quarta-feira, 6 de março de 2013

Os valores do espírito


"Para [António] Quadros, o verdadeiro estudo da cultura portuguesa implica desvendar-lhe o sentido próprio, o qual só pode ser apreendido pela pesquisa dos seus mitos originários. Este sentido ele o encontra na missão de universalizar os valores do espírito. (...)"

Ana Maria Moog Rodrigues

terça-feira, 5 de março de 2013

Vida

"Abrir os olhos no meio da noite e ver a luz será a essência do conceito religioso da vida."

 António Quadros

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Quantos manuscritos...


"Perdi a conta de quantos manuscritos passei à máquina da sua vasta obra literária. Eram verdadeiros puzzles de letra miudinha que, com todo o empenho, reverência e admiração, decifrava. Em 25 anos de proximidade diária, quantas vezes não lembro o carinho (e inconfessado orgulho) que punha nesse contributo para uma obra tão extraordinária..."

Pilar d'Orey Roquette 
(assistente de António Quadros)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

“António Telmo, António Quadros e a História de Portugal”

Colóquio “António Telmo, António Quadros e a História de Portugal”, sábado, dia 23, pelas 15:00, na Biblioteca Municipal de Sesimbra. 

Participantes:
  • António Carlos Carvalho – “Mito, lenda e profecia"
  • Elísio Gala – “Pôr a demanda: História Secreta de Portugal e O Horóscopo de Portugal"
  • Pedro Martins – “Portugal, Razão e Mistério revisitado: diálogos com a Escola de Sesimbra”.

Mais informações aqui.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Obra realizada pelo subconsciente

17 de Setembro de 1946

Tenho estado a reler antigos ensaios meus. É curioso como os leio, e me parecem não ter sido escritos por mim. O consciente lê uma obra realizada pelo subconsciente e eis a causa da ilusão.

António Quadros
(diário inédito)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Colóquio António Quadros 20 anos depois | 29 de Junho de 2013 | Sesimbra

No ano em que se assinalam os 90 anos do nascimento de António Quadros e os 20 anos desde a sua morte, a Associação Cultural Círculo António Telmo organiza Sábado dia 29 de Junho na Casa do Bispo em Sesimbra o Colóquio António Quadros 20 anos depois.





PROGRAMA:

10h30 |
Uma Visão Propedêutica e Panorâmica da Obra de António Quadros  - António Quadros Ferro
Introdução a Uma Estética Existencial, livro de António Quadros - Luís Paixão
António Quadros e Sampaio Bruno - Samuel Dimas
António Quadros e Fernando Pessoa - Helder Cortes

Intervalo para almoço |

15h00 |
Memórias das Origens, Saudades do Futuro - Cynthia Guimarães Taveira
A Ideia de Pátria em António Quadros - Renato Epifânio
António Quadros e o Sebastianismo - Jesus Carlos

Intervalo |

Filosofia da Paisagem na Obra de António Quadros - Rodrigo Sobral Cunha
António Quadros, Um Missionário do Espírito Santo - Abel de Lacerda Botelho

Testemunho - Pinharanda Gomes

Local: Casa do Bispo

Mais informações: http://www.circuloantoniotelmo.wordpress.com

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Uma tradição de sentido universal

"A Capela Sistina demonstra-nos como a Renascença romanizou o cristianismo, enquanto os Jerónimos nos falam de uma tradição paraclética de sentido universal (...)"


António Quadros
A Existência Literária (1959), p 68

A razão universal

"A razão universal não é servida pelo imperialismo de uma cultura determinada (...) mas sim pelo desenvolvimento natural das culturas diferenciadas. (...)"


António Quadros
A Existência Literária (1959), p 41

A acção poética depende da concepção do ser e da existência que se possua


"Na filosofia, o tempo e a personagem são transcendidos. O pensamento especulativo  mesmo quando dá maior valor à experiência, ultrapassa o lirismo, a epopeia ou o drama, ocupado-se da própria situação de ser homem (...) Eis porque a poesia está indissoluvelmente ligada à filosofia. A lógica da potencialização ou da acção poética depende da concepção do ser e da existência que se possua."

António Quadros
A Existência Literária (1959), p 58

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

António Quadros e as relações de Portugal com Espanha



António Quadros com Natália Correia, Boaventura de Sousa Santos e Fernando Rosas, numa tertúlia dedicada às relações com Espanha. Realização de Jorge Valsassina Galveias, 1988.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Um golpe profundo


"É (...) como ensaísta, sobretudo na área da filosofia e da exegese literária, que António Quadros se distingue e ganha notoriedade, sempre de uma forma discreta mas incontornável. (...) A sua intervenção ensaísta abrange ainda as excelentes introduções que escreveu  para livros como Clepsidra e Poemas Diversos e Contos, Crónicas e Cartas Escolhidas, ambos de Camilo Pessanha, Cartas Escolhidas e Obra Poética, de Mário de Sá-Carneiro, e para várias edições da obra de Fernando Pessoa. (...) Consciente do carácter efémero e perecível das vanguardas  António Quadros foi um dos mais perspicazes estudiosos das obras de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Amadeo de Souza-Cardoso e Almada Negreiros. Com a sua morte, concorde-se ou não com as linhas mestras do seu pensamento, a cultura portuguesa sofre mais um golpe profundo."

José Jorge Letria
Jornal de Letras (1993)

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Pensar-estar


"Pensar não é uma parte de ser isolável das categorias ou acidentes da substância, isolável da estância, pensar participa também da estância. Não eu penso, logo sou; mas eu penso como sou e estou, ou como sou, estando; o meu pensar é um pensar-estar, por muito que seja um pensar, na filosofia, possuído da paixão de saber, que é paixão de ultrapassar as condições categoriais, de transcender o estar e atingir a substância, o que sub-está e daí o o que é e ultimamente O que é, o Ser sem relativo, a que os religiosos chamam Deus. Mas aos humanos só foi dado, só é porventura dado, pese à ilusão do progresso científico totalizante, um aproximar-se múltimodo, relativo, sempre distanciado, embora evolutivo, da verdade almejada. (...)"

António Quadros
A Filosofia Portuguesa, de Bruno à Geração do 57 seguido de o Brasil mental revisitado, extraído do n.º 42/43 (Julho/Dezembro 1987) da Revista Democracia e Liberdade).

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A sociedade dramática da existência

José Gomes Ferreira

"Leonardo Coimbra levou-me à Brasileira do Rossio (...) fez-me descobrir, graças à sua eloquência de lágrimas nos olhos, a sociedade dramática da existência. Mas teve acima de tudo esta extraordinária virtude pedagógica: a de me ensinar o contrário do que pretendia, confiando talvez demais na sedução espectacular do seu verbo entusiástico e persuasivo. Mas o destino arma-as e eu, já aos 20 anos, chegara a conclusões totalmente diversas das dele. Quer dizer: ensinou-me a ser livre. E é, no fim de contas, este gosto a liberdade, em mim sempre ligado à ideia do Liceu Gil Vicente, que mo torna tão grato e tão querido."

José Gomes Ferreira 
Boletim dos Antigos Alunos do Liceu Gil Vicente

Um poema de Luís Amaro

Aprendizagem

a António Quadros 
e Azinhal Abelho


Da morte quero conhecer o sentido profundo,
para melhor compreender
a vida que me deram
e o mundo.

Palpar a morte, ouvir
sua mensagem secreta, inviolável...
Com ela estremecer,
cheio de pavor e amor!

Um morto quero ver
a diluir-se em nada,
a libertar-se do nada
que foi no mundo...

A morte, sim, pretendo conhecer,
e com ela vibrar
e com ela chorar
flageladoras e reveladoras lágrimas...

- Para depois melhor poder viver
e aceitar então, sereno e calmo,
aquilo que o destino me trouxer.

Luís Amaro
Diário Íntimo | Dádivas e Outros Poemas
(Editora Licorne, 2011)

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

"Viajar em auto é correr mundo a cavalo num relâmpago.", Teixeira de Pascoaes

Teixeira de Pascoaes

Via Associação Amarante Automóveis Antigos,  aqui.

Teixeira de Pascoaes com Frederico e Guilherme Pereira de Carvalho

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A Capital, 12 de Novembro de 1915

A Capital, 12 de Novembro 1915

Inesgotável

"A filosofia mostra-nos que seria absurdo acreditar que um dia esgotaremos o que é pensável, o que pode ser feito e formado, da mesma maneira que seria absurdo colocar limites ao poder de formação que jaz sempre na imaginação psíquica e no imaginário colectivo sócio-histórico."

Cornelius Castoriadis
"En mal de culture", Esprit (Outubro  de 1984) 
publicado em  "A ascenção  da insignificância" , Editorial Bizâncio (2012), p. 229.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Lembra um Sá-Carneiro que escrevesse romances...



"Romance de inspiração surrealista, mas muito mais "lógico" do que outros livros do autor, em que, (...) Ruben A. mostra a cisão natural da alma humana, dividida entre personalidade que por vezes se afrontam.  Lembra um Sá-Carneiro que escrevesse romances."

António Quadros
(fichas de leitura para o departamento de aquisições da Fundação Calouste Gulbenkian)

O predominante do legado

"O predominante do legado de António Quadros é a leitura filosófica da literatura portuguesa, género em que se encontrou sozinho, por não haver mais ninguém orientado para idêntico método."

Pinharanda Gomes
"António Quadros e a existência literária portuguesa" em
 Revista Colóquio/Letras. In Memoriam, n.º 131, Jan. 1994, p. 197-198.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Os dois Portugais

"O trágico equívoco português foi a cisão dos elementos tradicionais e dos elementos dinâmicos na sua personalidade, cisão a partir da qual surgiram os dois Portugais, distintos e nenhum verdadeiro."



António Quadros
"A Arte de Continuar Português" em Portugal a terra e o homem: antologia de textos de escritores do séc. XX por David Mourão-Ferreira e Maria Alzira Seixo, Fundação Calouste Gulbenkian, 1980. Disponível aqui.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

"Viagens, História e Poesia em Livros para Crianças"


"Talvez por ser filho de uma das escritoras portuguesas que com maior talento, vocação e imaginação cultivaram o género, Fernanda de Castro, há muito que me interessa ou mesmo apaixona toda a problemática da literatura oral e escrita para crianças. (...) Tinha 5 anos quando Almada Negreiros fez para mim uma aguarela com um grande cavalo de circo pintalgado e com uma bela acrobata, que me acompanhou durante toda a vida e que continuo a ter em minha casa, todos os dias debaixo dos olhos. (...)"

 António Quadros 
Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas, Boletim Cultural
VI Série, Nº 4, Março de 1985, disponível aqui.

Ferrer-Correia, Orlando Vitorino e Robert Gulbenkian

António de Arruda Ferrer-Correia, Orlando Vitorino e Robert Gulbenkian no 25º aniversário do Serviço de Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian. Fonte: Boletim Informatvo da FCG VI Série, nº 4, Março de 1985.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Filosofia Portuguesa?

"Sei que apesar da estranheza do que me era dado a ler, e sem compreender em profundidade muito do que estava a ler, eu admirava a convicção das ideias, a amplitude das referências, a densidade dos argumentos. Exclamando pouco depois a minha admiração entre gente que eu acreditava mais sábia em virtude das letras das canções que dedicavam à democracia, logo ali mesmo me calaram com o argumento de aquele era discurso desprezável. Filosofia Portuguesa, diziam, acrescentando a deseronra do seu esoterismo e até a sua associação à ditadura. Engoli envergonhado a crítica feroz aos meus gostos desviantes, sufoquei a leitura de António Quadros e tentei manter-me na linha ideológica correcta. Mas aquele episódio veio inevitavelmente à memória quando alguns anos mais tarde, amadurecido pelo erlebnis da História portuguesa, acabei finalmente por reconhecer que se à direita a coisa continuava a enrufar-me, à esquerda a vida intelectual estava afinal pontilhada de ignorantes compulsivos. A vida e a academia fizeram-me entretanto crítico literário e ensaísta. Voltei à leitura de António Quadros, e em 1989 deparei com uma das mais perspicazes abordagens da literatura de que eu tantas vezes falava sem conhecer alguma da sua natureza mais subsistente. Intitula-se A Ideia de Portugal na Literatura Portuguesa dos últimos 100 anos. (...)"

Manuel Frias Martins
 António Quadros,18 anos depois 
Fundação António Quadros (2011)

«Reflexão à Margem da Literatura Vieirina» | Rui Lopo

Padre António Vieira

"António Quadros é um dos intérpretes da nossa cultura que mais pautou o seu labor por uma fixação esquemática de autores e correntes de acordo com categorias que lhes são exteriores, em esquemas determinantes e integradores, isto é: genealogias e linhagens. Assim, segundo o autor de Introdução à Filosofia da História, o providencialismo é a grande tradição de interpretação da história portuguesa, radicada em Paulo Orósio. Quadros detecta-a não só nas filosofias da história de nítido recorte teológico e de assumida radicação providencial, augustiniana e orosiana, mas também nos modos de pensar que classifica como afirmativamente imanentistas, onde se inscreveriam diversos modos de pensar a história portuguesa de tipo igualmente teleológico, como que laicizando as escatologias e as teleologias providenciais. (...) Para Quadros, o problema de Vieira não é a assunção de uma escatologia, de um providencialismo, ou de uma teleologia lusocêntrica, a questão é perspectivar o Quinto Império não como uma verdade revelada mas como uma verdade fáctica, evidente e subsistente: uma verdade em si mesma fundada. 

Confundiu Vieira o possível com o provável, o tempo real com o ideal, a realidade com o seu eschaton ou fim último, o profético com o divino. A sua admirável retórica, a sua prosa riquíssima onde surgem aliás numerosos acertos e profundas intuições implica uma sofística que não podemos ocultar. (António Quadros, Introdução à Filosofia da História, Lisboa, Ed. Verbo, 1982)

Quadros remete para a liberdade divina e para a liberdade humana como instâncias que deverão relativizar a pretensão humana a conhecer e racionalizar o exacto conteúdo dos tempos futuros, preservando todavia o profetismo, o providencialismo e o pensamento de tipo teleológico e mesmo lusocêntrico. Aliás, a crítica que Quadros faz a Vieira é o preço a pagar pela manutenção do seu estatuto como profeta e arauto do Quinto Império e da necessária mediação de Portugal para o advento do Reino de Cristo na Terra Consumado. 

Rui Lopo
Texto apresentado no Congresso internacional 
Padre António Vieira. Ver, Ouvir, Falar: O Grande Teatro do Mundo
18-21 Novembro 2008, Lisboa, disponível também aqui.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Terra-pátria

"O nosso mito é o da fraternidade humana que vai buscar a sua raiz à nossa terra-pátria."

Cornelius Castoriadis

domingo, 2 de dezembro de 2012

Ardentes e sinceros

"Sejamos todos nós, escritores e artistas, ardentes e sinceros missionários da verdade mais vitalmente profunda que soubermos conquistar pela beleza das palavras e das imagens."

António Quadros
A Existência Literária (1959), p. 36.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Fidelidade essencial

"Quando Fernando Pessoa identifica a pátria com a língua e não a língua com a pátria está proclamando a sua fidelidade essencial ao espírito, e não às manifestações mais terrenas e contingentes que são as nações e as sociedades." 

 António Quadros

E se pulássemos?

Sampaio Bruno

"E se pulássemos, caro amigo? Sossegue; coisa pouca. De ocidente a oriente; de este a oeste, como quem dissera de norte a sul, de polo a polo, de nadir a zenit. Mas, em espírito, entende-se. Outramente não o consentem nem a majestade da sua pança nem o respeito pela assistência, que nos contempla, escarninha. Mas é que, havendo-lhe falado do novelista espanhol Galdós, cuido que por um processo natural me acudiu ao espírito o nome do romancista russo Dostoiewsky (...) Qual o motivo desta evocação do russo? Que afinidades ao ibero prendem o salvo? Pensando nisto, après coup, julgo que foi a vibração actual de uma releitura a que volvi com íntimo sobressalto. É um absurdo de talento que pertence ao livro [«Esfinge e Realidade» de Benito Pérez Galdós], que excede o poder da atenção, direi de compreensividade, das turbas aglutinadas em banquetes de espectáculo. (...) Composição estranha! Agita-a um bafo morno de loucura raciocionante."

Sampaio Bruno
Notas do Exílio, (1893), pp.45-48

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Decomposição e Renascença

"A metáfora bíblica do rebanho assenta bem num povo cujas melhores virtualidades se guardam ainda no ambiente rural, que até em muitas cidades subsiste, quase ignorado. Nem sempre houve esta dicotomia entre o citadino e o rústico, mesmo em Lisboa, cujos bairros mal disfarçavam as origens campesinas dos vizinhos. Compreende-se, por isso, que a Restauração de 1640 se tivesse travado entre Vila Viçosa e a capital, pólos complementares de um País unido no mesmo impulso libertador. (...)"

Joaquim Domingues
«Decomposição e Renascença»,
Diário do Minho, republicado aqui.

Razão pura


"A possessão da natureza só ficará plenamente justificada, só se tornará inteiramente possível e só atingirá a finalidade que, por intermédio da ciência, se propôs e nos nossos dias parece já ter alcançado, quando a natureza se afigurar ao homem como mundo de ilusão e da fábula, mundo portanto sem realidade, sem essência nem necessária existência, mundo de formas e corpos que, em si inertes e sem vida, são movidos por forças que em si próprios não contêm mas lhe são alheias e extrínsecas e não neles, mas só no pensamento abstracto ou do que chegará a chamar-se «razão pura», revelam seu segredo. (...)"

Orlando Vitorino
Refutação da Filosofia Triunfante, (1976) pp. 63-64

Teoremas de Filosofia



"Ninguém está preparado para aceitar o absurdo."

Afonso Botelho
O Toiro Celeste Passou (1963), p.44

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Regresso de Fernando Pessoa


"[Fernando Pessoa] toma a decisão da sua vida: regressar a Portugal, de onde partira com 8 anos, deixando a mãe, o padrasto e os irmãos na África do Sul e arriscando-se a viver num meio que lhe é praticamente desconhecido. Assim, em Agosto de 1905, com 17 anos, parte para Lisboa, para se matricular no Curso Superior de Letras. Quais os motivos desta decisão, que deve ter sido dramática para um homem da sua sensibilidade? Não será difícil conhecê-los e compreendê-los. Sozinho com a mãe, depois do desaparecimento do pai e do irmão, sobre ela terá projectado toda a sua afecticidade e dela ao mesmo tempo terá recebido o amor exclusivo que as suas carências infantis exigiam. Mas o segundo casamento, a mudança súbita de vida, a difícil integração num novo lar que não terá sentido como inteiramente seu, o nascimento, um a um, dos irmãos, que decerto mobilizaram a maior parte da atenção, do carinho e até do tempo da sua mãe, também partilhados com o padrasto, que tomava o lugar do pai, tê-lo-ão acossado à solitude e à mágoa insatisfeita de que dá testemunho a sua poesia do Cancioneiro. (...) Uma das grandes linhas de força da personalidade e da obra de Fernando Pessoa, o sentimento patriótico, mergulha efectivamente as suas raízes emotivas nessa múltipla saudade: saudade do pai, saudade do lar e da família em que "ninguém estava morto", saudade da Pátria onde fora feliz, onde ficara o Pai e com o Pai se lhe identificaria pouco a pouco a sensibilidade, na imaginação, na memória inconsciente. (...)" 

 António Quadros 
Bruxelas, Junho de 1989

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Daquilo que dizemos

“Não é a língua que é a pátria, mas sim aquilo que dizemos”.

 Jorge Semprúm 
 A Escrita ou a Vida (ASA,1995)