domingo, 8 de setembro de 2013

Exílio dourado

Imagem: «Fantasia Lusitana» | João Canijo | 2010

"Otília Martins, no seu interessante estudo «Lisbonne, 1940: sur la Route de l'Exile», elenca também todos os reconhecidos nomes da vida cultural mundial que passaram pela capital portuguesa. E lembra também um outro caso de suicídio, o de Alexander Alekhine no seu quarto do Hotel Palácio, mais um dos dramas que ensombraram o paraíso artificial que Portugal representava em tempo de guerra. Nesse artigo vemos também sublinhada a divisão entre os exilados em Lisboa, na maior parte dos casos sem condições, empobrecidos e saudosos das grandes fortunas que deixaram os seus países de origem, e os exilados de Estoril e Cascais, que viveram o chamado «exílio dourado». (...) Assim, funcionando Lisboa como porto e porta de saída para os outros países europeus, ficava também na memória dos que por cá passaram como uma lembrança de um país algo alienado do resto do mundo. Isolado, como todos os oásis têm de ser, e fechado como os abrigos devem ser, acabava por não sentir a evolução dos tempos, por negar quase esquizofrenicamente o levantamento do «gigante» americano e, consequentemente, toda a panóplia de produtos culturais que este oferecia ao resto do mundo. (...)"

Rosa Fina 
Pearlbooks (2013) pp. 44-45

sábado, 7 de setembro de 2013

A segunda juventude de Mircea Eliade

Mircea Eliade
"Quando se mudou para Paris e, mais tarde, quando foi dar aulas para Chicago, Mircea conheceu a fase mais fértil da sua carreira. Ao falar desse renascimento das cinzas, é quase impossível não se estabelecer pequenos paralelos com o conto «Uma Segunda Juventude». Mesmo uma leitura ingénua deste conto anuncia traços autobiográficos de Eliade. Por conseguinte, ao analisarmos o seu percurso biográfico, vemos que a fase que mais se assemelhou a uma «segunda juventude» na sua vida terá decorrido depois da sua estada em Portugal, falecida Nina, o seu grande amor, esquecido o desejo de voltar à Roménia, ultrapassada uma das piores depressões que sofreu na vida, Mircea parte à descoberta do mundo com uma nova energia e preparado para se tornar no grande intelectual a nível mundial em que indiscutivelmente se tornou. Num olhar mais próximo, nada mais na sua vida se aproxima tanto da narrativa deste conto como este episódio. Inclusive o facto de encontrar a reencarnação da mulher que na vida anterior terá amado, da mesma forma que encontrou, na realidade, a sua segunda mulher, Christinel, com que se terá mantido casado até à sua morte. (...)"

Rosa Fina
Pearlbooks (2013) pp. 71-72

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

«Mircea Eliade em Portugal (1941-1945)» | Rosa Fina | 2013



Rosa Fina já tinha apresentado a dissertação. Agora (em Abril) saiu o livro numa edição da Pearlbooks. Do índice, destacamos, naturalmente, a correspondência de Eliade com António Ferro, Fernanda de Castro e António Quadros (em anexo) mas esta é apenas uma ínfima parte de um intenso trabalho de investigação sobre a experiência portuguesa de Mircea Eliade que narra, entre outros episódios marcantes, a morte em 1944 de Nina Mares, esposa do escritor romeno.

Como conta Rosa Fina, Eliade "entrega-se à depressão e conhece as maravilhas produtivas do celibato", entenda-se, saídas noturnas, orgias, "fraquezas do espírito que o desviam do caminho que então deseja seguir."

A autora procurou e conseguiu "oferecer um roteiro interpretativo da presença de Mircea Eliade em Portugal", mas soube fazer ainda mais: arrumar um pouco melhor a biografia deste escritor. Se isto não for suficiente resta-me ressaltar o facto de estarmos perante um livro sem maneirismos, claro e muitíssimo bem escrito.

"Apesar da morte de Nina, apesar da sua crise de produtividade (...), apesar de assistir ao sofrimento da sua querida Roménia no outro extremo da Europa, Eliade olha para todas essas experiências, mais tarde, como uma iniciação. Um abismo negro que teve de atravessar para ser possível tornar-se no homem que se tornou depois. Eliade experimentou uma depressão profunda quando viveu em Portugal (...) mas outras razões menos fatais terão contribuído para agudizar o que chegou a ser uma doença clínica. (...)" p.71.

Rosa Fina
«Mircea Eliade em Portugal (1941-1945)»
Pearlbooks (2013)

terça-feira, 3 de setembro de 2013

"a palavra «itinerante» soava mal"


"Contra ventos e marés, em Dezembro de 1961, saí da RTP, onde tinha o chamado «lugar de futuro» e fui para a Fundação Calouste Gulbenkian, encarregar-me de uma biblioteca itinerante – a palavra «itinerante» soava mal e, na perspectiva da família, abandonara um «lugar de futuro» para ir para uma espécie de trabalho de saltimbanco. Tinha 24 anos, casara meses antes, o primeiro filho (uma filha) vinha a caminho e todas estas circunstâncias agravavam a opinião que faziam da minha decisão. Só a minha mulher me apoiou. (...)"

Carlos Loures
Texto completo aqui

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

António Ferro

"Se conseguirmos resolver os aparentes paradoxos do seu pensamento e da sua acção (...) depressa compreenderemos que nele e por ele se realizou uma rara alquimia: foi um homem que assumiu inteiramente, até ao absoluto, a representação do seu tempo ou da sua época; foi um homem que, simultaneamente, assumiu a representação do seu espaço ou da sua pátria. (...)"

 António Quadros 
António Ferro, Panorama (1963), p. 8

segunda-feira, 29 de julho de 2013

"A polémica da bandeira"


Guerra Junqueiro e Sampaio Bruno à esq. Partido Republicano à direita
1911 (postal)

Sampaio Bruno por Francisco Valença


Francisco Valença
Varões Assinalados, Fevereiro de 1910

Sampaio Bruno por Abel Salazar


Abel Salazar
O Risco, 20 de Setembro de 1908

Leonardo Coimbra por Dias de Oliveira


Dias de Oliveira 
Caricaturas de figuras da República
(s.d)

Leonardo Coimbra, Sílvia Cardoso, Abel Salazar e António Ferro

A Rua, 4 de Janeiro de 1979
"Tenho-me interrogado - quantas vezes - sobre o estranho destino em que se cumpriu a vida de uma das mais gulgurantes inteligências do Portugal contemporâneo: Leonardo Coimbra. (...)"

Armândio César
Texto completo aqui.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

As árvores são sombras das raízes

De um novo continente

As árvores são sombras das raízes
E os homens são sombras de outras raízes
Mais fundas. Assim, dentro de mim,
Uma sombra cobre todas as luzes e todos os sons
Velando a minha alegria intacta e longínqua
E prometendo o paraíso perdido mas não esquecido.
Imagino o meu céu nos meus limites
E o céu dos outros ainda nos meus limites.
As minhas mãos atravessam o universo misterioso
E tocam as ignotas fontes da poesia e da vida.
O meu olhar, porém, fica comigo e chora
Esse amor de lágrimas e tristezas
Onde, como solitária ilha de coral,
A minha existência espera o nascimento de um novo continente.

António Quadros
edição de Ana Hatherly, Lisboa, Direcção-Geral do Ensino Primário, 1960, p. 72.

Centro

"A deficiência, por vezes radical, de apetrechamento antropológico e filosófico nos historiadores, é uma das causas da facilidade com que se entregam a diversos tipos de apologética, com os seus respectivos sistemas sofísticos. A sua metodologia também começa, consequentemente, não pelo centro, mas por pontos periféricos que não poucas vezes ignoram o próprio centro – o homem íntegro e profundo. (...)" 

António Quadros
«Introdução à Filosofia da História» (1982)

terça-feira, 16 de julho de 2013

Cultura e Filosofia

“A cultura estabelecida parece minorar a filosofia. Ainda bem. Importa que a filosofia viva à margem. Dentro do 'establishment', a filosofia corre o risco de morrer asfixiada. Em derradeira instância, os filósofos precisam da filosofia, mas a filosofia passa muito bem sem os filósofos e, melhor ainda, sem os professores dela”. 
Pinharanda Gomes
Jornal Expresso, Janeiro de 2004
Via Grupo de Investigação de Pensamento Português (Universidade de Lisboa)

sexta-feira, 12 de julho de 2013

"O Milagre da Quinta Amarela - História da Primeira Faculdade de Letras da Universidade do Porto (1919-1931)"


A Quinta Amarela, no Porto, acolheu a primeira faculdade de Letras da U.Porto, durante grande parte da sua curta mas produtiva existência, de 1919 a 1931. Aludindo ao prodígio de se produzir uma enorme riqueza intelectual em pouco mais de dez anos, em condições precárias e no meio de inúmeras e acesas críticas, Pedro Baptista intitulou o livro que dedica à história da instituição de "O Milagre da Quinta Amarela - História da Primeira Faculdade de Letras da Universidade do Porto (1919-1931)". 

Mais informações aqui.

terça-feira, 9 de julho de 2013

O problema da educação nacional (1925)

Agora disponível aqui.

"A grande Arte é a revelação das reacções íntimas do homem às grandes linhas da realidade, e, sendo tantas vezes acção catártica, é-o ainda, porque expõe e mostra a verdade."

Leonardo Coimbra

sábado, 29 de junho de 2013

Recordar António Quadros | Amanhã em Sesimbra

O evento, que assinala o 20.º aniversário da morte de António Quadros terá lugar na Casa do Bispo, amanhã, sábado, a partir das 10:30, prolongando-se até ao final da tarde.

Programa:

Às 10:30
 Leitura de um depoimento de António Quadros Ferro
 Luís Paixão – “O livro Introdução a uma estética existencial, de António Quadros”
 Samuel Dimas – “António Quadros e Sampaio Bruno”
 Helder Cortes – “António Quadros e Fernando Pessoa”

Intervalo para almoço 

 Às 15:00 António Carlos Carvalho – “Deus e os Homens – Interrogação à História”
 José Almeida – «Valete Frates!»: Da Ordem do Templo à Ordem de Cristo
 Renato Epifânio – “A ideia de Pátria em António Quadros”
 Rui Lopo – “António Quadros: Crítica, Teoria ou Filosofia da Literatura?”

Intervalo 

 Rodrigo Sobral Cunha – “Filosofia da Paisagem na obra de António Quadros”
 Abel de Lacerda Botelho – “António Quadros, um missionário do Espírito Santo”
 Pinharanda Gomes – “Testemunho”

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Vivo demasiado no "mundo" e não tenho a força para dele me retirar

"Quanto aos meus livros agradeço-lhe as suas palavras tão incitantes e compreensivas. Bem sei que a sua generosidade franciscana nunca está em falta mas mesmo assim fazem-me bem incitamentos como o seu, até porque muito poucos estímulos recebo: uns querem-me "mais filosófico"; outros chamam-me "demasiadamente filosofante". Ambas as exigências estarão certas do ponto de vista de exigência filosófica e literária, mas eu não posso deixar de ser como sou e quem sou. Sei que os meus livros têm grandes limitações porque me insiro numa "terra de ninguém" que não é bem filosofia e não é bem a da literatura, e isto deve-se talvez à minha excessiva dispersividade, filha talvez de múltiplas solicitações do meu espírito: filosofia, religião, arte, literatura, criação literária, acção... que hei-de fazer? Vivo demasiado no "mundo" e não tenho a força para dele me retirar por uma disciplina, dedicando-me exaustivamente a uma única via... e vou seguindo várias vias, sem talvez nenhuma aprofundar! Esta dispersividade é, temo-o, um sintoma de preguiça mental. E como tomo consciência destes obstáculos, ao menos dedico-me a valorizar os outros, os que não fracassam no seu caminho incansavelmente percorrido. E aqui está uma explicação psicológica da minha adesão à tese da filosofia portuguesa....
Conseguirei algum dia ter sossego, a calma e o silêncio para uma obra de lenta e segura maturação? Não sei. (...)"

António Quadros
em carta a João Ferreira
Lisboa, 30 de Março de 1967

terça-feira, 4 de junho de 2013

"Andei por muitas escolas (...) e tive a impressão que me andavam a enganar."

A Escola da Ponte é uma instituição de ensino público localizada na cidade do Porto. Não há salas de aula, não há turmas, nem director, nem portão.

terça-feira, 28 de maio de 2013

O 3° livro de uma grande obra incompleta

O terceiro volume do livro  "Portugal, Razão e Mistério" ficou incompleto. António Quadros nunca o conseguiu escrever. Está disperso por várias páginas dactilografadas. É um puzzle pequeno, mas muito difícil de reconstruir. Parte da obra foi, no entanto, imaginada. Seria sobre os mestres Álvaro Ribeiro, José Marinho e sobre todos os amigos da Filosofia Portuguesa a quem queria prestar um último tributo. No que diz respeito ao título, é muito provável que se viesse a chamar "Saudade da Pátria Prometida". Outros nomes foram rasurados e muitas muitas páginas foram rasgadas. António Quadros já estava doente e apesar de ter muitas ideias para o livro nunca o conseguiu compôr mentalmente para uma grande obra. Viveu aliás com esse fantasma durante vários anos. Tinha receio que o terceiro volume não correspondesse à qualidade dos anteriores. Em cartas que enviou na época partilha tudo isto. O tão esperado terceiro livro, pode ser desenhado mais pelo que projectou, do que pelo que efectivamente António Quadros redigiu.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Nunca encerrado

"Quem conheceu António Quadros sabe bem a singularidade da sua atitude – de um homem de verdadeiro diálogo, nunca encerrado sobre qualquer posição de superioridade ou de certeza. E se, para entendermos o pensamento, precisamos de conhecer os pensadores, a verdade é que o humanismo e a proximidade eram características que o tornavam alguém para quem o ato de pensar tinha a ver com a necessidade de nos compreendermos e aproximar-nos mutuamente. (...)"

Guilherme d'Oliveira Martins
Texto completo aqui.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Pentecostes

"Para a cultura portuguesa a festa do Pentecostes tem uma importância especial. As celebrações do Espírito Santo são um sinal do «humanismo universalista», de que falou Jaime Cortesão, e devem ser recordadas como uma exigência de esperança, de liberdade e de igualdade. A coroação de quem não tem poder, uma criança normalmente, a abertura dos Impérios do Espírito Santo e a vivência comunitária de uma refeição de que todos são beneficiários sem exceção (desde a sopa do Espírito Santo à massa sovada, passando pela alcatra e todas as iguarias) são a prefiguração de um tempo de reconciliação e de paz, a que nenhuma sociedade ou pessoa pode renunciar. (...) 
Como lembrou António Quadros, «há uma poderosa relação desta cerimónia com o Sermão da Montanha» e acrescentava: «o Império do Espírito Santo será também aquele em que nada do que é espiritual, nas sete partes do mundo e ao longo dos milénios, poderá perder-se. Não será um Império por amputação, mas um Império por acréscimo: acréscimo do Espírito de Verdade em todos e cada um dos modos de diálogo do humano com o divino, e de valorização do humano na sua dimensão integral». Essa era, aliás, para o Padre António Vieira a verdadeira «chave dos profetas», não confundível com um projeto político ou de conjuntura, mas como uma aspiração universalista de paz e de justiça. (...)" 

Guilherme de Oliveira Martins
"Pentecostes", 19 de Fevereiro de 2013, publicado aqui.

domingo, 19 de maio de 2013

Em tempos como estes

"A cultura é normalmente relegada para segundo plano numa imprensa que hoje abusa da crise económico-financeira, das tricas políticas e das frivolidades sociais. Assim, infelizmente, há notícias que passam ao lado do grande público. A celebração de um dos grandes vultos da cultura nacional contemporânea não deve ser algo relegado para um punhado de académicos. Pelo contrário, merece a nossa maior atenção enquanto portugueses que se preocupam com o destino da Pátria. (...) Em tempos como estes, de grande indecisão e ausência de referências, fazem-nos falta pensadores deste calibre. (...)"
Duarte Branquinho 
Editorial da edição de «O Diabo» de 2 de Abril de 2013.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

A improbabilidade tornou-se facto

"António Quadros frutificará, germinando a semente que deixou. A improbabilidade tornou-se facto. (...)" 

José António Barreiros
Testemunho apresentado no âmbito do 
Colóquio Internacional António Quadros (Maio de 2013)
Pode ser lido aqui.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Não obstante

"Não obstante, estamos em crer que António Quadros, íntima e paradoxalmente, sabia que a especulação filosófica, no que tem de verdadeiramente criador e imprevisível, não nasce em institutos de cultura nem, muito menos, se pauta por artigos de revistas eruditas e universitárias, ou até mesmo se limita a roteiros bibliográficos ou a trabalhos especializados de divulgação, crítica ou comentário do pensamento alheio. (...)."
Miguel Bruno Duarte
Blogue Liceu Aristotélico, (20 de Abril de 2013) publicado aqui.

sábado, 27 de abril de 2013

Do Existencialismo à Filosofia Portuguesa

"Resta-nos estabelecer essa outra relação que de princípio esboçámos - a saber, se laços há, na realidade, entre o existencialismo e o problema das filosofias nacionais (...)"

António Quadros
em Sartre e o Existencialismo de Ismael Quiles, Arcádia ( 1959), p. 23.

Concreta experiência

"A filosofia não dispensa a concreta experiência individual como canalizadora da cultura herdada. (...)"

António Quadros
em Sartre e o Existencialismo de Ismael Quiles, Arcádia ( 1959), p. 23.