terça-feira, 5 de julho de 2011

A liberdade de culto

"Quem, como eu, advoga a liberdade de culto, não pode deixar de sentir uma emoção em reverência, pela religião antiga, pagã (a religião dos campos, mas também das cidades), resistente a tudo, metamorfoseada em santos e templos, mas ainda viva (tão viva quanto os seus ídolos) respondendo às necessidades mais íntimas dos seres humanos.
(...)
Por uma vocação monoteísta, muitos dos estudiosos sempre evocaram a influência judaica, cristã e muçulmana na cultura portuguesa. Poucos tiveram a ousadia de colocar o paganismo como o outro elemento para a formação da nossa cultura (talvez o mais forte, por ter sido o primeiro). Sejamos nós, tal como eles, suficientemente audazes para, também por aí, dirigirmos os nossos estudos. Ou, pelo menos, a nossa curiosidade."

Alexandra Pinto Rebelo
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Diário de Lisboa, Setembro de 1921

Diário de Lisboa, nº 133, 08.Setembro.1921, p.6.

«Natureza, Razão e Mistério» de Afonso Rocha vence Prémio António Quadros


Natureza, Razão e Mistério, Para uma leitura comparada de Sampaio (Bruno), de Afonso Rocha, é a obra vencedora da 1ª edição do Prémio António Quadros, na área da filosofia.

A cerimónia de entrega do prémio realiza-se no próximo dia 14 de Julho, às 17h00, na Sala Antão de Almada, no Palácio da Independência da Sociedade de História da Independência de Portugal.

Afonso Moreira da Rocha nasceu em 1941, em Penafiel. É licenciado em Teologia pela Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, mestre em Antropologia teológica, pela mesma faculdade e doutor em Filosofia pela Faculdade de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa. É ainda investigador do Centro de Estudos do Pensamento Português. Publicou, entre outras obras, O Mal no pensamento de Sampaio (Bruno): uma filosofia da razão e do mistério, (2006) e A Gnose de Sampaio Bruno (2010). É ainda co-autor das Actas do III Colóquio Luso-Galaico sobre a Saudade em homenagem a Dalila Pereira da Costa.

Natureza, Razão e Mistério uma leitura comparada de Sampaio (Bruno), de 2009, edição da Imprensa Nacional Casa da Moeda, Colecção: Estudos e Temas Portugueses, ocupa-se, de modo inovador, aprofundado e reflectido de um conjunto de questões centrais na filosofia portuguesa contemporânea, como a ideia de deus, a concepção da religião, o problema ou mistério do mal, o conceito de razão ou o sebastianismo e o messianismo português.

Mais informações aqui.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Delfim Santos e a família Castro e Quadros Ferro


"O epistolário de Delfim Santos (1907-1966) com António Ferro (1895-1956), Fernanda de Castro (1900-1994) e António Quadros (1923-1993) documenta 22 anos de admiração e estima mútuas, reflectindo magnificamente a época em que viveram estas quatro personalidades marcantes da cultura portuguesa. Teve Delfim Santos um percurso singular, que o conduziu de uma juventude de aprendiz de ourives até ao estudioso profundo e expositor brilhante da filosofia do seu tempo, a par do mestre carismático de gerações de futuros docentes na Faculdade de Letras de Lisboa; e são raras as famílias que se notabilizam literáriamente ao longo de duas gerações, como foi o caso da Família Castro e Quadros Ferro — ou também dos Osório de Castro, aqui presentes através de José Osório de Oliveira, grande colaborador de António Ferro e amigo de Delfim Santos. (...)
Estando os pais ausentes no exterior, o contacto de Delfim Santos com a família Castro e Quadros Ferro centra-se agora no  filho, que elege o campo filosófico e literário, sem descurar o das  artes, como terreno para a sua crescente afirmação pública. Partindo do existencialismo e do personalismo, António Quadros retorna  à Renascença Portuguesa de Pascoaes e Leonardo, desenvolvendo a componente profético-espiritualista e pessoana desta corrente, da  qual se tornará um expoente e par de Agostinho da Silva. Delfim Santos, que fora um dos últimos dirigentes da Renascença em fase já  pós-pessoana e director da 5ª e última série do órgão do movimento,  a revista  A Águia, onde Pessoa se estreara em 1912, desenha um percurso inverso, mas não colidente, com o de António Quadros: irá partir  do  saudosismo  nacionalista  e  espiritualista  de  Pascoaes via Leonardo para chegar ao existencialismo e personalismo universalistas."

Filipe Delfim Santos
Delfim Santos e a Família Castro e Quadros Ferro
Edições Fundação António Quadros (2011)
Leia o texto completo aqui.

sábado, 2 de julho de 2011

O seu a seu dono

Para Além d’Outro Oceano” não é de Pessoa mas de Coelho Pacheco, um dos “putos” do Orfeu.

Sabia que António Ferro e Almada Negreiros eram assim chamados, de “putos” do Orfeu (o primeiro, sete anos mais novo que Pessoa, com vinte anos, e Almada, cinco, com vinte e dois. Ferro terá figurado como “editor” por ser ainda menor e, portanto, inimputável, em caso de desaguisados com a justiça…). Não sabia é que havia outro, José Coelho de Jesus Pacheco, com vinte e um anos. Vou contar como finalmente vim a saber quem ele realmente foi. Conheci C. Pacheco, assim indicado, e o poema “Para Além d’Outro Oceano” através da Obra Poética de Fernando Pessoa que, em 1960, a estimada pessoana, pioneira nestas lides, Maria Aliete Galhós, publicou na editora Aguilar, no Brasil. Indica ela, em nota, que o poema se destinava ao nº 3 do Orfeu, e esclarece que o poema está dedicado “à memória de Alberto Caeiro” e que, numa nota de Pessoa para a paginação de Orfeu 3, que chegou a ser composto, o autor do poema é Coelho Pacheco. Comenta ainda que “Pacheco é um episódico heterónimo de Fernando Pessoa de quem se não conhece mais nenhuma produção.” E pronto, ficámos a braços com este “episódico heterónimo” até aos nossos dias.

No volume I das Obras de Fernando Pessoa, recolha editada em 1986, por António Quadros e Dalila Pereira da Costa, encontramos no capítulo “A poesia de um sub-heterónimo” esse mesmo poema, com uma nota de rodapé esclarecendo “não é conhecida a poesia deste subheterónimo, tendo-se já aventado que poderia tratar-se de uma pessoa real, tanto mais que a família Coelho Pacheco era bem conhecida em Lisboa. Mas se assim fosse o autor não se teria já acusado?” (Como, se morrera em 1951, antes da publicação do poema?) (...)"

Eu sabia que Pedro da Silveira aventava oralmente a tal hipótese que António Quadros refere, ou fazia mesmo a afirmação de que o poema em questão era de um tal Coelho Pacheco que existira, sim senhor, e tinha um stand de automóveis na rua Braamcamp. (...) Mas eis senão quando, há uns dias, tive a alegre surpresa de ter nas mãos o original manuscrito do poema “Para Além d’Outro Oceano”, assim escrito pelo seu autor, José Coelho Pacheco, o avô de Ana Rita Palmeirim, que me procurou para mo mostrar! Foi uma fulgurante surpresa! Por se poder fazer finalmente justiça a esse apagado comparsa das aventuras órficas que enveredara pelo caminho dos negócios sem deixar de ser amante das artes e praticante da escrita literária. (Assim fez também Rimbaud, mas este tem o seu lugar na história da literatura francesa…)

Teresa Rita Lopes
em Modernista, Revista do Instituto de Estudos sobre o Modernismo.
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sexta-feira, 1 de julho de 2011

Prémio António Quadros


O Prémio António Quadros foi criado com o objectivo de celebrar a vida e a obra de António Quadros, assim como de distinguir, encorajar e divulgar o pensamento português nas suas múltiplas expressões e géneros, tarefa a que o pensador dedicou grande parte da sua actividade intelectual. Em 2011, a área seleccionada foi a Filosofia.

A cerimónia de entrega do Prémio terá lugar no próximo dia 14 de Julho, às 17h00, na Sala Antão de Almada da Sociedade de História da Independência de Portugal.  O nome da obra literária vencedora será divulgado uma semana antes.

Instituído pela Fundação António Quadros, o Prémio, será entregue por Mafalda Ferro, presidente da Fundação, e por António Braz Teixeira, presidente do júri também constituído por Miguel Real, Manuel Ferreira Patrício, Manuel Cândido Pimentel e Paulo Borges.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Espólio de Delfim Santos doado à Biblioteca Nacional

O espólio do filósofo e pedagogo Delfim Santos (1907-1966) foi doado à Biblioteca Nacional de Portugal pelos herdeiros do escritor representados pela viúva, Doutora Maria Manuela Hanemann Saavedra de Sousa Marques Pinto dos Santos.

Delfim Pinto dos Santos, natural do Porto, licenciou-se em Ciências Histório-Filosóficas na Faculdade de Letras do Porto, onde teve como mestre Leonardo Coimbra e por condiscípulos Agostinho da Silva, Álvaro Ribeiro, José Marinho ou Santana Dionísio.
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terça-feira, 28 de junho de 2011

O génio romano na poesia lógica da justiça

"A inspiração da Poesia do Direito de Teófilo Braga vem da descoberta de que “o direito romano na sua primeira idade foi um poema sério”, conforme as palavras de Giambattista Vico. No dramático mundo jurídico ostentou-se criador em extremo o génio romano na poesia lógica da justiça, representando a acção da vida civil em actus legitimi, que a poética dos jurisconsultos, heróis das fórmulas conhecedores da poesia da jurisprudência, encenava no fórum, dispondo as personagens em actos, com a litigância em debate, lances, peripécias e catástrofe, a executar com escrúpulo religioso (si virgula cadit, caussa cadit). Na Idade Média a poesia do direito teve uma renovação no seu ricorsi e a igreja, como observa Teófilo, veio mesmo a dar ao direito uma nova poesia: “Cada acto da vida do homem revestiu-o de uma bênção, de um hino. Desde as belas fórmulas do baptismo, do casamento, até ao repouso da sepultura, é tudo a poesia do sentimento puro. A poesia do Direito na Idade Média realça pela união do símbolo religioso com o símbolo jurídico”.

Rodrigo Sobral Cunha,
aqui.


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Rodrigo Aguiar Sobral de Alexandre Cunha nasceu em Lisboa no dia 9 de Fevereiro de 1967. Frequentou o curso de Direito na Universidade Clássica de Lisboa, mas licenciou-se em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa. Fez ainda estudos musicais no Instituto Gregoriano de Lisboa e foi responsável por várias disciplinas tanto no ensino secundário como universitário.  Apresentou diversas comunicações, nomeadamente, "Agostinho da Silva, o pensamento contemporâneo e o futuro de Portugal: debate sobre uma Proposição", por ocasião da comemoração do aniversário da morte do filósofo ou "O Viajante", no âmbito do colóquio A Obra e o Pensamento de António Telmo.

Publicou, entre outras obras, Visitação dos SóisO Orvalho da MontanhaDa Flor do MundoO Livro do Azul da Terra, A Teoria Silvestrina da Harmonia do Universo, e, mais recentemente, Filosofia do Ritmo Portuguesa.  É actualmente investigador da UNIDCOM/IADE e membro do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, fundado em Julho de 1992 por António Quadros, António Braz Teixeira, Afonso Botelho, entre outros.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

O Bebedor Nocturno de Herberto Helder

"[Herberto Helder] apresenta versões livres, e esplendidamente realizadas, cheias de força e beleza poéticas, que são autênticas recriações. Esta experiência, única entre nós, restitui-nos, utilizando todo o valor expressivo da língua portuguesa, o essencial de grandes obras de poesia, tesouro da humanidade em tensão para a verdade, para o bem e para o belo; desde poemas do antigo Egipto até aos salmos bíblicos, desde os hinos órficos até aos poemas Zen, desde a poesia maya até às líricas árabes, desde os haikais japoneses até às canções tártaras. Livro maravilhoso, que merecia uma melhor edição."

António Quadros
ficha de leitura para as Bibliotecas Itinerantes 
6 de Maio de 1968

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Carta de António Telmo a Pedro Sinde

«Estremoz

15 de Fevereiro de 2002

Meu caro Pedro Sinde

(…) Pela tertúlia é que se evita o solipsismo e se traz a transcendentalidade ao plano da humanidade convivente. Já vê, dizendo isto, como estou de acordo consigo onde fala com evidente perplexidade da “tendência para a fuga deste mundo”. É espantoso que também eu me pus a ler pela terceira vez o Diário de Guerra de Ernst Junger para fugir às leituras que só nos falam do outro mundo. Não viemos nós à vida para conhecermos a vida, sendo embora bem certo que sem o sentimento da presença do incognoscível no mundo imediato não há verdadeiro conhecimento. Como vê, só o que faço é repetir o que me diz na sua carta com as minhas palavras? (...)»

Continue a ler aqui.
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Pedro Sinde nasceu no Porto em 1972. Conheceu António Telmo em Estremoz corria o ano de 1997. Dirigiu com Joaquim Domingues a revista Teoremas de Filosofia e publicou, entre outras obras,  Velho da Montanha - A Doutrina Iniciática de Teixeira de Pascoaes (2000); Terra Lúcida – A Intimidade do Homem Com a Natureza (2005); A Montanha Mística / Cartas da Prisão ( 2007); O Canto dos Seres: Saudade da Natureza (2008).

segunda-feira, 6 de junho de 2011

XXI Festa do Espírito Santo na Arrábida

"Não é o Rei que é coroado Imperador. Não é sequer a autoridade local ou o Bispo, ou o sacerdote paroquial. É o pobre, é a criança, é o que visivelmente está carenciado da plenitude de ser homem, pela condição social ou pela idade. E aqui se simboliza como é à face da carência que nos pode surgir em horizonte, em ideal, em aspiração e em promessa decidida, o cumprimento da promessa infinita que cada homem traz consigo à nascença e cuja realização a existência em sociedade lhe dificulta até à negação."

António Quadros
Portugal Razão e Mistério I (1986)

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Como Pilatos

Ecce Hommo de Antonio Ciseri
"(...) Quando o crítico Eduardo Prado Coelho, algum tempo depois, e a propósito desse artigo ["A Agressão Ideológica", Tempo Novo], me veio acusar do pecado de anti-comunismo, em artigo insolentemente intitulado «O anti-comunismo em patinhas de lã», a sua «agressão ideológica» não era inocente, visto que, já com Vasco Gonçalves no poder, visava justificar a boa consciência do néo-totalitarismo em formação. O que no seu discurso retórico em prol do marxismo, da luta de classes, da demoracria popular, etc., era a nomeação dos réus - em suma era a denúncia. [...] Se o Tempo Novo foi depois proibido pela ditadura gonçalvista, se José Hipólito Raposo foi parar a Caxias e se eu próprio senti dificuldades editoriais e jornalísticas, é claro que Eduardo Prado Coelho pode lavar daí as suas mãos como Pilatos e proclamar a sua inocência."

António Quadros
A Arte de Continuar Português (1978)


 Diário de Lisboa, 11-12-1974, diponível aqui

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Dedicatória de António Quadros

"À srª D. Manuela e ao Prof. Delfim Santos of.[erece]  este livrinho de contos (Histórias do Tempo de Deus) de impenitente e dispersivo polígrafo, o seu amigo de há já bastantes anos e admirador da sua obra e do seu pensamento,

António Quadros
11/06/66"

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Conversa entre Orlando Vitorino e João Luís Ferreira

João Luís - Quer falar de arquitectura para uma revista que se intitula “Utópica”?
Orlando Vitorino - Porque não? A contradição pode ser estimulante.

J.L. - Onde está, neste caso, a contradição?
O.V. - É que toda a arquitectura é tópica. A utopia é o que não tem lugar. Ora nada pode haver sem lugar, o que é sobretudo evidente na arquitectura.

(...)

J.L. - Os “caminhos na utopia” conduzem, portanto, à anti-utopia?
O.V. - Sim. Mas há sempre a possibilidade de entender a utopia como um idealismo provocado por uma justa reacção ao que se encontra institucionalizado. Neste caso, dir-se-à utópica a procura de caminhos (já não na utopia como queria M. Bubber) que o institucionalismo - regimes políticos, universidades, opinião pública... - tem por função impedir. Creio que é este o caso da sua revista “Utópica”. Podemos, portanto, conversar.

J.L. - Diga-me então: que é a arquitectura?
O.V. - É lugar e proporção.

J.L. - Que é o lugar?
O.V. - É, primeiro, a negação do espaço.

J.L. - Como nega o lugar o espaço?
O.V. - Marcando-lhe limites, definindo-o.

J.L. - A definição é negação?
O.V. - Foi o que nos ensinou Espinoza, que era geómetra, ao pôr como princípio de imaginar e pensar que “toda a afirmação é negação” pois nega o que fica fora do que se afirma.

J.L. - Onde começa a arquitectura?
O.V. - Começa ou na Grécia ou no Céu ou no Céu e na Grécia.

J.L. - E o Egipto?
O.V. - Aí, foi só geometria. Faltava a proporção para ser arquitectura.

J.L. - Julguei que na Grécia só havia começado a filosofia.
O.V. - A filosofia é o embrião que contém todas as artes.

J.L. - Tudo, então, é filosofia?
O.V.- Nada é sem filosofia.

J.L. - Onde está, no embrião, a arquitectura?
O.V. - Na geometria.

J.L. - Foi por isso que Platão escreveu sobre os umbrais da escola: “só entram os que são geómetras”?
O.V. - Exactamente.

J.L. - Que é a geometria?
O.V. - É a primeira determinação do lugar e a primeira negação do espaço.

J.L. - Diz-se que os gregos ignoraram o infinito. Foi por serem geómetras?
O.V. - O infinito é a negação do limite, portanto do lugar. Onde está o infinito, não há geometria. há só matemática.

J.L. - Os gregos não foram matemáticos?
O.V. - Aristóteles deixou escrita a refutação da matemática. Dos modernos, só Hegel compreendeu e repetiu a refutação. Dos contemporâneos, só Leonardo Coimbra.

(...)

J.L. - Qual o lugar arquitectónico do homem. É a cidade? É a casa?
O.V. - Hegel, que era nórdico e, como protestante, “trazia o Deus na barriga”, disse que a primeira obra arquitectónica é o templo a que chamou “a casa de Deus”.

J.L. - Está certo?
O.V. - Está errado. Tudo o que é do homem tem início no homem.

Revista Utópica (1988)
Entrevista completa pode ser lida aqui.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Pinharanda Gomes na homenagem a António Quadros

“Mas…naturalmente eu não falei, estive só a desfiar fio, a desfilosofar […] e claro que nunca mais sairíamos daqui – e sairíamos daqui a saber menos do que aquilo que actualmente gostávamos de saber. Para mim, o ter conhecido António Quadros, o ter recebido dele provas de afecto (não só afectivo mas também intelectual) são milagres do céu, que eu mantenho comigo e dos quais nunca me poderei esquecer. Espero de Deus que me conceda a capacidade de ser fiel ao ideal e à herança que dele recebi. “

Pinharanda Gomes
Newsletter da Fundação António Quadros, nº 22, Abril 2011
disponível aqui.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Carta de Delfim Santos para António Quadros, 23 de Março de 1950

Delfim Santos e a Família Castro e Quadros Ferro
Edições Fundação António Quadros (2011)
"De mim exijo fidelidade a um apostolado de muitos anos, embora por vezes me sinta cansado de tão longa e árdua luta contra a mesquinhez, a calúnia, a rasteira com sorriso e tudo o mais ao longo destes últimos 10 anos. Foram 10 anos infelizes que só pude aguentar com a simpatia, a amizade, a dedicação da maior parte dos meus alunos. E é isto que positivamente conta para mim, V. quis ser generoso e veio afirmar-me que eu não me enganei. E julgo que a minha força, a minha possibilidade de acção no futuro, dependerá dos meus amigos que foram meus alunos. Compreendo assim a importância do seu testemunho, da sua carta chegada em hora tão oportuna. Quanto à Faculdade estive sempre de acordo com o juízo negativo dos estudantes e continuo a estar. [...]"

Delfim Santos 

quinta-feira, 7 de abril de 2011

De Herberto Helder para António Quadros

Para António Quadros, 
com a já velha amizade 
e a admiração renovada 
do Herberto Helder. 

Junho, 91.

terça-feira, 5 de abril de 2011

A Filosofia Portuguesa (17 de Janeiro de 1981)

Jantar do grupo da «filosofia portuguesa», dia 17 de Janeiro de 1981: 1º plano (de costas): José Manarte, Luís Furtado. 1º plano (de frente ): João Bigotte Chorão, Alberto Castro Ferreira, Francisco da Cunha Leão, Abel Lacerda Botelho. 2º plano (de frente ): Pinharanda Gomes, Luís Espírito Santo, Afonso Botelho, António Quadros, Vasco da Gama Rodrigues, Álvaro Ribeiro, Orlando Vitorino, António Braz Teixeira.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Tradução de António Quadros


"Amo os que vivem hoje na mesma terra que eu, e são esses que saúdo. É por eles que luto e é por eles que estou disposto a morrer. E por uma cidade longínqua, de que não tenho sequer a certeza, não irei contra os meus irmãos. Não aumentarei a injustiça viva em nome de uma justiça morta.

(...)

Kaliayev, depois de um silêncio
Nunca ninguém te amará como eu te amo.

Dora: Eu sei. Mas não será melhor amar como toda a gente?
Kaliayev: Não sou como toda a gente.
Amo-te como sou."

Albert Camus
Os Justos, Livros do Brasil, s/d, (1960)
Tradução e Prefácio de António Quadros
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"A honra do justo consiste na absoluta ausência de interesses pessoais, ao ponto de dar a própria vida a uma causa nobre. O justo é o que assume a responsabilidade pelos seus actos, aceitando de cabeça levantada o calvário que lhe é imposto. Mas, ao mesmo tempo, o justo é o que ama os homens, seus irmãos." (do prefácio)

quarta-feira, 30 de março de 2011

«Espaço Mortal» de Afonso Cautela


"Assim Afonso Cautela escreve como um crucificado, olhando do alto do seu calvário o movimento caótico e incompreensível dos seres humanos separados, hostis, repulsivos. [...] A poesia, poesia rigorosamente de «espaço mortal», reflecte as mesmas coordenadas. Tudo o que existe macula a liberdade interior: por isso a existência aparece ao poeta como luta – a cada instante – de vida ou de morte num espaço restrito e prisional. Magoado ou ofendido ou humilhado ou irado, o poeta responde com o gume dos seus versos – mas talvez o mais ferido resulte ele mesmo. O amor oferece-se-lhe sem dúvida como bálsamo: porém, julgamos que na poesia surge mais como aspiração do que como iniciação, quer dizer, situa-se mais no plano da alma do que no plano do espírito."

António Quadros
Jornal «57», Nº 9, Setembro de 1960, p.9

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Afonso Joaquim Fernandes Cautela nasceu em 1933 em Ferreira do Alentejo. Professor do ensino primário e jornalista, foi ainda funcionário público, livreiro e bibliotecário das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian em Tavira e Cuba do Alentejo.
Publicou três livros de poemas: Espaço Mortal (1960), O Nariz (1961) e Campa Rasa (2011). Organizou, com Serafim Ferreira, a antologia Poesia Portuguesa do Pós-Guerra (1965), publicou com Vítor Silva Tavares e Rui Caeiro Poesia em Verso (2007) e com Liberto Cruz uma recolha antológica do poeta Raul de Carvalho: Poesia – 1949-1958 (1965). Editou ainda dois números dos cadernos Zero: «A falência do neo-realismo» e «Líricas Maiores e Menores» e fez parte da antologia Surreal-Abjeccionismo, organizada por Mário Cesariny.
No domínio do ensaio, destaque para Depois do Petróleo, o Dilúvio (1973),  A Indústria do Ruído (1974), Contributo à Revolução Ecológica (1976) e Ecologia e Luta de Classes (1977). Tem colaboração dispersa na imprensa, nomeadamente nos jornais A Capital, O Século57 (1957-1962), (dirigido por António Quadros) e n' A Planície (1952-1964).
Durante os anos 70 e 80, colaborou na campanha ecologista, tendo fundado em 1974, com cinco amigos, a associação Movimento Ecológico Português. Entre 1974 e 1980, publicou o jornal Frente Ecológica, do qual saíram 15 números. Durante 12 anos, manteve uma crónica semanal de temas ecológicos, com o título «Crónica do Planeta Terra» no diário vespertino A Capital, onde coordenou também uma secção semanal intitulada «Guia do Consumidor». Neste período coordenou ainda a Colecção "A par do tempo", da Editorial O Século. Desde 1992 que se empenha no estudo e prática da Gnose Vibratória, criada em França por Étienne Guillé.

A Beleza e o Caos

"Criar é organizar, lutar contra a potência do espírito desordenado. Criar beleza é opor a graça à força caótica da fealdade. [...] a beleza se acha confundida na desordem do caos que se mistura ou se misturou à criação divina. [...] Quem sabe se o caos não é se não a memória dos homens, a sua multiplicidade, as diferenças abissais que separam uma alma de outra e todas do conhecimento supremo. Esquecemos?"


Ana Hatherly
em 57, ano IV, n.° 9, Lisboa, Set. 1960, p. 6 e 10. Disponível aqui.

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Poeta, ensaísta, investigadora, artista plástica e tradutora, Ana Hatherly, pseudónimo literário de Ana Maria de Lourdes Rocha Alves, nasceu na cidade do Porto em 1929. Licenciada em Filologia Germânica pela Universidade de Lisboa, doutorada em Estudos Hispânicos pela Universidade de Berkley,  foi uma das fundadoras do PEN Clube Português. Frequentou a tertúlia do grupo da Filosofia Portguesa, chegando a colaborar no jornal 57 (1957-1962), dirigido por António Quadros. Nos anos 60 e 70, com Ernesto de Melo e Castro, cria o grupo de Poesia Experimental. Em 1960 edita a antologia Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa, onde, por sinal, figura António Quadros e publica, entre outras obras, Um Ritmo Perdido (1958), 39 Tisanas (1969), Um Calculador de Improbabilidades (2001), Fibrilações (2005), A Idade da Escrita e outros poemas (2005).
Traduziu A Voz Secreta das Mulheres Afegãs, de Bahodine Majrouh; O Peão Agressivo, de Robert Littell; Férias de Agosto, de Pavese; Cinco Meditações Sobre a Existência, de Nicolau Berdiaev; Antologia poética, de Gunnar Ekelöf; A Europa durante a Reforma, de Geoffrey Rudolph Elton; Dicionário Infernal, de Collin de Plancy; O Amor e o Ocidente, de Denis de Rougemont; Sade, Meu Próximo, de Pierre Klossowski; Imagística do espaço fechado na poesia de Fernando Pessoa, de Leland Robert Guyer; O Vagabundo do Dharma, de Han-Shan; A Vénus de Kazabaïka, de Sacher-Masoch; Ouve-nos senhor do céu que é a tua morada e Através do Canal do Panamá, ambos de Malcolm Lowry; etc.
Recebeu diversos prémios pela sua actividade literária. Em 1978 foi galardoada pela Academia Brasileira de filologia do Rio de Janeiro com a medalha Oskar Nobiling, em 1998 obteve o Grande Prémio de Ensaio Literário da Associação Portuguesa de Escritores, em 1999 o Prémio de Poesia do P.E.N. Clube Português; e, em 2003, o Prémio de Poesia Evelyne Encelot, em França.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Tríade


Da esquerda para a direita: 1ª linha: José Marinho, Álvaro Ribeiro; 2ª linha: Adolfo Casais Monteiro, Joaquim Magalhães, Leonardo Coimbra, Luís Guedes de Oliveira, Carlos Sanches; 3ª linha: Horácio Cunha, António Alvim.
(em Leonardo, I, nº3, 1988)

sexta-feira, 25 de março de 2011

Café Palladium, Porto, Outubro de 1941


(da esq. p.ª dir.) João Alves, Sant'Anna Dionísio, Carlos Sanches, José Régio, Jorge de Sena, Alfredo Pereira Gomes, Adolfo Casais Monteiro e Alberto de Serpa

terça-feira, 22 de março de 2011

Rua José Marinho

Rua José Marinho - Filósofo e Professor [1904-1976]
(freguesia de Benfica)

segunda-feira, 21 de março de 2011

O magistério dos discípulos

Da esquerda para a direita: António Braz Teixeira, António Quadros, Pinharanda Gomes e Afonso Botelho. (Nas comemorações do centenário do nascimento de Leonardo Coimbra em 1983.)

18º aniversário da morte de António Quadros

Hoje, dia 21 de Março de 2011, assinala-se o 18º aniversário da morte de António Quadros com a celebração de uma missa em sua memória. É na Igreja Paroquial de Cascais, às 19h15.

Ao longo desde dia, a Fundação António Quadros, estará na livraria Artes e Letras, no Largo Trindade Coelho em Lisboa, prestando a sua homenagem ao escritor. Estarão à venda várias obras de António Quadros, assim como de Fernanda de Castro e António Ferro.

No Sábado, dia 26, a homenagem acontece no Palácio Foz, com a apresentação do Prémio António Quadros Cultura e Pensamento, uma mostra bibliográfica da sua obra e leituras de alguns dos seus poemas.
Veja o programa completo aqui.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Colóquio "A Obra e o Pensamento de Eudoro de Sousa"


O Instituto de Filosofia Luso-Brasileira promove, dias 22 e 23 de Março, no Palácio da Independência em Lisboa, o Colóquio "A Obra e o Pensamento de Eudoro de Sousa". Comunicações de João Ferreira, António Braz Teixeira, Joaquim Domingues, Miguel Real, Luís Loia, Rodrigo Sobral Cunha, Constança Marcondes César, entre outros. Programa completo aqui.

terça-feira, 15 de março de 2011

Dois novos títulos

 

A Fundação António Quadros vai dar brevemente à estampa dois novos títulos. Um livro de homenagem a António Quadros, que assinala os 18 anos depois da sua morte, que inclui testemunhos de amigos, família e  várias personalidades da nossa cultura, e ainda a troca de correspondência entre Delfim Santos e a Família Castro e Quadros Ferro, com prefácio de António Braz Teixeira e organização de Filipe Delfim Santos. Para além de outros documentos inéditos, este epistolário reúne 28 cartas de António Ferro, Fernanda de Castro, António Quadros e Delfim Santos e ainda uma epístola de José Osório de Oliveira sobre a saída de António Ferro do Secretariado Nacional de Informação (SNI) em 1949.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Homenagem a António Quadros

Dalila Pereira da Costa, conhecimento pela experiência mística


"O conhecimento pela experiência mística, que Fernando Pessoa considerava genuíno, embora inseguro, que na obra de Leonardo se liga à graça, na de Marinho à visão unívoca e na de Álvaro Ribeiro à gnose tem sem dúvida, na obra de Dalila Pereira da Costa, talvez a mais vivencial e contudo mais meditada expressão da nossa cultura moderna. [...] A filosofia portuguesa contemporânea, muito embora tenha predominantemente um caraácter teleológico e operativo, sobretudo com Sampaio Bruno, Leonardo Coimbra e Álvaro Ribeiro, tendendo não raro a distanciar-se do passivismo da postura intelectual recptiva e mística, não deica contudo de considerar o seu valor na ordem do conhecimento.
Bruno [...] radica toda a construção intelectual de A Ideia de Deus, em fenómenos auditivos inexplicáveis que experienciou e atribuiu a intervenções angélicas.
Leonardo Coimbra, falando da passividade mística, apontava no entanto para o acordo superior das duas formas de pensamento humano -  a científica e a mística.
Obra contrapolar de outras, marcadamente lógico-científicas, como A Razão Experimental, o seu livro A Alegria, A Dor e a Graça, está inteiramente repassado de uma sensibilidade mística, descrevendo a natureza, as criaturas, os seres humanos, Deus, como em verdadeiro trânsito da percepção sensorial para a apercepção espiritual, como em anunciação de uma fenomenologia ontopneumatológica pessoalmente vivida.
Álvaro Ribeiro, também com algumas reservas perante o pensamento místico, tanto no cristianismo como no budismo, admite em a A Arte de Filosofar uma gnoseologia da intuição, da imaginação, do sonho e da visão contemplativa, desde que pensadas à luz da razão conceptuante, à luz de um racionalismo aberto para o mistério.
José Marinho transporta abertamente a realidade da experiência mística ou unitiva como visão, visão unívoca, para o seu sistema filosófico. Ela é, a visão unívoca, como que a vivência agraciada que para os homens será o ponto luminoso pelo qual podem experienciar fugazmente a relação enigmática entre o Ser da Verdade e a Verdade do Ser, mau grado o mundo de cisão em que vivem.
Quanto a Afonso Botelho, na recente suma do seu pensamento que intitulou Da Saudade ao Saudosismo, elevou ao nível especulativo e filosófico as intuições de Pascoaes e de outros poetas saudosistas, delineando o conceito de uma filosofia gnoseológica da saudade, com nítidas afinidades místicas.
O livro [Místicos Portugueses do Século XVI] de Dalila Pereira da Costa, porém atinge uma dimensão singular na exegese da literatura mística, porque na sua personalidade se encontram harmoniosamente, tanto a inteligência hermenêutica apoiada na mais sólida cultura, como a predisposição e «saber de experiências feito» de quem é, ela própria, uma espiritual, uma mística, autora das páginas mais fulgurante de A Força do Mundo ou de Os Jardins da Alvorada.

António Quadros
Memórias das Origens, Saudades do Futuro (1992) pp.58-59

quinta-feira, 10 de março de 2011

Fundação António Quadros recebe estatuto de Utilidade Pública


A Fundação António Quadros recebeu hoje, dia 10 de Março de 2011, por deliberação da Presidência do Conselho de Ministros, o estatuto de Utilidade Pública.

Trata -se de uma Fundação que evidencia, face às razões da sua existência e aos fins que visa prosseguir, manifesta relevância social. Coopera com entidades públicas e privadas na prossecução dos seus fins.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Sobre a fotografia em baixo

Se eu ficasse aqui, indefinidamente a escrever, transformar-me-ia num tecido puído; desfeita quando alguém, ou alguma coisa me tocasse, deixaria apenas poeira com brilho das palavras e dos seres.
[...]
Passei o dia com as plantas. A conversar sobre elas, a distribui-las pelos jardins em vasos e bacias de esmalte e de barro. Comprei dezenas no mercado de Jodoine onde pude finalmente ir por ser quinta-feira de Ascensão. Tive um pensamento, de que já perdi a memória textual, onde plantas germinavam na sombra. Perdi a maneira de dizer, que era exacta e solidária - singular. Um dia, no Inverno, estava na estufa, quando senti o desejo irreprimível de baixar-me sobre a mesa e beijar uma planta. Desde aí, há entre elas e eu uma possibilidade de expressão, de código desconhecido.

Maria Gabriela Llansol

sexta-feira, 4 de março de 2011

Marchámos em difícil equilibrio

"Os anos rolaram. Não perdemos nunca felizmente a ingenuidade das nossas primeiras indignações. Também nunca as confundimos com os processos sofísticos ou dialéctivos de movimentos apenas interessados em substituir uns professores por outros professores, uma burocracia por outra burocracia. Marchámos em difícil equilíbrio sobre um fio escaldante, recusámo-nos ao hipnótico jogo das direitas e das esquerdas, repudiámos a proposta opção entre formas paralelas de adormecimento mental, fizemos do nosso patriotismo o único universalismo possível em tempo de diáspora, fizemos também do nosso exigente universalismo o único patriotismo aceitável, adversário do nacionalismo como do árido internacionalismo, do conservadorismo como do apressado progressismo. [...] Empenhámo-nos numa acção cultural, mas de finalidade espiritual, pois que a cultura não dispensa, sob pena de esterilidade, a enigmática e imensa energia concentrada da semente."

António Quadros
"Cisão ou Diáspora",
em Espiral, 8/9 (1965), pp 58-59