sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

“[...] resta apenas uma saída: a de ficar só, completamente só em si mesmo e a de nessa solidão se manter firme, não cedendo um ponto. Evidentemente que foram movimentados todos os meios para obstruí-la: o trabalho obrigatório é, talvez, o mais poderoso, na medida, por exemplo, em que nos força a ocupar-nos naquilo pelo que não só não temos qualquer interesse, mas que está organizado de modo a moldar-nos interiormente num certo sentido que não é, certamente, o da liberdade. Além disso, estar só é quase insustentável, mas isso é também o sinal de que pode constituir um caminho."

António Telmo
 História Secreta de Portugal,
“Últimas reflexões de um profano”, p. 162.
Via as 101 cartas de Pedro Sinde

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

A Santana Dionísio


Princípio: publicação de cultura e política N.º 3

Crença

"Crer é atribuir realidade. (...) A crença absolutiza. Faz da atribuição subjectiva da realidade o absoluto de que dependem todos os seres reais. E quando os princípios acabam por ser degradados em objecto de crença - que é o que a política faz da verdade, da liberdade e da justiça - o domínio dos homens fica entregue à tirania. (...) A religião é o arcano da política como o proselitismo é o modelo da doutrina partidária."


Orlando Vitorino
A Idade do Corpo; Fenomenologia do Mal
Teoremas (1970)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Fenomenologia do Mal

"O mal não é um problema. (...) O mal é, pelo contrário, algo que se inclui em todo o objecto do pensamento. (...) O mal é um mistério. (...) O mal é, pois, incognoscível ao homem."

Orlando Vitorino
A Idade do Corpo; Fenomenologia do Mal
Teoremas (1970)

sábado, 17 de dezembro de 2011

O destino rasga e cose

"O meu envolvimento com a chamada «filosofia portuguesa» [essa corrente do pensamento que muito do academismo ainda hoje desconsidera e apouca] deu-se através do António Quadros, primeiro pela síntese que ele fez dos vários afluentes desse grande delta do sentir filosoficamente a essência saudosa do ser, depois pela cruzada própria que travou até ao fim pelo espírito de 57]. Simultaneamente chegou-me o Jesué Pinharanda Gomes, a sua obra própria e a intensa e humilde actividade divulgadora e formativa. A partir daqui fui-me espraiando, como quem dá braçadas contra a corrente do "racionalismo" contemporâneo e seus demónios materialistas. (...)" Continue a ler aqui.

José António Barreiros

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Trazer a lume

As Bruxas de Salém, Tradução de António Quadros

Um Eléctrico Chamado Desejo, tradução de António Quadros
Não constavam ainda da lista de livros traduzidos por António Quadros as peças de teatro: As Bruxas de Salém, de Arthur Miller, de 1957 e Um Eléctrico Chamado Desejo, de Tennessee Williams, de 1963.

Foram ambas levadas à cena pela Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro, mas nunca foram publicadas em livro, razão que, em parte, esclarece a omissão da sua bibliografia. 
--------
Traduções de António Quadros

1945 - Tradução (e prefácio) de Diário de Salavine de Georges Duhamel
1954 - Tradução de Tradição de André Maurois
1955 - Tradução de Tomás, o Impostor de Jean Cocteau
1957 - Tradução de As Bruxas de Salém de Arthur Miller
1960 - Tradução (e prefácio) de Os Justos de Albert Camus
1963 - Tradução de Um Eléctrico Chamado Desejo de Tennesse Wiliams
1964 - Tradução (e prefácio) de O Estrangeiro de Albert Camus
1965 - Tradução (e prefácio) de Cadernos II de Albert Camus

Camus


"Albert Camus impôs-se-me antes de mais nada como um dos poucos escritores sérios da nossa época. (...) Escritor sério porque, para ele, a literatura não era um jogo, um pretexto para afirmação pessoal, um meio de atingir a glória, uma actividade gratuita e sem responsabilidade no próprio destino do mundo ou ainda uma forma de enfeudamento às suspeitas forças de uma sociedade egolátrica ou desviada do seu mais fundo sentido criador."

António Quadros
do prefácio a Os Justos de Albert Camus
Lisboa, Livros do Brasil, 1960, p.129.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

A Saudade segundo António Quadros

"Segundo [António Quadros], a saudade será a expressão sentimental do mito, enquanto a angústia se lhe afigurava o sentimento correspondente à utopia. Na verdade, sendo um sentimento numinoso e de feição religiosa, um afloramento de todo o ser do homem, lembrança do que foi e desejo do que virá a ser, a saudade, implicando embora a perda, a ausência, o desgarramento ou o desterro, não exclui o desejo, a expectativa, pelo que é a mais pura e radical expressão ontológica, sentimental, volitiva e afectiva do essencial movimento do homem de que o discurso mítico é a narração simbólica. (...)"


António Braz Teixeira
"Introdução à Filosofia da Saudade"
em Deus, O  Mal e a Saudade, Fundação Lusíada (1993), p. 241.

Da Filosofia da Saudade

"Que a saudade seja um sentimento, é afirmação que, decerto, não levantará relevantes objecções. Que possa ser objecto ou tema de reflexão filosófica parece, igualmente, não suscitar dúvidas ou oposições consistentes. Que, no entanto, possa pretender-se constituir a saudade de algo de originário e radical, dotado de uma densidade ou de uma essencialidade ontológicas, a ponto de nela se poder fundar um sistema filosófico ou encontrar resposta às primeiras interrogações metafísicas, por envolver ou implicar, em si, a mais séria e decisiva problemática não só antropológica como também cosmológica e teológica - desde o problema do mal e da liberdade, até ao da realidade do tempo e ao do mesmo e do outro e do uno e do múltiplo - é já tese que a muitos se apresentará desprovida de sentido ou de razão filosófica, apesar da importância que o pensamento contemporâneo atribuiu à reflexão sobre sentimentos como a angústia, o desespero, a esperança ou o sentimento trágico, conferindo-lhes uma dimensão ontológica e deles partindo para uma demanda cujo destino é uma ontologia ou uma metafísica fundamental. (...)"

António Braz Teixeira
"Introdução à Filosofia da Saudade"
em Deus, O  Mal e a Saudade, Fundação Lusíada (1993), p. 117.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Tomaz, o Impostor. Tradução de António Quadros

"A guerra principiou na maior desordem. Esta desordem nunca cessou, do princípio ao fim. Uma guerra breve teria podido amadurecer e, por assim dizer, cair da árvore, enquanto que uma guerra prolongada por estranhos interesses, radicada fortemente ao tronco, não parava de oferecer aperfeiçoamentos que eram outros tantos recomeços e outras tantas correntes de forças. (...) Paris não era ainda a guerra. Mas a guerra aproximava-se e esta natureza intrépida escutava o canhão como por detrás de uma porta que os porteiros não deixam abrir. Na sede da guerra que a assaltava a  princesa era tão saudável quanto possível. Não a atraíam o sangue, a febre, a vertigem das corridas de touros. Pensava nestas coisas com repugnância. Lamentava os feridos. Não; o que ela era, era uma apaixonada das modas, das ligeiras como das profundas. A moda, agora, era o perigo; e a princesa morria de calma."

Jean Cocteau
Tomaz o Impostor, Edição Livros do Brasill, s.d. (1955)
Tradução de António Quadros

Angústia, drama e movimento

"(…) a angústia é um sentimento peculiar do «drama como movimento que se ignora», ou do falso movimento, que se agita tanto mais quanto suspeita não passar de uma aparência ou uma máscara do verdadeiro movimento. Kierkegaard, Sartre, Heidegger prestaram especial atenção a este sentimento difuso, indeterminado, quase inqualificado, que o homem encontraria dentro de si como inerente à sua mesma condição vivente. Mas terá a angústia, tal como a descreve a fenomenologia existencialista, isto é, como um sentimento incausado, porque consubstancial ao ser humano, terá a angústia realmente um valor universal, transcendente às filosofias, às civilizações e às culturas? A sua presença quase exclusiva nos países da Europa Central, particularmente no triângulo constituído pelos países nórdicos, pela França e pela Alemanha, não indicará ao invés que se trata de um sentimento decorrente naturalmente do teor de determinadas perspectivas filosóficas? E estas perspectivas filosóficas, nascidas na era da industria, da técnica e da sociologia, não resultarão afinal da queda do movimento, detido na problemática do ser em situação estática?
Efectivamente, a dialéctica do ser e do nada, a oposição entre o ser e o não ser, geradores dos sentimentos de desespero, de desgarramento e, principalmente, de angústia, tal como surge descrita em Heidegger ou em Sartre, seriam inconcebíveis numa filosofia dinâmica, porque, se o nada representa a coisificação de um estado-limite, o não-ser é um artificio gramatical que perde realidade quando transposto para termos vitais. Assim, as ucronias apenas subsistem com todo o seu poder de atracção enquanto são garantidas por sistemas em queda para o estatismo. De igual modo, os conceitos de progresso circulam dentro do mesmo tipo de sistema, propondo caminhos aparentemente válidos para a ucronia ou para a utopia."

António Quadros
O Movimento do Homem
Sociedade de Expansão Cultural (1963)

domingo, 11 de dezembro de 2011

Dois mundos

"Será possível (...) que haja dois mundos geminados, onde existimos simultaneamente em duas presenças separadas?".

António Telmo

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Uma visita a Bergson


"Hoje, passados três anos, é-me difícil transmitir ao leitor a emoção com que me aproximei de Bergson em Paris (Outubro de 1935) e o encanto sugestivo de pensamento com que abandonei o maior filósofo do nosso mundo latino actual. (...) Bergson, o corpo de Bergson, é uma sombra esbranquecida da figura delicada que todos nós conhecemos pela fotografia. A sua casa do Boulevard Beauséjour mostra imediatamente uma simplicidade distinta que prepara o acolhimento generosamente gentil com que o filósofo nos recebe. Um belo retrato a óleo de Bergson numa expressão meditativa de recolhimento é a apresentação quase-imediata do homem que todos nós conhecemos sem nunca termos visto. (...) Pouco depois entrávamos na sala de trabalho de Henri Bergson. Sentado, as pernas cobertas, os braços assentes e encolhidos, só a sua cabeça - a sua bela cabeça - era bem visível e expressiva. As primeiras palavras foram de agradecimento mútuo - as suas por delicadeza e as minhas por obrigação bem sentida. (...)"

Delfim Santos
"Uma Visita a Henri Bergson",
Ocidente vol.2, n.º34, Fev. (1941) pp.193-195.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O outro da filosofia

"(...) Já na idade moderna e contemporânea, quantas vezes não temos assistido ao anúncio e diagnóstico de inúmeras crises da filosofia, correlativas e derivadas dos dispersivos e fragmentantes cortes epistémicos que novas áreas disciplinares têm aberto, mas também a originais contaminações feitas de sínteses e encontros com o que seja o outro da filosofia: como pensar a filosofia clássica alemã sem o encontro com a história e toda a filosofia contemporânea sem o decisivo confronto com a economia política, com a psicanálise, com a arte e a literatura, com o cinema, com as ciências da vida e as neurociências, com a tecnologia, com o enorme acervo que a etnografia de todos os povos tem revelado, com os patrimónios sapienciais, culturais e literários dos povos não europeus cuja imprevista grandeza e diversidade começamos a vislumbrar?"

Rui Lopo
"Significado e Valor da Filosofia na Obra de António Telmo - Em Diálogo com José Marinho"
em Actas do Colóquio «A Obra e o Pensamento de António Telmo» (Cadernos de Filosofia Extravagante, 2011), p. 73.

Filosofia e Teologia


"O problema da relação da filosofia com a teologia originariamente implica o problema da relação do pensamento com a fé. Nenhuma dessas formas de relação ao Ser e à Verdade pode considerar-se fundada, subsistente e consequente, pela exclusão da outra. Ambas as formas da relação têm no ser originário sua unicidade. (...) Fé e pensamento existem para a interpretação e a harmonia. Tão fácil dizê-lo, como difícil alcançá-lo! Pois que o mais alto e melhor escapa, a uniteralidade é a mais constante e fácil sedução dos homens, Diremos então que a tese que considera a fé mais divina que o pensamento é errónea, pois o pensamento tem relação mediata, mas não menos segura à verdade divina. E assim como a fé tende a considerar-se suficiente e a  anular o pensamento, ou a submetê-lo, assim também o pensamento, pressuroso de autonomia, tende a excluir ou a minorar a fé. Logram ambos tão-somente minorar-se, do mesmo passo que, minorando o suposto seu contrário, deturpam a relação excelente em mais baixo planos da vida espiritual. Tal relação, como todas as relações de estrutura da vida e do espírito, pode incessantemente minorar-se, jamais anular-se."

José Marinho
Estudos Sobre o Pensamento Português Contemporâneo
(Biblioteca Nacional, 1981) 

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Colóquio José Marinho: Do Espírito ao Insubstancial Substante

Dia 20 de Dezembro na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Com a participação de Manuel Cândido Pimentel, Paulo Borges, Rui Lopo, António Braz Teixeira, Pinharanda Gomes, entre outros. Mais informações aqui.

Burocracia, vacuidade e historicismo

"Difícil se torna exprimir hoje, passados já dez, doze anos, o que para mim representou, como iniciação cultural, a descoberta dos movimentos convergentes da fenomenologia e do existencialismo. Saía por essa altura da Faculdade de Letras de Lisboa, então instalada no velho e poeirento edifício da Academia de Ciências, e lia com avidez as obras de Sartre. Na Faculdade nada me propiciara em tal direcção, a não ser a ausência de qualquer direcção. Posso dizer que, se alguma mola propulsora encontrei no então Curso de Ciências Histórico-Filosóficas, foi a absoluta consciência do vazio espiritual que a inconsciência desse vazio nos mestres amargamente me sugeriu. No plano moral, é certo que a humilhação das lições dogmáticas, dos exames mnemónicos e da total incapacidade para encontrar, tocar, abrir as virtualidades originais de cada aluno me deu grandes reservas de força anímica para começar enfim a minha preparação intelectual, uma vez obtido, depois de vários vexames, o almejado diploma de curso superior - um documento burocrático com fins burocráticos e nada mais. Fui sem dúvida dos mais obscuros alunos da faculdade e, após incidentes como a pública manifestação de desconfiança por parte do presidente de júri de licenciatura, ilustre professor catedrático, quanto a ter sido eu realmente o autor da tese apresentada, muito admirado fiquei quando recebi a notícia da minha absolvição, isto é, da minha aprovação, embora com modesta nota. Por que me dera o ensino filosófico da nossa Universidade tão abismal sensação de vacuidade, de inutilidade? (...) O que repelira desde o início, não só o meu espírito como até a minha sensibilidade, fora a ausência de qualquer dinamismo no ensino universitário com o qual fui obrigado a pactuar, ausência que hoje atribuo ao excesso de historicismo de que padece não só a educação como a cultura portuguesa. (...) No fim do curso, na famigerada disciplina semestral de História da Filosofia em Portugal - já então não compreendia muito bem por que, se se ensinava Literatura Portuguesa, se não podia ensinar Filosofia Portuguesa -, como o professore propusesse aos alunos a elaboração de monografias históricas sobre pensadores nacionais, um colega redigiu um estudo sobre o antipositivista Domingos Tarroso, autor, já no século passado, de um tratado intitulado «Filosofia da Existência». Ousara ele considerar Tarroso um percursor do existencialismo e bem assim valorizar esta corrente filosófica. Encontrei este colega há meses e lembrámos com amargura os momentos de humilhação por que ele passou ante a total incompreensão e as invectivas irónicas do professor! Também a aridez historicista desta cadeira, em que praticamente se vedava aos portugueses o direito de pensarem por si mesmos, me levou mais tarde a averiguar, mormente depois de ter encontrado Álvaro Ribeiro, que ao tema se devotara, a possível autonomia e originalidade de um pensamento português, de uma filosofia portuguesa. 
É sem dúvida curioso como, desde os primeiros anos universitários, no meu espírito se uniram a tese existencialista e a tese da filosofia portuguesa - um ramo, aliás, da tese das filosofias nacionais. Ambas eram objecto de uma feroz oposição catedrática. (...) Escolha, se havia, era extra-universitária. " 

António Quadros
"A Cultura Portuguesa perante o Existencialismo"
em Sartre e o Existencialismo de Ismael Quiles
(Arcádia, 1959)
-----
Ismael Quiles Sanchez Pedralba, (1906 - 1993) foi um teólogo e filósofo espanhol fortemente influenciado por Martin Heidegger, Gabriel Marcel e Karl Jaspers. Escreveu, entre outras obras, La persona humana (1942), Aristóteles: vida, escritos, doctrina (1944), Filosofía del cristianismo (1944), Heidegger y el existencialismo de la angustia (1948), Sartre y el existencialismo del absurdo (1952), Más allá del existencialismo: filosofía in-sistencial (1958), Metafísica budista (1967), Filosofía y mística: yoga (1967), Filosofía y religión (1985).

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Apetência de regresso


"No português, talvez mais do que em qualquer outro povo europeu, a ânsia desmedida de absoluto (...) a apetência de regresso a uma perdida ou sonhada harmonia de perfeição - de que emerge o sentimento da saudade - choca-se, dramaticamente, com a realidade brutal e agressiva do mal nos homens e no mundo. A possibilidade de existência de um Deus omnipotente, perfeito e supremo Bem e a realidade insofismável do mal, eis o que, desde o plano do mais desatento viver quotidiano até ao da mais séria e responsável especulação, tem sido para ele causa de funda inquietação e perplexidade. (...)"

António Braz Teixeira
"O Mal na Filosofia Portuguesa dos Séculos XIX e XX"
em Deus, O  Mal e a Saudade, Fundação Lusíada (1993), pp 62-78.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Poder nativo

"O cadáver da Pátria tinha ainda uma pequena parte viva, onde se refugiara a sua alma, a que se despe de toda a nódoa carnal e se concentra na sua região mais elevada. A alma é um espaço montanhoso. Da sua maior altitude, quase se descobre Deus...Assim em Frei Agostinho da Cruz, a alma pátria atinge aquele alto píncaro, de onde se avistam as estrelas, olhando para baixo... A Elegia saudosa diviniza-se por espontânea iluminação da sua virtude originária. O poder nativo de conceber a Divindade, encontra, em Frei Agostinho, a hora do máximo esforço vitorioso. (...) Atingindo a nossa Poesia a maior altura em Camões e Frei Agostinho, é natural a sua decadência suceder ao máximo esplendor."

Teixeira de Pascoaes
Os Poetas Lusíadas
(1919)

Uma ideia de totalidade

"Vou contar como foi. Tudo começou com a constatação de um facto precioso e, até então, desatendido. Fê-la António Quadros, na sua obra capital, há cerca de 20 anos. Seguiu-se, recentemente, a constatação de um outro facto. Fi-la eu, ao ler a parte biográfica da notável introdução à obra de Álvaro Ribeiro que Joaquim Domingues, devotado estudioso do filósofo da razão animada, nos oferece em Filosofia Portuguesa para a Educação Nacional. Até hoje, ao que julgo saber, este novo facto terá passado despercebido, tal como o anterior até António Quadros o fazer notar pela primeira vez. Se é, ou não, precioso, dirá depois o leitor, se acaso persistir na leitura deste livro até ao final. (...) O grande ciclo de manifestação e desenvolvimento da filosofia portuguesa dura 720 anos. Sendo este número o décuplo de 72, pode o superlativo correspondente querer enfatizar o grau de perfeição que é simbolicamente referido ao número 72. (...) À afirmação da plenitude cíclica daquele período maior também não será indiferente a lição de Santo Agostinho, para quem 'o decépulo septenário corresponde à totalidade de uma evolução, um ciclo evolutivo completamente concluído'."

Pedro Martins
O Céu e o Quadrante,  desocultação de Álvaro Ribeiro
(2008)

Concentração tácita

"Normalmente, o pensamento ávido de perenidade alimenta-se da penumbra e exprime-se a meia voz. Mais do que isso, o pensar obsessivo e intenso, iluminante e translúcido, por vezes, desiste da própria penumbra e da própria transmissão confidente, e opta por uma forma de esperança desesperada e transcendente: a da concentração tácita."

Sant'Anna Dionísio
Leonardo Coimbra - O Filósofo e o Tribuno
(1985)

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Coração de pedra


"O próprio Pombal é o desejado? Não. Fez-se temer, não se fez amar. Cabeça de bronze, coração de pedra. Moralmente, ignóbil. Rancoroso, ferino, alheio à graça, indiferente à dor. Inteligência vigorosa, material e mecânica, sem voo e sem asas. Um brutamontes raciocinando claro. Falta-lhe o génio, o dom de sentir, nobreza heróica, vida profunda, humanidade, em suma. Máquina apenas. Não criou, produziu. A criação vem do amor, a génese é divina. Criar é amar. Por isso a obra lhe foi a terra. Pulverizou-se. Só dura o que vive."

Guerra Junqueiro
Pátria (1915)

Tribunal da fé

"Quando Pombal arcou com o jesuitismo, não se sentiu com forças para, de vez e a valer, bater-se contra a inquisição; teve de contemporizar com os preceitos populares e houve de lisonjear as vis paixões do intolerantismo fanático da massa, censurando, pois os jesuítas, por se atreverem como o Santo Ofício. (...) De maneira que o tribunal da fé, o Santo Ofício da Inquisição deixa de ser uma instituição popular e simpática para se transformar numa instituição impopular e antipática, desde quando? Desde quando, deixando de ser uma lei de excepção, se transmuda numa lei geral. Isto é, desde que Pombal faz adoptar o que decidiria, do extermínio da distinção entre cristãos-velhos e cristãos-novos."

Sampaio Bruno
O Encoberto (1904)

História da filosofia

"Muitas obras especulativas existem que não figuram na história da filosofia apenas porque um mau critério didáctico as desvaloriza, repelindo para a história da literatura o que não é de rígida composição teórica ou prática.
Sabendo, porém, que uma classificação de géneros literários, porque o critério classificativo depende da doutrina adoptada quanto à relação da palavra com a imagem, o conceito e a ideia, veremos que será perfeitamente lícito estudar a história da filosofia em paralelo com a história da literatura."

Álvaro Ribeiro
A  Arte de Filosofar (1995) pp.130 e ss.

25 de Novembro de 1989


"De muitas formas podemos aproximar-nos do cerne da obra do autor da "Mensagem". Mas talvez melhor compreendamos humanamente o que foi a sua procura ao mesmo tempo o seu drama, se entendermos o desgarrador sentimento de orfandade que o afligiu e aguilhoou ao longo da sua vida. Separado brutalmente do pai aos cinco anos de idade, arrancado ao seu meio e às suas raízes, Fernando Pessoa fez efectivamente da poesia que nos deixou, uma apaixonada busca ou demanda de identidade, da sua própria como indivíduo, e da identidade da sua Pátria, sonhada de longe, na distância."

António Quadros
(Novembro de 1989)

23 de Maio de 1958


Conferência de António Quadros sobre o seu pai António Ferro dia 23 de Maio de 1958, no Museu Nacional de Soares dos Reis no Porto.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Plena consciência

"(..) a filosofia portuguesa não tem vocação para ser apanágio de um grupo, ainda que o tenha sido quando as circunstâncias o impuseram; não tem vocação para ser um reduto académico, ainda que aí tenha uma importante função a desempenhar. A filosofia portuguesa importa que seja a plena consciência da realidade humana, natural e divina, capaz de iluminar a vida, o pensamento e a acção dos portugueses, numa perspectiva de universalismo que lhes é constitucional."





Joaquim Domingues, «Às novas gerações da filosofia portuguesa» in No signo do 7: 150 anos de filosofia portuguesa: actas dos colóquios. Coord. ed. Guilhermina Ruivo, Maria José Albuquerque, Pedro Martins.  Sesimbra: 2008, pp.115-121.
--------------------------------------------------------------------------------
Joaquim Carneiro de Barros Domingues, mais conhecido por Joaquim Domingues, nasceu na cidade do Porto, no dia 9 de Abril de 1946. É professor, ensaísta e um dos principais investigadores da obra de Álvaro Ribeiro e Sampaio Bruno. Entre 2000 e 2005 editou a revista Teoremas de Filosofia e é, desde 2011, membro do Conselho Consultivo da Fundação António Quadros.

As Duas Vias

"Experimentamos, agora, maiores dificuldades, devido ao facto de Álvaro [Ribeiro] e [José] Marinho nos terem surgido, desde o início, como vias complementares. Admitimos, mas com sinceridade, tal dificuldade, por sabermos como é difícil penetrar no âmago ou no secreto, da crença, que, sem discurso claro, nem absolutamente clarificável, move e caracteriza o filósofo. (...) O tempo há-de confirmar, ou não, a aproximação profunda entre os dois filósofos até agora mais comparados pela diferença dos seus perfis. É, evidentemente, clara a distinção entre os modos de filosofar de um e outro. (...) Conforme já afirmámos, como verdade da antropologia, todo o homem surge como um ponto de novidade insubstituível no qual o interrogar assume carácter necessário para todo o sentido de assumir o universo, enfim, como um virtual autor de novas e decisivas revelações.
Tanto Álvaro como Marinho recusam a existência de uma lógica pura decorrente de definir a lógica como arte de pensar. Não é a arte de pensar mas a arte de exprimir pelo logos o pensamento como afirmar Álvaro Ribeiro e não pode afirmar-se pura pois, se assim fosse, constituir-se-ia como "ciência acabada das formas, relações e conexões do pensamento finito" conforme afirma José Marinho. (...)"

João Luís Ferreira
As Duas Vias (1994)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Adoração sem propósito

"Nesta adoração há uma atmosfera de presépio, é bucólica, humilde, mas é também imensa como um campo de trigo, lembra os ritos da terra, a mulher «anima mundi», sempre virgem porque jamais conquistada ou vencida: «Tu és o meu eterno feminino, a luminosa metade da concha doirada onde dorme a eterna semente dos mundos, a terra lavradinha e pronta onde o beijo do sol de Deus fez crescer os trigos, a rocha profunda onde a chuva dos céus se acumula, como na concha das tuas mãos, para as sedes do estio». 
Ao longo desta adoração vai-se evoluindo gradualmente da terra para o céu, a mulher amada vai sendo gradualmente descarnada até se tornar um incorpóreo símbolo. De telúrico o amor passa a estática contemplação, o olhar vai gradualmente subindo ou mergulhando. Em certo momento a adoração é um diálogo, como se a alma respondesse a si própria na ânsia de se sentir ouvida, mas logo abandona esse instante de solicitação de escuta para seguir na certeza da adoração sem propósito: o amor ultrapassa o desejo e a meta não é a posse mas a alegria. A alegria do encontro, do encontro das almas, do encontro da alma consigo própria: a alegria originária. (...)"

(Excerto do prefácio) em Leonardo Coimbra
Adoração, Cânticos de Amor (Delfos, s/d)

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Visita da Rainha de Inglaterra a Portugal em 1957



Em 1957 António Quadros é condecorado pela Rainha Isabel II, de visita a Lisboa, recebendo das mãos da monarca a Ordem Britânica da Rainha Vitória. Isabel II foi recebida no Cais das Colunas, no Terreiro do Paço. Mais sobre esta visita aqui.


Jorge de Sena, Leonardo Coimbra e a Renascença Portuguesa


"(...) o gérmen da atitude política irá modelar em Jorge de Sena um comportamento isento, disputado para um partidarismo que tanto proveio de monárquicos como de comunistas, mas que inabalavelmente preservou sem concessões à direita ou à esquerda, na consciência do homem livre e insubmisso. (...) Em contrapartida, a crítica de Jorge de Sena surge-nos como que a fazer coro ou, no mínimo, objectivamente infundamentada, quando procura dirimir um movimento portuense tão importante como o da Renascença Portuguesa, em especial, quando sem fundamento intenta menosprezar personalidades tão meritórias e vincadas como a de Leonardo Coimbra, Que terá levado este homem inteligente a pretender assacar o demérito ao filósofo do Criacionismo, ou a não tolerar, no seu tempo, ideias de um Álvaro Ribeiro? Estaria Sena tão bem informado sobre o valor intrínseco de cada um destes homens (assim como do alcance e significado da Renascença Portuguesa) ou, pelo contrário, agiria apenas de acordo com o que uma certa tendência da intelectualidade portuguesa dos seus - e ainda nossos - dias, pretendia falsear? Aliás, não concedeu ele uma atenção particular na valorização da poesia e de um poeta renascentista como Teixeira de Pascoaes? Fiquemos, fundamentalmente, pelos méritos."

Paulo Samuel
Jorge de Sena e a fidelidade ao Porto, pp. 12-13
(Porto, 1989)

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Crítica e Verdade

"O filósofo é sempre uma pedra de escândalo, porque desafia e põe em perigo constantemente o comodismo intelectual do crítico."

António Quadros

Invenção e Verdade na Literatura Portuguesa

"A invenção poética está em relação directa com a verdade. A invenção corresponde a um aumento de ser que é incursão no reino luminoso do verdadeiro. Inventar é conquistar novos terrenos à verdade e trazê-los para o mundo dos homens, tal como em certas regiões se vão conquistando terrenos ao mar, acrescentando assim ao exíguo espaço inicial possibilidades dantes insuspeitadas. (...) A realidade não se reflecte num espelho, não se traduz, não se representa sequer, na mais exigente criação artística, descobre-se e, descobrindo-se, adiciona-se.(...)"

António Quadros
"Invenção e Verdade na Literatura Portuguesa"
em Crítica e Verdade (1964) pp. 267-275.

António Quadros sobre o «Barranco de Cegos» de Alves Redol


"Sabe crescer quem pode evoluir. E pode evoluir quem é capaz de renovar métdosos, processos e temas, de modo a superar-se em amplidão de perspectivas e enriquecimento de caminhos. É o caso de Alves Redol, o vigoroso romancista de livros muito discutidos que fizeram época, como «Gaibéus», «Avieiros», «Fanga» ou «Porto Manso». (...) Porventura a melhor qualidade de Barranco de Cegos, (...) é um quid vago, abstracto, irrepreensível em termos de rigor, mas presente em cada situação, em cada acontecimento, em cada diálogo deste fresco que nos mostra a lezíria e o seus fantasmas, a lezíria de há um século, rediviva na memória mística, emocional e colectiva do romancista. (...) Redol, antes de ser um romancista, e um romancista de tese, é um homem (...) envolvido numa cadeia ou num bordado de eventos, um homem incluído, quer queira quer não, numa tonalidade psicológica que dá o movimento e ritmo a um bailado de campinos, proprietários, maiorais, toiros, cavalos, mulheres fortes e dramáticas, raparigas românticas e perturbadas por estranhas contradições. O que impressionada, neste romance, não é o antagonismo ou a dialéctica de personagens, de tipos ou de classes, mas ao contrário, uma identificação, que a terra mais propicia e estimula. (...) Se o Cavalo Espantado nos revela um romancista voltado à análise psicológica de uma situação dada, Barranco de Cegos apresenta-nos o amadurecimento de quem já poder para manejar os mais diversos tipos humanos, na sua evolução no tempo, no seu diálogo e na sua dialéctica. (...) Queremos dizer que Alves Redol acaba por superar Alves Redol.

António Quadros
"Neo-Realismo em evolução, «o Cavalo Espantado» e «Barranco de Cegos», de Alves Redol
em Crítica e Verdade (1964) pp. 88-95.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O 3º número dos Cadernos



Autores: António Telmo, Pedro Martins, Renato Epifânio, Américo Rodrigues, Helena Estriga, António Braz Teixeira, Joaquim Domingues, Abel de Lacerda Botelho, Roque N. Brás de Oliveira, M. N. Vieira, Luís Paixão, António Carlos Carvalho, Cynthia Guimarães Taveira, Rui Lopo, António Quadros Ferro, Carlos Aurélio, António Cândido Franco, Rodrigo Sobral Cunha, Carlos Vargas, Manuel Ferreira Patrício, Pedro Sinde, Paulo Santos, Pedro Paquim Ribeiro, Maurícia Teles da Silva, J. Pinharanda Gomes, António Quadros, Avelino de Sousa, Elísio Gala, José Paulo Ribeiro Albuquerque, Helder Cortes, Eduardo Aroso, Isabel Xavier, Jesus Carlos, Álvaro Ribeiro, José Marinho, Agostinho da Silva, Dalila Pereira da Costa.