segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O mais alto e o mais perfeito modo de liberdade

"A vida é digna de ser vivida na plenitude integrante ou reintegrante de cada acto, desde que se assuma o conceito de que o amor é o mais alto e o mais perfeito modo de liberdade." 

António Quadros

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Sentido, lógica...justificação?


‎"Reencontrará o Estado português o seu sentido, a sua lógica e a sua justificação? (...) Terá a grandeza de estimular discretamente e sem exigências de pagamento os nossos pensadores e personalidades criadoras, em vez de os marginalizar por razões políticas, universitárias ou outras?"

 António Quadros

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Ser português é uma filosofia

"Compreendi que, para pensar a existência, devia assumir e desposar os modos de existência que me eram próximos e palpáveis. Ser português era a categoria metafísica da minha raiz. A partir daqui cresceria a minha árvore ou outra opção não teria senão o destino de líricos ou historiadores que vem sendo fado de tantos dos que entre nós se dedicam ao pensamento.
(...) Ser português é, desde logo, uma forma de comunicação do homem com o mundo. Ser português é um pensamento. (...) É uma filosofia. (...)"

António Quadros
"A Cultura Portuguesa perante o Existencialismo"
em Sartre e o Existencialismo de Ismael Quiles
(Arcádia, 1959), pp. 30-31

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Será ainda o transporte do coração

"Se é um salto no vazio, será ainda o transporte do coração, onde em amor e saudade vivem todas as realidades que deixou, é a partida da memória, que guarda todas as imagens do real e será sempre, e pelo menos, a sua vida de lembrança, o seu exílio de saudade.
Mas os que, de olhos fechados, se abrigam de pronto no regaço divino, só poderão levar na rasgada pupila de sua memória o inútil esforço de povoar a irremediável solidão, donde fugiram. (...)"

Leonardo Coimbra
A Razão Experimental (1923) p.13

Como o desaparecimento da vida

"O que é a consciência que se afirma no juízo, se liberta na memória e aparentemente se apaga como o desaparecimento da vida em que se insere?"

Leonardo Coimbra
A Razão Experimental (1923) p.376

Tanto desconhecido

"Tanto desconhecido carregando no pensamento sonhos de ambição ou de humildade, como na minha pátria, como no resto do mundo, e, para lá dos sonhos de superfície, a mesma consciência religiosa de se ser homem e querer amar e entender a vida (...)"

Leonardo Coimbra
A Razão Experimental (1923) p.13

domingo, 9 de setembro de 2012

"O mito coloca-nos na atitude espiritual correcta."

"No discurso popular, o mito é normalmente entendido como mentira. Um político, se for acusado por um pecado do seu passado dirá "é apenas um mito." (...) Mas no mundo pré-moderno as pessoas sabiam que uma história mítica não tinha nada a ver com a História. Era mais do que História. Contava o significado do que aconteceu, o significado oculto do que aconteceu. Para além disso [o mito] era uma verdade intemporal. (...) Uma boa definição do mito é uma coisa que num certo sentido aconteceu uma vez, mas que também acontece a toda a hora. Um aspecto importante a reter acerca do mito é que não faz sentido a não ser que seja colocado em acção. ´(...) O mito coloca-nos na atitude espiritual correcta."

Karen Amstrong
Excerto de uma entrevista para o programa 
O Tempo e o Modo exibido na RTP2 em Junho de 2012

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Do movimento

"Quantos mundos, melhores dotados do que o nosso, alcançaram já de todo a sua liberdade; quantos findaram já, ao menos, o drama da sua paixão; a quantas consciências ascendentes seria dado o expiar de seus trabalhos, quando o homem ainda só a meio da montanha é que rola o bloco enorme de sua culpa! Espirito atenuado porquanto derivado tempo ainda?! A alma individual desfaleceu e abateu. Quem sabe se avançou?"

Sampaio Bruno
A Ideia de Deus (1902) p. 480

Em sinal de luto

Sampaio Bruno

"Nada me demoveu. Fui inabalável. Não estou arrependido. Abandonei a política para sempre. Mas deixei crescer as barbas, em sinal de luto. Grandes barbas semeadas de cãs, a forma que encontrei para todos se lembrarem, ao cruzarem-me na rua, da minha mágoa por um regime que ajudei a implantar, mas que tendo-se desviado do caminho certo, seguia por atalhos precários e perigosos."

António Quadros
com Sampaio Bruno na primeira pessoa
em Uma Frescura de Asas (1990) p. 114

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Leonardo por Fernando Pessoa

"Nunca haverá em mim entusiasmo que eu sinta que me baste perante o panorama de alma que é a sua obra. O abarcar tanto com a inteligência, o descer tão fundo no sentido possível das coisas - tudo isso representa em Portugal uma novidade para ser acolhida com uma alegria estremunhada."

Fernando Pessoa
em carta a Leonardo Coimbra
(1913)

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Invasão

"A sociedade possessiva invadiu o domínio imaterial das ideias."

António Quadros
Franco-Atirador, (1970), p.134

Do mito

"O homem age inconscientemente, os seus gestos inscrevem-se em inércia, visto que o movimento real é o mito."

António Quadros
Introdução à Filosofia da História 
(1982), p. 227

Pruridos

"Nunca os teorizadores de uma filosofia portuguesa ou de uma filosofia de língua portuguesa pretenderam afirmar uma sua existência positiva com finalidades de enaltecimento nacionalista e restrictivo, e muito menos criar uma tradição filosófica para satisfação de pruridos autolátricos, castiços ou aristocráticos."

António Quadros
O Movimento do Homem
(1963), p. 317

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Do amor

"Tenhamos sobre nós a disciplina que se origina não do medo dos coronéis, mas do amor e da apetência das cavalarias que aí vêm. Se renunciarmos, o faremos, não por falta de paixão, mas porque outra mais alta nos prendeu. Aprendamos a reunir o abandono que nos descansa com o tenso esperar do momento de acção. Tratemos o nosso corpo com o cuidado amor do atleta que se prepara, e façamos dele o perfeito instrumento para que cumpramos o nosso primeiro dever: o de durar."

Agostinho da Silva
Revista «Espiral», 8/9 (dir. de António Quadros), 1965.

Religioso ou laico

"Religioso ou laico (...) que haja movimento do homem e que este não seja apenas positivo, material e técnico."

António Quadros
Jornal 57, nº 7, Novembro de 1959

domingo, 2 de setembro de 2012

Da razão social

"Não sabemos se há Deus? Não temos um critério de verdade que digira os nossos actos? Procedamos como se Deus existisse, como se o Estado fosse justo, como se a razão pura tivesse em si a garantia de uma autenticidade. Por outras palavras, e encarando o problema do ponto de vista político: como se o maior número, ou a razão social, constituíssem o selo da verdade; como se o super-homem, ou a razão da vontade, justificassem o direito pela própria virtude da vontade mais forte; como se o indivíduo, ou a razão psicológica fossem justificados em fazer prevalecer, contra o mundo, a superioridade do «ego»; ou ainda como se um futuro ou a razão histórica constituíssem critério para o drama dirigido do presente."

António Quadros
A Existência Literária (1959), p.118

domingo, 29 de julho de 2012

Dalila Pereira da Costa

"Juntei quase todos os seus livros. Leio-os reiterada e irregularmente. Imprescrutáveis, porque é o coração a ditar o fluxo vital do pensamento, o espírito a fazer sentir a possível alma, a poética como forma única de expressão do indizível. Impossível surpreendê-la. (...)"

José António Barreiros

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Completamente livre

Leonardo Coimbra
“O espaço humano começa com o pensamento dogmático, que é a religião e termina no pensamento completamente livre, que é a arte.”

Leonardo Coimbra

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Modo de ser em sociedade e no mundo

"Talvez a última palavra nos pertença, a nós, portugueses, se soubermos quem somos e para que somos, não tanto à luz de uma vontade de afirmação nacionalista quanto à de um modo de ser homem em sociedade e no mundo."

António Quadros
Portugal, Entre Ontem e Amanhã
(1976), p.309

sábado, 30 de junho de 2012

Por Deus ou contra Deus

"Como se sabe a questão da sua [de Leonardo Coimbra] "conversão" à Igreja Católica ainda hoje abre lugar a ser questão, num mundo binário em que se é por Deus ou contra Deus. É que, estando em presença de um ser tumultuoso, aquele encontro sacramental com o Padre Cruz, seu confessor, não é que pudesse ser parte de um caminho cuja trajectória viesse a alterar; é que nunca seria nele a vulgar submissão ao que muitos se vergam, a dogmas tidos por intemporais, a catecismos de discutível vigência, à pobreza da prática ritualista e suas ladainhas sem o exaltado orar da plenitude do coração. (...)"

José António Barreiros
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sexta-feira, 29 de junho de 2012

No dia da aclamação de D. João IV

"Incansavelmente, nas agruras do exílio e da miséria, D. João de Castro estuda as Trovas [de Gonçalo Annes Bandarra], interpreta-as com fina casuística, ajeita-as ao seu sonho de desesperado: o Bandarra previa não só a catástrofe, mas também a salvação. É que D. Sebastião nem morrera nem poderia ter morrido! Era o pobrezinho calabrês perseguido, naturalmente, pelos grandes da Terra, ciosos do milagre que tal sobrevivência já representava e das proezas que o «rei» teria de levar avante... É um sonho espantoso pela intensidade e pela duração, documentado pelas páginas que intensamente escreveu. (...) Com a sua morte, o sonho sebastianista de D. Sebastião propriamente dito, em sua pessoa redivivo, desvanece-se aos poucos.
Mas eis que, em 1624, Manuel Bocarro publica Anacephaleosis da Monarquia Lusitana, logo apreendida e perseguido o autor. É que, bem consideradas as coisas, o Encoberto seria, afinal, o duque D. Teodósio, da poderosa Casa de Bragança! Depois, falecido o duque, sem que tivesse havido ensejo para que se descobrisse como quem era, as trovas do Bandarra, bem interpretadas, o que anunciavam, isso sim, era o fim do domínio castelhano e a entronização do restaurador D. João IV!
Segundo assevera João Lúcio de Azevedo, então «as Trovas eram livro que em cópias manuscritas andava em mãos de toda a gente, lido, relido, decorado e discutido.» Eram como que a consagração sobrenatural dos feitos da Restauração: pois, no dia da aclamação de D. João IV, não estivera exposta na Sé, como se de um santo se tratasse, a imagem do Bandarra? (...)"

Joel Serrão
Do Sebastianismo ao Socialismo em Portugal 
(1969) pp. 15-16.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Quantos manuscritos...

"Perdi a conta de quantos manuscritos passei à máquina da sua vasta obra literária. Eram verdadeiros puzzles de letra miudinha que, com todo o empenho, reverência e admiração, decifrava. Em 25 anos de proximidade diária, quantas vezes não lembro o carinho (e inconfessado orgulho) que punha nesse contributo para uma obra tão extraordinária..."

Pilar d'Orey Roquette 
(assistente de António Quadros)

terça-feira, 26 de junho de 2012

Bruno e A Questão Religiosa

Sampaio Bruno

"(...) situo o volume de Bruno sobre A Questão Religiosa, surgido na fase amadurecida do combate iniciado em 1872, no Diário da Tarde, e prosseguido na Análise da Crença Cristã, de 1874. Homem que não dissociava o pensamento da acção, tinha no entanto a humildade e a lucidez para arrepiar caminho quando tomava consciência de ter errado, como foi o caso daquele livro juvenil – “má coisa” lhe chamou –, assim como de outras páginas, escritas sob a emoção dos acontecimentos, por quem não era o frio jornalista profissional, mas, como confessou, um sectário das suas convicções. Aliás, o ambiente social era propício ao exacerbar de atitudes, ao romper de laços, numa generalizada conflitualidade, onde era assaz difícil definir campos estáveis.
Compreende-se, assim, que, não obstante as contundentes afirmações feitas acerca da Igreja, de alguns dos seus representantes ou atitudes, José Pereira de Sampaio contasse entre os amigos vários sacerdotes de valor. Entre eles o P.e José Agostinho de Oliveira, polígrafo hoje pouco lembrado, cuja poesia mereceu os elogios do lusófilo Philéas Lebesgue e que, entre muitos outros trabalhos, redigiu os dois volumes complementares da tradução portuguesa da História de Portugal, de Henrique Schaffer, projecto acarinhado, mas não levado a cabo por Bruno. Ainda em vida do filósofo, José Agostinho publicou o primeiro estudo autónomo acerca do seu pensamento, já então definido nas suas linhas mestras. (...)"

Joaquim Domingues
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quarta-feira, 20 de junho de 2012

Aniversário

Este blogue faz hoje 5 anos.

Do ser filósofo

"Será já excelente conseguir que o ensino de filosofia a vários graus não impedisse ser filósofo a quem nasceu verdadeiramente para o ser."

José Marinho
Filosofia, ensino ou iniciação?
(1972), p.93.

terça-feira, 19 de junho de 2012

A actividade simbólica da criança

"A psicologia das pessoas é mais qualificável que quantificável. A inteligência, por exemplo, é qualitativa. Isto é um princípio que me parece fácil de deduzir (..) A inteligência que me interessa é a que aparece como uma qualidade, sentida por mim em termos de afecto e não de quantidade. Dito de outra forma: na orientação escolar, por exemplo, parece-me mais importante avaliar as funções do imaginário da criança, saber em que medida esse imaginário se liga ao concreto das experiências da escola e da vida.
Em conclusão, interessa-me mais apreciar a actividade simbólica da criança e a sua capacidade criativa, do que conhecer a sua capacidade quantificável, de aquisições teóricas."

João dos Santos
Em entrevista ao Diário de Notícias
(4-11-1984)

Ensino

João dos Santos
"Se Pascoaes pôde ultrapassar o fracasso do seu exame de português, quantos não baqueiam perante as dificuldades criadas por um sistema de ensino que se lhes não adapta?"

"Usam-se testes para determinar a memória, a atenção, a inteligência. Não se está em contacto directo com a criança. Há sempre uma barreira feita de preconceitos científicos acerca do que é a afectividade."

"O ensino não pode continuar a transformar o meio de apreciação dos resultados - que são a pontuação e a passagem de classe - no seu próprio objectivo!"

João dos Santos
(médico e psicanalista)

Reforma do ensino

"A reforma do ensino deve começar nas maternidades."

João dos Santos
(médico e psicanalista português)

Do princípio do que pensa

"Que é pois a inteligência, que é a razão, qual a estranha origem, qual a natureza, ou mais propriamente o princípio do que pensa, não enquanto ser que pensa mas equanto pensamento no que pensa?"

José Marinho
Filosofia, ensino ou iniciação? 
(1972), p.76.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

"Uma das obras mais vivas e pertinentes do pensamento crítico actual"

Taborda de Vasconcelos

"António Quadros vem (...) para A Existência Literária, menos atraído ou dominado agora pelo gosto, talvez um tanto ou quanto gratuito, da literatura e particularmente do romance que pelas determinantes duma formação cultual processando-se ao contacto dos problemas mais agudos do ambiente português dos últimos anos. Não dominado, no sentido linear do termo, mas instruído de uma teoria, de um ponto de vista filosófico-literário, ele actualiza o que antes fora puro conhecimento vivo da matéria literária, reduzida a uma época pretérita embora com irradiação futura, mas sem aquele sentido de profundidade que uma noção metafísica, digamos, hoje, lhe atribui.
Ainda que útil e benéfico, como experiência e iniciação, Modernos de Ontem e de Hoje marcam uma fase já ultrapassada. Demais, o tê-la vencido e continuado, só prova o quanto havia de potencialmente polémico na essência dialéctica dos seus ensaios. Provam-no também na gravidade pensada da linguagem que usa em Existência Literária, lógica e sincopada, amplificando, por outro lado, o da criação duma supra-realidade, o pensamento do seu autor, até às mais largar proporções humanas e gerais.
Num estilo severo e contido, dá-nos assim António Quadros uma das obras mais vivas e pertinentes do pensamento crítico actual, ao mesmo tempo que faz coincidir os vários passos do seu itinerário espiritual e artístico com a mais perfeita e acabada unidade dele mesmo."

Taborda de Vasconcelos
"Existência Literária" em Regresso à Inteligência
 Porto, 1962, pp. 105-109.

sábado, 16 de junho de 2012

Coelho Pacheco

"Na nossa troca de mail's em Novembro, alertei-te para o facto de um dos heterónimos na tua lista, C. Pacheco, ter uma neta de carne e osso, Ana Rita Palmeirim, que é actual detentora da obra literária do avô. Ou seja, o tal C. Pacheco que escrevia poemas era o mesmo José Coelho Pacheco que foi amigo de Pessoa. A teu pedido, enviei-te o artigo do JL em que Teresa Rita Lopes revelou essa informação. Qual não foi o meu espanto quando, na edição portuguesa do teu livro, vi que C. Pacheco continua a figurar como heterónimo e com a mesma caracterização que lhe tinhas dado na edição brasileira. No final, sim, acrescentas a nova informação, admitindo que "provavelmente" (!) o C. Pacheco corresponderia a José Coelho Pacheco. Mas então por que razão não o retiraste da lista?
Este é um procedimento demasiado frequente no teu livro. Vais apresentando histórias sobre Pessoa que "provavelmente" serão falsas, mas só no fim mencionas, em jeito de nota de rodapé (e, por vezes, exactamente numa nota de rodapé), o seu carácter lendário ou implausível. (...)"

Richard Zenith
Q, Diário de Notícias
16 de Junho de 2012