quinta-feira, 22 de maio de 2014

Seu atributo também

"Se a quem deram a beleza, só seu atributo, castigam com a consciência da mortalidade dela; se a quem deram a ciência, seu atributo também, punem com o conhecimento do que nela há de eterna limitação; que angústias não farão pesar sobre aqueles, génios do pensamento ou da arte, a quem, tornando-os criadores, deram a sua mesma essência? (...)" 

Fernando Pessoa 
(1924)

terça-feira, 20 de maio de 2014

Camaradagem e garantia da admiração permanente























Ao António Quadros [APRESENTAÇÃO DO ROSTO] lembrança da boa camaradagem e garantia da admiração permanente
do
Herberto Helder

Lisboa, Junho, 68

"Numa noite do mês de março, estava o tempo esplêndido, olhei para as minhas mãos, e vi uma nódoa branca.
Compreendam-me.
Eu era um homem sereno, emocionalmente próspero, digamos, sem entretanto me entregar à dissipação.
Convivia com muita gente e podia fazer com que me amassem.
Claro, não amava ninguém, mas a minha vida era como que atravessada diariamente por um calor tranquilo e ligeiro.
E então vi de repente que tinha uma nódoa branca na mão direita.
(...)
Achava-me de certo modo, um indivíduo sem culpas, conhecendo algumas leis seguras, amando lentamente a terra e as estações.
Organizara mesmo um conjunto de aforismos, e acreditava na imparcialidade e - quem sabe? - talvez até acreditasse na justiça.
Havia de ter um dia um talhão de rosas e ser-lhes-ia dedicado.
Rosas tornam o espírito condescendente e vagaroso e dão aos gestos uma grave e amável subtileza.
Tinha esse projecto, o das rosas, certamente. (...)"

Herberto Helder
Apresentação do rosto (1968) pp.158-159

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Hiper-especialização ou abertura total

"No ensino [a hiper-especialização] cria logo condições não favoráveis (...) ao espírito de totalidade. Por outro lado, também há no interior do ensino a tendência de abertura total. (...) Vivemos num período de tensão. Pelo menos há tensão. Já é alguma coisa..."


Álvaro Siza Vieira

quinta-feira, 8 de maio de 2014

O diabo, meu Senhor, inventor da moral


"Rica farça a moral! Não me ilude.
Examinem qualquer vendedor de virtude,
Casto como um carvão, magro como um asceta:
A abstinência é impotência, o jejum é dieta.
O diabo, meu Senhor, já vélho e desdentado,
Sifilítico, a abanar como um gato pingado,
O trazeiro sarnoso, em gangrena a medula,
Exaurido a chupões de luxúria e de gula,
Sentindo-se perdido e rabiando, afinal
Quis vingar-se do mundo… e inventou a moral! (...)"

Guerra Junqueiro
Pátria (1896)

terça-feira, 6 de maio de 2014

Para saber andar, é preciso andar


"A liberdade nunca é uma dádiva graciosa; é sempre uma penosa conquista; e resulta uma quimera abusiva estar-se à espera de que um povo se prepare para o exercício de seus direitos afim de só então lh'os conceder.
Como se há-de ele preparar se os não exercita? E não é ridículo acreditar que os interesses que a liberdade popular arruína serão tão magnânimos que se darão a habilitar os explorados a descartarem-se de seus exploradores?
É certo que as multidões oprimidas, quando uma vez conseguem desafogar e libertar-se, têm cometido excessos lastimosos. Mas mais responsáveis são aquelas classes privilegiadas, aquelas instituições egoístas cujo timbre consistiu em tiranizar.
Portanto, em resumo, para um progresso positivo, não há preparação prévia possível. Para saber andar, é preciso andar. (...)"

Sampaio Bruno
Modernos publicitas portugueses, (1906 ), p.148.

domingo, 20 de abril de 2014

A António Quadros



"Falo na ordem e no lugar estabelecidos e granjeio por isso o horizonte de muito caminho percorrido sem ter de proferir sobre ele o juízo final, que é acto mais divino do que humano. (...)"

Afonso Botelho
Três mestres do conhecimento (1993), p. 85

terça-feira, 15 de abril de 2014

No Jardim Botânico


"O poeta não é um pássaro que voa no céu azul. É um mineiro, que o trabalho obriga a descer sempre às suas jazidas. Nos corredores subterrâneos estão os meus tesouros. (...) No Jardim Botânico. A putrefacção das folhas já traz em si a garantia da radiosa ressurreição. (...)"

Lêdo Ivo
Confissões de um poeta (1979), p. 228.

sábado, 12 de abril de 2014

Literatura

"Dir-se-á que a literatura não é uma profissão, mas sim um sacerdócio, algo que plana acima do grosseiro materialismo da vida. (...)"

António Quadros
A Existência Literária (1962), p. 197

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Os expedicionários


Domingos Monteiro, Branquinho da Fonseca, José de Azeredo Perdigão, J. Monteiro-Gillo (Tomaz Kim), A. de Ferrer-Correia e António Quadros junto à carrinha da Biblioteca Itinerante nº. 13 (Bombarral).
Mais sobre as Bibliotecas aqui.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

A esta terra que sofre

A esta terra que sofre,
Diminuída, mutilada,
À procura de si própria,
Perdida, abandonada.

Mas ouvi, ó portugueses,
Corruptos ou estrangeiros,
Tontos, traidores, burocratas,
Ingénuos, fanatizados,

E vós também, os fiéis
Da verdade da raiz,
Ouvi o que diz o povo,
Ouvi a voz do país.

Portugal somos ainda,
Porque a semente que outrora
Germinou em terra ingrata,
Há-de reviver agora!

Em cada volta do tempo,
De novo começa o mundo.
Juventude, redescobre
O Portugal mais profundo!

(....)

Transviados, cabisbaixos,
Levantai o vosso olhar!
Pátria antiga, que sofreste
Há mais mar, p'ra além do mar!

(...)

António Quadros
Ó Portugal Ser Profundo, ed. Espiral (1980)

sábado, 5 de abril de 2014

Falar de raso


falar de raso sim mas só de lágrimas
quando alguém nos destrói um ângulo puro

João Rui de Sousa 
"ângulo raso" em Corpo Terrestre, Portugália, (1972) p.72

terça-feira, 1 de abril de 2014

O que me vale, acredite, é o vício de escrever para longe...

"Nesta Lisboa dos cafés vão-se desmoronando as tertúlias, em consequência das invejas e das intrigas. Há duas semanas que não vejo o António Quadros. As conversas habituais causam desânimo. O que me vale, acredite, é o vício de escrever para longe... (...)"

Álvaro Ribeiro
em carta para António Telmo | 30 de Outubro de 1958

sexta-feira, 28 de março de 2014

Discurso de António Ferro



Discurso de António Ferro, Presidente da Direcção da Emissora Nacional, sobre a importância da cultura musical portuense, por ocasião da inauguração dos estúdios do Emissor Regional do Norte da Emissora Nacional. Clique aqui.

"É possível que Lisboa não se preocupe musicalmente com o Porto, que a Emissora não vos tenha visitado tantas vezes quantas seria para desejar, mas a verdade, é que para estabelecer mais frequentemente esses contactos, teríamos de recorrer aos próprios artistas do Porto, visto serem eles afinal, em grande parte, que contribuem para a elevação do nível musical de Lisboa e para o próprio nível da Emissora. (...) Guilhermina Suggia, a grande musa do violoncelo, cujo arco é sempre um verdadeiro arco do triunfo (...) cuja arte faz hoje tanta falta a Lisboa como a visão do seu tejo ao azul da sua abóboda (...)"
António Ferro

quarta-feira, 26 de março de 2014

Nome de romance

"O «Nome de Guerra» (...) é talvez o único livro entre nós nos últimos trinta anos que merece o nome de romance. (...)"

António Telmo
n.º 5006, Lisboa, 12 de Setembro de 1956, pp. 7 e 15

terça-feira, 25 de março de 2014

Poemas de Natércia Freire


A António Quadros, à sua poesia, à sua alma, à singularidade do seu Pensamento, com a mais viva admiração e amizade, of.[erece]


Natércia Freire

"A vida vai expulsar-me, descontente,
e Deus me irá julgar e condenar,
porque me esperei em séculos ausentes
e não cumpri, presente, o meu lugar. (...)"

Natércia Freire
Música Perdida, em Poemas e Liberta em Pedra, (1967) pp. 106-107

segunda-feira, 17 de março de 2014

Correspondência entre António Telmo e António Quadros

"Entre 1986 e 1987, António Quadros publica os dois volumes de Portugal Razão e Mistério, obra que motiva o maior número de cartas trocadas entre os dois pensadores. Depois do primeiro livro, no dia 31 de Maio de 1986, António Telmo, coloca António Quadros ao lado de Álvaro Ribeiro e José Marinho, como um dos mais importantes pensadores portugueses do século XX. Apesar disto, revela a frustração pelo pouco eco que a filosofia portuguesa tem em Portugal, mesmo aquela que é protagonizada pelos seus melhores intérpretes. Conta ainda que, José Marinho, pouco antes de morrer dissera que Se tiver de voltar de novo à vida, peço a Deus para não nascer português. É um povo de vesânicos. Houvesse o Álvaro Ribeiro nascido na França, na Alemanha, na Inglaterra e seria hoje admirado como o maior filósofo da actualidade. (...)"

Correspondência entre António Telmo e António Quadros
o neto, no 21º aniversiário da morte de António Quadros

domingo, 16 de março de 2014

Pensando bem, não era infeliz


"Você ainda é novo e creio que essa vida lhe agradaria. Disse que sim, mas que, no fundo, me era indiferente. Perguntou-me depois se eu não gostava de uma mudança de vida. Respondi que nunca se muda de vida, que em todos os casos as vidas se equivaliam e que a minha aqui, não me desagradava. Mostrou um ar descontente, disse que eu respondia sempre à margem das questões e que não tinha ambição, o que, para os negócios era desastroso. Voltei para o meu trabalho. Teria preferido não o descontentar, mas não vejo razão alguma para modificar a minha vida. Pensando bem, não era infeliz. Quando era estudante, alimentara muitas ambições desse género. Mas, quando abandonei os estudos, compreendi muito depressa que essas coisas não tinham verdadeira importância. (...)"
Albert Camus
O Estrangeiro, trad. de António Quadros

quinta-feira, 13 de março de 2014

António Quadros e Edwin Honig

Edwin Honig

"Volto a António Quadros para contar uma história dele que teve belas repercussões, independentemente de ele ser direita ou esquerda. Ou de eu gostar da leitura nacionalista que ele faz de de Pessoa. Um dia, na praia de Sesimbra, um americano estava estendido na areia ao lado de um casal português. O homem lia um livro. O americano, curioso e intrigado, meteu conversa. Que livro era aquele? Era de um tal Fernando Pessoa. E o leitor, António Quadros. Conversa puxa conversa, o americano, que nunca ouvira falar de Pessoa, ficou cativado e quis saber e ler mais e mais. Sabia espanhol muito bem. Era autor de traduções, muito conhecidas nos EUA, de Cervantes, Calderón de la Barca, F. Garcia de Lorca e Lope de Vega. Chamava-se Edwin Honig. Era também poeta e professor no Departamento de Inglês da Brown, colega do George Monteiro. O encontro levou Honig a interessar-se por Pessoa e, mais tarde, a ser o primeiro tradutor de Pessoa para inglês, em 1971. Vários anos depois, foi ele que me cedeu a sua correspondência com Thomas Merton, sim, o monge trapista que líamos nos anos 60 no Seminário de Angra (A Montanha dos Sete Patamares, em edição brasileira comprada no Sargento Ferreira, ao Alto das Covas). Merton traduziu poemas de Caeiro ( "O Guardador de Rebanhos), a pedido de Suzuki, o introdutor de Zen no Ocidente. A história ainda mete o poeta Octávio Paz, amigo de Honig. Mas isso tudo eu já contei num artigo - "Sobre a mundividência Zen de Pessoa-Caeiro", publicado na Nova Renascença, do saudoso José Augusto Seabra (estórias dele para outra ocasião) e que integrei no meu livro Pessoa, Portugal e o Futuro, a sair na Gradiva e que por isso não vale a pena repetir aqui.
E tudo isto por causa de um meramente casual encontro de duas pessoas deitadas ao sol numa praia de Sesimbra. (...)"
Onésimo Teotónio Almeida
(de um livro ainda inédito) 

quarta-feira, 5 de março de 2014

Era ainda o sentimento da nossa própria importância

António Telmo

"O grupo de filosofia portuguesa reunia-se nesse tempo na Brasileira do Rossio, hoje, como a maioria dos cafés, transformada em banco. Vale a pena descrevê-la, uma vez que muitos leitores já não puderam conhecê-la. É hoje em mim uma impressão de duas colunas de mármore castanho e brilhante da Arrábida numa casa comprida, escura e cheia do fumo dos cigarros. De um e de outro lado, espelhos paralelos multiplicavam as suas imagens até ao infinito. Supúnhamos ser uma antiga loja maçónica e os mais novos, na sua fantasia de adolescentes, viam no facto de ali ser o lugar de reunião da filosofia portuguesa uma escolha intencional dos mais velhos. 
Constava que Álvaro Ribeiro era maçon. Para nós, a Maçonaria que, mais tarde, viria a patentear-se-nos como uma organização política de práticas e fins medíocres, era um lugar misterioso do espírito, que continha, envolvida de grande segredo, o ensinamento primeiro e último. Esta falsa noção actuava como um catalisador. Não seria, pois, possível atingir o verdadeiro conhecimento através dos livros e da reflexão própria. Eu não aprendera ainda a separar o homem social do homem real, sobretudo ou muito menos naqueles com quem privava diariamente. Conhecemos uma pessoa por um nome que nada nos diz na medida em que serve apenas para a determinar na multidão indefinida das outras pessoas; ligamo-la a uma família, a uma profissão, a um meio social; atribuímos-lhe mais ou menos valor; relacionamo-la principalmente connosco, com os nossos interesses, prezando-a ou desprezando-a conforme actua em relação ao sentimento que vivemos da nossa própria importância. 
Era ainda o sentimento da nossa própria importância que funcionava na criação de um falso mistério à volta da pessoa de Álvaro Ribeiro. A possibilidade de virmos a ser iniciados na Maçonaria através dele tornara-o prestigioso e prodigioso a nossos olhos. Púnhamos assim véus sobre véus a esconder o verdadeiro mistério que é o do ser singular, tal como é em si, na relação vivente com a insondável origem donde todos os seres provêm e perdíamos assim a possibilidade de nos conhecermos, perscrutando-nos, na mesma insondável relação. Todavia, eu gostava de subir o Chiado lentamente, porque era um espanto a singularidade de cada rosto, olhado numa espécie instintiva de dupla atenção. Todos aqueles rostos, um a um, sobretudo os olhos, emergiam repentinamente do desconhecido que me habitava. (...)"

António Telmo
Na casa de meu pai, éramos três irmãos (inédito)
 Texto completo aqui.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Quadrilhas de burlões


"Nada me satisfaz mais na vida do que presenciar cenas em que o espírito de intrujice se manifesta com toda a sua regularidade. Aldrabões de feira com cobras ao pescoço, estadistas do império, ciganos de passamanarias, cantoras de café-concerto, prestidigitadores de cartola, coelhos e pombas, escamoteadores de carteiras sorrindo para os incautos, ditadores de países latinos, vendedores ambulantes de literatura crítica, tradutores de línguas vivas, chaffeurs de táxi italianos, gregos e árabes, mulheres sérias, curandeiros, bruxos, automóveis em segunda mão, emissoras nacionais, quadrilhas de burlões de nomeada internacional, animando jornais com os seus frutos regulares e destros em Paris, Madrid, Roma e Londres, maridos de herdeiras ainda fazendo cerimónia, trapaceiro sinónimo de trampolineiro, conferências de desarmamento, visitas de pêsames, contos do vigário, comunicados para esclarecer a opinião pública, bilhetes viciados de lotaria vendidos a parvónios no Terreiro do Paço, charlatão com rezas a preceito actuando de porta em porta e conquistando as beatas da freguesia, religiosos circunspectos, encontros meramente casuais, gato por lebre, sírio por sério. (...)"

Ruben A. 
Um adeus aos deuses, Livraria Portugal (1963) p.47

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Katherine Mansfield


"Katherine Mansfield (...) é (...) um caso em que há completa identidade entre a mulher e a artista. (...) Tudo o que encontramos na sua personalidade de mulher, encontramo-lo na sua personalidade de contista. (...) Numa carta ao seu marido John Middleton Murry, diz: «Foi esta a vida cerebral, esta vida intelectual à custa de tudo, que nos trouxe a este estado de coisas. Como poderá ela salvar-nos? Não vejo nenhuma possibilidade de salvação, se não aprendemos a viver também com as nossas emoções e os nossos instintos, mantendo-os todos em equilibro. (...) É apenas sendo fiel à vida, que posso ser fiel à arte. E fidelidade à vida significa bondade, sinceridade, simplicidade, probidade.», declara Katherine Mansfield no seu Diário. (...) Como mulher, dava a impressão de flutuar num mundo estranho, um pouco longe da vida e, no entanto, profundamente agarrada à terra. (..) Katherine Mansfield é a contista mais completa e a mulher mais apaixonada pela vida, que existiu. (...)."
António Quadros
"Uma pausa: Katherine Mansfield", Modernos de Ontem e de Hoje 
 Portugália Editora (1947), pp. 71-79

Dilema

"O romancista tem de enfrentar um gravíssimo dilema. Ou escreve romance, ou faz obra de arte. Escrever um romance e ao mesmo tempo uma obra de arte, eis o que é muito difícil de realizar. (...)"

António Quadros
"Os dois romances de Érico Veríssimo", Modernos de Ontem e de Hoje 
 Portugália Editora (1947), p. 209

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Erskine Caldwell


"A violência realista e dramática de Erskine Caldwell não é, pois, um grito de ódio contra uma classe. É, de preferência, um grito de ódio contra a humanidade em geral. Caldwell é um desiludido. Sabe que as circinstâncias podem modificar inteiramente os indivíduos. Sabe - e prova-o a todo o momento - que o homem pode ser um cão ou um deus, conforme as circunstâncias que o rodearem. Todavia, A Casa no Planalto demonstra que ele sabe também que as circunstâncias não são tudo. (...) O mesmo meio decadente produziu um degenerado Brady e um humanissímo Ben Baxter. E Erskine Caldwell revolta-se, e todos os seus livros são revoltas. Revoltas contra uma organização social que permite o emprego de negros à laia de animais de carga. Revoltas contra a condição humana que, mesmo quando não é escrava das circunstâncias, é-o para si própria. (...)"

António Quadros 
 "A tragédia de Erskine Caldwell", Modernos de Ontem e de Hoje 
 Portugália Editora (1947), pp. 204-205

Arthur Koestler


"Koestler nasceu na Hungria, filho de pai húngaro e mãe austríaca, mas a sua verdadeira pátria é a humanidade, pois não há nos seus livros nenhuma tradição nacional. Muito novo, foi para a palestina, onde, aos vinte anos, era correspondente de uma agência alemã. Estudou em Viena, entre outros ofícios, foi assistente de um arquitecto, e em Haifa, no Próximo Oriente, vendeu limões na rua. Depois instalou-se em Paris como jornalista e aí aderiu, em 1930, ao partido comunista. Como intelectual predominante da extrema esquerda, foi convidado pelos sovietes para visitar a U.R.S.S., estando muito tempo no Turquestão, na Ucrânia, mas principalmente em Kharkov e em Moscovo. Voltou desiludido e escreveu várias reportagens, como por exemplo, O Mito e a Realidade soviética e O fim de uma ilusão, em que ataca o regime da U.R.S.S. (...) Devido ao êxito das suas reportagens e da sua manera desassombrada de ver as coisas, foi enviado a Espanha durante a guerra civil, em 1936, pelo News Chronicle. Aí foi preso e condenado à morte como comunista perigoso, mas, devido aos esforços da Inglaterra, conseguiu ser trocado por uma alta personalidade e foi libertado. (...) Foi solto, preso de novo, e, nos fins de 1940, conseguiu chegar a Inglaterra através, como quase todos, de Lisboa. (...)"

António Quadros 
"Arthur Koestler, um produto desta guerra", Modernos de Ontem e de Hoje 
Portugália Editora (1947), pp.235-237

José Lins do Rego



"Nos romances de Lins do Rego, nada é feito em função das personagens, como no caso de Érico Verissimo, nem em função do tema, caso de Jorge Amado. Tudo é feito em função do seu lirismo temperamental, tendo como principal objectivo, a valorização desse lirismo. Lins do Rego afasta-se, assim, dos dois polos, à roda dos quais mais tem girado a literatura moderna: romance de análise e romance de tese. Não se trata de um lirismo do tipo Saroyan, a que poderemos chamar de lirismo simbólico, nem tão pouco de um lirismo do tipo Katherine Mansfield, lirismo proveniente da análise individual, ou de um lirismo do tipo Alain Fournier, lirismo de ambientes e de uma concepção isolada da realidade. Se quisermos empregar sínteses, diremos de preferência que o lirismo de Lins do Rego é dramático. Pessimista e triste. Melancólico, numa palavra. A melancolia das pequenas povoações perdidas no interior do Brasil - Pureza, Pedra Bonita, o Assú - daquela vida parada, sem horizontes, sempre a mesma. Aqueles homens sós, aqueles dramas sem projecção, isolados, paisagens grandiosas e esquecidas, esquecimento, o tempo que corre e nada acontece, nada, sempre a mesma vida, constituem matéria de Lins do Rego. Homens do interior e a paisagem, e o ambiente a pesar sobre eles, e um pequeno-grande acontecimento que vem agitar aquela tranquilidade, eis a essência dos seus romances. (...)

António Quadros
"O lirismo de José Lins do Rego", Modernos de Ontem e de Hoje
Portugália Editora (1947), p.132

Primeiro passo


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

"António Quadros um jovem crítico português"


"Talvez não estejamos desligados de Portugal, dos escritores portugueses contemporâneos, tanto quanto se diz. Há sempre os leitores de António Sérgio, João Gaspar Simões, Casais Monteiro, José Osório de Oliveira, Manuel Anselmo, sem falar dos poetas, é de um crítico jovem que quero tratar, de António Quadros, que reuniu em "Modernos de ontem e de hoje", os seus ensaios literários dos vinte anos, um voluminho simpático (Portugália Editora, Lisboa) que nos traz um mundo de escritores, de artistas que lhe serão caros e que encontram eco na nossa sensibilidade.  António Quadros diz as coisas que ele pensa com um jeito (fino, essa delicadeza incomum em alguns críticos, e os seus ensaios acabam sendo uma ronda amorosa em torno de escritores e ideias. Ronda de que ele não exclui os brasileiros, um José Lins do Rego, um Ribeiro Couto, um Enrico Verissimo. (...) António Quadros mostra, à medida que vamos entrando na sua intimidade, no seu convívio com os livros, uma inteligência muito sensível que pouco tem de adolescente, de vinte anos, que mais parece revelar um velho habitus literário. (...) Não sei de nada sobre ele a não ser este livro, não conheço referência a ele em outros escritores, mas acho que sei alguma coisa, acho que sei um pouco desta sensibilidade devotada ao belo, ao humano, que se oferece à gente neste volume de trezentas páginas. Os seus ensaios provam uma vivência literária e um estado intelectual e lírico que a gente encontra com menos assombro num Roberto Alvim Corrêa, num Augusto Meyer, para falar nos nossos, do que neste companheiro de vinte anos. (...)"

Carlos David
"Um jovem crítico português", Letras e Artes (Suplemento de "A Manhã") 
16-03-1952

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Mais do que uma vantagem


"A crença em Deus cumpre que seja mais do que uma vantagem. A ideia de Deus cumpre que se torne uma verdade. Acessível, pois, humanamente inobjectável. (...) "

António Quadros 
Uma Frescura de Asas, Europress (1990) p. 48