sexta-feira, 18 de março de 2011

Colóquio "A Obra e o Pensamento de Eudoro de Sousa"


O Instituto de Filosofia Luso-Brasileira promove, dias 22 e 23 de Março, no Palácio da Independência em Lisboa, o Colóquio "A Obra e o Pensamento de Eudoro de Sousa". Comunicações de João Ferreira, António Braz Teixeira, Joaquim Domingues, Miguel Real, Luís Loia, Rodrigo Sobral Cunha, Constança Marcondes César, entre outros. Programa completo aqui.

terça-feira, 15 de março de 2011

Dois novos títulos

 

A Fundação António Quadros vai dar brevemente à estampa dois novos títulos. Um livro de homenagem a António Quadros, que assinala os 18 anos depois da sua morte, que inclui testemunhos de amigos, família e  várias personalidades da nossa cultura, e ainda a troca de correspondência entre Delfim Santos e a Família Castro e Quadros Ferro, com prefácio de António Braz Teixeira e organização de Filipe Delfim Santos. Para além de outros documentos inéditos, este epistolário reúne 28 cartas de António Ferro, Fernanda de Castro, António Quadros e Delfim Santos e ainda uma epístola de José Osório de Oliveira sobre a saída de António Ferro do Secretariado Nacional de Informação (SNI) em 1949.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Homenagem a António Quadros

Dalila Pereira da Costa, conhecimento pela experiência mística


"O conhecimento pela experiência mística, que Fernando Pessoa considerava genuíno, embora inseguro, que na obra de Leonardo se liga à graça, na de Marinho à visão unívoca e na de Álvaro Ribeiro à gnose tem sem dúvida, na obra de Dalila Pereira da Costa, talvez a mais vivencial e contudo mais meditada expressão da nossa cultura moderna. [...] A filosofia portuguesa contemporânea, muito embora tenha predominantemente um caraácter teleológico e operativo, sobretudo com Sampaio Bruno, Leonardo Coimbra e Álvaro Ribeiro, tendendo não raro a distanciar-se do passivismo da postura intelectual recptiva e mística, não deica contudo de considerar o seu valor na ordem do conhecimento.
Bruno [...] radica toda a construção intelectual de A Ideia de Deus, em fenómenos auditivos inexplicáveis que experienciou e atribuiu a intervenções angélicas.
Leonardo Coimbra, falando da passividade mística, apontava no entanto para o acordo superior das duas formas de pensamento humano -  a científica e a mística.
Obra contrapolar de outras, marcadamente lógico-científicas, como A Razão Experimental, o seu livro A Alegria, A Dor e a Graça, está inteiramente repassado de uma sensibilidade mística, descrevendo a natureza, as criaturas, os seres humanos, Deus, como em verdadeiro trânsito da percepção sensorial para a apercepção espiritual, como em anunciação de uma fenomenologia ontopneumatológica pessoalmente vivida.
Álvaro Ribeiro, também com algumas reservas perante o pensamento místico, tanto no cristianismo como no budismo, admite em a A Arte de Filosofar uma gnoseologia da intuição, da imaginação, do sonho e da visão contemplativa, desde que pensadas à luz da razão conceptuante, à luz de um racionalismo aberto para o mistério.
José Marinho transporta abertamente a realidade da experiência mística ou unitiva como visão, visão unívoca, para o seu sistema filosófico. Ela é, a visão unívoca, como que a vivência agraciada que para os homens será o ponto luminoso pelo qual podem experienciar fugazmente a relação enigmática entre o Ser da Verdade e a Verdade do Ser, mau grado o mundo de cisão em que vivem.
Quanto a Afonso Botelho, na recente suma do seu pensamento que intitulou Da Saudade ao Saudosismo, elevou ao nível especulativo e filosófico as intuições de Pascoaes e de outros poetas saudosistas, delineando o conceito de uma filosofia gnoseológica da saudade, com nítidas afinidades místicas.
O livro [Místicos Portugueses do Século XVI] de Dalila Pereira da Costa, porém atinge uma dimensão singular na exegese da literatura mística, porque na sua personalidade se encontram harmoniosamente, tanto a inteligência hermenêutica apoiada na mais sólida cultura, como a predisposição e «saber de experiências feito» de quem é, ela própria, uma espiritual, uma mística, autora das páginas mais fulgurante de A Força do Mundo ou de Os Jardins da Alvorada.

António Quadros
Memórias das Origens, Saudades do Futuro (1992) pp.58-59

quinta-feira, 10 de março de 2011

Fundação António Quadros recebe estatuto de Utilidade Pública


A Fundação António Quadros recebeu hoje, dia 10 de Março de 2011, por deliberação da Presidência do Conselho de Ministros, o estatuto de Utilidade Pública.

Trata -se de uma Fundação que evidencia, face às razões da sua existência e aos fins que visa prosseguir, manifesta relevância social. Coopera com entidades públicas e privadas na prossecução dos seus fins.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Sobre a fotografia em baixo

Se eu ficasse aqui, indefinidamente a escrever, transformar-me-ia num tecido puído; desfeita quando alguém, ou alguma coisa me tocasse, deixaria apenas poeira com brilho das palavras e dos seres.
[...]
Passei o dia com as plantas. A conversar sobre elas, a distribui-las pelos jardins em vasos e bacias de esmalte e de barro. Comprei dezenas no mercado de Jodoine onde pude finalmente ir por ser quinta-feira de Ascensão. Tive um pensamento, de que já perdi a memória textual, onde plantas germinavam na sombra. Perdi a maneira de dizer, que era exacta e solidária - singular. Um dia, no Inverno, estava na estufa, quando senti o desejo irreprimível de baixar-me sobre a mesa e beijar uma planta. Desde aí, há entre elas e eu uma possibilidade de expressão, de código desconhecido.

Maria Gabriela Llansol

sexta-feira, 4 de março de 2011

Marchámos em difícil equilibrio

"Os anos rolaram. Não perdemos nunca felizmente a ingenuidade das nossas primeiras indignações. Também nunca as confundimos com os processos sofísticos ou dialéctivos de movimentos apenas interessados em substituir uns professores por outros professores, uma burocracia por outra burocracia. Marchámos em difícil equilíbrio sobre um fio escaldante, recusámo-nos ao hipnótico jogo das direitas e das esquerdas, repudiámos a proposta opção entre formas paralelas de adormecimento mental, fizemos do nosso patriotismo o único universalismo possível em tempo de diáspora, fizemos também do nosso exigente universalismo o único patriotismo aceitável, adversário do nacionalismo como do árido internacionalismo, do conservadorismo como do apressado progressismo. [...] Empenhámo-nos numa acção cultural, mas de finalidade espiritual, pois que a cultura não dispensa, sob pena de esterilidade, a enigmática e imensa energia concentrada da semente."

António Quadros
"Cisão ou Diáspora",
em Espiral, 8/9 (1965), pp 58-59

O tempo de Deus é o tempo da atenção. O tempo de Deus é hoje.

"Ninguém poderá negar a grandeza da concepção de Deus e, concomitantemente, do homem e do Universo que António Quadros nos oferece nas suas Histórias do Tempo de Deus. Ela é a dádiva fraternal de um pensador que estende amigavelmente a todos os homens a mão como o fruto do trabalho mais operoso e mais nobre, procurando incutir-lhes confiança no destino de cada um e no da Humanidade e despertar-lhes o interesse pelos problemas cuja meditação e discussão muito podem contribuir para o seu enriquecimento interior."

José A. Ferreira
"A Perianábase da Alma nas Histórias do Tempo de Deus de António Quadros",
em Espiral, nº 10 (1966) p.95

quinta-feira, 3 de março de 2011

Este, aqui

"Advertência preambular, prefácio, prolegómeno, intróito, ou como queiram chamar-lhe, manda a técnica que aqui escrevunhe. Pergunto-me, porém, para quê? Na humilhada volta, encontro-me, em verdade, com copains no cemitério, com camaros de pé na escotilha do Brasil. Miseramente, com isto para o brochador. [...] Mas - feliz, infelizmente - eu não sou um homem de letras, eu nunca quis jamais ser outra coisa de que um homem de propaganda. Não sou um literato, sou um jacobino, não sou um estético.
Por isso não me amofino. Não discorro para iguais; falo para quem, mentalmente, menos seja. Os de cima que outramente se regalem. Se há para baixo, que, aprendendo, se orientem. Este, aqui, como no que precedeu, como no que há-de seguir, este, aqui, meu único, desdenhoso, indiferente intuito. [...] Reconheço-os, pressinto-os, esses enganos. Alguns desagradáveis. Mas terrível o que emerge da esperança final na restauração de certa zona, abandonada, em fuga, como terra maldita pelos mesmos lábios de Deus. Este acudimento ao espírito de irritantes previsões mais me enfurece. Contra semelhante prólogo. Contra análoga ideia de o apontar sequer. Para fazer pensar a gente em coisas tristes. Em desgraças, que nem pode remediar nem sabe consolar. Assim, decido-me. Não o escrevo."

Sampaio Bruno
Notas do Exílio - 1891-1893
Lello & Irmão Editores, (1986), p.VIII

quarta-feira, 2 de março de 2011

Fingir a eternidade pela desproporção das durações


"A arquitectura é uma arte de próxima finalidade, cuja beleza é a adaptação finalista; ou, quando de superiores interesses, é uma arte simbólica. O seu simbolismo consiste na representação dos pensamentos humanos pelo elementar movimento dos corpos. [...] A arquitectura quase mais nada é, para a sensibilidade, que a mineralização da vida, a fingir a eternidade pela desproporção das durações."

Leonardo Coimbra
A Alegria, a Dor e a Graça
Editores Renascença Portuguesa, Porto, 1920, p. 65-68.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Maçadorias


"Sinceramente, cuido que os resultados não equivalem às esperanças e penso que uma obscuridade mística, misteriosamente, permanece e permanecerá, improdutiva. A transcendentalidade guarda e guardará a sua virgindade. A vossa curiosidade é impotente. Não a forçará; não a seduzirá; não a reduzirá. A transcendentalidade é insusceptível de estupro. Oferece-se, coqueteia connosco; faz-nos negaças. Retira-se, irritada, perante a brutalidade do espiritismo, que é uma impertinente importunidade. Um caixeirola frívolo faz dançar uma mesa de pé-de-galo. Os espíritos têm de acudir prestes, a aturar as maçadorias do marçano ocioso."
Sampaio Bruno
A Ideia de Deus, (1902)
Lello & Irmãos - Editores, 1987, pp. 105-106

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Um pessimismo activo e criador

"A ideia mestra da minha vida é a ideia do homem, do seu rosto, da sua liberdade criadora. [...] Mas tratar do homem é já tratar de Deus. Isso é essencial para mim. [...] Presentemente, o nosso pensamento fez-se mais pessimista, é mais sensível ao mal e aos sofrimentos do mundo: mas este pessimismo não é passivo, não se afasta da dor do mundo, pelo contrário, acolhe-a. É um pessimismo activo e criador. Todas as minhas obras se consagram a este único tema. Tentei aqui fundamentá-lo e pô-lo à luz num ensaio filosófico existencial. Outrora, Feuerbach, que estava a meio caminho, queria passar da ideia de Deus à ideia do Homem. Depois Nietzsche, que foi mais além, quis passar da ideia do homem à ideia do super-homem. O homem não só era aqui apenas um caminho como era destinado a sentir que era somento um caminho, uma passagem. Tal é precisamente o tema essencial do cristianismo. E uma filosofia da existência humana, é uma filosofia cristã, teândrica. Não coloca nada mais alto do que a Verdade. Apenas a Verdade não é objectivada: a verdade não entra em nós como um objecto. A Verdade implica a actividade do espírito do homem, o conhecimento da Verdade depende dos graus de comunidade que podem existir entre os homens, da sua comunhão no Espírito."

Nicolau Berdiaev, Cinco Meditações Sobre a Existência, Guimarães Editores, (1961) pp. 208-209. Tradução de Ana Hatherly.

Nicolau Berdiaev ou Berdiaeff (1874-1948) foi um importante escritor e filósofo russo. Nasceu em Kiev no dia 6 de Março de 1874 e morreu em Paris em 1948, no dia 24 do mesmo mês. Foi preso em 1898 por se manisfestar contra a opressão do regime bolchevique e acabou por ser expulso da Universidade de Kiev, onde era estudante de direito. Entre 1919 e 1920 foi professor de filosofia na Universidade de Moscovo. Dois anos depois é expulso da União Soviética juntamente com outros intelectuais russos. Depois de uma curta estadia em Berlim, exila-se em Paris, onde funda a revista The Way, dedicada à filosofia da religião. A revista é publicada até ao início da II Guerra Mundial. Em 1947, um ano antes de morrer, recebe o doutoramento "honoris causa" pela Universidade de Cambridge. Berdiaev publicou, entre outras obras, O Significado da História (1923) A Revolução Russa (1931) Uma nova idade media: reflexões sobre o destino da Rússia e da Europa (1932); Escravatura e Liberdade (1939) O Divino e o Humano (1949), a grande maioria delas sem tradução em Portugal.

Fica a sugestão.

Vale a pena lembrar que António Quadros escreveu um importante ensaio sobre os paralelismos entre o pensamento russo e português, incluído no livro Ficção e Espírito de 1971;  pp -11-174. No último capítulo, António Quadros escreve uma interessante reflexão sobre as páginas autobiográficas de Berdiaev. Sobre esta matéria consultar ainda Convergências e afinidades entre o Pensamento Português e o Pensamento Russo, de António Braz Teixeira.

16 de Janeiro de 1902

Porto — Na rua Sá de Bandeira, junto ao estabelecimento Guimarães, houve uma cena de pugilato entre dois membros do partido republicano, o ex-deputado, e advogado Dr. Afonso Costa, e o jornalista José Sampaio, que ficou ferido. Este conflito foi originado por um artigo de Sampaio desagradável ao seu correligionário, acerca do congresso último que houve em Coim¬bra. O partido está dividido em dois campos, e o encontro dos dois campeões mais tenso tornou os espíritos nos dois grupos. Para se fazer uma ideia d'essa tensão basta reproduzir a epígrafe com que a Voz Pública, jornal republicano, noticia o caso: Agressão traiçoeira — Tentativa de homicídio pelo Dr. Afonso Costa na pessoa do Sr. Pereira de Sampaio (Bruno).

O caso ficou entregue aos tribunais onde o Dr. Afonso Costa negou em absoluto que a agressão tivesse sido feita com box, ou qualquer outro instrumento cortante. Por causa d'isto, foi feito exame directo e minucioso ao ferido. Em Portugal-Brasil, n.º 72 de 16 de Janeiro de 1902.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Fernando Pessoa, Poeta, Profeta e Alquimista do Verbo


"[...] O Primeiro Fausto deveria ordenar-se segundo quatro grandes temas cujos títulos são sintomáticos: O mistério do mundo; O horror de conhecer; A falência do prazer e do amor; O temor da morte. Mistério, horror, falência, temor...

Mas, se uma parte considerável da sua lírica ortónima, em contraponto com o radicalismo daquela tentativa dramática, nos aparece de facto como profundamente ensimesmada, registo de uma desoladora solidão individual, documento de uma tocante sentimentalidade frustrada, projecção de uma incerteza angustiada, às vezes angustiada quanto à vida de relação e até à vida de pensamento, contudo a nota mais forte da obra que conseguiu erguer e nos legou é dinâmica, interventora, frequentemente polémica, criacionista.

Assumir na poesia a cisão dilacerante com que se encontrou ao tomar consciência do seu Si conflitual e praticar uma constante intra-análise psíquica, eis o que o libertou para a exigência de uma univocidade por assim dizer escatológica, para a procura de uma identidade ética e sublimatória, para a entrega a uma obediência supra-egolátrica ou supranarcísica, que nele foram aliás sempre problemáticas e que constituíram a longa iniciação da sua vida." 

António Quadros, "Fernando Pessoa, Poeta, Profeta e Alquimista do Verbo" em Estudos sobre Fernando Pessoa no Brasil, Revista Comunidades de Língua Portuguesa (1985), p. 28.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Acto - fascículos de cultura, 1 e 2

"Por demais sabemos que nunca o exemplo estrangeiro estimulou profundamente o surto das nossas virtualidades; e muito menos agora, quando a Europa tenta em vão equacionar o seu problema cultural, poderíamos confiar com carácter de exclusividade nos agentes das culturas estranhas que nas suas malas diplomáticas nos trazem os destroços de doutrinas refutadas."
Do jornal Acto, (1951/1952) publicaram-se dois números. O primeiro fascículo, com direcção de António Quadros e Orlando Vitorino, sai no dia 1 de Outubro de 1951. Reúne textos de António Quadros, Augusto Frederico Schmidt, José Blanc de Portugal, José Marinho, Lêdo Ivo, Luís Washington, Manuel dos Passos, Mário de Sá-Carneiro, Martins Correia, Orlando Vitorino, Ortega y Gasset, Raúl Leal, Sant'ana Dionísio e Texeira de Pascoaes.

O 2º e último fascículo do Acto, publicado no dia 1 de Março de 1952, contém textos de Álvaro Ribeiro, António Quadros, Benedetto Croce, Cunha Leão, Delfim Santos, Hein Semke, Luís Washington, Orlando Vitorino, S.S. o Papa Pio XII, Raúl Leal e ainda ilustrações de Couto Viana e Martins Correia.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

António Quadros e os animais

"Um dia, quando tinha quatro ou cinco anos, entrou na cozinha. Apesar das minhas recomendações, a Maria do Porto estava completamente proibida de matar fosse o que fosse em casa. Mas teimosa como era, um dia comprou uma galinha viva e matou-a em cima da mesa da cozinha no momento exacto em que o António entrou. Quando viu a galinha a espernear e a mesa coberta de sangue, teve um choque tão grande que, aos gritos e desfeito em lágrimas, se agarrou às saias da Maria, dando-lhe murros nas pernas com as suas mãozinhas crispadas. Eu peguei nele ao colo, levei-o para o quarto e comecei a dizer coisas à toa, coisas sem sentido que não serviam para nada, pois, de facto, não sabia verdadeiramente como fazê-lo compreender e aceitar aquela atrocidade. A certa altura, como supremo argumento, disse-lhe que a galinha estava muito velha, muito doente e que mesmo as pessoas quando estão muito velhas e muito doentes têm de morrer. Ele então olhou-me com os seus grandes olhos azuis marejados de lágrimas: - Morte morrida, sim, morte matada, não!"

Fernanda de Castro, Ao Fim da Memória, vol. I, pag. 279

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Algo de novo

"O aparecimento do jornal 57 e o conjunto das iniciativas que lhe estiveram associadas significou algo de novo na vida cultural portuguesa, onde, pela primeira vez, a reivindicação da autonomia nacional se fazia a partir de uma perspectiva essencialmente filosófica. O facto de o movimento reunir, para além de algumas personalidades conhecidas, um notável conjunto de jovens, boa parte deles quase inéditos, prestou-se a que - à imagem do que acontecia com outros grupos de intelectuais - se tivesse começado a falar no 'grupo da filosofia portuguesa'. O certo é que, não obstante as mudanças que o tempo propicia, com a progressiva afirmação da individualidade de cada um, os homens da filosofia portuguesa constituíram porventura o conjunto mais dinâmico e coerente de quantos animavam a vida cultural portuguesa, numa diversificada manifestação de criatividade que ia desde a poesia, o teatro e a novela, ao cinema, à conferência, ao jornalismo e ao ensaísmo filosófico."

Joaquim Domingues, «Às novas gerações da filsofia portuguesa» in No signo do 7: 150 anos de filosofia portuguesa: actas dos colóquios. Coord. ed. Guilhermina Ruivo, Maria José Albuquerque, Pedro Martins.  Sesimbra: 2008.
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Joaquim Carneiro de Barros Domingues, mais conhecido por Joaquim Domingues, nasceu na cidade do Porto, no dia 9 de Abril de 1946. É professor, ensaísta e um dos principais investigadores da obra de Álvaro Ribeiro e Sampaio Bruno. Entre 2000 e 2005 editou a revista Teoremas de Filosofia.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Colóquio "A Obra e o Pensamento de António Telmo"


O Instituto de Filosofia Luso-Brasileira promove, dias 14 e 15 de Fevereiro, no Palácio da Independência em Lisboa, o Colóquio "A Obra e o Pensamento de António Telmo".

Programa14 de Fevereiro, 2ª feira

10h00: Sessão de Abertura
António Braz Teixeira

11h00: Comunicações
Joaquim Domingues, «António Telmo: o homem e a obra»
Abel de Lacerda, «Um olhar de António Telmo na simbólica de Prestes João»
Roque Braz de Oliveira, «António Telmo e os caminhos da hermenêutica»
Carlos Vargas, «A ironia em António Telmo»

13h00: Intervalo para almoço

14h30: Comunicações
Paulo Teixeira Pinto, «Portugal sem segredos»
Mário Rui, «António Telmo e as Três Tradições do Livro»
Manuel Gandra, «Linhagem seminal e espiritualidades bastardas – finais de todos os tempos e no contexto lusíada»
Luís Paixão, «O número 8 na obra de António Telmo»

16h30: Intervalo para café

17h00: Comunicações
António Carlos Carvalho, «Os nomes de António Telmo»
Cynthia Taveira, «António Telmo e a inversão dos candelabros»
Rui Lopo, «Significado e Valor da Filosofia em António Telmo»
Pedro Martins, «António Telmo e Luís de Camões»

19h30: Jantar no Círculo Eça de Queiroz. Inclui, a partir das 21h, apresentação de uma obra inédita de António Telmo, por Nuno Nazareth Fernandes.


15 de Fevereiro, 3ª feira

11h00: Comunicações
João Cruz Alves, «Testemunho sobre um homem novo»
António Quadros Ferro, «Correspondência entre António Telmo e António Quadros»
Elísio Gala, «Língua e Pátria»
Renato Epifânio, «A ideia de Pátria em António Telmo»

13h00: Intervalo para almoço

14h30: Comunicações
Carlos Aurélio, «Religiosidade e razão poética em António Telmo»
Paulo Borges, «O último texto de António Telmo: "O acabar da história [...] bruscamente engolida pelo nada que essencialmente é"»
António Cândido Franco, «António Telmo e o Surrealismo»
Rodrigo Sobral Cunha, «O viajante»

16h30: Intervalo para café

17h00: Testemunhos
Manuel Ferreira Patrício
Pedro Sinde
Paulo Santos
Pedro Ribeiro
Pinharanda Gomes

António Telmo Carvalho Vitorino nasceu em Almeida, Beira Alta, a 2 de Maio de 1927. Foi, a convite de Agostinho da Silva e Eudoro de Sousa, durante três anos, professor de Literatura Portuguesa na Universidade de Brasília. Mais tarde, dirigiu a Biblioteca de Sesimbra e leccionou a disciplina de Português em Estremoz. Publicou, entre outras obras, Arte Poética (1963), História Secreta de Portugal (1977), Gramática secreta da língua portuguesa (1981) e Filosofia e Kabbalah (1989). Morreu no dia 21 de Agosto de 2010.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Nem mestres nem discípulos

“Onde não havia mestres nem discípulos, mais valia permanecermos imunes ao que restara da triste corrosão do tempo e do persistente veneno positivista. Mais tarde, a nossa suficiente classificação final deixou-nos livres para fazermos, fora da Universidade, o verdadeiro curso universitário que nela não encontrámos.”

António Quadros, «O Espírito da Cultura Portuguesa», (1967), p. 246

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Livros do Desassossego


"Nesta nova organização que ora apresentamos ao público, fica convenientemente respeitada, não a unidade do Livro [...] mas a sua realidade plural, consistindo esta realidade em não haver um, mas dois Livros do Desassossego: o de Fernando Pessoa ele próprio, simbolista, decadentista, transcendentalista, neo-romântico; e o de Fernando Pessoa-Bernardo Soares, ainda nalguns aspectos simbolista, também em muitos aspectos decadentista, mas fundamentalmente divagante, sonhador, coloquial, diarístico, confessionalista, homem comum, pequeno empregado comercial a sonhar com o infinito do seu quarto andar da Rua dos Douradores."

António Quadros

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Tradução de António Quadros

"A srª. de Bornes levou-a (a Henriqueta) para um sanatório de Auteuil. Morreu, dois meses depois, de uma doença que não era mortal. Por outras palavras, apesar das precauções tomadas, suicidou-se tomando veneno”.

Jean Cocteau, Thomaz, O Impostor, Edição Livros do Brasil, Lisboa, 1955, p.187

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Tradução de António Quadros


"[...] Nem sequer tinha a certeza de estar vivo, já que vivia como um morto. Eu, parecia ter as mãos vazias. Mas estava certo de mim mesmo, certo de tudo, mais certo do que ele, certo da minha vida e desta morte que se aproximava. Sim, não sabia mais nada do que isto. Mas ao menos segurava esta verdade, tanto como esta verdade me segurava a mim. Tinha tido razão, tinha ainda razão, teria sempre razão. Vivera de uma dada maneira e poderia ter vivido de outra dada maneira. Fizera isto e não fizera aquilo. Não fizera uma coisa e fizera outra. E depois? Era como se durante este tempo todo tivesse estado à espera deste minuto... E dessa madrugada em que seria justificado. Nada, nada tinha importância e eu sabia bem porquê."

Albert Camus, O Estrangeiro

António Quadros, Amorim de Carvalho, entre outros

Círculo Eça de Queiroz. 1960.
Arquivos da Casa Amorim de Carvalho


No primeiro plano, o terceiro a contar da esquerda: Padre Moreira das Neves; no segundo plano, a contar da direita: Luís Forjaz Trigueiros, Eça Leal, António Quadros e Amorim de Carvalho.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Reunião do Conselho Consultivo da Fundação António Quadros

Ontem, dia 29 de Novembro de 2010, realizou-se no Círculo Eça de Queiroz, em Lisboa, a 2ª reunião do Conselho Consultivo da Fundação António Quadros. A sessão, presidida por Mafalda Ferro, António Roquette Ferro, Luís Gomes, Francisco d'Orey Manoel e Mário Quina, contou com a presença de António Braz Teixeira, António Quadros Ferro, Paulo Borges, Rita Ferro, Gonçalo Sampaio e Melo, Madalena Jordão, José Guilherme Victorino, entre outros membros do Conselho Consultivo.

Neste encontro, foi apresentado o plano de actividades para 2011, assim como o orçamento deste ano e do ano seguinte. Para além disto, discutiram-se todos os assuntos relacionados com os objectivos culturais da Fundação António Quadros. O anúncio da constituição do Prémio António Quadros Cultura e Pensamento em 2011 foi uma das grandes novidades apresentadas na sessão de ontem.

Desde a sua constituição, a Fundação tem vindo a realizar diversas actividades de indiscutível valor cultural e cientifico, nomeadamente a conservação e restauro de documentos e obras de arte que mantém no seu espólio, a organização e descrição da biblioteca de António Quadros e de todos os seus documentos e ainda o apoio sistemático à investigação.

Mais sobre a Fundação António Quadros aqui.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

António Quadros sobre António Telmo

"Conheci-o há pelo menos quarenta anos na «Universidade» da Filosofia Portuguesa, como ele atraído pelo magistério marginal de Álvaro Ribeiro e José Marinho, discípulos de Leonardo Coimbra, para quem a filosofia não era um modo de vida, mas um modo de ser…
Essa «Universidade» informal teve como sedes, primeiro o Café Palladium, onde ainda apareciam às vezes o Casais Monteiro, o Jorge de Sena, o Eudoro de Sousa, o José Blanc de Portugal, o António Banha de Andrade, o Eduardo Salgueiro ou o Domingos Monteiro, depois a Brasileira do Rossio, onde assentou arraial durante os anos em que nós lançámos com entusiasmo e espírito de desafio o Acto, o 57, a Espiral, anos em que aqueles nossos mestres saudosos publicaram, o primeiro A Arte de Filosofar (em 1955) e A Razão Animada (em 1957), o segundo a Teoria do Ser e da Verdade (em 1961). Mais tarde, outros cafés tomaram o lugar daqueles, o Colonial na Almirante Reis ou o Estrelas Brilhantes em Campo de Ourique… [...]"

António Quadros Continue a ler aqui.

Coitado do pobre Antero


Coitado do pobre Antero,
desnudado, analisado,
Não já o corpo, seu espírito,
Dissecado, Autopsiado.

Matou-se, mas era livre,
Liberdade era o seu bem,
Agora sua alma triste,
Já nem liberdade tem.

O que não disse, ele disse,
O que escreveu não pensou,
O que disse ele desdisse,
O que pensou não amou.

Coitado do pobre Antero!
Quero vê-lo, mas não posso...
Roubámos-lhe a liberdade,
Já não é dele, é só nosso.

António Quadros
por ocasião do Colóquio Anteriano em Ponta Delgada (14-10-1991)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Revista Cultura Entre Culturas nº 2

Já está à venda o 2º número da revista Cultura Entre Culturas, dedicada ao encontro entre o Ocidente e o Oriente. Para além das homenagens a Raimon Panikkar e António Telmo, recentemente falecidos, podem ler-se ensaios de Carlos João Correia, Rui Lopo, Amon Pinho e Paulo Borges e ainda textos de Ricardo Ventura, Matthieu Ricard, Françoise Bonardel, Miguel Gullander, Duarte Drumond Braga, entre outros.


Próximos Lançamentos

19 de Novembro, 21.30
Auditório da Câmara Municipal de Barcelos

23 de Novembro, 21.30
Clube Literário do Porto
Rua Nova da Alfândega, 22

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Histórias do Tempo de Deus


"Cada um dos contos que integram as Histórias do Tempo de Deus tem como eixo simbólico a reflexão sobre algumas das chaves de acesso à grande obra universal. Embora o diálogo filosófico e a construção das personagens enquanto tipos que permitem apresentar as "demonstrações alegóricas de ideias-tese preestabelecidas" (Ferreira, José Antunes - Introdução a Histórias do Tempo de Deus, Lisboa, Edições do Templo, 1979), confiram à obra o sentido de um "tratado completo de cosmologia" (id. ib.), de uma "teoria da alma, considerando-a na sua essência, na sua evolução, na sua transfiguração após a morte" (id. ib.), a verdade é que a reflexão filosófica não se sobrepõe a uma construção narrativa que permite vários níveis de leitura e, embora impondo a reflexão sobre uma macroestrutura densamente urdida e firmada na obra ensaística e filosófica do autor, não sobrecarrega uma forma narrativa enigmaticamente sedutora na sua aparente linearidade."

Histórias do Tempo de Deus. In Infopédia. Porto: Porto Editora, 2003-2010. [Consult. 2010-11-11]. Disponível em http://www.infopedia.pt/$historias-do-tempo-de-deus

Onde estás?


Os meus olhos não te vêem,
O meu nariz não te respira,
Os meus ouvidos não te ouvem,
O meu paladar não te apercebe,
Os meus dedos não te tocam,
Onde estás tu, Deus, que não te sinto?
A minha imaginação não te inventa,
O meu subconsciente não te revela,
A minha lógica não te deduz,
O meu espírito não te ensina,
A minha inteligência não te compreende,
Onde estás tu, Deus, que não te sei?
A minha paz precisa-te,
A minha ignorância busca-te,
A minha alma chama-te,
A minha fé espera-te,
A minha vida suplica-te,
Onde estás tu, Deus, que não te encontro?

António Quadros, Além da Noite, Parceria António Maria Pereira, 1949, p.127

sábado, 6 de novembro de 2010

Sampaio Bruno morreu há 95 anos


"Não é absurdo (digamos: ridículo) conceber que toda esta laboriosa evolução mundial se operou, opera, operará para que o Sr. Fulano saiba bem física e o Sr. Beltrano não tenha segundo no cálculo? [...] Saber por saber é uma espécie de masturbação superior. [...] Porque o desfecho e remate do homem não é gozar-se, repita-se. Se o mundo não existe para que o homem saiba, odioso seria fantasiar que o universo continua subsistindo para que o desfrute o homem. [...] O fim do homem neste mundo é libertar-se a si, libertando os outros seres. [...]"

Sampaio Bruno, A Ideia de Deus, (1902)
Livraria Chardron - Lello & Irmão Editores, pp. 468-469

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Da Literatura Portuguesa

"A interpretação  [fenomenológica] tem em regra o seu ponto de apoio em centro alheio ao movimento intrínseco que a inspira e tende a sobrepor um elemento a todos os outros, coisificando e limitando a pluri-dimensionalidade fenoménica."

António Quadros
"Da Literatura Portuguesa, Ensaio de Interpretação Fenomenológica"
Revista Espiral, nº4/5,  pp 57-71

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Nota à margem

Neste mundo em ruínas, onde não se escuta absolutamente nada, a não ser o silêncio e o "trabalho persistente do caruncho que rói há séculos na madeira e nas almas" (Raul Brandão) com a internet, pelo meio, a mudar-nos o cérebro, é preciso procurar no passado quem nos apazigue o sofrimento e nos salve a alma.

Sabemos como a felicidade e a perfeição dos homens deixou de ser uma utopia, para se tornar num simulacro tão ou mais falso do que o mundo mais utópico que alguma vez a humanidade concebeu. Mas que importância podem os escritores, os artistas e os filósofos ter, se também eles, na sua grande maioria, participam na construção dessa visão, pela conivência com que vivem e pensam este mundo, ora recusando fundamentalistas e obtusos outras formas de se fazer cultura, ora desistindo e entregando-se sem reservas ou autonomia, a bem da fraternidade, a interesses próprios?

Existe no homem, desde há largos anos, a ideia de que a cultura não serve para nada. Em sentido amplo, ou, simplesmente, em sentido restrito, tudo, no que lhe diz respeito, é o mesmo. A cultura é desprezada, quando não absolutamente esquecida. Subsiste ainda entre nós, a sensação de que o mundo se divide em duas partes e, bem vistas as coisas, talvez seja verdade. O fosso está cada maior, mais fundo do que no passado.

Seria de esperar que o mundo das ideias e o outro, tão diferentes entre si, se encontrassem (como quem, depois de ultrapassar as suas fronteiras, encontra do outro lado um inimigo ou apenas algo ou alguém que não conhece) porém, acomodados pelo reconhecimento da mediocridade alheia e assustados pelo desconhecido à sua frente, desprezam-se e recusam, com os meios que têm ao seu alcance, por ignorância ou excesso de sabedoria, a existência do outro nas suas vidas.

Não se conhecem, não se vêem, não sabem que o outro é seu semelhante. E nós, tão indiferentes ao mundo como os outros, cúmplices como eles quanto ao resto, já não sentimos nenhuma estranheza ou vontade.
António Quadros Ferro

terça-feira, 26 de outubro de 2010

António Quadros sobre Delfim Santos

"[...] Delfim Santos é a nosso ver o protagonista de um diálogo fecundo, o diálogo do pensamento português com a filosofia alemã, do qual vieram a resultar uma crítica e uma fundamentação teóricas de grande qualidade, estimulantes em aspetos essenciais para a nossa cultura ou para a nossa criatividade filosóficas. É curioso observar que os primeiros escritos de Delfim Santos, era ainda estudante universitário e nos primeiros anos da sua formatura, isto é, entre 1929 e 1932, foram de natureza espiritualista e cristã, numa linha de pensamento protestante e evangélica, tendo sido publicados, quase todos, na revista portuense, ligada à Igreja Evangélica, intitulada precisamente Portugal Evangélico. Dadas as tradicionais relações da teologia reformada ou protestante com algumas facetas mais características do pensamento germânico, em geral voluntarista e imanentista, não é para admirar que ao contrário da tendência habitual da cultura portuguesa para privilegiar o diálogo com a cultura francesa, Delfim Santos antes tenha escolhido o estágio em centros de estudo predominantemente austríacos e alemães."

António Quadros - "Delfim Santos: Introdução ao pensamento filosófico e pedagógico", Lisboa: Leonardo, Ano 2, num. duplo, set. 1989, 22-29, 91. Artigo completo aqui.