sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Alma minha gentil que te partiste


Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéro, onde subiste
Memória desta vida se concente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma coisa a dor que me ficou
Da mágoa sem remédio de perder-te.

Rogo a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

Camões Alma minha gentil que te partiste
na voz de João Villaret (1959)

Sem saber

"Sem saber ainda os traços do teu rosto
sei que me reconhecerei em ti
não fisionomicamente
mas no que é comum a todos os corpos
esses tropeços primeiros que a memória não segura
(...)"

Vasco Gato
Fera Oculta (2014)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

«A Teoria do Mito na Filosofia Luso-Brasileira Contemporânea» de António Braz Teixeira


"Analisando o pensamento de José Marinho, o autor refere que «a imagem é a matriz de toda a simbólica», enquanto atributo do mito, acrescentando que «a funda relação entre mito e memória e a raiz mítica de todo o agir revelam que, no homem, a memória e a vontade têm natureza simbólica, significando, a primeira, que no passado ou como passado algo extremamente importante existe e a segunda que algo, igualmente de suma importância, deve ou pode ser alcançado ou realizado pelo agir humano, o que ajudará a compreender que o mundo mítico e o mundo simbólico, enquanto mundo das imagens captadas na sua mais pura, radical e primordial originalidades ou proximidade da origem, sempre acabe por persistir e perdurar, na mais visível e direta expressão simbólica, e nas suas manifestações mais patentes e explícitas ou nas suas significações implícitas, latentes ou veladas, a ponto de se poder dizer que “tudo o que se mostra, apercebe ou concebe, no espaço e no tempo, é símbolo”» (...)
António Braz Teixeira faz uma análise do pensamento de diversos autores luso-brasileiros – desde Teófilo Braga a Urbano Zilles, passando por Oliveira Martins, Aarão de Lacerda, Teixeira Rego, Agostinho da Silva, Almada Negreiros, José Marinho, Eudoro de Sousa, Vicente Ferreira da Silva, Milton Vargas, Renato Cirell Czerna, Adolpho Crippa, Gilberto Kujawski, Vilém Flusser, Vergílio Ferreira, António Quadros, Afonso Botelho e Dalila Pereira da Costa. E é assim que presenciamos um caminho determinado e persistente, na sequência do historicismo de Vico e do idealismo de Schelling – visando um esforço de compreensão da especificidade do mito no pensamento de hoje."

 Guilherme d'Oliveira Martins
A vida dos livros, aqui.

Nuno Bragança - U Omãi Qe Dava Pulus

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Uma espécie de arranjinho optimista

"(...) O final feliz para a humanidade é uma espécie de arranjinho optimista que atraiçoa o poder profético da obra. Mas toda a acção do homem prossegue no sentido contrário: um combate sem tréguas ao amor, o vírus da humanidade de onde brotam perigosíssimos sentimentos, atitudes, valores como a solidariedade, a amizade, a liberdade, enfim o respeito pelo outro, pela sua diferença. O mundo deslumbrante que pretendemos é um mundo padronizado, sem lugar para a diferença, um mundo de relações causa-efeito sem espaço para o improviso, sem espaço para os acidentes, sem direito ao acaso. Este mundo em que hoje vivemos está repleto de gente que luta arduamente por um mundo desses, e luta a ponto de prescindir das suas vidas, são tirantes com lugar de chefia à frente de empresas, instituições, e espalham como podem, propagam como conseguem, os valores cristalizantes do seu mundo virtual. Um mundo virtual que ameaça engolir o mundo real, o mundo dessas pessoas que Babycakes Romero fotografa como quem regista as pinturas rupestres do futuro."

Henrique Manuel Bento Fialho
"As máquinas não fazem greve", aqui.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Inéditos


"Tinha estado muita gente nos mesmos dois lugares como nós dois hoje ali sozinhos por causa um do outro. (...)"

"Almada Negreiros: O que Nunca Ninguém Soube que Houve”
Mostra patente no Museu da Electricidade até ao dia 29 de Março de 2015.
*a fotografia veio do Jornal i.

Mestre! a boneca estava vestida de cor-de-rosa!


"Eu tinha chegado tarde à escola. O mestre quis, por força, saber porquê. E eu tive que dizer: Mestre! quando saí de casa tomei um carro para vir mais depressa, mas, por infelicidade, diante do carro caiu um cavalo com um ataque que durou muito tempo. O mestre zangou-se comigo: Não minta! diga a verdade! E eu tive de dizer: Mestre! quando saí de casa... minha mãe tinha um irmão no estrangeiro e, por infelicidade, morreu ontem de repente e nós ficámos de luto carregado. O mestre ainda se zangou mais comigo: Não minta! diga a verdade!! E eu tive de dizer: Mestre! quando saí de casa... estava a pensar no irmão de minha mãe que está no estrangeiro há tantos anos, sem escrever. Ora isto ainda é pior do que se ele tivesse morrido de repente porque nós não sabemos se estamos de luto carregado ou não. 
Então o mestre perdeu a cabeça comigo: Não minta, ouviu? Diga a verdade, já lho disse! 
Fiquei muito tempo calado. De repente, não sei o que me passou pela cabeça que acreditei que o mestre queria efectivamente que lhe dissesse a verdade. E, criança como eu era, pus todo o peso do corpo em cima das pontas dos pés, e com o coração à solta confessei a verdade: Mestre! antes de chegar à Escola há uma casa que vende bonecas. Na montra estava uma boneca vestida de cor-de-rosa! Mestre! a boneca estava vestida de cor-de-rosa! A boneca tinha a pele de cera. Como as meninas! A boneca tinha tranças caídas. Como as meninas! A boneca tinha os dedos finos. Como as meninas! Mestre! A boneca tinha os dedos finos..." 

 Almada Negreiros 
A Invenção do dia Claro, (1921)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Onde se lê Brasil deve ler-se todos os países

"Estou convencido de que se alguns extraterrestres desembarcassem amanhã no Brasil, haveria experts, jornalistas, especialistas e analistas de toda espécie para explicar às pessoas que, no fundo, não é uma coisa tão extraordinária assim, que já se tinha pensado nisso, que até já existia há muito tempo uma comissão especializada no assunto. E, sobretudo, que não há porque se afobar, pois isso é problema do governo. (...)" 
Félix Guattari
 Micropolítica: cartografias do desejo. (1986)

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Vazio absoluto

"Cerca-me um vazio absoluto de fraternidade (...)"

Fernando Pessoa
(s.d)

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Sobrancelhas


“Já se disse que nunca aflorou um sorriso à boca imperiosa do Redentor, mas com qual outra cambiante aos cantos dos lábios e por entre as sobrancelhas se poderia ter pronunciado certas palavras? (...)"
Cristina Campo
Os Imperdoáveis (2005)

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Vieira

"É curioso que, sendo escassa a minha capacidade de entusiasmo, ela é naturalmente mais solicitada pelos que se me opõem em temperamento do que pelos que são da minha espécie espiritual. A ninguém admiro, na literatura, mais que aos clássicos, que são a quem menos me assemelho. A ter que escolher, para leitura única, entre Chateaubriand e Vieira, escolheria Vieira sem necessidade de meditar. (...)"

Bernardo Soares
Livro do Desassossego

Ser

"A sensibilidade de Mallarmé dentro do estilo de Vieira; sonhar como Verlaine no corpo de Horácio, ser Homero ao luar. (...)"

Bernardo Soares
Livro do Desassossego

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Escreve-se

"Escreve-se para os vizinhos ou para Deus. Tomei o partido de escrever para Deus com o fito de salvar os meus vizinhos. Eu queria devedores de obrigações e não leitores.  (...)"

 Jean-Paul Sartre 
As Palavras (1964) pp. 155-156

Durante muito tempo

"Durante muito tempo invejei os porteiros da Rua Lacépède, quando a noite e o verão os fazem sair para a rua, encavalitados nas cadeiras: os seus olhos inocentes olhavam sem ter a missão de ver. (...)"

Jean-Paul Sartre
As Palavras (1964) p. 142

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Cujo significado nos escapa

"Camus pertenceu à geração dos que, perdida a antiga fé numa religião ou sequer na filosofia considerada como sistema capaz de explorar todo o paradoxal, todo o contraditório, todo o enigmático que a existência oferece, se encontraram subitamente num mundo absurdo, cujo significado lhes escapa. (...)"
António Quadros
Os Justos, Livros do Brasil (1960) de Albert Camus 
(do prefácio)

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Recordação imóvel

"O campo, para mim, é a revivescência permanente de uma recordação imóvel. Sucede isto porque no campo, por mais que tudo mude, tudo está sempre no princípio, silencioso e quieto. É da ordem das coisas que não haja tempo. (...)"

Paulo Varela Gomes
Ouro e Cinza (2014)
via Antologia do Esquecimento

terça-feira, 18 de novembro de 2014

A actualidade da poesia


"(...) Creio entender a razão pela qual a atualidade da poesia é mais questionada do que a de outros gêneros artísticos tradicionais. É que, de maneira geral, as outras artes podem ser apreciadas não apenas de modo refletido e profundo, mas também são capazes de nos entreter de modo ligeiro e superficial. Podemos apreciar uma peça musical mesmo enquanto estamos, por exemplo, trabalhando. E podemos apreciar uma obra plástica como uma pintura ou uma escultura, por exemplo, “en passant”. A poesia escrita, por outro lado, quase sempre exige de nós, para que a apreciemos, que a leiamos de modo refletido e profundo.
A mais evidente razão para isso é que a linguagem do poema não funciona do modo convencional e cotidiano. Normalmente, usamos a linguagem como um instrumento para a comunicação e o pensamento prático, utilitário, instrumental. Pois bem, a linguagem do poema nem se limita a ser mero instrumento ou meio, nem está a serviço do pensamento instrumental. No poema, fundem-se meio e fim, assim como outras categorias que, no uso convencional da linguagem, tendem a se manter separadas, tais como essência e aparência, forma e conteúdo, significante e significado etc. Por isso, não podemos ler um poema ao modo impensado, ligeiro, superficial, automático, irrefletido em que lemos a maior parte das coisas. A leitura do poema toma tempo, e dá trabalho.
Ora, algo que, além de tomar tempo e dar trabalho, não oferece qualquer perspectiva de trazer alguma recompensa palpável — e, de preferência, pecuniária — é simplesmente incompatível com a hoje predominante apreensão instrumental do ser. Para esta, ela não faz senão atrapalhar a vida.
É exatamente por ser capaz de impedir a redução da vida a essa sua dimensão instrumental que a poesia é importante no mundo contemporâneo. É ao subverter ou perverter a linguagem instrumental e sua correspondente apreensão instrumental do ser que a poesia convida o leitor a se permitir livremente enredar e fascinar pelos sentidos dos versos, palavras, paronomásias, metáforas, metonímias, alusões, sugestões, melodias, ritmos, silêncios, espaços etc. dos poemas. E é ao deixar, nesse empenho, interagirem e brincarem em seu pensamento razão, emoção, intelecto, sensibilidade, intuição, memória, senso de humor etc., que o leitor enriquece a vida com um outro modo de apreensão do ser: o poético."

Antônio Cícero
Jornal O Globo | Novembro de 2014
Texto completo aqui

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

X Colóquio Tobias Barreto, dias 17 e 21 de Novembro, em lisboa


Promovido pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira (IFLB), o X Colóquio Tobias Barreto: A Filosofia Jurídica Luso-Brasileira do século XIX, realiza-se em Lisboa entre os dias 17 e 21 de Novembro de 2014.

Programa

17 Novembro: Palácio da Independência

15h | Sessão de Abertura
16h | Panorama Geral da Filosofia jurídica luso-brasileira no século XX:
António Braz Teixeira

17h | I – Utilitarismo jurídico

J.J. Rodrigues de Brito: José Esteves Pereira
Silvestre Pinheiro Ferreira: Rodrigo Sobral Cunha

18 novembro: Universidade Nova de Lisboa

10h|II – Jusnaturalismo sensista

Mont’Alverne: Jorge Teixeira da Cunha
Avelar Brotero: Paulo Ferreira da Cunha
António Luís de Seabra: Pedro Barbas Homem

Intervalo para Almoço

15h|III – Racionalismo e krausismo jurídicos

Pedro Autran de Albuquerque: Ana Paula Loureiro
Vicente Ferrer Neto Paiva: Clara Calheiros
J. Dias Ferreira: Mário Reis Marques
J.M. Rodrigues de Brito: António Paulo Oliveira
Galvão Bueno: António Braz Teixeira
J. Teodoro Xavier de Matos: Arsênio Eduardo Correa
Cunha Seixas: Joaquim Domingues

19 Novembro: Universidade Nova de Lisboa

10h|IV – A Tradição Escolástica

L. Azevedo e Silva Carvajal: Luís Lóia
José Soriano de Sousa: Fábio Abreu Passos

Almoço e Tarde Livre

20 Novembro: Universidade Nova de Lisboa

10h|V – Monismo culturalista da Escola do Recife

Tobias Barreto: José Maurício de Carvalho
Sílvio Romero: Constança Marcondes César
Clóvis Bevilaqua: Rogério Garcia de Lima

Intervalo para Almoço

15h|VI – Cientismo, Naturalismo e Positivismo na Concepção do Direito

F. Faria e Maia: Manuel Cândido Pimentel
Teófilo Braga: Afonso Rocha
Manuel Emídio Garcia: Norberto Cunha
Henriques da Silva: João Titta Maurício
Alberto Sales: Ricardo Vélez Rodríguez
Pedro Lessa: Adelmo José da Silva

21 Novembro: Universidade Nova de Lisboa

10h| Evocação de Lúcio Craveiro da Silva e Milton Vargas
11h| Apresentação de Obras
12h| Sessão de Encerramento

X Colóquio Tobias Barreto
A Filosofia Jurídica Luso-Brasileira do século XIX
Lisboa, 17-21 de novembro de 2014

Parcerias
Centro de Histria da Cultura da Universidade Nova de Lisboa
Universidade de São João d’El Rei.

Apoios
Fundação Calouste Gulbenkian
Grupo Delta
Grupo Jerónimo Martins
Sociedade Histórica da Independência de Portugal.

Espírito de pertença

"(....) Como escreveu George Steiner, «há tempos de crise em que só a utopia é realista». O realismo da extensíssima rede de possibilidades de “vida real” que o passado nos legou sob a forma de tradição e cultura, nem sempre tem aplicação imediata. A ciência nem sempre tem aplicação imediata. Os saberes nem sempre têm uma aplicação imediatamente quantificável. No entanto, esse facto não os impede de contribuírem decisivamente para a criação de coesão social, espírito de pertença, sentido. Sem isso, nenhuma vida é real, nem sequer a das empresas. O desprezo com que os nossos governantes encaram actualmente a infelicidade social dos portugueses compreende-se melhor no contexto desta obsessão empresarial. E no entanto, “há mais coisas nos céus e na terra...”. O excessivo protagonismo de empresas, empresários e empreendedores decorre de uma descrição ideologicamente construída; uma descrição que desvaloriza muitas outras profissões e actividades, sem as quais nenhuma sociedade digna desse nome pode sobreviver. O excessivo protagonismo de empresas, empresários e empreendedores decorre de uma descrição ideologicamente construída; uma descrição que desvaloriza muitas outras profissões e actividades, sem as quais nenhuma sociedade digna desse nome pode sobreviver."

 Rosa Maria Martelo
Pelas 14h30 do dia 17 de Janeiro de 2014

domingo, 9 de novembro de 2014

Pística de "pistia" ou da relação com o divino

"Se o sentimento religioso morre, fazendo desaparecer a via pística do conhecimento, se a razão abre falência, na crise do positivismo, do idealismo germânico e, de um modo geral, das conglomerações de ideias tendentes a eternizar e a universalizar os conceitos, o homem vê-se então perdido num universo onde tudo lhe é estranho e cuja linguagem não entende. (...)"

António Quadros (do prefácio)
Os Justos, Livros do Brasil, (1960)de Albert Camus  

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Candidato a máquina

"Um trabalho que se oponha ao recreio não é verdadeiramente trabalho, é «criação de fadiga». Para evitar a fadiga no trabalho moderno dá-se ao artífice a categoria de «especialista» e habitua-se o trabalhador ao seu trabalho. Mas um trabalhador habituado não é um trabalhador, mas um candidato a máquina. O homem e a máquina são duas tendências inevitáveis do mundo moderno: há homens que se pretendem libertar da máquina que os domina em qualquer aspecto da vida social e há homens que se pretendem libertar do homem que neles cohabita. Um trabalho em recreio, outro em escravidão. O poeta é um dos extremos desta oposição. E Holderlin é de todos os poetas talvez o que mais se afastou do extremo oposto. O poeta recreia-se no seu mundo de imagens e a poesia é por isso «a mais inocente das ocupações». Poesia é um sonho verbal, é um recreio em palavras. E a sua substância é sempre e só o domínio verbal. (...)"

Delfim Santos
Revista de Portugal, nº4, 1938
via Homo Viator

Na poesia o homem concentra-se no fundamento da sua própria presença

"Não há história sem linguagem e não há linguagem sem poesia. A «presença humana» é, neste sentido, sempre poética. A essencial manifestação da linguagem é por sua vez o diálogo, e o diálogo o essencial fundamento da «presença humana». Mas a linguagem é o «mais perigoso de todos os bens», e a poesia, sendo «a mais inocente das ocupações», é também algo perigoso. A poesia parece uma actividade lúdica; porém, há uma diferença a notar entre jogo e poesia: o jogo reúne os homens e de tal modo que cada um se esquece de si próprio; na poesia o homem concentra-se no fundamento da sua própria presença. A poesia revela a poesia e o sonho em frente à realidade. E mais do que isto. A poesia mostra que a realidade é o mundo que ela revela e não aquilo que como tal é tido por todos. Poesia é a firme fundamentação da realidade. (...)"

Delfim Santos
Revista de Portugal, nº4, 1938
via Homo Viator

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A pérolas parecem falsas/verdadeiras


"Em certas mulheres, as mais belas pérolas parecem falsas. Em outras, ao contrário, as pérolas falsas parecem verdadeiras. (...)" 

Jean Cocteau em o «Tomaz, o Impostor» 
Edição Livros do Brasil, tradução de António Quadros

Na origem da actividade


"Não reconheço verdadeiramente adversários em minha volta, porque de todos me sinto irmão, na origem da minha actividade, na geratriz da minha energia ao serviço de um causa. (...)"

António Quadros

Alunos arquivo


"Nós perguntamos apenas se um ensino universitário que desconfia por princípio de toda a personalidade e toda a originalidade, fazendo o possível por transformar os alunos em grosseiros arquivos mnemónicos, contribuirá de algum modo para o desenvolvimento da cultura nacional? (...)" 

António Quadros

Partidos políticos


"Muito ao contrário, dir-se-ia que os partidos políticos é que se consideravam neste país os únicos detentores das verdades políticas e os únicos instrumentos do ressurgimento nacional, pois forçoso lhes parece constituirmo-nos em partido novo, ou enfileirarmos num antigo, para podermos exercer qualquer acção política. (...) Mas então os partidos, para estes senhores de partido, são simples moldes vazios onde todas as ideias e todos os propósitos se podem fundir, tábuas de cera mole que admitem todo o tipo de escritura? (...) Ingressar num partido quer dizer, para nós, aceitar-lhe o programa. (...) Ingressem os partidos no nosso programa, e a coisa ficará certa. O contrário é pedir à esfera que seja cúbica, ao cubo que seja redondo, e ao português que tenha senso crítico." 

 Raul Proença «Seara Nova», n.º 27, Outubro de 1923

Hierarquia dos valores

"A única reforma subsistente será a reforma espiritual, que volte a colocar a Verdade no vértice da hierarquia dos valores. (...)"

Albert Camus 
Os Justos, Livros do Brasil, (1960) 
Tradução e Prefácio de António Quadros

Desde o ventre

"Não me lembro da minha mãe. Ela morreu tinha eu um ano. Tudo o que há de disperso e duro na minha sensibilidade vem da ausência desse calor e da saudade inútil dos beijos de que me não lembro. (...) Ah, é a saudade do outro que eu poderia ter sido que me dispersa e sobressalta. Quem outro seria eu se me tivessem dado carinho do que vem desde o ventre até aos beijos na cara pequena? (...) Talvez que a saudade de não ser filho tenha grande parte na minha indiferença sentimental. (...)"

Fernando Pessoa
Livro do Desassossego, Europa-América 
(org. António Quadros), p.209

A ideia de o publicar

"Foi Jorge de Sena (...) quem primeiro estudou o Livro do Desassossego, pois dele partiu, em 1960, a ideia de o publicar, propondo-o à Àtica, tendo chegado a colaborar estreitamente com Maria Aliette Galhoz, que realizou o primeiro grande trabalho de investigação, e a redigir o que seria a sua «Introdução» mas desligando-se do projecto em 1969, por razões várias. (...)"

António Quadros
introd. a Livro do Desassossego, 1ªparte
Europa-América (1986)

domingo, 26 de outubro de 2014

Duas respostas

"A respeito de um mesmo assunto, não pensamos pela manhã da mesma forma que à noite. Mas onde está a verdade, no pensamento nocturno ou no espírito do meio-dia? Duas respostas, duas raças de homens. (...)" 

Albert Camus 
Maio de 1938  | Primeiros Cadernos

Insuportável e degradante

"A tagarelice - o que há de mais insuportável e degradante. (...)"
Albert Camus
25 de Outubro de 1937| Primeiros Cadernos