quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O outro da filosofia

"(...) Já na idade moderna e contemporânea, quantas vezes não temos assistido ao anúncio e diagnóstico de inúmeras crises da filosofia, correlativas e derivadas dos dispersivos e fragmentantes cortes epistémicos que novas áreas disciplinares têm aberto, mas também a originais contaminações feitas de sínteses e encontros com o que seja o outro da filosofia: como pensar a filosofia clássica alemã sem o encontro com a história e toda a filosofia contemporânea sem o decisivo confronto com a economia política, com a psicanálise, com a arte e a literatura, com o cinema, com as ciências da vida e as neurociências, com a tecnologia, com o enorme acervo que a etnografia de todos os povos tem revelado, com os patrimónios sapienciais, culturais e literários dos povos não europeus cuja imprevista grandeza e diversidade começamos a vislumbrar?"

Rui Lopo
"Significado e Valor da Filosofia na Obra de António Telmo - Em Diálogo com José Marinho"
em Actas do Colóquio «A Obra e o Pensamento de António Telmo» (Cadernos de Filosofia Extravagante, 2011), p. 73.

Filosofia e Teologia


"O problema da relação da filosofia com a teologia originariamente implica o problema da relação do pensamento com a fé. Nenhuma dessas formas de relação ao Ser e à Verdade pode considerar-se fundada, subsistente e consequente, pela exclusão da outra. Ambas as formas da relação têm no ser originário sua unicidade. (...) Fé e pensamento existem para a interpretação e a harmonia. Tão fácil dizê-lo, como difícil alcançá-lo! Pois que o mais alto e melhor escapa, a uniteralidade é a mais constante e fácil sedução dos homens, Diremos então que a tese que considera a fé mais divina que o pensamento é errónea, pois o pensamento tem relação mediata, mas não menos segura à verdade divina. E assim como a fé tende a considerar-se suficiente e a  anular o pensamento, ou a submetê-lo, assim também o pensamento, pressuroso de autonomia, tende a excluir ou a minorar a fé. Logram ambos tão-somente minorar-se, do mesmo passo que, minorando o suposto seu contrário, deturpam a relação excelente em mais baixo planos da vida espiritual. Tal relação, como todas as relações de estrutura da vida e do espírito, pode incessantemente minorar-se, jamais anular-se."

José Marinho
Estudos Sobre o Pensamento Português Contemporâneo
(Biblioteca Nacional, 1981) 

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Colóquio José Marinho: Do Espírito ao Insubstancial Substante

Dia 20 de Dezembro na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Com a participação de Manuel Cândido Pimentel, Paulo Borges, Rui Lopo, António Braz Teixeira, Pinharanda Gomes, entre outros. Mais informações aqui.

Burocracia, vacuidade e historicismo

"Difícil se torna exprimir hoje, passados já dez, doze anos, o que para mim representou, como iniciação cultural, a descoberta dos movimentos convergentes da fenomenologia e do existencialismo. Saía por essa altura da Faculdade de Letras de Lisboa, então instalada no velho e poeirento edifício da Academia de Ciências, e lia com avidez as obras de Sartre. Na Faculdade nada me propiciara em tal direcção, a não ser a ausência de qualquer direcção. Posso dizer que, se alguma mola propulsora encontrei no então Curso de Ciências Histórico-Filosóficas, foi a absoluta consciência do vazio espiritual que a inconsciência desse vazio nos mestres amargamente me sugeriu. No plano moral, é certo que a humilhação das lições dogmáticas, dos exames mnemónicos e da total incapacidade para encontrar, tocar, abrir as virtualidades originais de cada aluno me deu grandes reservas de força anímica para começar enfim a minha preparação intelectual, uma vez obtido, depois de vários vexames, o almejado diploma de curso superior - um documento burocrático com fins burocráticos e nada mais. Fui sem dúvida dos mais obscuros alunos da faculdade e, após incidentes como a pública manifestação de desconfiança por parte do presidente de júri de licenciatura, ilustre professor catedrático, quanto a ter sido eu realmente o autor da tese apresentada, muito admirado fiquei quando recebi a notícia da minha absolvição, isto é, da minha aprovação, embora com modesta nota. Por que me dera o ensino filosófico da nossa Universidade tão abismal sensação de vacuidade, de inutilidade? (...) O que repelira desde o início, não só o meu espírito como até a minha sensibilidade, fora a ausência de qualquer dinamismo no ensino universitário com o qual fui obrigado a pactuar, ausência que hoje atribuo ao excesso de historicismo de que padece não só a educação como a cultura portuguesa. (...) No fim do curso, na famigerada disciplina semestral de História da Filosofia em Portugal - já então não compreendia muito bem por que, se se ensinava Literatura Portuguesa, se não podia ensinar Filosofia Portuguesa -, como o professore propusesse aos alunos a elaboração de monografias históricas sobre pensadores nacionais, um colega redigiu um estudo sobre o antipositivista Domingos Tarroso, autor, já no século passado, de um tratado intitulado «Filosofia da Existência». Ousara ele considerar Tarroso um percursor do existencialismo e bem assim valorizar esta corrente filosófica. Encontrei este colega há meses e lembrámos com amargura os momentos de humilhação por que ele passou ante a total incompreensão e as invectivas irónicas do professor! Também a aridez historicista desta cadeira, em que praticamente se vedava aos portugueses o direito de pensarem por si mesmos, me levou mais tarde a averiguar, mormente depois de ter encontrado Álvaro Ribeiro, que ao tema se devotara, a possível autonomia e originalidade de um pensamento português, de uma filosofia portuguesa. 
É sem dúvida curioso como, desde os primeiros anos universitários, no meu espírito se uniram a tese existencialista e a tese da filosofia portuguesa - um ramo, aliás, da tese das filosofias nacionais. Ambas eram objecto de uma feroz oposição catedrática. (...) Escolha, se havia, era extra-universitária. " 

António Quadros
"A Cultura Portuguesa perante o Existencialismo"
em Sartre e o Existencialismo de Ismael Quiles
(Arcádia, 1959)
-----
Ismael Quiles Sanchez Pedralba, (1906 - 1993) foi um teólogo e filósofo espanhol fortemente influenciado por Martin Heidegger, Gabriel Marcel e Karl Jaspers. Escreveu, entre outras obras, La persona humana (1942), Aristóteles: vida, escritos, doctrina (1944), Filosofía del cristianismo (1944), Heidegger y el existencialismo de la angustia (1948), Sartre y el existencialismo del absurdo (1952), Más allá del existencialismo: filosofía in-sistencial (1958), Metafísica budista (1967), Filosofía y mística: yoga (1967), Filosofía y religión (1985).

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Apetência de regresso


"No português, talvez mais do que em qualquer outro povo europeu, a ânsia desmedida de absoluto (...) a apetência de regresso a uma perdida ou sonhada harmonia de perfeição - de que emerge o sentimento da saudade - choca-se, dramaticamente, com a realidade brutal e agressiva do mal nos homens e no mundo. A possibilidade de existência de um Deus omnipotente, perfeito e supremo Bem e a realidade insofismável do mal, eis o que, desde o plano do mais desatento viver quotidiano até ao da mais séria e responsável especulação, tem sido para ele causa de funda inquietação e perplexidade. (...)"

António Braz Teixeira
"O Mal na Filosofia Portuguesa dos Séculos XIX e XX"
em Deus, O  Mal e a Saudade, Fundação Lusíada (1993), pp 62-78.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Poder nativo

"O cadáver da Pátria tinha ainda uma pequena parte viva, onde se refugiara a sua alma, a que se despe de toda a nódoa carnal e se concentra na sua região mais elevada. A alma é um espaço montanhoso. Da sua maior altitude, quase se descobre Deus...Assim em Frei Agostinho da Cruz, a alma pátria atinge aquele alto píncaro, de onde se avistam as estrelas, olhando para baixo... A Elegia saudosa diviniza-se por espontânea iluminação da sua virtude originária. O poder nativo de conceber a Divindade, encontra, em Frei Agostinho, a hora do máximo esforço vitorioso. (...) Atingindo a nossa Poesia a maior altura em Camões e Frei Agostinho, é natural a sua decadência suceder ao máximo esplendor."

Teixeira de Pascoaes
Os Poetas Lusíadas
(1919)

Uma ideia de totalidade

"Vou contar como foi. Tudo começou com a constatação de um facto precioso e, até então, desatendido. Fê-la António Quadros, na sua obra capital, há cerca de 20 anos. Seguiu-se, recentemente, a constatação de um outro facto. Fi-la eu, ao ler a parte biográfica da notável introdução à obra de Álvaro Ribeiro que Joaquim Domingues, devotado estudioso do filósofo da razão animada, nos oferece em Filosofia Portuguesa para a Educação Nacional. Até hoje, ao que julgo saber, este novo facto terá passado despercebido, tal como o anterior até António Quadros o fazer notar pela primeira vez. Se é, ou não, precioso, dirá depois o leitor, se acaso persistir na leitura deste livro até ao final. (...) O grande ciclo de manifestação e desenvolvimento da filosofia portuguesa dura 720 anos. Sendo este número o décuplo de 72, pode o superlativo correspondente querer enfatizar o grau de perfeição que é simbolicamente referido ao número 72. (...) À afirmação da plenitude cíclica daquele período maior também não será indiferente a lição de Santo Agostinho, para quem 'o decépulo septenário corresponde à totalidade de uma evolução, um ciclo evolutivo completamente concluído'."

Pedro Martins
O Céu e o Quadrante,  desocultação de Álvaro Ribeiro
(2008)

Concentração tácita

"Normalmente, o pensamento ávido de perenidade alimenta-se da penumbra e exprime-se a meia voz. Mais do que isso, o pensar obsessivo e intenso, iluminante e translúcido, por vezes, desiste da própria penumbra e da própria transmissão confidente, e opta por uma forma de esperança desesperada e transcendente: a da concentração tácita."

Sant'Anna Dionísio
Leonardo Coimbra - O Filósofo e o Tribuno
(1985)

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Coração de pedra


"O próprio Pombal é o desejado? Não. Fez-se temer, não se fez amar. Cabeça de bronze, coração de pedra. Moralmente, ignóbil. Rancoroso, ferino, alheio à graça, indiferente à dor. Inteligência vigorosa, material e mecânica, sem voo e sem asas. Um brutamontes raciocinando claro. Falta-lhe o génio, o dom de sentir, nobreza heróica, vida profunda, humanidade, em suma. Máquina apenas. Não criou, produziu. A criação vem do amor, a génese é divina. Criar é amar. Por isso a obra lhe foi a terra. Pulverizou-se. Só dura o que vive."

Guerra Junqueiro
Pátria (1915)

Tribunal da fé

"Quando Pombal arcou com o jesuitismo, não se sentiu com forças para, de vez e a valer, bater-se contra a inquisição; teve de contemporizar com os preceitos populares e houve de lisonjear as vis paixões do intolerantismo fanático da massa, censurando, pois os jesuítas, por se atreverem como o Santo Ofício. (...) De maneira que o tribunal da fé, o Santo Ofício da Inquisição deixa de ser uma instituição popular e simpática para se transformar numa instituição impopular e antipática, desde quando? Desde quando, deixando de ser uma lei de excepção, se transmuda numa lei geral. Isto é, desde que Pombal faz adoptar o que decidiria, do extermínio da distinção entre cristãos-velhos e cristãos-novos."

Sampaio Bruno
O Encoberto (1904)

História da filosofia

"Muitas obras especulativas existem que não figuram na história da filosofia apenas porque um mau critério didáctico as desvaloriza, repelindo para a história da literatura o que não é de rígida composição teórica ou prática.
Sabendo, porém, que uma classificação de géneros literários, porque o critério classificativo depende da doutrina adoptada quanto à relação da palavra com a imagem, o conceito e a ideia, veremos que será perfeitamente lícito estudar a história da filosofia em paralelo com a história da literatura."

Álvaro Ribeiro
A  Arte de Filosofar (1995) pp.130 e ss.

25 de Novembro de 1989


"De muitas formas podemos aproximar-nos do cerne da obra do autor da "Mensagem". Mas talvez melhor compreendamos humanamente o que foi a sua procura ao mesmo tempo o seu drama, se entendermos o desgarrador sentimento de orfandade que o afligiu e aguilhoou ao longo da sua vida. Separado brutalmente do pai aos cinco anos de idade, arrancado ao seu meio e às suas raízes, Fernando Pessoa fez efectivamente da poesia que nos deixou, uma apaixonada busca ou demanda de identidade, da sua própria como indivíduo, e da identidade da sua Pátria, sonhada de longe, na distância."

António Quadros
(Novembro de 1989)

23 de Maio de 1958


Conferência de António Quadros sobre o seu pai António Ferro dia 23 de Maio de 1958, no Museu Nacional de Soares dos Reis no Porto.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Plena consciência

"(..) a filosofia portuguesa não tem vocação para ser apanágio de um grupo, ainda que o tenha sido quando as circunstâncias o impuseram; não tem vocação para ser um reduto académico, ainda que aí tenha uma importante função a desempenhar. A filosofia portuguesa importa que seja a plena consciência da realidade humana, natural e divina, capaz de iluminar a vida, o pensamento e a acção dos portugueses, numa perspectiva de universalismo que lhes é constitucional."





Joaquim Domingues, «Às novas gerações da filosofia portuguesa» in No signo do 7: 150 anos de filosofia portuguesa: actas dos colóquios. Coord. ed. Guilhermina Ruivo, Maria José Albuquerque, Pedro Martins.  Sesimbra: 2008, pp.115-121.
--------------------------------------------------------------------------------
Joaquim Carneiro de Barros Domingues, mais conhecido por Joaquim Domingues, nasceu na cidade do Porto, no dia 9 de Abril de 1946. É professor, ensaísta e um dos principais investigadores da obra de Álvaro Ribeiro e Sampaio Bruno. Entre 2000 e 2005 editou a revista Teoremas de Filosofia e é, desde 2011, membro do Conselho Consultivo da Fundação António Quadros.

As Duas Vias

"Experimentamos, agora, maiores dificuldades, devido ao facto de Álvaro [Ribeiro] e [José] Marinho nos terem surgido, desde o início, como vias complementares. Admitimos, mas com sinceridade, tal dificuldade, por sabermos como é difícil penetrar no âmago ou no secreto, da crença, que, sem discurso claro, nem absolutamente clarificável, move e caracteriza o filósofo. (...) O tempo há-de confirmar, ou não, a aproximação profunda entre os dois filósofos até agora mais comparados pela diferença dos seus perfis. É, evidentemente, clara a distinção entre os modos de filosofar de um e outro. (...) Conforme já afirmámos, como verdade da antropologia, todo o homem surge como um ponto de novidade insubstituível no qual o interrogar assume carácter necessário para todo o sentido de assumir o universo, enfim, como um virtual autor de novas e decisivas revelações.
Tanto Álvaro como Marinho recusam a existência de uma lógica pura decorrente de definir a lógica como arte de pensar. Não é a arte de pensar mas a arte de exprimir pelo logos o pensamento como afirmar Álvaro Ribeiro e não pode afirmar-se pura pois, se assim fosse, constituir-se-ia como "ciência acabada das formas, relações e conexões do pensamento finito" conforme afirma José Marinho. (...)"

João Luís Ferreira
As Duas Vias (1994)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Adoração sem propósito

"Nesta adoração há uma atmosfera de presépio, é bucólica, humilde, mas é também imensa como um campo de trigo, lembra os ritos da terra, a mulher «anima mundi», sempre virgem porque jamais conquistada ou vencida: «Tu és o meu eterno feminino, a luminosa metade da concha doirada onde dorme a eterna semente dos mundos, a terra lavradinha e pronta onde o beijo do sol de Deus fez crescer os trigos, a rocha profunda onde a chuva dos céus se acumula, como na concha das tuas mãos, para as sedes do estio». 
Ao longo desta adoração vai-se evoluindo gradualmente da terra para o céu, a mulher amada vai sendo gradualmente descarnada até se tornar um incorpóreo símbolo. De telúrico o amor passa a estática contemplação, o olhar vai gradualmente subindo ou mergulhando. Em certo momento a adoração é um diálogo, como se a alma respondesse a si própria na ânsia de se sentir ouvida, mas logo abandona esse instante de solicitação de escuta para seguir na certeza da adoração sem propósito: o amor ultrapassa o desejo e a meta não é a posse mas a alegria. A alegria do encontro, do encontro das almas, do encontro da alma consigo própria: a alegria originária. (...)"

(Excerto do prefácio) em Leonardo Coimbra
Adoração, Cânticos de Amor (Delfos, s/d)

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Visita da Rainha de Inglaterra a Portugal em 1957



Em 1957 António Quadros é condecorado pela Rainha Isabel II, de visita a Lisboa, recebendo das mãos da monarca a Ordem Britânica da Rainha Vitória. Isabel II foi recebida no Cais das Colunas, no Terreiro do Paço. Mais sobre esta visita aqui.


Jorge de Sena, Leonardo Coimbra e a Renascença Portuguesa


"(...) o gérmen da atitude política irá modelar em Jorge de Sena um comportamento isento, disputado para um partidarismo que tanto proveio de monárquicos como de comunistas, mas que inabalavelmente preservou sem concessões à direita ou à esquerda, na consciência do homem livre e insubmisso. (...) Em contrapartida, a crítica de Jorge de Sena surge-nos como que a fazer coro ou, no mínimo, objectivamente infundamentada, quando procura dirimir um movimento portuense tão importante como o da Renascença Portuguesa, em especial, quando sem fundamento intenta menosprezar personalidades tão meritórias e vincadas como a de Leonardo Coimbra, Que terá levado este homem inteligente a pretender assacar o demérito ao filósofo do Criacionismo, ou a não tolerar, no seu tempo, ideias de um Álvaro Ribeiro? Estaria Sena tão bem informado sobre o valor intrínseco de cada um destes homens (assim como do alcance e significado da Renascença Portuguesa) ou, pelo contrário, agiria apenas de acordo com o que uma certa tendência da intelectualidade portuguesa dos seus - e ainda nossos - dias, pretendia falsear? Aliás, não concedeu ele uma atenção particular na valorização da poesia e de um poeta renascentista como Teixeira de Pascoaes? Fiquemos, fundamentalmente, pelos méritos."

Paulo Samuel
Jorge de Sena e a fidelidade ao Porto, pp. 12-13
(Porto, 1989)

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Crítica e Verdade

"O filósofo é sempre uma pedra de escândalo, porque desafia e põe em perigo constantemente o comodismo intelectual do crítico."

António Quadros

Invenção e Verdade na Literatura Portuguesa

"A invenção poética está em relação directa com a verdade. A invenção corresponde a um aumento de ser que é incursão no reino luminoso do verdadeiro. Inventar é conquistar novos terrenos à verdade e trazê-los para o mundo dos homens, tal como em certas regiões se vão conquistando terrenos ao mar, acrescentando assim ao exíguo espaço inicial possibilidades dantes insuspeitadas. (...) A realidade não se reflecte num espelho, não se traduz, não se representa sequer, na mais exigente criação artística, descobre-se e, descobrindo-se, adiciona-se.(...)"

António Quadros
"Invenção e Verdade na Literatura Portuguesa"
em Crítica e Verdade (1964) pp. 267-275.

António Quadros sobre o «Barranco de Cegos» de Alves Redol


"Sabe crescer quem pode evoluir. E pode evoluir quem é capaz de renovar métdosos, processos e temas, de modo a superar-se em amplidão de perspectivas e enriquecimento de caminhos. É o caso de Alves Redol, o vigoroso romancista de livros muito discutidos que fizeram época, como «Gaibéus», «Avieiros», «Fanga» ou «Porto Manso». (...) Porventura a melhor qualidade de Barranco de Cegos, (...) é um quid vago, abstracto, irrepreensível em termos de rigor, mas presente em cada situação, em cada acontecimento, em cada diálogo deste fresco que nos mostra a lezíria e o seus fantasmas, a lezíria de há um século, rediviva na memória mística, emocional e colectiva do romancista. (...) Redol, antes de ser um romancista, e um romancista de tese, é um homem (...) envolvido numa cadeia ou num bordado de eventos, um homem incluído, quer queira quer não, numa tonalidade psicológica que dá o movimento e ritmo a um bailado de campinos, proprietários, maiorais, toiros, cavalos, mulheres fortes e dramáticas, raparigas românticas e perturbadas por estranhas contradições. O que impressionada, neste romance, não é o antagonismo ou a dialéctica de personagens, de tipos ou de classes, mas ao contrário, uma identificação, que a terra mais propicia e estimula. (...) Se o Cavalo Espantado nos revela um romancista voltado à análise psicológica de uma situação dada, Barranco de Cegos apresenta-nos o amadurecimento de quem já poder para manejar os mais diversos tipos humanos, na sua evolução no tempo, no seu diálogo e na sua dialéctica. (...) Queremos dizer que Alves Redol acaba por superar Alves Redol.

António Quadros
"Neo-Realismo em evolução, «o Cavalo Espantado» e «Barranco de Cegos», de Alves Redol
em Crítica e Verdade (1964) pp. 88-95.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O 3º número dos Cadernos



Autores: António Telmo, Pedro Martins, Renato Epifânio, Américo Rodrigues, Helena Estriga, António Braz Teixeira, Joaquim Domingues, Abel de Lacerda Botelho, Roque N. Brás de Oliveira, M. N. Vieira, Luís Paixão, António Carlos Carvalho, Cynthia Guimarães Taveira, Rui Lopo, António Quadros Ferro, Carlos Aurélio, António Cândido Franco, Rodrigo Sobral Cunha, Carlos Vargas, Manuel Ferreira Patrício, Pedro Sinde, Paulo Santos, Pedro Paquim Ribeiro, Maurícia Teles da Silva, J. Pinharanda Gomes, António Quadros, Avelino de Sousa, Elísio Gala, José Paulo Ribeiro Albuquerque, Helder Cortes, Eduardo Aroso, Isabel Xavier, Jesus Carlos, Álvaro Ribeiro, José Marinho, Agostinho da Silva, Dalila Pereira da Costa.

No 75º aniversário da Renascença Portuguesa


19 de Dezembro de 1987
Da esq. para a direita - António Quadros, Agostinho da Silva, José Augusto Seabra, António Braz Teixeira e Alfredo Ribeiro dos Santos.

Mitosofia

"O erro daqueles que, nos últimos cem anos, em Portugal e alhures, atacam impetuosamente o mito e o mitismo, dando-lhes batalha sem concessões e sem quartel, foi o não terem querido ver em tais manifestações outra coisa senão destroços da idade teológica ou arcaica, aspirações ideais e irreais da alma humana ou formas de alienação do verdadeiro ser do homem. Foram confirmados na sua posição, é certo, pelos filomitistas, isto é, por aqueles pensadores, críticos ou poetas cuja paixão ilimitada e sentimental pelos mitos, ou pelo menos por certos mitos, os deixou sem defesa perante as armas racionalistas do criticismo.
Em tal paixão subsistiam, porém, elementos de verdade, que os mitósofos de variada proveniência não tardaram em discernir. O mitósofo diferencia-se do filomitista, em não fazer do mito um absoluto, em considerá-lo matéria experiencial, modo de revelação do ser do homem e canal de expressão de valores através do qual uma comunicação transcendente se estabeleceu ou estabelece. Atendendo ao mito, não se detém porém na sua realidade exclusiva, ultrapassa-o e integra-o numa visão mais vasta."

António Quadros
Introdução à Filosofia da História, Editorial Verbo, 1982, pp. 228-229

A Ilha Firme

"Já o tenho dito, mas é oportuno repeti-lo: a literatura e o pensamento portugueses, ou, mais correctamente de língua portuguesa, encerram uma imensa riqueza potencial, a que aliás nem sequer falta expressão em obras por vezes excepcionais. Para a descobrir temos no entanto que sair das trilhas mais conhecidas e passar além dos efeitos adulteradores e massificantes da propaganda da moda e das ideologias. Tal exactamente o propósito que me tem guiado nos comentários, ensaios ou recensões desta rubrica semanal.
A obra de Dalila da Costa, realizando-se fora desses trilhos, escapando a definições e classificações, situando-se em zonas irrespiráveis para os que têm da literatura ou da arte uma visão escolástica e historicista, é dessas que não se encontram facilmente , porque precisam de ser procuradas, descobertas e meditadas. (...)"

António Quadros
"A Obra Visionária e Mística de Dalila Pereira da Costa", 
em O Novo Argonauta (e a Ilha Firme) de Dalila Pereira da Costa
Fundação Lusíada, 1996
(este texto foi  publicado pela 1ª vez no semanário Tempo em 1982)

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Jesué Pinharanda Gomes

"Fui há anos à sua casa em Santo António dos Cavaleiros entrevistá-lo. Modesto, discreto, quase hesitava em produzir uma que fosse afirmação definitiva. Tratei-o por «doutor». Disse-me que o não era. Como nos acompanhava uma estante de livros sobre teologia tentei corrigir, afirmando que seguramente teria estudos no Seminário (como tantos do seu tempo). Disse-me que também não. Era um auto-didacta. As tertúlias de Lisboa tinham sido, nos cafés, a sua sala de aulas. A Filosofia Portuguesa o seu amor.
Trabalhava na Massey Fergunson na venda de tractores. Estudara nas horas livres, pela noite fora. Lera na Biblioteca Nacional no tempo em que ela abria à noite. Tirava à boca para comprar livros. Instruía-se sempre. Escreveu nem sei quantos livros. Tentei encontrá-los todos. Teve a gentileza de me oferecer alguns.
A entrevista era sobre tudo e sobre nada. A minha ignorância impedia-me de formular as perguntas certas, a sua sabedoria vedava-lhe respostas simples.
À saída mostrou-me uma pequena gaiola, extasiado ante uns passarinhos e os ovos que chocavam. A vida cumpria-se. Uma vez cruzei-me com ele na Lapa. Ia consolar o Orlando Vitorino, fazendo-lhe companhia.
Nasceu em Quadrazais, mas renasce como exemplo no coração de cada um. Um dia um jornal, creio que o Diário de Notícias, perguntou-me qual foi a pessoa que mais me impressionou. Disse: Jesué Pinharanda Gomes. (...)"

José António Barreiros

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Excerto de uma entrevista a António Quadros


Entrevista conduzida por Francisco Igrejas Caeiro, 1958.

Falar é raciocinar

"(...) Acontece actualmente que os Portugueses já não entendem a língua que falam e escrevem. Dado que no homem a razão é coexistente com a fala, ou, por outras palavras, que falar é raciocinar, ainda quando as frases não cheguem a exprimir raciocínios completos, a corrupção da linguagem aparece como sinal da decadência da filosofia."

Álvaro Ribeiro
Inquérito sobre a Filosofia Portuguesa
(Editora Pax, 1972)

21 de Março de 1993

"Abre-se, com este livro, a primeira colecção das edições que o Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, estatutariamente, se propôs a desenvolver. (...) A oportunidade de editar a primeira obra não foi desejada como as outras, mas é consequência de um infausto acontecimento que enlutou todos os que, nesta associação cultural ou fora dela, têm contribuído para o mútuo conhecimento da espiritualidade das nossas duas pátrias e para a razão que as une. 
Sendo António Quadros, pela vida, pela obra e também pela morte, caso ímpar de pensador luso-brasileiro, que devotou o melhor dos seus dons intelectuais e morais à reflexão filosófica sobre a razão de ser e de existir Portugal e do Brasil, oferece à colecção o mais significativo símbolo de abertura, a mais honrosa portada.
Tomando esta publicação apenas como modesta referência da morte do nosso amigo, companheiro, fundador e director do Instituto, não esperamos dela a homenagem que a sua memória merece, mas antes o primeiro registo do nosso autêntico pesar."


Instituto de Filosofia Luso-Brasileira
(1993)

Ler um livro

"(...) ler um livro é difícil; ler até ao ponto, ou até à ponta, em que se passa das afirmações comprovadas para as verdades ocultas. Ler é pensar, ou repensar, o que o autor escreveu. Faz-se mister, para isso, ler com o auxílio de um questionário, registar no manuscrito a distinção exacta entre as questões insolutas e os problemas resolvidos; mas como só um ou outro estudioso se dispõe a tal interrogatório, para avaliar o que conseguiu saber, prevalece a discussão superficial dos argumentos que exemplarmente emergem aqui ou além, e a crítica literária dá por julgado um livro qualquer ao fim de uma rápida e fácil leitura.
O escritor desanima ao verificar que o seu pensamento corre minorado ou adulterado nas vozes anónimas que formam a opinião pública. Nenhuma escola, nenhum partido, nenhuma seita manifestará benevolência para com o homem extravagante que pensa de modo diferente dos outros, nem quererá atraí-lo para o seu grémio. Esta verdade reflecte-se no conhecido provérbio: O saber não ocupa lugar. De aí a tendência, para negar justiça àquele que for sincero no falar e no escrever. A liberdade de pensamento é assim diariamente limitada pela crítica moral, política e religiosa, num processo que só terminará pelo nivelamento final das inteligências.
Diz-se que a história fará justiça, mas a lição da história não produz efeito de reconforto sentimental. Os mesmos erros perduram, depois de reconhecidos, e reproduzem-se por uma necessidade que a vontade humana não consegue travar. Corrigir o erro seria, para muitos estudiosos, regressar ao passado e revogar o presente; corrigir o erro seria, para outros, proceder a um desmentido; preferem todos avançar sempre para um futuro imaginado, levados talvez por inconscientes motivos de opção.
Esperam aqueles que não agem. Esperando assimilam doutrinas que os verdadeiros e os falsos profetas vão propagando de geração em geração. Transferir o messianismo é a lei mental da cultura portuguesa. (...)"

Álvaro Ribeiro
 Escola Formal, Guimarães editores, (1958)

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Denúncia da identificação ideológica

"(...) achamos ter chegado a altura de acabar com a perfídia de quem vê na filosofia portuguesa «a ideologia cultural de um fascismo lusitano», ou que o mesmo é dizer de uma ideologia que procurou «hiperbolizar o que no regime [salazarista] ia no sentido do culto patológico da «lusitanidade», ajudando até com veemência particular a radicalizar nos termos mais cegos e dementes uma política «imperial» cujas funestas consequências não escaparam a gente menos «visionária» e menos delirantemente «patriótica»*. De facto, E. Lourenço não sabe do que fala, pois na sua condição de estrangeirado nunca procurou saber o que António Quadros, sem ser salazarista, nem defendendo uma política «imperial», pensava sobre a missão providencial de Portugal no mundo. Por conseguinte, no entender de António Quadros, o messianismo português, herdando, a par de elementos cristãos e islâmicos, a noção hebraica de Povo Eleito, compreende em si mesmo uma ideia de Portugal que, não obstante as aparentes manifestações de uma cisão extrema, como as que se prefiguram na «autonomia» das antigas comunidades portuguesas, é algo que transcende todo o género de vicissitudes temporais e contingentes, como o território e a raça. (...)"

*E. Lourenço, O Labirinto da Saudade, Círculo de Leitores, 1988, p. 35.


Miguel Bruno Duarte
"Os  estrangeirados"
(texto originalmente publicado na revista  Leonardo)

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Não pode haver duas leis

"Não pode haver duas leis. E a do Amor é absoluta. Por isso creio ainda na vida futura." 

Leonardo Coimbra (Revista «A Águia, 1.4.1911).

Situação actual e destino da Filosofia Portuguesa

"(...) vale a pena meditar sobre o destino da Filosofia Portuguesa, acreditando que ela tem possibilidades de refazer num sentido amplamente positivo o ambiente de antipatia criado à sua volta e que me parece resultar a maior parte das vezes de equívocos sem realidade e razão de ser. (...) Em primeiro lugar, assinale-se que a verdadeira inclinação da Filosofia Portuguesa não é o nacionalismo nem mesmo o patriotismo; a sua vocação primeira e última é o universalismo.(...) Em segundo lugar, é preciso ter em mente que o movimento de Filosofia Portuguesa radica num homem, Sampaio Bruno (1857-1915), que foi um dos fundadores do Partido Republicano Português e um dos pensadores republicanos e anti-clericais que, na linha de Henriques Nogueira, mais se notabilizou no desenvolvimento de ideias inovadoras dum novo sistema político aberto de formas coercivas e que é de justiça (...) apelidar de libertário. Neste sentido nada mais de contrário ao espírito do movimento da Filosofia Portuguesa que certas afirmações de monarquismo que encontrei em alguns dos seus paladinos, sendo-me porém grandemente simpáticos, como Afonso Botelho, prestaram um mau serviço ao movimento pretendendo trazer para o seu seio ideias monárquicas e brigantinas. (...) Estou convencido que se as novas gerações souberem meditar com abertura de espírito e largueza de entendimento (...) o movimento de Filosofia Portuguesa poderá desfazer os principais equívocos em seu torno, encontrando um renovado fôlego de vida e conquistando um largo eco de simpatia na vida mental portuguesa, que ao menos faça justiça à sua grandeza de alma é à sua lucidez de entendimento. (...)"

António Cândido Franco

"Nótula sobre a situação actual e o destino da Filosofia Portuguesa" em No signo do 7: 150 anos de filosofia portuguesa: actas dos colóquios. Coord. ed. Guilhermina Ruivo, Maria José Albuquerque, Pedro Martins. Sesimbra: 2008.

Uma escola de filosofia


"A fecunda vitalidade da filosofia portuguesa manifesta-se, mais que na sua perduração, no desenvolvimento da tese inicial: de problema, que se tratava de resolver, passou a designação e constituição de uma escola de filosofia. Do que ainda não há, porém, adequada percepção é a de que esta «escola» se tornou muito mais do que a afirmação de uma exigência patriótica. A filosofia portuguesa passou a ser, já hoje é, a consciência da perpetuidade da filosofia clássica."

Orlando Vitorino

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O Reis Pereira não quer ser discípulo senão de si mesmo


"Em torno da poderosa personalidade de Leonardo Coimbra gravitavam eles [professores e alunos]; e nunca mais deixaram de o admirar, e à sua obra, e sempre ficaram gratos à memória do Mestre que neles soubera atear o fogo do Espírito. Tanto mais é isto notável, porquanto, não obstante certos traços comuns, vieram depois a afirmar personalidades tão individualizadas e diferentes como as de José Marinho, Álvaro Ribeiro, Delfim Santos, Casais Monteiro, Sant'Anna Dionísio, etc. Por sua vez criaram estes discípulos ou continuadores independentes, originais. Nem o prestígio de Leonardo nem a perspectiva da camaradagem com estes meus amigos me desviaram da opção por Coimbra. De resto, [...] a personalidade de Leonardo Coimbra nunca se me impôs tão poderosamente como se impunha aos meus amigos. Teria eu lucrado se tivesse ficado no Porto? Teria lucrado em ter ido para Coimbra? Em que medida se ressentiram, ou ressentiriam, a minha vida e a minha criação literária de uma ou outra opção?

[...] Uma coisa, porém, sei de certeza: Que nunca me arrependi de ter ido para Coimbra. Lá ganhei novos amigos. De lá saíu a presença. Lá passei pelo menos alguns dos anos mais felizes da minha vida. E creio que a minha criação literária lucrou com a ida para Coimbra, pois lá achei elementos para um fecundo ambiente literário que não acharia no Porto. [...]

Uma vez, José Marinho, com quem eu mantinha um estreito convívio que me foi muito fecundo, pois me ajudou a desenvolver-me sem me alterar, ofereceu-me esse belo livro injustamente mal conhecido que é A Alegria, a Dor e a Graça com a seguinte dedicatória: Ao Reis Pereira (eu ainda não era o José Régio) do Mestre para o futuro discípulo. E eu escrevi ao lado, a lápis, esta coisa ingénua e pretensiosa: O Reis Pereira não quer ser discípulo senão de si mesmo."
José Régio
Confissão dum Homem Religioso (1971)