segunda-feira, 17 de março de 2014

Correspondência entre António Telmo e António Quadros

"Entre 1986 e 1987, António Quadros publica os dois volumes de Portugal Razão e Mistério, obra que motiva o maior número de cartas trocadas entre os dois pensadores. Depois do primeiro livro, no dia 31 de Maio de 1986, António Telmo, coloca António Quadros ao lado de Álvaro Ribeiro e José Marinho, como um dos mais importantes pensadores portugueses do século XX. Apesar disto, revela a frustração pelo pouco eco que a filosofia portuguesa tem em Portugal, mesmo aquela que é protagonizada pelos seus melhores intérpretes. Conta ainda que, José Marinho, pouco antes de morrer dissera que Se tiver de voltar de novo à vida, peço a Deus para não nascer português. É um povo de vesânicos. Houvesse o Álvaro Ribeiro nascido na França, na Alemanha, na Inglaterra e seria hoje admirado como o maior filósofo da actualidade. (...)"

Correspondência entre António Telmo e António Quadros
o neto, no 21º aniversiário da morte de António Quadros

domingo, 16 de março de 2014

Pensando bem, não era infeliz


"Você ainda é novo e creio que essa vida lhe agradaria. Disse que sim, mas que, no fundo, me era indiferente. Perguntou-me depois se eu não gostava de uma mudança de vida. Respondi que nunca se muda de vida, que em todos os casos as vidas se equivaliam e que a minha aqui, não me desagradava. Mostrou um ar descontente, disse que eu respondia sempre à margem das questões e que não tinha ambição, o que, para os negócios era desastroso. Voltei para o meu trabalho. Teria preferido não o descontentar, mas não vejo razão alguma para modificar a minha vida. Pensando bem, não era infeliz. Quando era estudante, alimentara muitas ambições desse género. Mas, quando abandonei os estudos, compreendi muito depressa que essas coisas não tinham verdadeira importância. (...)"
Albert Camus
O Estrangeiro, trad. de António Quadros

quinta-feira, 13 de março de 2014

António Quadros e Edwin Honig

Edwin Honig

"Volto a António Quadros para contar uma história dele que teve belas repercussões, independentemente de ele ser direita ou esquerda. Ou de eu gostar da leitura nacionalista que ele faz de de Pessoa. Um dia, na praia de Sesimbra, um americano estava estendido na areia ao lado de um casal português. O homem lia um livro. O americano, curioso e intrigado, meteu conversa. Que livro era aquele? Era de um tal Fernando Pessoa. E o leitor, António Quadros. Conversa puxa conversa, o americano, que nunca ouvira falar de Pessoa, ficou cativado e quis saber e ler mais e mais. Sabia espanhol muito bem. Era autor de traduções, muito conhecidas nos EUA, de Cervantes, Calderón de la Barca, F. Garcia de Lorca e Lope de Vega. Chamava-se Edwin Honig. Era também poeta e professor no Departamento de Inglês da Brown, colega do George Monteiro. O encontro levou Honig a interessar-se por Pessoa e, mais tarde, a ser o primeiro tradutor de Pessoa para inglês, em 1971. Vários anos depois, foi ele que me cedeu a sua correspondência com Thomas Merton, sim, o monge trapista que líamos nos anos 60 no Seminário de Angra (A Montanha dos Sete Patamares, em edição brasileira comprada no Sargento Ferreira, ao Alto das Covas). Merton traduziu poemas de Caeiro ( "O Guardador de Rebanhos), a pedido de Suzuki, o introdutor de Zen no Ocidente. A história ainda mete o poeta Octávio Paz, amigo de Honig. Mas isso tudo eu já contei num artigo - "Sobre a mundividência Zen de Pessoa-Caeiro", publicado na Nova Renascença, do saudoso José Augusto Seabra (estórias dele para outra ocasião) e que integrei no meu livro Pessoa, Portugal e o Futuro, a sair na Gradiva e que por isso não vale a pena repetir aqui.
E tudo isto por causa de um meramente casual encontro de duas pessoas deitadas ao sol numa praia de Sesimbra. (...)"
Onésimo Teotónio Almeida
(de um livro ainda inédito) 

quarta-feira, 5 de março de 2014

Era ainda o sentimento da nossa própria importância

António Telmo

"O grupo de filosofia portuguesa reunia-se nesse tempo na Brasileira do Rossio, hoje, como a maioria dos cafés, transformada em banco. Vale a pena descrevê-la, uma vez que muitos leitores já não puderam conhecê-la. É hoje em mim uma impressão de duas colunas de mármore castanho e brilhante da Arrábida numa casa comprida, escura e cheia do fumo dos cigarros. De um e de outro lado, espelhos paralelos multiplicavam as suas imagens até ao infinito. Supúnhamos ser uma antiga loja maçónica e os mais novos, na sua fantasia de adolescentes, viam no facto de ali ser o lugar de reunião da filosofia portuguesa uma escolha intencional dos mais velhos. 
Constava que Álvaro Ribeiro era maçon. Para nós, a Maçonaria que, mais tarde, viria a patentear-se-nos como uma organização política de práticas e fins medíocres, era um lugar misterioso do espírito, que continha, envolvida de grande segredo, o ensinamento primeiro e último. Esta falsa noção actuava como um catalisador. Não seria, pois, possível atingir o verdadeiro conhecimento através dos livros e da reflexão própria. Eu não aprendera ainda a separar o homem social do homem real, sobretudo ou muito menos naqueles com quem privava diariamente. Conhecemos uma pessoa por um nome que nada nos diz na medida em que serve apenas para a determinar na multidão indefinida das outras pessoas; ligamo-la a uma família, a uma profissão, a um meio social; atribuímos-lhe mais ou menos valor; relacionamo-la principalmente connosco, com os nossos interesses, prezando-a ou desprezando-a conforme actua em relação ao sentimento que vivemos da nossa própria importância. 
Era ainda o sentimento da nossa própria importância que funcionava na criação de um falso mistério à volta da pessoa de Álvaro Ribeiro. A possibilidade de virmos a ser iniciados na Maçonaria através dele tornara-o prestigioso e prodigioso a nossos olhos. Púnhamos assim véus sobre véus a esconder o verdadeiro mistério que é o do ser singular, tal como é em si, na relação vivente com a insondável origem donde todos os seres provêm e perdíamos assim a possibilidade de nos conhecermos, perscrutando-nos, na mesma insondável relação. Todavia, eu gostava de subir o Chiado lentamente, porque era um espanto a singularidade de cada rosto, olhado numa espécie instintiva de dupla atenção. Todos aqueles rostos, um a um, sobretudo os olhos, emergiam repentinamente do desconhecido que me habitava. (...)"

António Telmo
Na casa de meu pai, éramos três irmãos (inédito)
 Texto completo aqui.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Quadrilhas de burlões


"Nada me satisfaz mais na vida do que presenciar cenas em que o espírito de intrujice se manifesta com toda a sua regularidade. Aldrabões de feira com cobras ao pescoço, estadistas do império, ciganos de passamanarias, cantoras de café-concerto, prestidigitadores de cartola, coelhos e pombas, escamoteadores de carteiras sorrindo para os incautos, ditadores de países latinos, vendedores ambulantes de literatura crítica, tradutores de línguas vivas, chaffeurs de táxi italianos, gregos e árabes, mulheres sérias, curandeiros, bruxos, automóveis em segunda mão, emissoras nacionais, quadrilhas de burlões de nomeada internacional, animando jornais com os seus frutos regulares e destros em Paris, Madrid, Roma e Londres, maridos de herdeiras ainda fazendo cerimónia, trapaceiro sinónimo de trampolineiro, conferências de desarmamento, visitas de pêsames, contos do vigário, comunicados para esclarecer a opinião pública, bilhetes viciados de lotaria vendidos a parvónios no Terreiro do Paço, charlatão com rezas a preceito actuando de porta em porta e conquistando as beatas da freguesia, religiosos circunspectos, encontros meramente casuais, gato por lebre, sírio por sério. (...)"

Ruben A. 
Um adeus aos deuses, Livraria Portugal (1963) p.47

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Katherine Mansfield


"Katherine Mansfield (...) é (...) um caso em que há completa identidade entre a mulher e a artista. (...) Tudo o que encontramos na sua personalidade de mulher, encontramo-lo na sua personalidade de contista. (...) Numa carta ao seu marido John Middleton Murry, diz: «Foi esta a vida cerebral, esta vida intelectual à custa de tudo, que nos trouxe a este estado de coisas. Como poderá ela salvar-nos? Não vejo nenhuma possibilidade de salvação, se não aprendemos a viver também com as nossas emoções e os nossos instintos, mantendo-os todos em equilibro. (...) É apenas sendo fiel à vida, que posso ser fiel à arte. E fidelidade à vida significa bondade, sinceridade, simplicidade, probidade.», declara Katherine Mansfield no seu Diário. (...) Como mulher, dava a impressão de flutuar num mundo estranho, um pouco longe da vida e, no entanto, profundamente agarrada à terra. (..) Katherine Mansfield é a contista mais completa e a mulher mais apaixonada pela vida, que existiu. (...)."
António Quadros
"Uma pausa: Katherine Mansfield", Modernos de Ontem e de Hoje 
 Portugália Editora (1947), pp. 71-79

Dilema

"O romancista tem de enfrentar um gravíssimo dilema. Ou escreve romance, ou faz obra de arte. Escrever um romance e ao mesmo tempo uma obra de arte, eis o que é muito difícil de realizar. (...)"

António Quadros
"Os dois romances de Érico Veríssimo", Modernos de Ontem e de Hoje 
 Portugália Editora (1947), p. 209

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Erskine Caldwell


"A violência realista e dramática de Erskine Caldwell não é, pois, um grito de ódio contra uma classe. É, de preferência, um grito de ódio contra a humanidade em geral. Caldwell é um desiludido. Sabe que as circinstâncias podem modificar inteiramente os indivíduos. Sabe - e prova-o a todo o momento - que o homem pode ser um cão ou um deus, conforme as circunstâncias que o rodearem. Todavia, A Casa no Planalto demonstra que ele sabe também que as circunstâncias não são tudo. (...) O mesmo meio decadente produziu um degenerado Brady e um humanissímo Ben Baxter. E Erskine Caldwell revolta-se, e todos os seus livros são revoltas. Revoltas contra uma organização social que permite o emprego de negros à laia de animais de carga. Revoltas contra a condição humana que, mesmo quando não é escrava das circunstâncias, é-o para si própria. (...)"

António Quadros 
 "A tragédia de Erskine Caldwell", Modernos de Ontem e de Hoje 
 Portugália Editora (1947), pp. 204-205

Arthur Koestler


"Koestler nasceu na Hungria, filho de pai húngaro e mãe austríaca, mas a sua verdadeira pátria é a humanidade, pois não há nos seus livros nenhuma tradição nacional. Muito novo, foi para a palestina, onde, aos vinte anos, era correspondente de uma agência alemã. Estudou em Viena, entre outros ofícios, foi assistente de um arquitecto, e em Haifa, no Próximo Oriente, vendeu limões na rua. Depois instalou-se em Paris como jornalista e aí aderiu, em 1930, ao partido comunista. Como intelectual predominante da extrema esquerda, foi convidado pelos sovietes para visitar a U.R.S.S., estando muito tempo no Turquestão, na Ucrânia, mas principalmente em Kharkov e em Moscovo. Voltou desiludido e escreveu várias reportagens, como por exemplo, O Mito e a Realidade soviética e O fim de uma ilusão, em que ataca o regime da U.R.S.S. (...) Devido ao êxito das suas reportagens e da sua manera desassombrada de ver as coisas, foi enviado a Espanha durante a guerra civil, em 1936, pelo News Chronicle. Aí foi preso e condenado à morte como comunista perigoso, mas, devido aos esforços da Inglaterra, conseguiu ser trocado por uma alta personalidade e foi libertado. (...) Foi solto, preso de novo, e, nos fins de 1940, conseguiu chegar a Inglaterra através, como quase todos, de Lisboa. (...)"

António Quadros 
"Arthur Koestler, um produto desta guerra", Modernos de Ontem e de Hoje 
Portugália Editora (1947), pp.235-237

José Lins do Rego



"Nos romances de Lins do Rego, nada é feito em função das personagens, como no caso de Érico Verissimo, nem em função do tema, caso de Jorge Amado. Tudo é feito em função do seu lirismo temperamental, tendo como principal objectivo, a valorização desse lirismo. Lins do Rego afasta-se, assim, dos dois polos, à roda dos quais mais tem girado a literatura moderna: romance de análise e romance de tese. Não se trata de um lirismo do tipo Saroyan, a que poderemos chamar de lirismo simbólico, nem tão pouco de um lirismo do tipo Katherine Mansfield, lirismo proveniente da análise individual, ou de um lirismo do tipo Alain Fournier, lirismo de ambientes e de uma concepção isolada da realidade. Se quisermos empregar sínteses, diremos de preferência que o lirismo de Lins do Rego é dramático. Pessimista e triste. Melancólico, numa palavra. A melancolia das pequenas povoações perdidas no interior do Brasil - Pureza, Pedra Bonita, o Assú - daquela vida parada, sem horizontes, sempre a mesma. Aqueles homens sós, aqueles dramas sem projecção, isolados, paisagens grandiosas e esquecidas, esquecimento, o tempo que corre e nada acontece, nada, sempre a mesma vida, constituem matéria de Lins do Rego. Homens do interior e a paisagem, e o ambiente a pesar sobre eles, e um pequeno-grande acontecimento que vem agitar aquela tranquilidade, eis a essência dos seus romances. (...)

António Quadros
"O lirismo de José Lins do Rego", Modernos de Ontem e de Hoje
Portugália Editora (1947), p.132

Primeiro passo


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

"António Quadros um jovem crítico português"


"Talvez não estejamos desligados de Portugal, dos escritores portugueses contemporâneos, tanto quanto se diz. Há sempre os leitores de António Sérgio, João Gaspar Simões, Casais Monteiro, José Osório de Oliveira, Manuel Anselmo, sem falar dos poetas, é de um crítico jovem que quero tratar, de António Quadros, que reuniu em "Modernos de ontem e de hoje", os seus ensaios literários dos vinte anos, um voluminho simpático (Portugália Editora, Lisboa) que nos traz um mundo de escritores, de artistas que lhe serão caros e que encontram eco na nossa sensibilidade.  António Quadros diz as coisas que ele pensa com um jeito (fino, essa delicadeza incomum em alguns críticos, e os seus ensaios acabam sendo uma ronda amorosa em torno de escritores e ideias. Ronda de que ele não exclui os brasileiros, um José Lins do Rego, um Ribeiro Couto, um Enrico Verissimo. (...) António Quadros mostra, à medida que vamos entrando na sua intimidade, no seu convívio com os livros, uma inteligência muito sensível que pouco tem de adolescente, de vinte anos, que mais parece revelar um velho habitus literário. (...) Não sei de nada sobre ele a não ser este livro, não conheço referência a ele em outros escritores, mas acho que sei alguma coisa, acho que sei um pouco desta sensibilidade devotada ao belo, ao humano, que se oferece à gente neste volume de trezentas páginas. Os seus ensaios provam uma vivência literária e um estado intelectual e lírico que a gente encontra com menos assombro num Roberto Alvim Corrêa, num Augusto Meyer, para falar nos nossos, do que neste companheiro de vinte anos. (...)"

Carlos David
"Um jovem crítico português", Letras e Artes (Suplemento de "A Manhã") 
16-03-1952

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Mais do que uma vantagem


"A crença em Deus cumpre que seja mais do que uma vantagem. A ideia de Deus cumpre que se torne uma verdade. Acessível, pois, humanamente inobjectável. (...) "

António Quadros 
Uma Frescura de Asas, Europress (1990) p. 48

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

«As coordenadas líricas» de Fernanda Botelho


Matrimónio

Disseram que sim ;
mais nada.

E depois
foram os dois
esgotar o romanesco
numa casa pintada
de fresco.

Fernanda Botelho
As coordenadas líricas, Edições Távola Redonda, (1951), p. 15

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Esquecimento real


"Estranho poder este da lembrança: tudo o que me ofendeu me ofende, tudo o que me sorriu sorri: mas, a um apelo de abandono, a um esquecimento «real», a bruma da distância levanta-se-me sobre tudo, acena-me à comoção que não é alegre nem triste mas apenas comovente... (...)"

Vergílio Ferreira
Manhã Submersa (1954) Portugália Editora, p.88

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Infelizmente vulnerável



"A principal dificuldade que se levanta no código deontológico da comunicação social é, digamos, a de uma plataforma de consenso que harmonize os diversos interesses e opções. Mas para que tal plataforma seja possível, e para que se alargue progressivamente, e para que não seja apenas uma «segunda realidade» institucional e jurídica, antes radicando na «primeira realidade» que é a consciência individual dos órgãos e dos agentes de comunicação, é necessária uma reflexão que se imponha pouco a pouco aos interesses obscuros ou às ambições ilegítimas que proliferam infelizmente neste meio entre todos vulnerável, porque excessivamente ambicionado pelo poder, pelo carreirismo, pela ideologia, pelo desejo de lucro ou fama. (...)".


António Quadros
"Algumas Reflexões sobre a Deontologia da Comunicação Social", 
Democracia e Liberdade, nº 23 (Abril/Maio, 1982), p.116

domingo, 12 de janeiro de 2014

Correio da Manhã, 31 de Dezembro de 1988


António Quadros e Manuel Alegre


Um céu assim mais lento



Ensoneto

Entretanto, meu filho, é vinho tinto,
erosão persistida, abraço baço.
Lumes novos, quem é que os inventa
melhor do que o calor que nós nos damos?

As uvas, pois. O mais é uma cadeira
e o olhar do céu com chuva ou não,
enquanto as aves fogem e nós as imitamos
quase sem dor nem arte - só sentidos.

Assim sossega, assim verdeja e está,
eructa e vê, olhando à transparência,
um céu assim mais lento.

Só depois te levantas, e contigo
vai certeza nenhuma, só viver
outra vez, amanhã, a vida mesma.

Pedro Tamen
antologia provisória, Limiar, (1983), p. 101

sábado, 11 de janeiro de 2014

Hoje que somos o futuro nebuloso


"A filosofia autêntica, aquela que nada recusa na sua infinita apetência de sabedoria, aquela que não despreza um sinal, por mais inaudível, aquela que não passa ao lado de um caminho, por mais perigoso, aquela que não desvia os olhos de uma possibilidade, por mais ingrata aos prestígios  da época, a filosofia autêntica reclama o direito de exceder o facto, a experiência, a razão, a ideia, o conceito, o próprio homem, cuja assunção física e metafísica permanece aquém da sua substancial realidade. (...) Mas compreende-se perfeitamente hoje, hoje que somos o futuro nebuloso em que os positivistas há cem anos confiavam, que determinados fenómenos não podem ser apreciados como factos, escapam a toda a tentativa de legislação e muito menos podem ser repetidos e desmontados por experiência de laboratório. A maioria das essenciais interrogações da filosofia, desde a origem da vida até ao fim da existência, não obtiveram da ciência positiva senão respostas que revertem de novo ao a priorismo metafísico e idealista e são defendidas ou impostas pelos seus adeptos por formas que têm quase todos os atributos da crença ou mesmo da fé. (...)"

António Quadros 
"O Ideal português na filosofia" 
em O que é o ideal português, Edições Tempo (1962) pp.27-28

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Cinquentenário da morte de Jean Cocteau


"A semana da partida, tão curta no fim de contas, parecia nunca mais acabar. Julgando aborrecer-se e salvar-se pela ideia da cantina, Guilherme preparava, entre as mulheres e ele, esse nó de ausência, que se reforça com o tempo e altera as perspectivas, pois vemos os que se afastam crescer desmedidamente na nossa imaginação. (...)"
Jean Cocteau 
Tomaz o Impostor, Edição Livros do Brasil
(1955) Tradução de António Quadros

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Há almas embrionárias


"Há almas embrionárias, velhos lojistas que olham para si próprios com terror. A maior parte da gente, nasce, morre sem ter olhado a vida cara a cara. Não se atrevem ou ignoram-na: a outra existência falsa acabou por os dominar. Não há mascara que não custe a arrancar, há mentiras que têm raízes mais fundas que a verdade. Por isso, para uns não morrer é continuar a jogar o gamão pela eternidade, para outros é juntar uma moeda a outra moeda, um dia a outro dia inútil. Sempre... Já na botica dois idiotas recomeçaram com escrúpulo uma partida que deve durar cem anos, e o bocal amarelo, as moscas mortas estão ali com outro ar. Fixaram-se. Estão ali embirrentas e sórdidas para toda a eternidade. Pouco e pouco o sonho dissolve, a nódoa d'oiro alastra. Vai mexer com o subterrâneo, acorda os mortos, desenterra o sonho submerso há dois mil anos, sobressalta o instinto, bole com todas as almas sobrepostas até ao fundo da vida. Transforma, volta a existência do avesso, deita o muro abaixo. Por ora é só uma ideia, mas sai-nos de cima o peso do mundo... Mexe em tudo, revolve todas as raízes que se apoderaram da vila. O sonho cai na regra, no charco de interesses, na hipocrisia que se não atreve, nos dentes afiados que se transformaram em sorrisos, na paciência de quem espera uma herança com vagares de quem tece uma teia. Certas existências são formidáveis, outras existências são como alcovas onde nunca entrou a luz (cheiram a relento) e onde agora se agita e gesticula um ser desconhecido. Certas existências são feitas de ódio minúsculo, de inveja que sorri porque nem a inveja se atreve. Certas existências são crepusculares. Em certas existências são os mortos que ordenam, muito mais vivos e imperiosos depois que estão no sepulcro. Quase toda esta gente se desconhece. Nunca se atreveram e agora perguntam-se: Sou eu? sou eu? Aqui estou eu que finjo que sorrio, e acabo por fingir toda vida. (...)"

Raul Brandão
Húmus (1921)

A existência é a essência


"Não é típica do existencialismo (...) a negação da essência, do absoluto, do que transcende a finitude e a multiplicidade do mundo quotidiano. Asseverando que a existência precede a essência ou até que a existência é a essência, quer o pensamento existencialista dar categoria metafísica às formas da vida opulenta e vária em que os humanos se inserem. Se um caminho se pode traçar do imanente para o transcendente, tal caminho desenvolve-se necessariamente a partir do existente como tal. Derivadamente lhes pareceu que, de entre todas as faculdades humanas, é o sentimento a que assinala uma relação mais natural, espontânea e imediata com o devir existencial. (...)"

António Quadros 
"A Cultura Portuguesa perante o Existencialismo" 
em Sartre e o Existencialismo de Ismael Quiles, Arcádia, (1959), p.20

Mais aqui.

Qualquer coisa



Que venha amor ou morte
Ou aniquilamento,
Que venha
E me acabe de vez
Com o próprio esquecimento!

Este contínuo esperar
Que o tempo venha e passe,
E o receio de quem nem sequer a morte mate...

Oh, que venha,
Qualquer coisa que não passe!

Um Ritmo Perdido (1958), p. 37

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014


"- Você não percebe nada de liberdade!
- Pois não, sou um escravo!
- Você é escravo de quê? de quem?
- Somos todos escravos uns dos outros ou de alguma coisa, ao mesmo tempo escravizamos sempre alguma coisa ou alguém. Esta é que é a base da liberdade: para que alguém suba, alguém tem de descer. É como se o espaço em cima ou em baixo fosse limitado ou tão matematicamente regulado que uma determinada deslocação num nível tivesse de produzir inevitavelmente uma deslocação compensadora. Deve ser para manter as forças a um nível desejável.
- Quais forças?
- As forças da destruição. (...)"
Editora Arcádia (1963), p.124

«Democracia e Liberdade», n.º 53 (Dezembro de 2013)


Em 1987 António Quadros colaborou no número 42/43 da revista «Democracia e Liberdade», dedicada à «Filosofia Portuguesa». Parte desse texto pode ser lido aqui.


(re) lançamento ocorreu em Dezembro de 2013

António Quadros, Bruxelas, Junho de 1989

Com João Deus Pinheiro e o embaixador português em Bruxelas António Patrício
Estátua de Fernando Pessoa
Praça Eugène Flagey, Bruxelas, Bélgica

Parte do discurso de António Quadros pode ser lido aqui.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Casualidade eficiente

"A absolutização da causalidade eficiente conduz ao que se chama de historicidade, isto é, à ideia de que a história obedece a uma única norma, a norma de uma evolução biovital linear em que o consequente se explica sempre pelo antecedente. É verdadeiro que a historicidade caracteriza até certo ponto o homem, mas o amor ilimitado do saber obriga-nos a uma outra e mais essencial regra de jogo: examinar e pensar todos os elementos velados, escondidos, enignáticos que, surgindo embora na história, corporizados embora historicamente, parecem exceder contudo a casualidade eficiente (...)"

António Quadros
Introdução à Filosofia da História Editorial 
Verbo, 1982, p.197

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Os problemas que a escola ignora


"Mas a escola tem uma vantagem preciosa: é de revelar, sem pudor, toda a estupidez dos chamados “métodos de ensino”. Mas é claro que isto volta-se depois contra as crianças, e a maior parte das vezes já sem remédio, porque abafa o que há nelas de mais inteligente, o que está mais ligado à criatividade, à fantasia, ao sonho, em nome do tal famoso aproveitamento de que falámos da ultima vez, e que ninguém sabe ao certo o que é, e para que serve. Não é possível servir o propósito do aproveitamento, e ao mesmo tempo respeitar o tempo interno de cada criança. Eu não acredito que possa haver aprendizagem, no sentido mais sério desse conceito, sem que o tempo interno de quem “aprende” seja verdadeiramente respeitado. A actividade simbólica, que é tão fundamental na vida mental de qualquer pessoa, e que deveria constituir o único objectivo essencial da escola, a meu ver, o desenvolver nas crianças essa capacidade, dessa actividade, ajudá-las a resolver através da física, da literatura, das “contas”, da geografia, do que quiser, ajudar a criança resolver, através de tudo isso, os problemas mais importantes que ocupam a sua vida interior, como no caso daquele menino que andava na lua, e que são, afinal, os únicos problemas importantes da vida, e que são meia dúzia, são aquela meia dúzia de sempre, que são os problemas da vida, da morte, do amor, do ciúme, da inveja, do ódio, da curiosidade, e que estão invariavelmente na origem de tudo quando se criou neste mundo até hoje, na origem de tudo quanto se fez em arte, em filosofia, em ciência, são esses problemas que a escola ignora ao reduzir tudo ao tal aproveitamento, como se a vida das crianças, a vida interior das crianças tivesse alguma coisa que ver com o aproveitamento. (...)"  

João dos Santos
Eu agora quero-me ir embora
Assírio & Alvim (1990)

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Um passo mais

"Quem não tem sentido que a vida social o vai limitando, obrigando-o a cada passo a uma escolha entre as tantas virtualidades que possui, para abandonar algumas e prosseguir desfalcado e cada vez mais pobre? (...)"

Leonardo Coimbra
A Alegria, a Dor e a Graça (1916)

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Da filosofia


"O filósofo tem de se tornar não-filósofo, para que a não-filosofia se torne a terra e o povo da filosofia (...)”

Gilles Deleuze e Félix Guattari

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Revista "Humanística e Teologia" dedicada a Leonardo Coimbra


O número mais recente da revista "Humanística e Teologia", intitulada "Leonardo Coimbra no Centenário do Criacionismo", reúne as conferências de um colóquio organizado em 2012 pelo Centro de Estudos do Pensamento Português da Universidade Católica Portuguesa (UCP).

Mais informações aqui.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Grão de esperança

"Tenho pena, muita pena, mas de profeta só encontro em mim o ter sido em tempos poeta e o guardar o grão de esperança de o continuar a ser um pouco, no modo menor de uma alma ainda não inteiramente dominada pelo insustentável vazio da nossa época atravancada de grandes narcisismos e de medíocres ambições. (...)"

António Quadros
Mais Semanário | 31 de Dezembro de 1988

António Quadros no IADE (*)


*Universidade fundada por António Quadros em 1969.
O escritor manter-se-ia como director até 1992, ano em que o seu filho António Roquette Ferro o sucede no cargo.