quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Vieira

"É curioso que, sendo escassa a minha capacidade de entusiasmo, ela é naturalmente mais solicitada pelos que se me opõem em temperamento do que pelos que são da minha espécie espiritual. A ninguém admiro, na literatura, mais que aos clássicos, que são a quem menos me assemelho. A ter que escolher, para leitura única, entre Chateaubriand e Vieira, escolheria Vieira sem necessidade de meditar. (...)"

Bernardo Soares
Livro do Desassossego

Ser

"A sensibilidade de Mallarmé dentro do estilo de Vieira; sonhar como Verlaine no corpo de Horácio, ser Homero ao luar. (...)"

Bernardo Soares
Livro do Desassossego

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Escreve-se

"Escreve-se para os vizinhos ou para Deus. Tomei o partido de escrever para Deus com o fito de salvar os meus vizinhos. Eu queria devedores de obrigações e não leitores.  (...)"

 Jean-Paul Sartre 
As Palavras (1964) pp. 155-156

Durante muito tempo

"Durante muito tempo invejei os porteiros da Rua Lacépède, quando a noite e o verão os fazem sair para a rua, encavalitados nas cadeiras: os seus olhos inocentes olhavam sem ter a missão de ver. (...)"

Jean-Paul Sartre
As Palavras (1964) p. 142

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Cujo significado nos escapa

"Camus pertenceu à geração dos que, perdida a antiga fé numa religião ou sequer na filosofia considerada como sistema capaz de explorar todo o paradoxal, todo o contraditório, todo o enigmático que a existência oferece, se encontraram subitamente num mundo absurdo, cujo significado lhes escapa. (...)"
António Quadros
Os Justos, Livros do Brasil (1960) de Albert Camus 
(do prefácio)

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Recordação imóvel

"O campo, para mim, é a revivescência permanente de uma recordação imóvel. Sucede isto porque no campo, por mais que tudo mude, tudo está sempre no princípio, silencioso e quieto. É da ordem das coisas que não haja tempo. (...)"

Paulo Varela Gomes
Ouro e Cinza (2014)
via Antologia do Esquecimento

terça-feira, 18 de novembro de 2014

A actualidade da poesia


"(...) Creio entender a razão pela qual a atualidade da poesia é mais questionada do que a de outros gêneros artísticos tradicionais. É que, de maneira geral, as outras artes podem ser apreciadas não apenas de modo refletido e profundo, mas também são capazes de nos entreter de modo ligeiro e superficial. Podemos apreciar uma peça musical mesmo enquanto estamos, por exemplo, trabalhando. E podemos apreciar uma obra plástica como uma pintura ou uma escultura, por exemplo, “en passant”. A poesia escrita, por outro lado, quase sempre exige de nós, para que a apreciemos, que a leiamos de modo refletido e profundo.
A mais evidente razão para isso é que a linguagem do poema não funciona do modo convencional e cotidiano. Normalmente, usamos a linguagem como um instrumento para a comunicação e o pensamento prático, utilitário, instrumental. Pois bem, a linguagem do poema nem se limita a ser mero instrumento ou meio, nem está a serviço do pensamento instrumental. No poema, fundem-se meio e fim, assim como outras categorias que, no uso convencional da linguagem, tendem a se manter separadas, tais como essência e aparência, forma e conteúdo, significante e significado etc. Por isso, não podemos ler um poema ao modo impensado, ligeiro, superficial, automático, irrefletido em que lemos a maior parte das coisas. A leitura do poema toma tempo, e dá trabalho.
Ora, algo que, além de tomar tempo e dar trabalho, não oferece qualquer perspectiva de trazer alguma recompensa palpável — e, de preferência, pecuniária — é simplesmente incompatível com a hoje predominante apreensão instrumental do ser. Para esta, ela não faz senão atrapalhar a vida.
É exatamente por ser capaz de impedir a redução da vida a essa sua dimensão instrumental que a poesia é importante no mundo contemporâneo. É ao subverter ou perverter a linguagem instrumental e sua correspondente apreensão instrumental do ser que a poesia convida o leitor a se permitir livremente enredar e fascinar pelos sentidos dos versos, palavras, paronomásias, metáforas, metonímias, alusões, sugestões, melodias, ritmos, silêncios, espaços etc. dos poemas. E é ao deixar, nesse empenho, interagirem e brincarem em seu pensamento razão, emoção, intelecto, sensibilidade, intuição, memória, senso de humor etc., que o leitor enriquece a vida com um outro modo de apreensão do ser: o poético."

Antônio Cícero
Jornal O Globo | Novembro de 2014
Texto completo aqui

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

X Colóquio Tobias Barreto, dias 17 e 21 de Novembro, em lisboa


Promovido pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira (IFLB), o X Colóquio Tobias Barreto: A Filosofia Jurídica Luso-Brasileira do século XIX, realiza-se em Lisboa entre os dias 17 e 21 de Novembro de 2014.

Programa

17 Novembro: Palácio da Independência

15h | Sessão de Abertura
16h | Panorama Geral da Filosofia jurídica luso-brasileira no século XX:
António Braz Teixeira

17h | I – Utilitarismo jurídico

J.J. Rodrigues de Brito: José Esteves Pereira
Silvestre Pinheiro Ferreira: Rodrigo Sobral Cunha

18 novembro: Universidade Nova de Lisboa

10h|II – Jusnaturalismo sensista

Mont’Alverne: Jorge Teixeira da Cunha
Avelar Brotero: Paulo Ferreira da Cunha
António Luís de Seabra: Pedro Barbas Homem

Intervalo para Almoço

15h|III – Racionalismo e krausismo jurídicos

Pedro Autran de Albuquerque: Ana Paula Loureiro
Vicente Ferrer Neto Paiva: Clara Calheiros
J. Dias Ferreira: Mário Reis Marques
J.M. Rodrigues de Brito: António Paulo Oliveira
Galvão Bueno: António Braz Teixeira
J. Teodoro Xavier de Matos: Arsênio Eduardo Correa
Cunha Seixas: Joaquim Domingues

19 Novembro: Universidade Nova de Lisboa

10h|IV – A Tradição Escolástica

L. Azevedo e Silva Carvajal: Luís Lóia
José Soriano de Sousa: Fábio Abreu Passos

Almoço e Tarde Livre

20 Novembro: Universidade Nova de Lisboa

10h|V – Monismo culturalista da Escola do Recife

Tobias Barreto: José Maurício de Carvalho
Sílvio Romero: Constança Marcondes César
Clóvis Bevilaqua: Rogério Garcia de Lima

Intervalo para Almoço

15h|VI – Cientismo, Naturalismo e Positivismo na Concepção do Direito

F. Faria e Maia: Manuel Cândido Pimentel
Teófilo Braga: Afonso Rocha
Manuel Emídio Garcia: Norberto Cunha
Henriques da Silva: João Titta Maurício
Alberto Sales: Ricardo Vélez Rodríguez
Pedro Lessa: Adelmo José da Silva

21 Novembro: Universidade Nova de Lisboa

10h| Evocação de Lúcio Craveiro da Silva e Milton Vargas
11h| Apresentação de Obras
12h| Sessão de Encerramento

X Colóquio Tobias Barreto
A Filosofia Jurídica Luso-Brasileira do século XIX
Lisboa, 17-21 de novembro de 2014

Parcerias
Centro de Histria da Cultura da Universidade Nova de Lisboa
Universidade de São João d’El Rei.

Apoios
Fundação Calouste Gulbenkian
Grupo Delta
Grupo Jerónimo Martins
Sociedade Histórica da Independência de Portugal.

Espírito de pertença

"(....) Como escreveu George Steiner, «há tempos de crise em que só a utopia é realista». O realismo da extensíssima rede de possibilidades de “vida real” que o passado nos legou sob a forma de tradição e cultura, nem sempre tem aplicação imediata. A ciência nem sempre tem aplicação imediata. Os saberes nem sempre têm uma aplicação imediatamente quantificável. No entanto, esse facto não os impede de contribuírem decisivamente para a criação de coesão social, espírito de pertença, sentido. Sem isso, nenhuma vida é real, nem sequer a das empresas. O desprezo com que os nossos governantes encaram actualmente a infelicidade social dos portugueses compreende-se melhor no contexto desta obsessão empresarial. E no entanto, “há mais coisas nos céus e na terra...”. O excessivo protagonismo de empresas, empresários e empreendedores decorre de uma descrição ideologicamente construída; uma descrição que desvaloriza muitas outras profissões e actividades, sem as quais nenhuma sociedade digna desse nome pode sobreviver. O excessivo protagonismo de empresas, empresários e empreendedores decorre de uma descrição ideologicamente construída; uma descrição que desvaloriza muitas outras profissões e actividades, sem as quais nenhuma sociedade digna desse nome pode sobreviver."

 Rosa Maria Martelo
Pelas 14h30 do dia 17 de Janeiro de 2014

domingo, 9 de novembro de 2014

Pística de "pistia" ou da relação com o divino

"Se o sentimento religioso morre, fazendo desaparecer a via pística do conhecimento, se a razão abre falência, na crise do positivismo, do idealismo germânico e, de um modo geral, das conglomerações de ideias tendentes a eternizar e a universalizar os conceitos, o homem vê-se então perdido num universo onde tudo lhe é estranho e cuja linguagem não entende. (...)"

António Quadros (do prefácio)
Os Justos, Livros do Brasil, (1960)de Albert Camus  

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Candidato a máquina

"Um trabalho que se oponha ao recreio não é verdadeiramente trabalho, é «criação de fadiga». Para evitar a fadiga no trabalho moderno dá-se ao artífice a categoria de «especialista» e habitua-se o trabalhador ao seu trabalho. Mas um trabalhador habituado não é um trabalhador, mas um candidato a máquina. O homem e a máquina são duas tendências inevitáveis do mundo moderno: há homens que se pretendem libertar da máquina que os domina em qualquer aspecto da vida social e há homens que se pretendem libertar do homem que neles cohabita. Um trabalho em recreio, outro em escravidão. O poeta é um dos extremos desta oposição. E Holderlin é de todos os poetas talvez o que mais se afastou do extremo oposto. O poeta recreia-se no seu mundo de imagens e a poesia é por isso «a mais inocente das ocupações». Poesia é um sonho verbal, é um recreio em palavras. E a sua substância é sempre e só o domínio verbal. (...)"

Delfim Santos
Revista de Portugal, nº4, 1938
via Homo Viator

Na poesia o homem concentra-se no fundamento da sua própria presença

"Não há história sem linguagem e não há linguagem sem poesia. A «presença humana» é, neste sentido, sempre poética. A essencial manifestação da linguagem é por sua vez o diálogo, e o diálogo o essencial fundamento da «presença humana». Mas a linguagem é o «mais perigoso de todos os bens», e a poesia, sendo «a mais inocente das ocupações», é também algo perigoso. A poesia parece uma actividade lúdica; porém, há uma diferença a notar entre jogo e poesia: o jogo reúne os homens e de tal modo que cada um se esquece de si próprio; na poesia o homem concentra-se no fundamento da sua própria presença. A poesia revela a poesia e o sonho em frente à realidade. E mais do que isto. A poesia mostra que a realidade é o mundo que ela revela e não aquilo que como tal é tido por todos. Poesia é a firme fundamentação da realidade. (...)"

Delfim Santos
Revista de Portugal, nº4, 1938
via Homo Viator

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A pérolas parecem falsas/verdadeiras


"Em certas mulheres, as mais belas pérolas parecem falsas. Em outras, ao contrário, as pérolas falsas parecem verdadeiras. (...)" 

Jean Cocteau em o «Tomaz, o Impostor» 
Edição Livros do Brasil, tradução de António Quadros

Na origem da actividade


"Não reconheço verdadeiramente adversários em minha volta, porque de todos me sinto irmão, na origem da minha actividade, na geratriz da minha energia ao serviço de um causa. (...)"

António Quadros

Alunos arquivo


"Nós perguntamos apenas se um ensino universitário que desconfia por princípio de toda a personalidade e toda a originalidade, fazendo o possível por transformar os alunos em grosseiros arquivos mnemónicos, contribuirá de algum modo para o desenvolvimento da cultura nacional? (...)" 

António Quadros

Partidos políticos


"Muito ao contrário, dir-se-ia que os partidos políticos é que se consideravam neste país os únicos detentores das verdades políticas e os únicos instrumentos do ressurgimento nacional, pois forçoso lhes parece constituirmo-nos em partido novo, ou enfileirarmos num antigo, para podermos exercer qualquer acção política. (...) Mas então os partidos, para estes senhores de partido, são simples moldes vazios onde todas as ideias e todos os propósitos se podem fundir, tábuas de cera mole que admitem todo o tipo de escritura? (...) Ingressar num partido quer dizer, para nós, aceitar-lhe o programa. (...) Ingressem os partidos no nosso programa, e a coisa ficará certa. O contrário é pedir à esfera que seja cúbica, ao cubo que seja redondo, e ao português que tenha senso crítico." 

 Raul Proença «Seara Nova», n.º 27, Outubro de 1923

Hierarquia dos valores

"A única reforma subsistente será a reforma espiritual, que volte a colocar a Verdade no vértice da hierarquia dos valores. (...)"

Albert Camus 
Os Justos, Livros do Brasil, (1960) 
Tradução e Prefácio de António Quadros

Desde o ventre

"Não me lembro da minha mãe. Ela morreu tinha eu um ano. Tudo o que há de disperso e duro na minha sensibilidade vem da ausência desse calor e da saudade inútil dos beijos de que me não lembro. (...) Ah, é a saudade do outro que eu poderia ter sido que me dispersa e sobressalta. Quem outro seria eu se me tivessem dado carinho do que vem desde o ventre até aos beijos na cara pequena? (...) Talvez que a saudade de não ser filho tenha grande parte na minha indiferença sentimental. (...)"

Fernando Pessoa
Livro do Desassossego, Europa-América 
(org. António Quadros), p.209

A ideia de o publicar

"Foi Jorge de Sena (...) quem primeiro estudou o Livro do Desassossego, pois dele partiu, em 1960, a ideia de o publicar, propondo-o à Àtica, tendo chegado a colaborar estreitamente com Maria Aliette Galhoz, que realizou o primeiro grande trabalho de investigação, e a redigir o que seria a sua «Introdução» mas desligando-se do projecto em 1969, por razões várias. (...)"

António Quadros
introd. a Livro do Desassossego, 1ªparte
Europa-América (1986)

domingo, 26 de outubro de 2014

Duas respostas

"A respeito de um mesmo assunto, não pensamos pela manhã da mesma forma que à noite. Mas onde está a verdade, no pensamento nocturno ou no espírito do meio-dia? Duas respostas, duas raças de homens. (...)" 

Albert Camus 
Maio de 1938  | Primeiros Cadernos

Insuportável e degradante

"A tagarelice - o que há de mais insuportável e degradante. (...)"
Albert Camus
25 de Outubro de 1937| Primeiros Cadernos

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Dilma ou Aécio?

A POLÍTICA DO DIA

Hoje a vida tem o sorriso
dentífrico dos candidados
e pelas ruas nos aponta
o céu em múltiplos retratos

céu não póstumo ou merecido
em cruel sala de espera
mas entre parêntesis de fogo
festiva véspera de guerra.

Teor de montras a vida
com democrático amor
a todos deixa gozar
sua dose de consumidor.

Publicitária a vida faz
sua campanha eleitoral:
É entrar meus senhores, quem dá mais
por princípios que não têm final?

Televisor férias de verão
tira a vida do seu discurso
e um partido providencial
que nos domestica o urso.

Popular a vida é toda
pétalas de apertos de mão.
Que meus versos me salvem
de cair nesse alçapão!

Natália Correia
A mosca iluminada (1972)

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Não vale a pena

“Só vale a pena discutir com as pessoas com as quais já estamos de acordo quanto aos pontos fundamentais; só aí se mantém, na pesquisa, a fraternidade essencial; tudo o resto é concorrência, batalha, luta pelo triunfo; não menos reais por serem disfarçados.” 

Agostinho da Silva
via Grupo de Investigação de Pensamento Português da UL

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Tanto mais

"Quanto mais se altera o fruto a nossos olhos e desce da ordem do prodígio à de instrumento, de mistério a matéria consumada, tanto mais nós nos afastamos dos nossos jovens anos. (...)"

Cristina Campo
Sob um falso nome (1998)

sábado, 11 de outubro de 2014

A bebida dava-lhes a facilidade de esquecerem


"Não nos interessa neste momento saber se haverá redenção para tal queda e se algum dia se poderá vol­tar à Idade de Ouro, com o fim da guerra à natureza que tem sido a existência histórica da humanidade, com o fim da escravidão dos homens e da submissão de mulheres e de crianças; o que importa fixar agora, para que possamos compreender a essência do teatro, tal como ele se nos apresenta surgindo na Grécia, é que houve uma separação entre a natureza humana e o comportamento humano, que se trocou a espontaneidade pela regra, a alegria pelo sacrifício, a natureza pela sociedade; se não receássemos ir longe demais, diríamos que se trocou o instinto pela razão ordenadora; houve uma quebra entre os impulsos mais profundos e a necessária vida social; foi-se obrigado a remar contra a corrente do rio e só em raras ocasiões pôde o homem voltar a esse profundo, íntimo, identificante contato com o mundo natural. 
Uma dessas ocasiões era a festa das colheitas, so­bretudo a da vindima; é o momento em que o homem tem ante si os frutos prontos ao consumo e em que se dá como que a renovação do milagre antigo de haver sempre à disposição de todos os alimentos necessá­rios; tudo o que fora trabalho, disciplina, ciência e es­forço organizado, tudo desaparecia e se esquecia diante da colheita que vinha garantir um ano mais de existência. E espontaneamente surgiam os cantos e as danças, os cortejos ruidosos; Dionísio, deus dos instin­tos e da natureza, quebrava a calma, a serenidade, e o racional saber de Apolo; com a fabricação do vinho, as festas foram um grau mais alto, porque a bebida lhes dava a facilidade de esquecerem, não a vida, mas a morte lenta e contínua em que andavam mergulha­dos; e era bebendo que eles reencontravam a vida verdadeira, a outra, a da alegria sem limites, a da ir­responsável liberdade, a dos instintos sem grilhões. Com o vinho, porém, não só se estava usando para reentrar em contato com a natureza, dum meio não natural, o que era contraditório, como também, com o despertar da embriaguez, mais duramente se sentia a estreiteza do mundo real, do mundo social, daquele em que se tinha de viver. 
O conflito entre o apetite e o de­ver punha-se ainda duma forma mais aguda; o que era a festa de Dionísio, o que era reatar dos laços que se tinham quebrado, não se conseguia ver livre do domínio, da presença, da paradoxal sombra de Apolo. Na realidade, dadas as condições de vida que existiam, o homem nada mais conseguia fazer que não fosse um conflito perpétuo entre a força do instinto e a da inteligência previsora, entre a fusão completa com a natureza e a distinção entre um sujeito que pensa e um objeto que é pensado. (...)"

Agostinho da Silva
A Comédia Latina

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Flores matizadas


"A verdadeira educação da mente nunca teve outra finalidade, desde que o mundo existe, senão a morte da técnica, daquele triste saber viver que à criança, à qual tudo resulta por natureza, um dia foi fornecido pelos adultos. Por este artesanato do viver todos os homens são arrancados aos limiares da sua inocência, tal como pelas flores matizadas ou pela cerva perseguida na caça os antigos princípios à casa paterna. (...)"

Cristina Campo
Os Imperdoáveis (2008)

Distribuição da pobreza

"O governo das sociedades contemporâneas é orientado segundo um princípio absolutizado e universalizado, a que tudo se deve subordinar: o princípio da economia. O predomínio absoluto deste princípio começou por constituir a arma que conquistou para a burguesia o domínio das sociedades. Conquistado esse domínio, logo o princípio da economia se revelou instrumento da mais flagrante e dolorosa injustiça. Multiplicaram-se as suas vítimas vertiginosamente, até abrangerem a quase totalidade dos homens. Quando essa injustiça, assim estabelecida, ficou patente e adquiriu as proporções de escândalo, procurou-se atribuir às modalidades e processos de aplicação do princípio, não ao próprio princípio, a sua origem e causa. Mantendo-se assim, no seu pedestal, esse princípio absoluto e único, reforçando-o e elevando-o até mais alto, dividiram-se em duas correntes principais os adoradores do ídolo - chamaram-se uns socialistas, chamaram-se outros capitalistas. O que os distingue é apenas a modalidade, o processo daquilo que ambos os grupos designam por «distribuição da riqueza», designação sarcástica pois do que efectivamente se trata é da «distribuição da pobreza». De qualquer modo, o ídolo é o mesmo, o princípio fica intocável e sua soberania continua a ser total. (...)"

 Orlando Vitorino 
"Suaves Cavaleiros" «A Ilha», nº4/1 a 14, Jan.1971

domingo, 28 de setembro de 2014

Foleirice educacional


"O espírito dos livros (...) desapareceu entre revoadas de detritos vocabulares, de alarvidades administrativas, de foleirice educacional. Ouvir hoje falar os acossados e infelizes professores de todos os níveis de ensino, (que dantes incutiam a droga fulgurante da leitura), é assistir a um desfile de inépcias, a um esquecimento conduzido por fotocópias, à sufocação por ordenados que mal dão para sobreviver quanto mais para se descobrir em hábitos de conhecimento, à amargura de seres a si mesmos despromovidos, incapazes de gosto porque amordaçados por tempos infames e destruidores em tarefas imbecis, entre gente submetida à maldição de um Ministério medíocre (...)"

Joaquim Manuel Magalhães
Um pouco da morte, Editorial Presença (1989) p. 294

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Homenagem a José Régio | 23 de Janeiro de 1979

António Quadros, ?, Natália Correia, João Gaspar Simões e Ary dos Santos
Homenagem a José Régio, Lisboa, 23 de Janeiro de 1970