivia sem paz, mas dava-a: era acima de tudo uma alma delicada. Tinha tiques. Um deles, o de levantar o queixo e o pescoço bem alto sempre que qualquer coisa o preocupava: uma conferência por escrever, um funcionário doente, a reprovação de um neto. Tal como a minha avó, escreveu até cegar. E até depois disso, como ela. É a imagem que dele retenho, mais forte.
Sentado, nos últimos dias, com os papéis espalhados em cima da mesa, lançando àquele romance inacabado um último olhar de angústia: "A Paixão de Fernando P." Guardo essas páginas de prosa quase diáfana, onde a escrita, tão alinhada, parte do centro do papel para a direita - cegara de um olho.
Deixou-se internar pela última vez agarrado a livros.
"Leva a Bíblia, pai?" "Sim", respondeu já vago, "de certa forma". Era o "Húmus", do Raul Brandão, e o "Verbo Escuro", do Pascoaes.
Amigos da casa.

António Quadros, "um missionário da cultura" (Jornal Público, 21-03-03)


Há dez anos, ao raiar do dia, vítima de um tumor cerebral, morria em Lisboa António Quadros, um dos nomes mais emblemáticos da designada filosofia portuguesa e fundador do IADE, Instituto de Artes Visuais, Design e Marketing. Filho de António Ferro e de Fernanda de Castro, António Gabriel de Quadros Ferro nasceu em Lisboa a 14 de Julho de 1923. Amigo pessoal de Salazar e director do Secretariado Nacional de Informação (SNI), o pai insiste que vá para Direito. O jovem António Quadros ainda lá andou um ano. Aborrece-se de morte e muda-se para o lado de lá da Alameda da Universidade, para Letras. Num depoimento dado ao PÚBLICO, em Julho de 1992, justificou o "salto": "O facto de conhecer muitos escritores, de ter uma boa biblioteca influenciou-me... A minha vida fazia-se em cafés, em tertúlias, era muito boémia."A 8 de Dezembro de 1947, casa com Paulina Roquette Ferro, ao mesmo tempo que escreve o seu primeiro livro, "Modernos de Ontem e de Hoje" (ed. Portugália). Desta união teve três filhos: António, Rita e Mafalda Ferro. Um ano depois forma-se em Histórico-Filosóficas, na Faculdade de Letras de Lisboa. A política não o atrairá - nem antes nem depois do 25 de Abril. A veia ensaística prossegue com "Introdução a uma Estética Existencial" (1954, Portugália). À época, de resto, os seus autores de eleição são Sartre, Camus e Merleau-Ponty. Porém, Delfim Santos, que tinha sido seu professor, aponta-lhe outros horizontes - Nietzsche, Kierkegaard, Kafka - e três autores oriundos do personalismo: Bergson, Gabriel Marcel e Jaspers. Pelo caminho, tenta a poesia com "Além da Noite" (1949, Parceria A.M. Pereira), género que retomou três anos depois com "Viagem Desconhecida" (1952, Portugália). Quatro anos depois, aparece "A Angústia do Nosso Tempo e a Crise da Universidade" (1956, Edições Cidade Nova), onde defende a necessidade de uma regeneração da vida cultural portuguesa, na esteira de Leonardo Coimbra e Sampaio Bruno. Ou seja, depois do existencialismo e do personalismo, abraça as ideias da Renascença portuguesa. Ao "Diário de Notícias", em Dezembro de 1991, Quadros justificou o seu novo trilho: "De longe, dos confins do ser português, eles trouxeram o facho, o mesmo que alguns de nós (e eu serei o último dos últimos) queríamos poder levar mais adiante... O espírito português, o espírito universalista português."Os anos 50 são decisivos para Quadros. Conhece Álvaro Ribeiro e José Marinho. Os dois animam uma tertúlia que, regularmente, se reunia no Paladium, Brasileira do Rossio ou na cafeteria Colonial. A seu lado estão nomes como Afonso Botelho, Orlando Vitorino e António Brás Teixeira, entre outros. Às vezes apareciam grandes nomes da poesia portuguesa como Jorge de Sena, Rui Cinnaty, José Régio, José Blanc de Portugal ou Natália Correia. Mas, também, o iconoclasta Almada Negreiros.Em 1958, fica ligado à fundação da Sociedade Portuguesa de Escritores, desmantelada pela PIDE, em 1961, na sequência da atribuição do prémio de literatura a Luandino Vieira. Com Branquinho da Fonseca e Domingos Monteiro, instalou o sistema de Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian. E, em 1969, cria, visionariamente, o IADE, Instituto de Artes Visuais, Design e Marketing. António Quadros multiplica-se, assim, entre a acção a reflexão. Com "Histórias do Tempo de Deus" (1965, Livraria Morais Editores) ganha o Prémio Ricardo Malheiros, da Academia de Ciências de Lisboa, e o Prémio de Novelística da Casa da Imprensa; com "Pedro e o Mágico - Contos para Crianças" (1972, Editorial Notícias), o Prémio Nacional de Literatura Infantil. Dez anos depois, seria a vez de ser atribuído o Prémio de Ensaio do Município de Lisboa a "Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista" (1982-1983, Guimarães Editores). Um dia, Afonso Botelho traçou-lhe outro retrato: "Quadros era o mais dinamizador e o mais produtivo. Mas nunca teve a pretensão de ser chefe-de-fila. Foi sempre um missionário da cultura." Uma missão que só ganharia sentido para António Quadros na incessante interrogação do mistério que era para ele Portugal. Para responder às palavras/questões iniciais de "Portugal - Razão e Mistério" (1986, Guimarães Editores), a obra-síntese de toda a sua obra de António Quadros. O autor planeava fazê-lo em três volumes. Apenas vieram a lume dois. A doença, primeiro, e a morte, depois, impediram-no de cumprir o plano.

Carlos Câmara Leme

sábado, 25 de setembro de 2010

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

António Quadros e a história do design em Portugal

1969

Seria no ensino privado que o ensino do design ia começar verdadeiramente. António Quadros funda o IADE - Instituto de Arte e Decoração. Com a inauguração do Instituto, iniciava-se também o curso de Design de Interiores e Equipamento Geral. Com duração de três anos, esta formação seguia o modelo anglo-saxónico da Arts and Crafts e outros mais vanguardistas como o da Escola Politécnica de Design de Milão. Aqui viriam ensinar muitos estrangeiros, mas também nomes nacionais influentes como Lima de Freitas e António Pedro."

Do desenho ao design, texto de Mariana Monteiro (Revista Máxima Interiores, Dossier: «Cronologia do design português», Setembro, 2010) Continue a ler aqui.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A original perspectiva de António Quadros


"A original perspectiva metodológica, ontológica e axiológica assumida por António Quadros remete-nos [...] não à concepção europeia de filosofia - entendida pela Filosofia Portuguesa como uma discursividade lógica incapaz de realizar o salto entre distintos níveis ontológicos -, mas à ideia de filosofia enquanto arte, duplamente especulativa e operativa, de condução do processo de reintegração final entre o homem e o mundo, pela mediação da palavra divina."

 Símbolo Mito e Filosofia da História no pensamento de António Quadros
 Editora UEL, Universidade Estadual de Londrina, (1997), p. 304

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Entrevista de António Quadros a Álvaro Ribeiro

 "[...] Sentámo-nos e a paragem na continuidade da conversa deu-lhe insensivelmente um outro rumo. Um assunto na ordem do dia, depois da polémica entre José Régio e José-Augusto França, depois do «57» e das tempestades que em sua volta se levantaram, é o dilema - falso dilema, quer-me parecer - entre o nacional e o universal. Pergunto a Álvaro Ribeiro entre dois golos de um refresco:

A.Q: Um dos grandes argumentos - recentemente invocados em afirmações culturais de diversa origem contra a existência de filosofias nacionais e, consequentemente da filosofia portuguesa, é o de que o pensamento é universal... O que diz o Sr. Dr. sobre este tema?

A.R: Compreendo e respeito o ponto de vista, mas não me é possível perfilhá-lo. A simples experiência quotidiana ensina que o universal é recebido pelo espaço e pelo tempo. Além dessas limitações naturais, históricas e geográficas, existem hoje limitações técnicas, artificiais, como o falso ideal de um absurdo humanitarismo abstracto, que alguns querem impor pela força, para substituir o ideal da fraternidade universal. Ora repare que até os irmãos são diferentes.

"O testemunho de Álvaro Ribeiro", in Jornal 57, nº 3-4, p. 7.(Dezembro, 1957)