terça-feira, 15 de maio de 2012

No caminho para uma comunhão futura

‎"Justiça, liberdade e desenvolvimento iluminar-se-iam sob um novo foco e poderiam reconciliar-se no caminho para uma comunhão futura, se pudéssemos colocar ao seu lado, no mesmo plano de urgência, os valores da beleza, de amor e de verdade."

António Quadros

Carta de Álvaro Ribeiro a António Telmo, 30 de Outubro de 1958

(...) Nesta Lisboa dos cafés vão-se desmoronando as tertúlias, em consequência das invejas e das intrigas. Há duas semanas que não vejo o António Quadros. As conversas habituais causam desânimo. O que me vale, acredite, é o vício de escrever para longe…


Leia aqui.

domingo, 13 de maio de 2012

Franciscanismo na filosofia portuguesa


O Centro de Estudos de Filosofia (CEFi) da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, organiza a 23 de maio um seminário integrado no projeto "Presença do Franciscanismo na Filosofia Portuguesa". Este é o primeiro de vários encontros sobre figuras franciscanas que estão a ser objeto de investigação, casos de Santo António de Lisboa, Frei Gomes de Lisboa, Frei André do Prado, Frei Cristóvão de Lisboa, Frei Agostinho de Macedo e Francisco da Gama Caeiro.
O ciclo, organizado em parceria com o Centro Cultural Franciscano, vai também centrar-se em pensadores com reflexão inspirada no carisma de S. Francisco de Assis, como Leonardo Coimbra, António Quadros e Sebastião da Gama.
A sessão inaugural realiza-se a partir das 14h30 na sala 131 da sede da Universidade Católica.

Via Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.
http://www.snpcultura.org/franciscanismo_filosofia_portuguesa.html

sexta-feira, 11 de maio de 2012

1888


"A avaliar por alguns textos até 1979 ainda inéditos e publicados em Sobre Portugal*, Fernando Pessoa terá chegado a admitir que o Encoberto era... ele próprio. Esta convicção é rastreável pelo menos entre as datas de 1925 e 1928 ou 1929, não é tão insólita como pode parecer à primeira vista, se considerarmos:
  1. A adesão de Pessoa ao conceito de uma República Aristocrática; logo, a transferência de uma Rei hereditário para uma personalidade «eleita» do alto.
  2. A desilusão, não só pela morte de Sidónio, mas sobretudo pela pouca influência que o Presidente-Rei deixou atrás de si.
  3. A sua exigência de um Quinto Império, não material, mas cultural e espiritual.
  4. O seu conceito de que os verdadeiros criadores de civilização são as grandes figuras intelectuais, como  Camões, Shakespeare - e o anunciado Supra-Camões dos artigos de 1912 na Águia.
  5. A sua insinuação de que esse Supra-Camões viria a ser o poeta então desconhecido que já experimentava dentro de si a força de um grande génio criador.
  6. A consciência da sua espiritualidade supranormal, ponteada de inspirações, iluminações, visitações enigmáticas e até fenómenos místicos, conforme vimos no capítulo anterior.
  7. Daí, a crença de que ele próprio era, como vimos, um Emissário, comissionado do Alto para trazer uma Mensagem de salvação ao povo português.
  8. Crença esta por assim dizer confirmada pela sua descoberta de que a Ordem Templária de Portugal estaria extinta em dormência desde cerca de 1888, data do seu nascimento, e de que, por conseguinte, o testemunho lhe fora passado por força do destino.
  9. E, por outro lado, a convicção de que ninguém, como ele próprio, teria entre os seus contemporâneos a capacidade de ser mais paradigmaticamente português, isto é, de ser tudo, de todas as maneiras, ou, como cantou pela voz de Álvaro de Campos no extraordinário poema, já citado, Afinal a melhor maneira de viajar é sentir - sentir de todas as maneiras (...)
  10. A certeza de que ninguém, entre os Portugueses, preencheu tão cabalmente aquela condição, ele que foi não só Fernando Pessoa, mas também Campos, Reis, Caeiro (...) desta forma realizando em sia, de forma fingida mas real, aquela supra-humanidade ou aquela semidivindade que funda o paganismo. Lembremos aqui a sua citação de Píndaro: A raça dos deuses e dos homens é uma só.
  11. Enfim, a sua descrição astrológica de uma das quadras do Bandarra, a que mais adiante nos referiremos.
Assim este homem ensimesmado, angustiado, quase apagado e aparentemente modesto, por alguns anos guardou para si, com a megalomania do génio, não diremos a convicção, mas a suspeita de que, mais do que um Emissário, seria talvez um Intermediário pesado de transcendência, esse encoberto misterioso predito pelo Bandarra e que teria vindo a esta terra infeliz para fundar o Quinto Império, o Império do Espírito Santo. (...)"

António Quadros
"1888" em Fernando Pessoa - Vida, Personalidade e Génio (1984) , pp. 244-248


[Sobre este assunto vale ainda a pena ler o texto "Fernando Pessoa - Eu ser descoberto em 2198", de Jerónimo Pizarro publicado na Revista Ler nº 109, Janeiro de  2012, disponível aqui.]

*Sobre Portugal - Introdução ao Problema Nacional. Fernando Pessoa (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução organizada por Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1979.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Iluminantes revelações

Fernando Pessoa: uma quase autobiografia
 de José Paulo Cavalcanti Filho

"Confesso que esta noite não vou dormir a tentar lembrar-me se a sapataria onde o Pessoa elegantemente se calçava era Contente ou Contexto. É que, sem isso, como afirma o biógrafo, nunca chegaremos ao entendimento da sua obra! - à revelação do “testamento” que a obra pessoana constitui e “que esperou 70 anos” “que alguém a desvende”. Salvé, senhor ex-ministro da Justiça, que com estas iluminantes revelações vai finalmente fazer jus ao génio do Fernando!
Com igual rigor investigatório e interpretativo, diz o autor da biografia (quase) que eu me chamo Álvaro de Campos porque o Fernando tinha um dentista que se chamava Ernesto de Campos! Agora sou eu que me vou pôr a investigar sobre algo de tão importante para a minha identidade: com quantos Campos, além do engraxador, do moço dos recados e do criado de café, lidava quotidianamente o Fernando.
Peço a quem me ler, e tiver alguma informação a este respeito, que faça o obséquio de ma comunicar, que eu não tenho posses para pagar a informadores. (...)"
Teresa Rita Lopes 

Perfeitamente indispensável

Fernando Pessoa: uma quase autobiografia
 de José Paulo Cavalcanti Filho

"Prometo que me vou avidamente precipitar sobre o seu livro. Se o senhor entretanto comprar a arca, quem sabe se eu até vou escrever que saber o nome da sapataria onde o Fernando se calçava, e da rua da tabacaria que me inspirou e da lavadeira Irene e sua filha Guiomar é perfeitamente indispensável para entender a nossa obra – nossa, sim, que detenho um razoável número de quotas nessa empresa. (...)"

Teresa Rita Lopes 

Peregrinação na noite

Anrique Paço d'Arcos e Teixeira de Pascoaes
"A sua obra [de Anrique Paço d'Arcos] situa-se, sem dúvida, na esfera pascoalina do lirismo saudosista e simbolista. (...) Não é o arrebatamento sem limites, não é o poder mitogénico, não é o estilo torrencial, não é a poderosa dialéctica de sombra e de fogo, do autor de Marános, de Regresso ao Paraíso, de Elegia do Amor, porque é, digamos, um saudosismo mais humano e por isso também mais frágil, mais voltado para dentro, mais interrogativo. (...) A sua poética permanece a de um simbolismo neo-romântico, marcado pelo saudosismo e pela procura de um sentido religioso para a vida, para o cosmos e para o homem.
Mas há na sua obra uma exemplaridade de que talvez não se dê conta. É a exemplaridade do que é autêntico, do que é sério e do que se liga profundamente às raízes da sua própria identidade ou do próprio ser. (...) O itinerário de Anrique Paço d'Arcos é, no fim de contas, uma peregrinação na noite, mas com a luz do divino no horizonte."

António Quadros
"Um herdeiro dilecto de Teixeira de Pascoaes: Anrique Paço d'Arcos"
em Estruturas Simbólicas do Imaginário na Literatura Portuguesa (1992), pp. 140-143
[do artigo "A Poesia de Paço d'Arcos" publicado na revista Tempo de 27.5.1982]

O toiro celeste passou


"O Toiro Celeste Passou [Afonso Botelho, 1965] não é apenas a sua melhor novela: é também, não hesitamos em afirmá-lo, uma das mais invulgares novelas com que pode contar a nossa literatura contemporânea. (...) A novela flui com naturalidade, a partir de um dado inicial ou fabuloso, de função provocadora e dialéctica. (...) Este processo dá efectivamente à novela um cariz existencial que se irá confirmando pouco a pouco. Apresenta-nos Afonso Botelho a dialéctica da honra e da verdade, que também pode traduzir-se como dialéctica do personalismo e da filosofia. Mas onde, quanto a nós, Afonso Botelho supera a interpretação puramente kafkiana ou existencialista, é na coincidência com outras dimensões que abrem a simbólica da novela a uma amplitude muito maior. (...) Sejamos um pouco mais precisos. A novela abre com uma epígrafe aparentemente enigmática, mas que justifica inteiramente o seu titulo: Nout, a deusa do céu, acolhia o sol como o Toiro celeste, incarnação da virilidade (Textos da Pirâmide). Logo, apresenta-nos quatro amigos, de caracterologia diferente e bem marcada, jogando às cartas e conversando. Qual seria a sua reacção quando postos face a face com a sua própria verdade, com a verdade que o homem-pessoa, que o homem-convencional oculta de si próprio e sobretudo dos outros? É então que, provocado e invocado pelo diálogo, o toiro celeste passa, deixando na cabeça de cada um o ornato que tradicionalmente significa a infidelidade da mulher. (...)"

António Quadros
"Entre o Amor a Morte, entre a Honra e a Verdade" 
em Estruturas Simbólicas do Imaginário na Literatura Portuguesa (1992), pp. 158-159
[de artigos publicados no Diário Popular, de 11-08-1966 e de 19-03.1967]

segunda-feira, 23 de abril de 2012

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Perfeitamente adequado

Delfim Santos
"O único critério de verdade útil para o conhecimento tem em si a expressão da sua relatividade. Possuir o sentido da sua relatividade não significa, porém, que este critério fez perder à verdade o seu valor absoluto, que lhe é exigido para ser verdade. Absoluto, no problema do conhecimento, equivale a «plenamente adequado». Verdade «relativa a» não significa que a verdade é, em si mesma, relativa. A verdade, no sentido total ou universal que criticamos, é sempre «relativa a» uma certa concepção do universo, sem por isso ter perdido o seu valor absoluto ou de plena adequação. «Absoluto» e «relativo » não se contradizem, porque qualquer conhecimento absoluto que pensemos é sempre «relativo a», sem em si próprio ser relativo. (...) A afirmação de que «absoluto» é contrário a qualquer espécie de relação não nos parece correcta. Absoluto significa em «relação perfeita a». No problema do conhecimento, «absoluto» significa «perfeitamente adequado», e esta adequação é uma relação que não torna o conhecimento relativo, como já afirmámos. O valor máximo para que todo o conhecimento aspira é a «adequação», e nisto reside o seu valor absoluto."


Delfim Santos
Conhecimento e Realidade
(1940)

Poetisar o lugar-comum

"A arte tem de seguir a vida, reentrar na casa, fazer-se familiar e doméstica. (...) Não mais veludos e tapetes de palácios, agora a vida humilde de mesteirais. (...) Urge (...) poetisar o lugar-comum. A casa."


Sampaio Bruno
Notas do Exílio (1891-1893)
Obra digitalizada aqui.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Em bocas de verdura

"Imaginai que, subterrâneo e distante, vos corre sob os pés um regato, e donde em onde a terra se abre em bocas de verdura, falando o refrescante murmúrio das águas profundas.
Assim são os Poetas."

Leonardo Coimbra
Camões e a fisionomia espiritual da Pátria (1920)
Obra digitalizada aqui.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Dalila Pereira da Costa por Paulo Samuel

"Para os que por ora ficam, resta o bastante: memória da convivência com uma pessoa humana singular, cuja sabedoria se escudava numa discreta presença que, contudo, por via da palavra, elidia o género, imarmanava géneros (literários e filosóficos) e gerava penetrante visão hierofânica de Portugal. (...) É do banquete com Dalila Pereira da Costa (...) que as afinidades e laços electivos - prolongados em afectos - propiciadores de um diálogo contínuo, que abrangeu domínios tão amplos como a partilha de memórias e episódios de vivências pessoais (...), a convivência do seu austero mas acolhedor palacete à Rua 5 de Outubro (...) sem esquecer a sua companhia em viagens para fora da cidade, ou mesmo a visita à sua quinta no Douro. Mas além desse espaço mais restrito e íntimo, outras circunstâncias vieram aprofundar tão fecunda relação. Entre outras, as que levaram a encontros e participações em iniciativas ligadas à divulgação da Filosofia Portuguesa, à evocação da «Renascença Portuguesa», a reuniões em sua casa a propósito da criação da revista Leonardo ou, mais tarde, no âmbito da sua relação à Fundação Lusíada. (...)"

Paulo Samuel
em As Artes entre as Letras
14 de Março de 2012

Pensar


"Os antigos filósofos (naturalmente) pensavam muito mais do que liam. Eis porque se agarravam tão tenazmente ao concreto. A imprensa modificou as coisas. Lê-se mais do que se pensa. Não temos hoje filosofias mas apenas comentários. É o que diz [Étienne] Gilson ao afirmar que à idade dos filósofos que se ocupavam de filosofia sucedeu a idade dos professores de filosofia que se ocupam de filósofos. Há nesta atitude modéstia e impotência. (...) Chegou-se ao ponto em que um livro de filosofia que fosse hoje publicado e não se apoiasse em nenhuma autoridade, citação, comentários, etc., não seria tomado a sério. E no entanto..."

Albert Camus
Primeiros Cadernos
Livros do Brasil (s/d) 
[Nota prefacial de António Quadros]

terça-feira, 10 de abril de 2012

Filosofia insuficiente


"A filosofia dos liceus é pobre demais, historiográfica de mais, esquemática demais para substituir o acesso a uma filosofia do ser e do espírito, a uma filosofia do homem, a uma filosofia da sociedade, a uma filosofia da ciência, a uma filosofia da natureza, a uma filosofia da técnica, a uma filosofia do direito e da política, sem as quais não se atinge mais do que um saber fragmentário, cindido do real, inapto para a integração do homem na problemática do viver e do conviver, útil para o desempenho limitado da profissão escolhida, mas insuficiente para que o licenciado possa dar uma colaboração criadora, inventiva, personalizada e cumulativa à sociedade onde deveria inserir-se de modo dinâmico e harmónico."

António Quadros
Franco-Atirador (1970) p.228

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Gostava de ser pulgão e viver numa roseira

Georges Duhamel

"Sou incorrigível. Cheguei hoje a esta conclusão luminosa. Dela se liberta, pouco a pouco, uma verdade de tal maneira amarga, que chega a ser reconfortante. Sim, sou incorrigível, eu e todos os homens. Se os homens pudessem melhorar, seria muito triste pensar que não o fazem. Mas pensarque não têm esse poder, leva-nos, pelo menos, a uma infinita indulgência. Indulgência que, no fim de contas, não consigo sentir, visto que a indulgência me falta por natureza, e a natureza é imutável. É bem claro. Não pode ser mais claro. Devia ter sido razoável e não ter querido coisas extravagante! Santos! Minha mãe talvez seja santa. Minha mulher, também. (...) Neve. Frio. Economizo o mais que posso, pois este fim de mês, que também é fim de ano, é particularmente duro. Quase tudo o que me restava, dei-o à minha família. Vivo acocorado junto a um fogãozinho  que anda ao retardador. Enquanto escrevo, observo a mão que segura a caneta. Pertencerá a Salavin? Nunca a tinha examinado tão cuidadosamente. Não me agrada. É feia. Nem sei como pude julgar que viria a ser qualquer coisa de puro, tendo umas mãos assim.
Gostava de ser pulgão e viver numa roseira."

Georges Duhamel
Diário de Salavin (1945)
Trad. de António Quadros

Não ponho nisso obstinação ou malícia

Georges Duhamel
"Se tivesse fé, é claro que teria mais oportunidades. Cresci no seio da religião católica. A crise da adolescência, a crise vulgar, despojou-me, esvaziou-me, limpou-me como uma tigela. Depois, contemos dois ou três anos de orgulho, cinco ou seis anos de romantismo, de desespero metafísico, e depois a vida do dia a dia, com todos os seus pequenos problemas guardados no armário, à espera de ser resolvidos. Um facto é incontestável: não tenho fé. Não tenho nisso orgulho algum, não ponho nisso obstinação ou malícia. (...) Não posso afirmar que amanhã continuarei a não ter fé. Espero tudo. (...) Se fosse obrigado a acreditar que seres admiráveis, minha mãe e minha mulher, por exemplo, alimentam pensamentos semelhantes aos meus, o meu amor e a minha admiração dariam lugar ao horror. É pouco mais certo que os homens favorecidos por uma perfeita fé, estão livres de tais pensamentos. Noto este facto pelo tranquilo orgulho que arvoram. (...) Faço da fé, talvez por ser coisa que não tenho, uma ideia esplêndida, augusta. No meu coração, confundo fé com paz, com repouso".

Georges Duhamel
Diário de Salavin (1945)
Trad. de António Quadros

terça-feira, 3 de abril de 2012

Leonardo Coimbra e Teixeira de Pascoaes

(s/d)

Via galeria lusografias

"Ao princípio, os directores eram quatro"


"Ao princípio os directores eram quatro: nós dois [António Quadros e Orlando Vitorino] e os escultores António Duarte e Martins Correia. A ideia foi, portanto, concebida, discutida e pensada por quatro pessoas. Mas, a certa altura, sem que tivesse havido qualquer divergência entre nós, aqueles dois artistas chegaram à conclusão de que não poderiam tomar parte efectiva na direcção da revista, devido à vida absorvente que levam. Quero acentuar, porém, que António Duarte e Martins Correia continuam connosco (...), colaborando, tanto quanto possível, em todos os números..."

António Quadros
Diário Popular
(03-10-1951)

segunda-feira, 2 de abril de 2012

O Pedro e o Mágico


"Um dia, como de costume, iam os quatro a caminho da escola, quando o pai se inclinou para o volante, e se pôs a espreitar para a buzina do carro. (...) O pai disse então:
- Que massada!
Os filhos ficaram intrigados, julgaram que o «Bate-Latas» estava com alguma avaria. O António perguntou:
- O que é pai?
O pai respondeu:
- Agora nunca mais posso tocar buzina!
(...)
Eu já estava desconfiado - disse o pai - Ontem à noite tinha visto umas luzinhas a saírem da buzina. Agora já sei o que é.
- O que é pai? (...)
- Foi uma família de pirilampos que veio instalar-se aqui na buzina, lá por dentro. Parece-me que são três.
(...)
Um dia, o pai inclinou-se como antigamente para a buzina, e chamou.
- Piri-Piri! Piri-Piri!
(...)
O António disse:
- O pai sabe muito bem que não há pirilampos, aí na buzina. (...)
-Já não somos bebés.
(...)
Chegaram à escola. Saíram a correr, como de costume. O pai ficou sozinho dentro do automóvel., Viu os filhos a conversar com os amigos. Disse-lhes adeus com a mão, e sorriu-lhes. (...)
Inclinou-se para o volante e disse, em voz baixa:
(...) é melhor irem-se embora, e escolherem outro carro e outra buzina. Adeus, Piri-Piri. (...)
Agora, que os pirilampos se tinham ido embora, já estava cheio de saudades de todos eles."

António Quadros
«Os pirilampos» em O Pedro e o Mágico (1972)

sexta-feira, 30 de março de 2012

Um caixeirola frívolo faz dançar uma mesa pé de galo

"Ora tu conheces bem o que eu penso do espiritismo. Penso que é um erro confiar nesse processo, porque é a subordinação da liberdade da transcendentalidade à vontade prepotente do homem. Eis porque os resultados das comunicações mediúnicas não correspondem nunca às esperanças e tudo se passa ao nível da vulgaridade, com mensagens pessoais que nada adiantam acerca do outro lado, a maioria das vezes resultantes, ou de burlas, e nem vale a pena falar nisso, ou de fenómenos psíquicos de sugestão ou de auto-sugestão (...). A transcendentalidade guarda e guardará a sua virgindade. A nossa curiosidade é impotente. (...) A transcendentalidade é insusceptível de estupro. Oferece-se, coqueteia connosco; faz-nos negaças. Mas a conquista é impossível. (...) Um caixeirola frívolo faz dançar uma mesa pé de galo. Os espíritos têm de acudir prestes, a aturar as massadorias do marçano ocioso."

António Quadros
[e Sampaio Bruno, entre o texto]
em Uma Frescura de Asas (1990)

quarta-feira, 28 de março de 2012

Medo, dizes...


"Eu almoçara e jantara, e bebera, e as crianças tinham fome. (...) Eu envaidecia-me com a minha carreira, e a escravidão era ainda uma carreira. Vento, vento, sopra as velas, o homem sofre, sopra as velas, o homem não conhece o seu ódio e o seu pânico criou um mundo falsificado, sopra as velas, vento, o homem refastela-se, adormece, contempla o seu miserável umbigo, sopra as velas, vento, mas que vento, que nau, que porto, e porque é que o medo nu, o medo absoluto, o medo indecifrável é a soma conclusiva, a palavra final, a queda de toda a sabedoria penosamente conquistada pelos anos difíceis? ... medo, dizes, quem é que tem medo?"

António Quadros
do conto «Ao longo da nave»
em Histórias do Tempo de Deus (1979)

terça-feira, 27 de março de 2012

Acrata

Agostinho da Silva
"[Agostinho da Silva] seria um anarquista em estado puro, se tal não implicasse, na evolução semântica da própria palavra, a recusa da arquias, ou seja dos princípios sagrados. Mas, se não é um anarquista é decerto um acrata, desconfiado perante todos os poderes e prisões deste mundo. (...) Sem teologias, que a seu ver dividem; sem filosofias, que a seu ver complicam. É um magistério, o seu, do despojamento, da abertura total da alma e da disponibilidade do espírito, da recuperação, assim, do que da virtualidade infinita da infância os homens esqueceram. (...) O que será no fim é o que é desde origem. Dizem-lhe que é utópico, que tal não é realizável neste topos ou neste espaço, o mundo sublunar. Responde que a utopia não é o irrealizável, mas o que ainda não se realizou."

António Quadros
"Agostinho, Álvaro, Marinho: três mestres -  um testemunho", 
em Memórias  das Origens, Saudades do Futuro (1992), p. 312.

segunda-feira, 26 de março de 2012

sexta-feira, 23 de março de 2012

Leonardo Coimbra, a luta pela imortalidade

Diário de Lisboa, nº 267, 15 de Fevereiro de 1922, p. 3.

Raul Lino, o último arquitecto

Raul Lino
"Já tempo passou. Já a nossa perspectiva se ampliou numa época que, afinal, ainda está relativamente próxima. Já Raul Lino nos aparece, não como um arquitecto entre outros, mas porventura como o último arquitecto português, se à palavra quisermos restituir a sua verdade e antigo sentido. Decerto falamos por algum modo de metáfora, porque a herança nunca se perde totalmente, mesmo quando pareça esquecida. (...) Raul Lino adopta a interpretação tradicional da mónada humana, com um complexo conjugado de corpo, alma e espírito. Di-lo e repete várias vezes, não é verdadeiro arquitecto o que só edifica para os corpos (...) Quando Raul Lino desenvolve a sua teoria do espaço habitacional, fá-lo em termos, precisamente de corpo-alma-espírito (...) Daí que a sua preocupação de que as portas não sejam consideradas meros elementos de comunicação, mas antes meios para fechar, para guardar. (...)"

António Quadros
"Raul Lino, o último arquitecto"
Conferência proferida a 1 de Fevereiro de 1991 no Instituto Alemão, 
de Lisboa, num colóquio organizado pela Fundação Ricardo Espírito Santo e Silva.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Leonardo

Leonardo Coimbra
Ilustração Portuguesa
II serie, nº 814, 24 de Setembro de 1921, p. 206.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Diga-me, Dr. Mendonça

‎"Diga-me, Dr. Mendonça, quando é que tem tempo para pensar... para se recolher... para descobrir o que realmente é... Quando, se a vida não nos dá tempo... intimidade... liberdade? Andamos sempre rodeados de pessoas... os outros que não nos largam... querem que sejamos assim... ou assim... (...) e aconteceu-me fugir... tentar fugir... largava tudo, fosse o trabalho ou a casa... e andava pelas ruas... ao acaso... andava, andava, e esquecia-me onde estava... quem era. (...) As pessoas sentem-se inseguras diante dos loucos, mesmo que sejam inofensivos, quase normais, e sabe, eu penso que esta insegurança é boa. Devemos estar inseguros. Devemos pensar o que não foi pensado. Devemos suspeitar, porque a vida é infinitamente complexa e nunca ninguém lhe deu a volta.
(...)
- Você pensa talvez que já estou a ficar parecido com eles? Que sou um velho maníaco, a pedir reforma? É capaz de ter razão, é capaz de ter razão..."

António Quadros
do conto «A Palavra», 
em 'Histórias do Tempo de Deus' (1979)

Razão escondida

‎"Aprendi a amar a liberdade nos meus dias de vagabundo. A liberdade é a abertura da carta de prego que cada um leva consigo. (...) É preciso que os homens descubram a razão que trazem escondida, na sua alma de peregrinos. É preciso que descubram a verdadeira razão de viver, de sofrer e de morrer. É preciso que se sintam irmãos, precisamente porque são diferentes. É preciso que se sintam homens, precisamente porque não são autómatos e não foram fabricados em série por um Deus relojoeiro."

António Quadros
do conto «Império», 
em 'Histórias do Tempo de Deus' (1979)

É preciso

‎"É preciso que ninguém mais sofra, é preciso que os homens sejam irmãos, é preciso que a luta contra o sofrimento não seja uma outra forma de sofrimento, é preciso inventar a alegria, (...) é preciso levar a esperança aos corações desesperados que avançam para a morte, é preciso que a esperança não seja só um aceno e uma ilusão, é preciso que o cortejo infindável passe por sobre o abismo. (...)"

António Quadros
do conto «Ao longo da nave», 
em 'Histórias do Tempo de Deus' (1979)

sexta-feira, 9 de março de 2012

Meu Caro António Quadros

António Quadros, António Telmo e Maria Antónia
"Estremoz
31 de Maio de 1986

Meu caro António Quadros

(...)

Eu vejo no seu livro [Portugal, Razão e Mistério], não obstante o seu autor parecer ou julgar dizer o contrário, uma dimensão interior, quiçá inconsciente, convergindo com a posição dos nossos mestres [José Marinho e Álvaro Ribeiro]. A imagem da Pátria é a de um povo nómada, navegante do tempo por sete graus sucessivos; se a ideia não fosse prejudicada pela imagem genealógica da árvore cujas raízes afundam na terra megalítica, o mesmo paradigma numeral explicaria talvez nos sete climas dos barcos que construímos cortando a árvore. Mas a minha alegria é a de ver que o grupo da filosofia portuguesa se revela bem vivo, no pensamento, através de livros de excepcional valor, como os do Orlando [Vitorino], os do Pinharanda [Gomes], os seus. Disse-me um dia o António Quadros, na minha casa em Estremoz, que não lhe parecia que nenhum de nós fosse capaz de realizar uma obra verdadeiramente filosófica como a do Álvaro Ribeiro ou do José Marinho. Vamo-nos superando e este seu livro é já um grau acima dos outros. O que nos dirão o segundo e terceiro volumes?
Só depois, pelo menos do segundo, uma vez de posse de todos os elementos do seu pensamento, lhe escreverei a carta prometida. Esta é mais o testemunho da minha amizade e da minha solidariedade espiritual consigo. Interessa-me particularmente a relação que estabelece entre a Igreja de Pedro e a Igreja de João, mas, antes da publicação do segundo volume, é prematuro reflectir consigo sobre essa relação, pôr interrogações, levantar obstáculos, traçar vias.
(...) Faço votos que obtenha a mais vasta e, sobretudo, profunda influência.
Aproveito a ocasião para lhe agradecer os dois volumes de «Fernando Pessoa». Aqui também todos temos de reconhecer que o António Quadros é o único que tem sabido pôr as coisas no lugar sobre o grande poeta e quem quiser estudá-lo e compreendê-lo terá de passar através do que V. tem vindo a escrever.
Creia que sou inteiramente sincero. Se não o fosse, não teria junto atrás um apontamento de objecção que desenvolverei na carta prometida.

Um grande abraço (...)

António Telmo"

quarta-feira, 7 de março de 2012

Nascerá o amor absoluto

Dalila Pereira da Costa
1918-2012
"Nascerá o maior amor, o que concebe a saudade, na ausência - o amor absoluto." 

Dalila Pereira da Costa, Rádio Lusophónica (Salzburgo) 2009


Só amor devia ser


"Queria só contribuir para que tu, amigo desconhecido, sentisses dentro de ti uma só coisa, o silêncio. Podes chamar-lhe também, plenitude. Ou harmonia. Ou no princípio, senti-lo como uma música leve. Mas o seu outro lado é mesmo silêncio. E à tua volta todas as coisas, começam também a tocar, participar dessa harmonia. Suspensão, também te poderá acontecer. (...) Chama-lhe paz. Vem aos pedaços, em dias mais ou menos prolongados e juntado-se depois uns aos outros, até fazer uns inteiros cada vez maiores. (...) Mas na dor e tristeza sentida. E fica só essa entrega, consumação em doçura. Em lamento de silêncio. Porque tudo é sofrimento de não ser digna. (....) Só sofrimento de ofensa, dureza dada em paga do amor, que só amor, redobrado, puro, estreme, devia ser."

Dalila Pereira da Costa
"O Verbo Secreto", em Os Jardins da Alvorada
Lello & Irmãos Editores
Porto (1981), pp. 112-113.