sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Sant'Anna Dionísio e a "Quinta Amarela" no Porto

Sant'Anna Dionísio
- desenho de Carlos Carneiro -

"Após uma brevíssima passagem por Coimbra (...) onde terá sido aluno de Carolina Michaelis de Vasconcelos e para a qual aí preparou um trabalho escolar que lhe revelaria, durante as pesquisas, uma espantoso plágio de um professor universitário, Sant'Anna Dionísio transfere-se para a primeira e, a seu modo, única Faculdade de Letras do Porto, na qual concluirá a sua licenciatura em Filologia Germânica. (...) A Faculdade funcionava então na chamada «Quinta Amarela», que Sant'Anna Dionísio bem conheceu, pois matricular-se-á num novo curso, desta feita em Filosofia, para cujo resultado oficial apresentará, no fim dos anos necessários, uma tese sobre «Bergson», valorizada em 29 de Outubro de 1926, com 16 valores. (...) Da «Quinta Amarela» (...) deixou-nos ele viva descrição, de cores e odores, comentando que este local representava um renovado Jardim da Amizade, de grega reminiscência, onde «em horas intemporais» livremente se filosofava. Além do edifício, «...sossegada moradia urbana, rodeada de muros e arvoredo, ocupada até 1910 por uma dúzia de freiras de não sei que Ordem e que uma década depois (...) se converteria em provisória sede da tão promissora como efémera Faculdade de Letras da Universidade do Porto» havia sobretudo o envolvimento natural, de apelo panteísta, que ele assim retrata: «(...) havia velhas japoneiras, que pela Páscoa, se cobriam de camélias rubras e brancas; tufos de mirto e loureiro; maciços de alecrim; caneleiras de flores rubicundas e essência adocicada; (...) dois ou três velhos castanheiros ao fundo, no extremo da antiga cerca e, pelo meio, conduzindo a diversos recantos, pacatas veredas flanqueadas de buxo que, com o tempo, se converteriam em meia dúzia de casamentos felizes e dois ou três dramas camilianos.». (...)"

Paulo Samuel
em O Tripeiro, 1991.

Quantos, entre nós, neste século

"Quantos entre nós, neste século, representaram o espírito português, parecem hoje ter perdido a sua aposta na regeneração nacional. Ao contrário, a degenerescência é o nosso lote. Teremos escrito a nossa mensagem na areia, ou não era ainda a nossa hora? (...) Desapareceremos para sempre do mapa, como dizem os augures da desgraça, ou acabará enfim por vencer a razão portuguesa, a filosofia portuguesa, o pensamento de Portugal, expresso afinal pelos melhores, de entre os portugueses deste século?"

António Quadros
20 de Julho de 1985.
Testemunho remetido a Manuel Gama, em
«Pensar a Europa a Partir do Movimento da Filosofia Portuguesa» Op. cit., p. 275

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Aki Kaurismäki

Aki Kaurismäki

Ípsilon: Há coisas semelhantes entre portugueses e finlandeses?

Aki Kaurismäki: "Sim. Nós temos a melancolia, vocês têm a saudade. A melancolia finlandesa é quase a saudade portuguesa, mas não totalmente. Só os portugueses podem saber o que é. Ontem estive a tomar café. Dois homens estavam em pé, a olhar para o mar. Num deles consegui ver nos olhos a saudade. Durante meia hora. Depois voltaram ao trabalho. Acho que era saudade. O máximo que consegui chegar dela. Conheciam-se, claro. Não se falaram praticamente. Dois metros de distância entre eles."

Aki Kaurismäki
em entrevista ao jornal Público (Ípsilon) de 18-02-2012

«O Pesadelo», conto de António Quadros

Projecto de Catarina Sarmento, Fevereiro de 2012

Carta de António Quadros a Agostinho da Silva

"Meu querido Amigo:

(...) Ando a ver neste momento se consigo acertar o ritmo para a minha existência quotidiana e com aquela ordem de prioridades que seja por um lado a mais consentânea com a minha personalidade (...) e por outro lado com o que é mais urgente eu tentar aqui e agora, a partir da perspectiva em que me vejo colocado. (...) Tenho andado por aí a bater contra as paredes. E o meu método tem sido nadar tanto quanto possível na corrente (...) não para me deixar levar por ela, mas para tentar desviá-la de dentro. Há os que se lhe opõem frontalmente; há os que se isolam, na prossecução de uma obra profunda e que por si própria se imponha, sem cedências de diálogo e sem os compromissos de acção.
Cada um é como é. Eu sou do signo Caranguejo. Outra metáfora seria: ladeio, em vez de ir directamente e claramente ao fim; ladeio, parece que recuo, dou uma volta, faço figura de ambíguo, ou de opaco, ou de desajeitado, ou de pouco firme. (...) Contudo sou persistente. (...) Sei que o meu caminho não é certamente o melhor. É o meu, unicamente porque é o que posso tomar. (...)
Que fazer, pois?
Pois, evidentemente continuar.
(...)"

António Quadros, 8 de Março de 1976
em resposta a uma carta de Agostinho da Silva de 9 de Fevereiro do mesmo ano.
cf. António Quadros, A Arte de Continuar Português (1978) pp 191-203.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Mediunidade


"O autor deste escrito [Sant'anna Dionísio] testemunhou, há cinco anos ainda, na residência de Leonardo Coimbra, uma sessão impressionante com um medium de visão, (...) dirigido por Leonardo Coimbra mesmo, da qual se lavrou uma acta, que deve existir no seu espólio."

Sant'anna Dionísio
"Leonardo Coimbra, contribuição para  o conhecimento
da sua personalidade e seus problemas", (Porto, 1936) p.48, Nota de rodapé.

Ao longo da nave

"Irmã, tu crês na verdade em Deus, não é tudo um fingimento, não é tudo um genial embuste, não é tudo um pomposo espectáculo, inventado para responder ao medo? (...)"

António Quadros
Histórias do Tempo de Deus
(1965)

Privilégio do poder e privilégio do sofrimento

"O coração da humanidade apodrece quando uns reclamam o privilégio do poder e outros o do sofrimento. (...) Em face do sentimento, do pensamento e da morte, não há privilégios."

António Quadros
Histórias do Tempo de Deus
(1965)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Pasternak-Jivago

Boris Pasternak
"Por certo o Doutor Jivago pode ser considerado, sob um ângulo social e mesmo psicológico, como a crónica da guerra civil russa, articulando, de forma que lembra irresistivelmente o Tolstoi de Guerra e Paz, a sequência exterior dos eventos, os remoinhos humanos por ele agitados e os reflexos de todo este turbilhão revolucionário numa alma sensível e inteligente como é a de Pasternak-Jivago, testemunha e personagem cuja confrontação difícil com a realidade envolvente constitui a própria trama do romance. Considero [Boris] Pasternak o melhor prosador russo deste século, depois de Tolstoi. É um grande poeta e um grande romancista, da família espiritual de Pushkine, que olha com melancolia em sua volta e assiste ao desmoronar da cultura criadora do seu país, ao combate à personalidade e à liberdade individual. O seu Doutor Jivago é ele próprio, intelectual reduzido ao silêncio, mas pode ser também um retrato do próprio espírito russo, sujeito ao colete de forças do sistematismo germanizante.
Pasternak pouco beneficiou do período de liberalização da época de Khrouschev, que Ilya Ehrenburg, escritor muito ocidentalizado, mas sem o seu génio, simbolizou no seu romance, aliás medíocre, O Degelo.

António Quadros
Ficção e Espírito
(1971)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Letra Livre edita «O Homem Unidimensional» de Herbert Marcuse

O Homem Unidimensional, Herbert Marcuse
trad. de Miguel Serras Pereira
Letra Livre, 2012
"Na opinião de Marcuse -  e trata-se de um ponto de vista notável, que convém meditar e medir em todas as suas implicações - «a grande arte entendeu-se sempre bem com a realidade horrorosa», conservando, apesar das injustiças ou males ambientes, «um conteúdo transcendente». Com os avanços do industrialismo, da tecnologia e do socialismo, na medida em que a «realidade horrorosa» se vai desfazendo e em que o «conteúdo transcendente» desaparece (hipóteses discutíveis, é claro), a arte e a literatura só apresentam duas saídas possíveis, uma vez que fique ultrapassada a problemática social urgente e que a «fuga» para o transcendente já não se propicie (sublinho que não aceito a tese marxista de que a visão do transcendente é alienação e desejo inconsciente de fuga das realidades...). Dessas duas saídas a primeira é, na «sociedade repressiva» ou na «sociedade de consumo», a porta condenada de uma orla decorativa, «forma de rebelião contra a arte ilusionista da europa». No entanto, se «na consciência dos artistas de vanguarda, a arte se converte numa orla decorativa mais ou menos bonita, confortável, num mundo de terror (...) tal função de luxo da arte deve ser destroçada», em nome da segunda saída, isto é, a função de protesto, que Marcuse considera predominante. (...)
No pensamento de Marcuse, deve findar o reinado do livro e da biblioteca, do quadro e do museu, devem findar a arte plástica, como a arte literária. (...) O ideal de Marcuse, ideal de longínquas ressonâncias míticas e utópicas, é a «sociedade como obra de arte.» (...) Chegado a este ponto, completa-se porventura o círculo, de forma que terá escapado à consciência do próprio Marcuse. É que, se o seu erro inicial (...) foi o de conceber uma sociedade unicamente horizontal, um jogo de forças humanas em tensão dialéctica, em choque, em apetência de repressividade ou de libertação, esquecendo (...) a profundidade e a altura do espírito, que mais tarde ou mais cedo, mesmo no seio do turbilhão social ou da pressão da massa, se nos reencontra como questão pessoal a sós consigo própria, obrigando-nos a responder como indivíduos e logo como pessoas aos desafios metafísicos do ser e do nada, da vida e da morte. (...) Marcuse repõe, talvez sem dar por isso, muito embora em termos aparentemente só humanistas, o velho ideal religioso e agustiniano da «cidade de Deus», reergue das cinzas uma nova sacralização, recusa um Deus que fosse manifestável iconograficamente (Marcuse é decididamente um iconoclasta), mas para o ressuscitar como ordem estética."

António Quadros
Ficção e Espírito 
(1971) pp.239, 240 e ss. 

Saudade palpável

Da esquerda para a direita Galatea Kazantzakis, Ellie Alexiou, Markos Avgeris, Kostas Varnalis, Nikos Kazantzakis e Charilaos Stefanides. 5.8.1912.

"Sou um velho amigo de Kazantzakis e, embora ele tivesse morrido pouco tempo antes, encontrei-o por todos os caminhos do mar, da terra e das ilhas, logo na primeira vez que fui à Grécia. Em Creta persegui a sua saudade palpável."

António Quadros
Ficção e Espírito (1971)
p. 403

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Para a unidade interna

"A ciência procura a verdade na unidade de uma fórmula, a arte na simpatia das almas. A ciência parte do visível complexo para o visível simples e harmonioso; a Arte parte da pluralidade visível das fórmulas para a unidade interna das almas."

Leonardo Coimbra
Contemporânea, nº8, Fevereiro de 1923, pp. 49-53. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Correio da Manhã, 4 de Dezembro de 1986.

Orlando Vitorino
Correio da Manhã - Perante tantos e tão grandes ataques, onde poderemos encontrar o Pensamento português?
Orlando Vitorino - Ao lado de toda esta acção política efectiva, comandada por um pensamento político estrangeiro, tem continuado a desenvolver-se o Pensamento português. O que existe do patriótico em Portugal está concentrado, ou melhor, está refugiado desde há dois ou três séculos no Pensamento filosófico.
(...)
CM - E a Filosofia portuguesa tem força para sobreviver e ajudar Portugal a resistir?
OV - Com certeza. Temos o exemplo do Leonardo Coimbra, a figura central da Filosofia portuguesa, que viveu nas condições mais hostis, mais desfavoráveis, e conseguiu ser o maior filósofo contemporâneo, não só de Portugal como de toda a Europa. Leonardo Coimbra resistiu às maiores intrigas políticas, urdidas quer através dos partidos da época quer através do Parlamento. 
A força de uma Filosofia reside na verdade do pensamento por ela transmitido e, depois de Leonardo Coimbra, essa verdade de pensamento foi pacientemente sistematizada por um homem chamado Álvaro Ribeiro, tarefa a que entregou toda a sua vida, com ausência total de ambições e com sacrifício do seu bem-estar.

Excerto de uma entrevista a Orlando Vitorino. 
Texto de  Victor Medanha. Correio da Manhã, 4 de Dezembro de 1986.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Ali à mão de semear, nas ruas do Porto!

Amorim Viana
«À influência do ambiente e da ideologia paternas, ao descobrimento do mal, ao choque com o Diário da Tarde e com... a Carta Constitucional, aliou-se a figura enigmática de Amorim Viana e a leitura da sua opus magnus, Defesa do Racionalismo ou Análise da Fé, que, publicada em 1865, teve uma terceira edição em 1885. (Três edições, num lapso de vinte anos, de um notável livro de filosofia religiosa heterodoxa no Porto dos fins do século passado - XIX!) O Newton da Academia Politécnica do Porto, «sujíssimo, rotíssimo, sempre com um chapéu alto imundamente oleoso e com umas botas gretadas e cambas», atravessava «filosoficamente de bengala na mão as ruas do Porto, ainda que chovesse a cântaros, fazia paragens nos botequins, especialmente no chalet da Cordoaria, para beberricar bebidas brancas, genebra, de preferência», e encafuava-se longamente, indiferente a tudo, na Biblioteca Pública. Aí, Bruno e Basílio Teles, meninos do Liceu, «com um estremecimento íntimo», iam «espreitar o sábio no isolamento da sua absorvida leitura». Um sábio, da categoria de «Descartes, Montesquieu, Jouffroy», ali à mão de semear, nas ruas do Porto! Era de fazer perder a cabeça a jovens intelectualmente ambiciosos...», como por exemplo Sampaio Bruno. (Joel Serrão)

J Francisco Saraiva de Sousa
Texto completo aqui.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Longe dos homens vizinho das ideias

em A Capital («Poeira da Arcada»)
 13 de Novembro de 1915
"Sampaio Bruno começou a sua carreira de escritor como propagandista e terminou-a na serenidade filosófica do estudo e da meditação consciente, pondo o seu pensamento longe dos homens e vizinho das Ideias. A sua acção deixou de impressionar as turbas e purificou-se como uma corrente de água que quanto mais corre tanto mais se clarifica. Entre os seus contemporâneos era já um quase esquecido. E agora, para além da campa, o seu nome será um vago sussurro de uma folha seca."

"Sampaio Bruno não tem nada com a Maioria"

Sampaio Bruno
25 de Novembro de 1915
Meu caro Álvaro Pinto:

Recebi a sua carta a pedir-me algumas palavras para o próximo nº da Águia consagrado à memória de Bruno.
É fácil falar de um homem que escreve para ser lido; mas falar de quem escreve para ser meditado, como o autor de A Ideia de Deus, é coisa séria: exige trabalho, tempo e competência. Falta-me tudo.
De resto, não quero elogiar os mortos com o fim de dizer mal dos vivos, como, entre nós, acontece várias vezes. Deus me livre de esgrimir com um esqueleto contra os desgraçados que ainda vivem! É cruel e macabro.
Também não quero consagrá-lo em palavras, porque é infinitamente ridículo a gente falar de um escritor com uns ares de Pantheon ou numa atitude quadrada e angulosa de Academia que abre as portas, dizendo: "entra para o meu seio que só aí encontrarás os louros da glória eterna".
Não desejo ainda promover a Sampaio Bruno consagrações em mármore ou bronze. Toda esta matéria enobrecida, lá fora, amesquinhou-se em Portugal, desde que preferiu amoldar-se, não às frontes inspiradas que afirmaram a vida do espírito, na terra, mas às formas daquele bicho em que Bordalo [Pinheiro] sintetizou a nossa única indústria produtiva.
Sampaio Bruno não tem nada com a Maioria: é um Ser à parte, pelo que trouxe de alma e sabedoria ao nosso meio. Digo sabedoria e não ciência. Esta aprende-se facilmente nos livros; quanto àquela, poucos têm o dever de a receber directamente das coisas e da vida. É um dom essencial que põe o indivíduo em íntima confidência com as verdades superiores escondidas na mentira das aparências. A sabedoria foi a qualidade suprema de Bruno, que se torna assim numa figura quase religiosa, intérprete dos sonhos do homem, enviada à nossa dolorosíssima ansiedade.
Eis como aparece à minha admiração comovida, esse nobilíssimo homem. Que os dignos dele o glorifiquem, em silêncio, no santuário das suas almas, lendo-o e meditando-o; e, sobretudo, vivendo, como ele viveu, uma vida mais que humana, isto é, uma pura e superior intenção.

Seu muito amigo
Teixeira de Pascoaes
em A Águia, nº 48, Dezembro de 1915

Sampaio Bruno por Manuel Monterroso

Box de ferro

"O dr. Affonso Costa faz parte de um grupelho de insensatos e vaidosos, que intentam desacreditar a dignidade politica e pessoal de velhos e lealissimos correligionarios. E' um desleal republicano, se republicano é; tão sómente um ambicioso desregrado e sem escrupulos."

Sampaio Bruno
Voz Pública, 10 de Janeiro de 1902

"Hontem, por volta das 9 horas menos um quarto da noite, o sr. José Pereira de Sampaio descia, só, tranquilo e socegadamente a rua Sá da Bandeira, desta cidade. Atravessou a rua, vindo da tabacaria Gonçalves, o dr. Affonso Costa, acompanhado de vinte indivíduos, aproximadamente. Subito, o dr. Affonso Costa, dirigindo-se ao sr. José Sampaio, berrou-lhe: – Ah, seu canalha! E, levantando a mão armada de um "box de ferro", assentou-lhe uma forte pancada na cabeça. Logo, os indivíduos que acompanhavam o dr, mettendo-se na contenda, agarraram os dois, mas permittindo que o dr. Costa continuasse aggredindo violentamente o sr. José Sampaio. (…)"

Voz Pública, 12 de Janeiro de 1902

Mais aqui

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Antologia do conto fantástico português

Fernando Ribeiro de Mello / Edições Afrodite, 1974.
"Com a presente antologia, que não é nem poderia ser definitiva, procurou-se reunir alguns dos textos mais significativos do conto fantástico na literatura portuguesa. Iniciando-se no Romantismo – a época em que o género floresceu e garantiu direito de cidadania -, atravessando os inúmeros “ismos” da segunda metade do século XIX e da presente centúria, esta antologia abrange uma vasta panorâmica de autores, desde Alexandre Herculano aos representantes da novíssima geração literária."

Para além de António Quadros com o conto "Pesadelo", figuram nesta antologia Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Fialho de Almeida, Raúl Brandão, Mário de Sá-Carneiro, Ferreira de Castro, David Mourão-Ferreira, Ana Hatherly, Vítor Silva Tavares, António Barahona da Fonseca, entre muitos outros.
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O Pesadelo

"Não me envies mais morte, Senhor. (...) Não a morte, não. (...) Porque é preciso lutar, Senhor? São provas que exiges? É na destruição que se funda o amor? 
Ninguém respondeu e até mesmo os pássaros desapareceram ao ouvir o seu lamento. As cinzas tinham-se alargado à paisagem estreita. Onix caminhava numa planície negra, sem árvores, sem flores, sem ervas, enquanto o sol iluminava agora a terra com uma luz sombria e pardacenta.."

António Quadros

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Jorge de Sena e Delfim Santos


"Quando em 1966 José-Augusto França pergunta por carta a Jorge de Sena se ele «– Soube da morte (coração) do Delfim Santos, em Setembro?», o autor dos Sinais de Fogo respondeu: «– Soube, sim, da morte do Delfim Santos. Mais outro que morre de frustração portuguesa». Certamente evocava o Poeta o amor tão pouco retribuído dele próprio e de Delfim à cultura, ao pensamento e às letras portuguesas – um e outro aguardam ainda o reconhecimento que lhes é devido, entre tantos motivos, pelo seu pioneirismo, pela sua ousadia, pela sua frontalidade e sobretudo por essa tão fértil atitude de exemplar inconformismo e perdurável esperança, sempre iludida e sempre forçosamente adiada, num Portugal que pudesse ser realmente digno dos seus escritores e pensadores. "

Filipe Delfim Santos
em "Correspondência 1943-1959", 
Guerra e Paz (2012) p. 26.
Texto completo aqui.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Da plena libertação

‎"Se a humanidade se dirigisse com segurança irreversível para a sua plena libertação, também as fixações ou cristalizações objectuais da literatura ou da arte a breve trecho se revelariam inúteis e até nocivas, por manterem ficções.”

António Quadros
Ficção e Espírito (1971), p. 246.

A experiência filosófica

"A experiência filosófica plena é interior e mental. O documento externo que a estimula e fecunda, seja tratado, poema ou crítica tem pois um mero valor filosófico potencial. A filosofia não é o livro, ou seja, não é a coisa. A filosofia é a vida do espírito, apoiando-se, sim, num suporte exterior, mas desde que este possa ser ultrapassado e transcendido."

António Quadros
O Espírito da Cultura Portuguesa (1967) p. 77.

«As Palavras» de Jean-Paul Sartre


"É, de entre os livros de Sarte, o mais belo. E é porventura o mais verdadeiro, porque, fiel até ao fim ao seu pensamento, provando-o mesmo à luz impiedosa da expressão autobiográfica, todavia ousa concluir contra si próprio. […] Concluído o grande empenho racionalista de desmistificação da existência, cuja chave psicológica nos oferece de mão beijada nesta obra, o severo denunciador dos símbolos, das fábulas e das crenças, o exigente moralizador em nome de uma impossível ética dessacralizada, olha-se agora ao espelho e eis que se vê, ele próprio, mito, ele próprio ser pensante, escritor sagrado que não se dera conta da impostura."

António Quadros
Ficção e Espírito (1971), pp. 212-13.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa

Em 1960 Ana Hatherly edita a antologia Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa na qual figuram os escitores, Alexandre O'Neill, António de Navarro, António Quadros, David Mourão Ferreira, Eugénio de Andrade, Fernanda de Castro, Miguel Torga, Natália Correia, Natércia Freire, Sophia de Mello Breyner Andresen, Vitorino Nemésio, entre muitos outros.
Nesta altura, António Quadros já tinha publicado dois livros de poemas, (Além da Noite e Viagem Desconhecida) dos quais Ana Hatherly selecciona os poemas: «Poética Contraditória» (p. 54); «Todo o Dia a Minha Alma Soube a Lágrimas» (pp. 67-68); «De um Novo Continente» (p. 72); e «Invenção da Morte» (pp. 88-89). 

Sobre o primeiro poema diz Ana Hatherly: "Pertencendo a um livro chamado «Viagem desconhecida», este soneto (2 quadras, 2 tercetos) é uma verdadeira introdução à poesia. Enquanto incita os poetas a transcenderem-se na criação poética, ao mesmo tempo indica ao leitor os caminhos maravilhosos que a poesia percorre na sua surpreendente viagem no tempo e na alma humana."

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

ser possível e ser necessário

São Tomás de Aquino
"São Tomás é claro ao afirmar que ainda que as coisas dependam da vontade de Deus como da sua causa primeira, não é por isso que se deve dizer que não há necessidade absoluta nas coisas, ao ponto de admitir que tudo é contingente. É certo que um efeito é contingente quando não procede necessariamente da sua causa e que as coisas não procederam de Deus, por necessidade da sua natureza, mas pela sua vontade e sem qualquer constrangimento, mas nada obsta a que uma coisa seja necessária e que a sua necessidade tenha uma causa, como acontece nas demonstrações. (...) Aceitar que certas criaturas tenham sido constituídas necessárias por Deus não implica, no entanto, que sejam independentes de Deus. Toda a criatura d'Ele depende, como o efeito da sua causa, pelo que até os entes necessários são dependentes do influxo de ser da primeira causa. Por conseguinte, a relação com Deus qualifica permanentemente a criatura; sem operação do poder divino, não poderia subsistir nem um instante, seria reduzida a nada. (...) Ao concluir que existe o primeiro movente, a primeira causa eficiente, o ser necessário por si que é causa da necessidade dos demais, o maximamente ente e uma inteligência providente que é causa (primeira e) final da ordem do mundo, definem-se cinco dimensões* do ser enquanto actualidade de todos os actos e perfeição de todas as prefeições, fundamento de tudo quando é. (...) As cinco vias partem de uma base existencial sensível, caminhando do visível para o invisível, do menos perfeito para o mais perfeito, dos seres para o Ser; em suma, progredindo da potência para o Acto."

Maria Inês Bolinhas
"Uma releitura das cinco vias de Tomás de Aquino à luz do conceito de ser" 
em A Questão de Deus na História da Filosofia, Sintra: Zéfiro, pp. 327-340.

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* As cinco vias: movimento, causa eficiente, ser possível e ser necessário, graus de ser e governo do mundo.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Carta de António Quadros a António Telmo

"Vale de Óbidos, 27-02-1990

Meu caro António Telmo,

Escrevo-lhe de Vale de Óbidos (perto de Rio Maior), onde arranjámos uma casinha de campo, com um pomar, e onde esperamos tê-lo um dia, não muito distante, para conversarmos com calma à sombra de um grande limoeiro fronteiro à porta que da sala dá para o terreno arborizado em que ando a plantar um simulacro de jardim.
Tem a calma e o silêncio que pede este Outono da nossa vida. É uma paixão de Outono, para nós dois…
Recebi a sua carta e o seu livro. A sua carta melancólica, recordando os nossos amigos desaparecidos… O mundo faz-se e desfaz-se todos os dias e, para nós, mais se desfaz do que se faz. Ao contrário do Álvaro [Ribeiro], creio que a saudade é um sentimento positivo: por ela, eles não desapareceram por completo do nosso convívio; por ela, eles continuam a estimular-nos e a exigir de nós o possível e o impossível.
Que seria de nós, sem essa presença invisível dos mestres, aguilhões do nosso espírito, alimentando a nossa perpétua insatisfação? Por mim, continuo a conversar com eles, e se eles me dizem que fiz pouco, que quase nada fiz, então sou obrigado a continuar…Também os amigos da nossa idade, o Rui, o Francisco, o Morgado, o A. Coelho mantêm ou ajudam a manter o espírito do “57”. Eles acreditaram, trabalharam, não lhes podemos falhar, enquanto formos vivos.
(...)
Sei que você andou muito por baixo, e creia que pensei muito em si. Afinal de contas, mesmo pesando todas as diferenças, não seremos os dois, os mais afins de entre os discípulos de A. e M., da primeira geração? De certo, eu sou mais “ortodoxo” (talvez por falta de ousadia intelectual interior), decerto, você foi sempre mais fundo do que eu, em todas as vias por que enveredou. Você tem a capacidade de ir ao âmago dos problemas e de estabelecer sínteses fulgurantes, em palavras concisas. (...) Eu permaneço nos arredores, fascinado do lado de fora, sem contudo atravessar o umbral da porta. (...)
Apesar destas diferenças, em ambos há o interesse pela poesia, pela simbólica artística, pelo oculto e pela filosofia em todas as suas formas (mas sobretudo por uma filosofia de Espírito), sendo também de notar que, ao contrário da maioria dos nossos companheiros, reconhecemos os nossos mestres, Leonardo e Bruno, Pascoaes e Pessoa, Álvaro e Marinho, integrando-os, com as suas antinomias, na nossa vivencialidade gnóstica.
Devo dizer-lhe também que o seu livro me deslumbrou. Decerto, já conhecia muitos dos capítulos. Agora reunidos, contudo, surgem em coerência, como um todo poderoso e unívoco, como uma viagem do seu espírito para um Monte Abiegno que você já atingiu, com o preço do seu isolamento, aí em Estremoz, e de renúncia às ambições, às glórias e aos interesses efémeros deste mundo.
Quando você escreve em Gnose:

Não sei como tentar, e se sei, temo
O fulgor essencial que mata ou cega,

fico a pensar que, ao dizer se sei, admite o quanto avançou já na via gnóstica. Teme o fulgor esssencial: será mesmo que mata ou cega (duas proposições, aliás, diferentes)? Leonardo, Marinho, não o terão experimentado, sem por tal terem morrido ou cegado? Fulgor da visão unívoca, de saudade, de graça, porventura do êxtase a que acedem certos místicos, como a Dalila… (...) Ando a pensar em escrever um terceiro livro de contos, que se intitularia Mistérios. Já comecei mesmo a escrevê-lo, mas como o meu espírito anda demasiado errante, o querer fazer muitas coisas ao mesmo tempo porque a clepsidra se nos vai esvaziando a olhos vistos (...) estou parado a meio da primeira história...*
Contudo, segui-o apesar disso durante grande parte do caminho: o bastante para lhe poder dizer agora que vocês é dos poucos, de entre os discípulos, que deixará uma obra consistente e com páginas fulgurantes e inesquecíveis. (...)

Não deixe de me responder.
Um abraço do seu dedicado
António Quadros"

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*António Quadros não chegaria a publicar mais nenhum livro de contos, ainda assim, daria à estampa mais três obras: Memórias das Origens. Saudades do Futuro; Estruturas simbólicas do Imaginário na Literatura Portuguesa; Trovas para o Menino Imperador do Espírito Santo.

«Renovação Democrática»


"A Renascença Portuguesa chegou a editar um modesto quinzenário que pretendeu exprimir as relações da nova cultura com a nova política. A essa revista efémera foi dado o significativo título de «Princípio», na qual a esquecida palavra «República» era substituída pela palavra «Democracia», termo de incerteza semântica nas discussões dos políticos de tendências várias e contraditórias. No quarto e último número deste periódico, visado pela censura militar, ainda foi inserto um esperançoso anúncio do boletim francês da «Sociedade das Relações Culturais entre a U.R.S.S. e o Estrangeiro».
Leonardo Coimbra absteve-se de dar a colaboração prometida ao novo periódico de renovação democrática. Não concordava com os tópicos de uma doutrina extremista, assimilada facilmente por adolescentes sem experiência politica. Amenamente fazia a crítica de alguns artigos que considerava teoricamente adversos à distinção entre o Mal e o Bem, polos recíprocos da liberdade e da justiça."

Álvaro Ribeiro
Memórias de um Letrado III pp. 36-37
Guimarães Editores (1980)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O 3º volume de «Portugal, Razão e Mistério»


A última carta que António Quadros envia a António Telmo data de Fevereiro de 1991. É uma epístola onde o escritor descreve, uma vez mais, a luta que sentia para escrever o terceiro volume de Portugal Razão e Mistério. Nesta altura, debatia-se, escrevia, riscava tudo, rasgava as páginas, voltava ao início e mudava  várias vezes o nome do livro, para ver se o conseguia escrever. Mas não conseguia. Não conseguiu. Foi a partir de 1987 que começou a pairar sobre António Quadros, mas também entre os restantes homens da Filosofia Portuguesa, e não só, o fantasma do terceiro livro de Portugal, Razão e Mistério. O projecto, nunca concretizado, conheceu o primeiro título logo naquele ano. A obra chamar-se-ia: Saudade da Pátria Prometida, título que António Quadros abandona e muda, no ano seguinte, para Filosofia Portuguesa e Razão Teleológica.
Podemos hoje falar, sem pudor, do sofrimento de António Quadros em relação a tudo isto, sofrimento várias manifestado a António Telmo, como é bem visível numa carta que envia ao autor de A Arte Poética em Janeiro de 1987:
“Só peço a Deus que me dê tempo, força e cabeça para concluir as obras que tenho projectadas. O terceiro e quarto volume de Portugal Razão e Mistério; um livro sobre a filosofia portuguesa, de Bruno a Orlando; um outro livro, sobre O Primeiro Modernismo Português […] e ainda outros que tenho na cabeça.”.
De tudo isto, António Quadros concluiu quase tudo, menos a terceira parte da sua obra maior. Chegaria, aliás, a confessar, uns dias depois, que devido ao cansaço provocado pelos recentes problemas de saúde, não estaria à altura do projecto. Efectivamente, a partir de 1990, os problemas de saúde de António Quadros agravam-se, embora, mesmo nos últimos anos, a sua vontade fosse a de finalizar o tríptico. No dia 22 de Março de 1990, volta a escrever a Telmo, contando como vivia os seus dias numa espécie de bloqueio interior. Por detrás deste bloqueio havia o receio de que o terceiro volume não tivesse a repercussão dos dois primeiros.

Ainda assim, a sua produção literária não diminuía. Nesse ano, estreia-se no romance e publica Uma Frescura de Asas, onde descreve os sintomas de uma angina de peito que sentira dois anos antes. Fizera também uma brilhante biografia de Sampaio Bruno, única entre os estudos sobre o filósofo d' A Ideia de Deus. Entre 1990 e 1991 prosseguem por via epistolar os contactos de António Quadros com António Telmo. Em carta enviada de Estremoz no dia 6 de Março de 1990, António Telmo lamenta novamente não ter ainda recebido o livro que formaria o tríptico de Portugal, Razão e Mistério e confessa ainda que António Quadros é um dos raros espíritos com quem convive superiormente. Uns dias depois, aconselha António Quadros, a deixar “entrever” o terceiro livro, “de modo a amar escrevê-lo”. Este conselho surge imediatamente depois de António Quadros ter confessado a António Telmo o que até hoje não se sabia: apenas escrevera o prólogo.

Tratava-se de um longo texto, já dactilografado, sobre a sua infância, a juventude, a família, a faculdade, o 57, os mestres Álvaro Ribeiro e José Marinho, os encontros com Mircea Eliade em Cascais e o grupo da Filosofia Portuguesa; entre outros: Afonso Botelho, António Braz Teixeira, Pinharanda Gomes, Dalila Pereira da Costa, Orlando Vitorino e António Telmo. Era, naturalmente, pouco, para o próprio António Quadros. Mas, quanto a nós, era muito, era tudo. 
O último livro, a derradeira palavra, seria uma saudação, um profundo e reconhecido agradecimento a todo o grupo. António Quadros viria a morrer no dia 21 de Março de 1993 com a obra completa.

António Quadros Ferro
adaptação livre de uma comunicação feita em Fevereiro de 2011 
por ocasião do Colóquio «A Obra e o Pensamento de António Telmo».

domingo, 22 de janeiro de 2012

Régio e Álvaro

José Régio
"José Régio era, para Álvaro [Ribeiro], não só o poeta católico, superior a Claudel, mas o ponto de referência da cisão entre os leonardinos e sergianos. Não podia esquecer a fuga de Régio para o campo sergiano. Mas tinha de lhe perdoar. Para tanto escreveu essa admirável interpretação psicológica e tipológica A Literatura de José Régio (1969) obra nada atendida pelos literatos, e que alguns poderão considerar como exorbitante do valor literário de Régio. Ilusão: Régio é um grande escritor, aqui e em qualquer parte do mundo. Régio é um admirável pensador de ideias e perscrutador de mistérios humanos e divinos. Álvaro devia-lhe, e não apenas por amizade, uma exege. Que resultou em hermenêutica: ele preencheu, com dados próprios, as eventuais carências filosóficas do pensamento de Régio. A quem colocou no seu lugar, entre os que abandonaram a escola leonardina, criacionista, em favor da escola sergiana, cousista. Parece que Régio entendeu bem como, sob a apologia, lhe era enviada a epístola correctiva.(...) Ao publicar a obra A Literatura de José Régio, Álvaro Ribeiro deu um passo voluntário e comedido para uma aproximação formal e essencial da Filosofia e da Literatura portuguesas. (...) A julgar a literatura regista, Álvaro teria também de julgar a literatura alvarista pois, estamos em crer, as situações espirituais de Álvaro e de Régio são afins, embora existencialmente diversas. Mas houve lugar para a biografia e, onde a houve, também houve lugar para a autobiografia: o percurso espiritual de um filósogo em face de um seu irmão espiritual, de um seu companheiro natural. Régio foi em Literatura o que Álvaro veio a ser em Filosofia: a singularidade situacional, o exílio."

Pinharanda Gomes
em A Escola Portuense
(2005), p.151

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Reuniões do senso comum e da fantasia colectiva

"A solenidade das conversas não é a solenidade dos Congressos. Os Congressos, de um modo geral, servem para dar aparência singular ao que é quotidiano e habitual. Com esta solenidade exterior só aparentemente se começará a consagrar a filosofia portuguesa, visto que, de tais reuniões, dirigidas predominantemente aos sentidos da vista ou do ouvido, apenas se deduz a visão e a audição do que já existia, ou do que não existia nem jamais existirá. São, portanto, reuniões do senso comum e da fantasia colectiva."

Álvaro Ribeiro
 «Os Reis Magos e a Tradição Portuguesa», 
em As Portas do Conhecimento, IAC, 1987, p. 132.

À espera de Marinho

José Marinho

"O magistério de Álvaro [Ribeiro] e de [José] Marinho ultrapassava o plenário. Cada um dos discípulos dispunha de frequentes oportunidades de conversar com Álvaro a sós: ou em sua casa, ou noutro Café, ou no mesmo, a hora diferente da habitual. Era um dos aspectos sugestivos da vida do grupo, porque tanto Marinho como Álvaro apreciavam conversas separadas, mas não se mostravam muito agradados quando vinham a saber, do outro, que as havia. Com Marinho estes encontros separados eram por via da regra na Pastelaria Nova Iorque, a Entrecampos (agora um banco), onde também aparecia o matemático lógico Germano Rocha, que se exaltava nas discussões com Marinho. Pelo contrário, Álvaro nem permitia, nem dava azo a exaltações. Tudo o que se dizia tinha de ser muito bem pensado, e muito bem dito. Regra de ouro: um pensamento correcto exprime-se, sem atropelos, numa frase correcta, linear, bem construída. Como, às vezes, com certa ironia Marinho murmurava, Álvaro do que gostava era de silogismos. Por sua vez, Álvaro ironizava que Marinho do que gostava era de enigmas. Tudo em amizade, na verdade. (...)
As tertúlias da «Filosofia Portuguesa» raro iniciavam a conversa sobre um tema, antes de José Marinho chegar. Decerto os mais novos discorriam acerca disto ou daquilo, de livros que andavam lendo, ou laborando em miscelâneas de opinião, Álvaro Ribeiro assistindo, paciente, dizendo uma ou outra palavra, para ajudar a exposição de cada um, mas evitava animar instinto dialéctico, e a tendência para a discussão. (...) a aula só começava com Marinho, cujo horário de trabalho não lhe permitia chegar antes das seis da tarde. Ao aparecer, e depois de se arrumar indagava: «Qual é o tema?», ou «Que tema há para hoje?» (...) É relevante fixar este costume, de não se iniciar a conversa na ausência de Marinho, como que num acto de lealdade. (...) Ambos se tratavam por «senhor» não havia tu cá tu lá entre ambos. (...) Depois da morte de José Marinho verificou-se uma interrupção das tertúlias das Quintas Feiras (...) Numa carta que de Álvaro recebi ainda nesse ano de 1975, explicava ele a suspensão das reuniões, confessando como seria doloroso estarmos juntos à espera do Mestre, que não viria. (...)"

Pinharanda Gomes
em "A tertúlia de Álvaro Ribeiro e de José Marinho"
Revista Nova Águia, nº 8, 2011, pp 117-125.

Ainda João Gaspar Simões, nos 25 anos da sua morte

João Gaspar Simões
"(...) Gaspar Simões andava sempre carregado de trabalho (crítica semanal no Diário de Lisboa e no Diário de Notícias, colaboração literária no Diário Popular e noutros jornais, a redacção da sua própria obra, e ainda a escravatura de tradutor em que por necessidade nunca deixou de andar enredado). No entanto, era frequente passar pelo café Brasileira do Chiado nos fins de tarde, quando se deslocava para entregar, ou artigos nos jornais, ou lotes de páginas traduzidas nos editores. Era pessoa discreta, mas controversa, nos meios literários pois todos e cada um temiam o seu juízo quando lhe enviavam um livro para crítica, um trabalho que exerceu até à morte, vencendo as objecções que lhe foram movidas pela corrente erudita ou crítica mediata, proposta pelas novas gerações das Faculdades de Letras, que recusavam valor científico à crítica imediata, da qual Gaspar Simões era o pontífice indiscutido. E, não obstante, foi no contexto do criticismo presencista e do exercício da crítica imediata, que a literatura portuguesa cresceu e floresceu. Gaspar Simões algumas vezes se enganou nos prognósticos, mas em muitas outras teve a premonição de, nas suas leituras, adivinhar se os autores novíssimos seriam, ou não, autores com futuro."

Pinharanda Gomes
em "A tertúlia de Álvaro Ribeiro e de José Marinho"
Revista Nova Águia, nº 8, 2011, pp 117-125.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Tertúlia em casa de Adolfo Casais Monteiro

Delfim Santos

"(...) ao contrário de um simples serão de cavaqueio, o formato da tertúlia incluía então o revezar dos participantes no tratamento de um tema a ser debatido por todos os comensais: Casais [Monteiro], em postal a Delfim [Santos] de 22.11.42, informa que não tivera tempo para «preparar a perlenga» prevista para o dia seguinte, pedindo escusa da falta e solicitando mora de uma semana. E o mesmo Delfim, precisamente sobre uma sessão que iria registar para a posteridade e que aqui nos ocupará, esclarece que naquela noite «era Álvaro [Ribeiro] que pertencia fazer um pequeno relato de um dos livros de Leonardo [Coimbra], a que se seguiria discussão esclarecedora». Foi sobre um desses simpósios filosóficos mais formais, que pela noite se prolongavam após a ceia em casa do poeta seu condiscípulo, que Delfim Santos escreveu um relato à clef que agora remetia a Casais naquela carta, ocultando sob pseudónimo, como era corrente fazer-se, os nomes reais dos intervenientes: Álvaro Ribeiro se tornaria 'Alberto'; Sant'Anna Dionísio seria 'Rodrigo'; José Marinho manteria o seu nome próprio; Eudoro de Sousa se encobriria sob 'Ernesto'; Adolfo Casais Monteiro velar-se-ia em 'António' e por fim o próprio Delfim Santos se autonomeava 'Martinho', invocando o magistério haurido nas obras de Martin Heidegger. Expediente destinado apenas a leitores menos avisados pois os nomes apresentavam chaves de fácil leitura para os que conheciam este círculo filosófico..."

Filipe Delfim Santos
em "Um colóquio agora mais útil", 
Revista Nova Águia, nº 8, pp 39-40.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Teatro simbólico dos contos maravilhosos

Ilustração de Contes de ma Mère l'Oye
de Charles Perrault por Gustave Doré.
"Pretendeu-se que o conto maravilhoso constituía uma falsificação da realidade, pura e simplesmente porque narrava mentiras. Mesmo se entendido simbolicamente, tal género de literatura podia ser perigoso, pois daria talvez acesso a um sem-número de alienações na idade adulta: escapismo, perda de sentido do concreto, imaginação doentia, distanciação da realidade... As crianças, contudo, resistiram. (...) O deslumbramento perante o desconhecido, a atracção pelo enigmático e pelo misterioso, a decisão do trabalho e da investigação desinteressada, a capacidade de fugir às tiranias do mundo burocrático e imediato, a virtualidade sempre aberta da intuição, do sonho, do ideal, a conservação de um olhar inocente perante a espessura das coisas ou perante a presença dos males, das angústias e das dificuldades, a sublimação dos impulsos instintivos em obra criadora e fecunda, a disponibilidade diante do inesperado e do insólito são apenas algumas, de entre muitas dádivas que as crianças recebem na infância, dos contos maravilhosos. (...) À laboração misteriosa do inconsciente se devem muitas vezes, tanto como à própria razão consciente, os inventos da ciência ou os conceitos da filosofia. (...) Talvez que, aos jovens das gerações de hoje (...) tenham faltado os avós, as mães e as tias que sabiam contar histórias de fadas, pela calada da noite, a crianças palpitantes e deslumbradas. Talvez essa oportunidade perdida os tenha desequilibrado para sempre. Se não ressuscitamos o teatro simbólico dos contos maravilhosos, talvez o mundo pereça entre escombros, ou simplesmente se detenha, desgostado com a pobreza espiritual da humanidade nova..."

António Quadros
"Estruturas Narrativas do Maravilhoso"¨*
em Memórias das Origens Saudades do Futuro (1992) pp. 91-110
*De uma conferência proferida em 1973,  no anfiteatro da Biblioteca Nacional,
com o título  'O sentido Educativo do Maravilhoso', nome não dado pelo autor.