domingo, 26 de outubro de 2014

Insuportável e degradante

"A tagarelice - o que há de mais insuportável e degradante. (...)"
Albert Camus
25 de Outubro de 1937| Primeiros Cadernos

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Dilma ou Aécio?

A POLÍTICA DO DIA

Hoje a vida tem o sorriso
dentífrico dos candidados
e pelas ruas nos aponta
o céu em múltiplos retratos

céu não póstumo ou merecido
em cruel sala de espera
mas entre parêntesis de fogo
festiva véspera de guerra.

Teor de montras a vida
com democrático amor
a todos deixa gozar
sua dose de consumidor.

Publicitária a vida faz
sua campanha eleitoral:
É entrar meus senhores, quem dá mais
por princípios que não têm final?

Televisor férias de verão
tira a vida do seu discurso
e um partido providencial
que nos domestica o urso.

Popular a vida é toda
pétalas de apertos de mão.
Que meus versos me salvem
de cair nesse alçapão!

Natália Correia
A mosca iluminada (1972)

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Não vale a pena

“Só vale a pena discutir com as pessoas com as quais já estamos de acordo quanto aos pontos fundamentais; só aí se mantém, na pesquisa, a fraternidade essencial; tudo o resto é concorrência, batalha, luta pelo triunfo; não menos reais por serem disfarçados.” 

Agostinho da Silva
via Grupo de Investigação de Pensamento Português da UL

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Tanto mais

"Quanto mais se altera o fruto a nossos olhos e desce da ordem do prodígio à de instrumento, de mistério a matéria consumada, tanto mais nós nos afastamos dos nossos jovens anos. (...)"

Cristina Campo
Sob um falso nome (1998)

sábado, 11 de outubro de 2014

A bebida dava-lhes a facilidade de esquecerem


"Não nos interessa neste momento saber se haverá redenção para tal queda e se algum dia se poderá vol­tar à Idade de Ouro, com o fim da guerra à natureza que tem sido a existência histórica da humanidade, com o fim da escravidão dos homens e da submissão de mulheres e de crianças; o que importa fixar agora, para que possamos compreender a essência do teatro, tal como ele se nos apresenta surgindo na Grécia, é que houve uma separação entre a natureza humana e o comportamento humano, que se trocou a espontaneidade pela regra, a alegria pelo sacrifício, a natureza pela sociedade; se não receássemos ir longe demais, diríamos que se trocou o instinto pela razão ordenadora; houve uma quebra entre os impulsos mais profundos e a necessária vida social; foi-se obrigado a remar contra a corrente do rio e só em raras ocasiões pôde o homem voltar a esse profundo, íntimo, identificante contato com o mundo natural. 
Uma dessas ocasiões era a festa das colheitas, so­bretudo a da vindima; é o momento em que o homem tem ante si os frutos prontos ao consumo e em que se dá como que a renovação do milagre antigo de haver sempre à disposição de todos os alimentos necessá­rios; tudo o que fora trabalho, disciplina, ciência e es­forço organizado, tudo desaparecia e se esquecia diante da colheita que vinha garantir um ano mais de existência. E espontaneamente surgiam os cantos e as danças, os cortejos ruidosos; Dionísio, deus dos instin­tos e da natureza, quebrava a calma, a serenidade, e o racional saber de Apolo; com a fabricação do vinho, as festas foram um grau mais alto, porque a bebida lhes dava a facilidade de esquecerem, não a vida, mas a morte lenta e contínua em que andavam mergulha­dos; e era bebendo que eles reencontravam a vida verdadeira, a outra, a da alegria sem limites, a da ir­responsável liberdade, a dos instintos sem grilhões. Com o vinho, porém, não só se estava usando para reentrar em contato com a natureza, dum meio não natural, o que era contraditório, como também, com o despertar da embriaguez, mais duramente se sentia a estreiteza do mundo real, do mundo social, daquele em que se tinha de viver. 
O conflito entre o apetite e o de­ver punha-se ainda duma forma mais aguda; o que era a festa de Dionísio, o que era reatar dos laços que se tinham quebrado, não se conseguia ver livre do domínio, da presença, da paradoxal sombra de Apolo. Na realidade, dadas as condições de vida que existiam, o homem nada mais conseguia fazer que não fosse um conflito perpétuo entre a força do instinto e a da inteligência previsora, entre a fusão completa com a natureza e a distinção entre um sujeito que pensa e um objeto que é pensado. (...)"

Agostinho da Silva
A Comédia Latina

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Flores matizadas


"A verdadeira educação da mente nunca teve outra finalidade, desde que o mundo existe, senão a morte da técnica, daquele triste saber viver que à criança, à qual tudo resulta por natureza, um dia foi fornecido pelos adultos. Por este artesanato do viver todos os homens são arrancados aos limiares da sua inocência, tal como pelas flores matizadas ou pela cerva perseguida na caça os antigos princípios à casa paterna. (...)"

Cristina Campo
Os Imperdoáveis (2008)

Distribuição da pobreza

"O governo das sociedades contemporâneas é orientado segundo um princípio absolutizado e universalizado, a que tudo se deve subordinar: o princípio da economia. O predomínio absoluto deste princípio começou por constituir a arma que conquistou para a burguesia o domínio das sociedades. Conquistado esse domínio, logo o princípio da economia se revelou instrumento da mais flagrante e dolorosa injustiça. Multiplicaram-se as suas vítimas vertiginosamente, até abrangerem a quase totalidade dos homens. Quando essa injustiça, assim estabelecida, ficou patente e adquiriu as proporções de escândalo, procurou-se atribuir às modalidades e processos de aplicação do princípio, não ao próprio princípio, a sua origem e causa. Mantendo-se assim, no seu pedestal, esse princípio absoluto e único, reforçando-o e elevando-o até mais alto, dividiram-se em duas correntes principais os adoradores do ídolo - chamaram-se uns socialistas, chamaram-se outros capitalistas. O que os distingue é apenas a modalidade, o processo daquilo que ambos os grupos designam por «distribuição da riqueza», designação sarcástica pois do que efectivamente se trata é da «distribuição da pobreza». De qualquer modo, o ídolo é o mesmo, o princípio fica intocável e sua soberania continua a ser total. (...)"

 Orlando Vitorino 
"Suaves Cavaleiros" «A Ilha», nº4/1 a 14, Jan.1971

domingo, 28 de setembro de 2014

Foleirice educacional


"O espírito dos livros (...) desapareceu entre revoadas de detritos vocabulares, de alarvidades administrativas, de foleirice educacional. Ouvir hoje falar os acossados e infelizes professores de todos os níveis de ensino, (que dantes incutiam a droga fulgurante da leitura), é assistir a um desfile de inépcias, a um esquecimento conduzido por fotocópias, à sufocação por ordenados que mal dão para sobreviver quanto mais para se descobrir em hábitos de conhecimento, à amargura de seres a si mesmos despromovidos, incapazes de gosto porque amordaçados por tempos infames e destruidores em tarefas imbecis, entre gente submetida à maldição de um Ministério medíocre (...)"

Joaquim Manuel Magalhães
Um pouco da morte, Editorial Presença (1989) p. 294

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Homenagem a José Régio | 23 de Janeiro de 1979

António Quadros, ?, Natália Correia, João Gaspar Simões e Ary dos Santos
Homenagem a José Régio, Lisboa, 23 de Janeiro de 1970

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Não existindo

"Porque, havendo-me acostumado, em todas as outras coisas, a fazer distinção entre essência e existência, persuado-me facilmente que a existência pode ser separada da essência de Deus e que assim, se pode conceber a existência de Deus como não existindo actualmente. (...)" 

 Sampaio Bruno 
A Ideia de Deus, (1902) 
Lello & Irmãos - Editores, 1987, p. 234

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Não por malícia


"O que ilumina o mundo e o torna suportável é o habitual sentimento que temos dos nossos laços com ele - e mais particularmente do que nos liga aos seres. As relações com os seres ajudam-nos sempre a continuar porque pressupõem desenvolvimentos, um futuro - e também porque vivemos como se a nossa única tarefa fosse precisamente o manter relações com os seres. Mas nos dias em que nos tornamos conscientes de que não é a nossa única tarefa, sobretudo nos dias em que compreendemos que só a nossa vontade conserva esses seres ligados a nós - deixem de escrever ou de falar, isolem-se e verão como eles fundem em vosso redor - verão como a maioria está na realidade de costas voltadas (não por malícia, mas por indiferença) e que o resto conserva sempre a possibilidade de se interessar por outra coisa; quando imaginamos desta forma tudo quanto entra de contingente, de jogo das circunstâncias, no que costuma chamar-se um amor ou uma amizade, então o mundo regressa à sua noite e nós a esse grande frio de que a ternura humana por um momento nos tinha afastado. (...)"

Albert Camus, Cadernos II
trad. António Quadros, Lisboa: Livros do Brasil, s/d

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Agora, de repente


"Fomos a casa deles, no inverno, e João [Ubaldo Ribeiro] estava de calções e chinelos a cozinhar.  Tinha o sorriso mais extraordinário que alguma vez encontrei e nunca vi ninguém tão baiano, com um sentido de humor caloroso e irónico. Ofereceu-me os seus livros, e lembro-me de ter escrito, na dedicatória de Vila Real, <Ao António, não sabendo mais o que escrever>. (...) Agora, de repente, dizem-me João morreu. Não sei se acredite (...) 

António Lobo Antunes
Visão, Agosto de 2014

domingo, 10 de agosto de 2014

Presente


"O sonho prolongava-se na vigília; não havia solução de continuidade entre o que a consciência recorda como pesadelo passado e o que ela registra como efectividade presente. É o mais que posso esmiuçar. Enfim, não sei. (...)"

Sampaio Bruno
A Ideia de Deus (1902)

sábado, 9 de agosto de 2014

Ribeiro Couto


"Cabocla é um poema. O poema do sertão, o poema da moça de estaçãozinha pobre que Ribeiro Couto trazia dentro de si desde as suas primeiras viagens pela serra acima. 
No símbolo que encerra, Cabocla está na linha da Cidade e as Serras de Eça de Queiroz e Pureza de José Lins do Rego. No ataque à artificialidade da vida citadina e na apologia da vida simples, «natural». (...) Mas enquanto em Eça ou Lins do Rego este símbolo toma uma importância considerável, para não dizer fundamental, em Cabocla, a sua importância é apenas acessória. Porque tudo o que não seja poema, neste romance, é acessório. (...)"

António Quadros
"Cabloca, o romance da saudade", Modernos de Ontem e de Hoje
Portugália Editora (1947), p.180

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"Sabíamos, pela direção do rumor, qual das crianças se movera na cama, no quarto ao lado. Robertinho tinha mau dormir e dava surdos pontapés na parede. Mariazinha sonhava em voz alta. Meu conhecimento do chão era minucioso. Evitava todas as tábuas em falso, todas as asperezas que podiam magoar-me os joelhos, todos os trechos do corredor em que o madeiramento rangia. Adivinhava no escuro os pontos da parede em que me podia apoiar sem enfiar a mão em buracos do adobe, que sugeriam sempre a vida obscura de desconhecidos insetos. (...)"


Ribeiro Couto
Cabocla (1931)

Autor

"O melhor é desistir das ideias de unidade, regularidade, perfeição. É mais um livro. Sou mais um autor. (...)"

António Quadros
Modernos de Ontem e de Hoje (1947)

sábado, 26 de julho de 2014

Fedro

"Quem ousaria dizer ao autor do Fedro: Põe de parte o aspecto mítico ou mítico-poético do teu pensamento para seres lógico (...)?"

José Marinho
 Filosofia, Ensino ou Iniciação, (1972) p. 57

Somos bons a empurrar

"Empurra-se o menino, empurra-se o adolescente, empurra-se o adulto: somos todos uns excelentes pedagogos: empurramos. (...)"

Agostinho da Silva 
Dispersos (1989)

Cabeças cúbicas/bestas quadradas

"O que fazemos é criar cabeças cúbicas. E nós perdemos essa memória do cúbico, o que dizemos é que a maior parte das vezes, a pessoa sai da escola sendo uma besta quadrada."

 Agostinho da Silva 
Namorando o amanhã (1996), p.44

Saudade, mito, sensação, percepção

“Não é uma actividade menos racionalista pensar a saudade ou o mito, do que pensar a sensação ou a percepção (....).”

António Quadros
Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista, II Volume, p. 25.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Todos os matizes faíscam

"O sol amanhece sobre as águas silenciosas da Bahia e todos os matizes faíscam por cima das ondas, dos topos das árvores do casario suspenso entre as brumas da aurora, os campanários das velas de um saveiro aqui e acolá. (...)"

João Ubaldo Ribeiro
Viva o povo brasileiro (1984) 

18,19 e 23

Dia 18 de Julho morre
dia 19 Rubem Alves
dia 23 Ariano Suassuna.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Ariano Suassuna 1927-2014

Angelina


"As primeiras lições encontraram a sua inteligência aberta. Angelina era sôfrega de aprender, de estudar, para brilhar perante os mestres, a família, as pessoas das relações. Havia, no seu ânimo, o propósito, inconsciente, de vencer as amigas e as primas na única competição a que podia concorrer com elas, a da inteligência. Dentro em pouco era tido como prodigiosa. Fazia exames em Lisboa e obtinha classificações desvanecedoras. Também aprendia música e tocava expressivamente harpa e violino. Pelos quinze anos começou a fazer versos. Mais tarde, depois de passar uns invernos em Lisboa, de ver o teatro português e francês, escreveu teatro. (...) Mas Angelina ainda tinha fome de mais aplausos e desejava publicar as suas peças. (...) Os pais facilitavam-lhe todos os desejos, viviam em perene servidão de amor, por contricção de suas culpas irremissíveis e para que a infelicidade de Angelina se atenuasse. O remorso dos dois transparecia na generosidade com que lhe satisfaziam os caprichos. (...) O notário da vila, um janota disposto a vender em leilão matrimonial a sua categoria de doutor, escreveu a Angelina a primeira carta amorosa. Uma carta que ela leu com espanto e releu com angústia. Uma carta com que ela rasgou o véu que lhe encobria a tragédia do destino. (...)"

Maria Archer
Filosofia de uma mulher moderna (1950) p.84

terça-feira, 22 de julho de 2014

Pedra Bonita de José Lins do Rego


"José Lins do Rego, escritor nordestino, da Paraíba, foi e continua a ser um dos romancistas brasileiros mais apreciados em Portugal, onde estão editados quase todos os seus livros. Não poderemos considerá-lo um autor regionalista, porque procura dar e dá a visão em profundidade da paisagem humana, social e física do Nordeste, quer no sentido da sua identificação, quer num sentido psicológico, sociológico e ético, nunca cedendo à tentação, comum nos anos trinta e quarenta, de fazer literatura de subordinação ideológica ou política.
De entre os seus melhores romances (...) Pedra Bonita avulta como um dos mais poderosos, senão o mais radical e profundo no esboço das suas figuras de tragédia, embora num contexto aventuroso, épico e místico. Tem continuação em Cangaceiros, mas agora antes com acentuação no tema do cangaço onde se misturam o crime, a vingança, o carisma heróico do bandido, um código de honra, a violência desapiedada, a luta do bem e do mal, o ódio e também por vezes a força de sentimentos recalcados como o amor filial ou fraternal, pois Domício, o tocador de viola, irmão de Bentinho, um dos fanáticos da Pedra, acabou por juntar-se ao chefe dos Cangaceiros, o seu outro irmão, Aparício. Pedra Bonita não narra propriamente os episódios de 1838, atrás citados. É sobretudo o romance do destino implacável, do fado inescapável, do mythos trágico no sentido grego. Se o mito sebástico fora até aqui patriótico, entre saudosista e profético, simbólico de uma esperança ou de uma aposta no maravilhoso, de um dinamismo messiânico, embora onírico, mas representativo de um pathos nacional, Lins do Rego ergue, com o seu António Bento, uma figura de tragédia sertaneja, segundo o arquétipo das personagens de  Ésquilo e de Sófocles. (...)"

António Quadros
Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista (1983) p. 202

Suassuna


"Simplesmente, Suassuna o que faz é realizar, prodigiosamente, em romance e em poesia, na dupla dimensão do histórico-existencial e do mítico-popular, algo de equivalente àquela maravilhosa viagem onírica que nos contou Jung nas suas memórias e que lhe abriu o caminho psicológico para a descoberta do inconsciente colectivo ou arcaico. (...) Suassuna só pode ser valorativamente  apreciado, quanto a mim, na altíssima perspectiva dos grandes criadores literários do nosso século. (...)"

António Quadros
Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista (1983) p.235

António Quadros e Ariano Suassuna


António Quadros e Lima de Freitas


Em Nova-Iorque

No Carvoeiro

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Os amantes

- Onde íamos nós?
- Não sei. Tenho medo. Não sou capaz de continuar.
- Não és capaz? Agora, que tudo ia tão bem? Não vês como tudo tem corrido hoje muito melhor?
- Mas tenho medo. Acho que estamos a dar cabo de nós. Qualquer dia damos cabo um do outro.
- E então, não vale a pena? Ou sentes-te muito satisfeita com aquilo que és? Ou pensas que me devo sentir muito satisfeito com aquilo que sou?

(...)

- O que é preciso é irmos todas as noites cada vez mais longe.
- E depois?
- Ou há sempre depois ou deixa de haver depois. Não podemos parar.
- Eu preferia que voltássemos para trás.
- Não. Isso nunca.

David Mourão-Ferreira
Os Amantes (1968) p.117

Fraternalíssimo



Ao António Quadros,
querido Amigo, incomparável camarada,
figura de proa
em tantos e variados sectores da cultura portuguesa contemporânea
e sobretudo, ao excelente narrador das "Histórias do Tempo de Deus",
com o fraternalíssimo abraço 
do
David Mourão-Ferreira
Junho. 68.