sábado, 24 de janeiro de 2015
Tende piedade dos homens úteis
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Vinicius de Moraes
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
Ensaio para uma teoria do Brasil
"Não me parece que no futuro cultural do Brasil a filosofia, tal
como a entendemos até hoje, venha a ter uma grande importância,
possivelmente porque há uma íntima contradição entre os seus objetivos
e os seus métodos; de fato não se pode fazer filosofia como tanta vez
se tem tentado, com o resultado de se produzir apenas literatura e da
pior, sem métodos rigorosamente discursivos, em que sempre intervém
como peça fundamental a distinta existência dum sujeito e dum objeto;
mas a meta última de um verdadeiro impulso filosófico, como doutrina
de compreensão ou doutrina de salvação, é a de se atingir um estado
em que se apresente uma última realidade não dicotômica na qual nos
incluamos, ou ela nos inclui a nós; por outras palavras, procuramos um
sujeito ou pelo menos um ser em que se fundam sujeito e objeto, o que
significa que há um ponto além do qual é impossível avançar em filosofia
por métodos filosóficos; e aqui aponta, por um lado, o misticismo, por
outro a filosofia apenas vivida, não sistematizada, que tem sido
característica da nossa gente comum. (...)"
Agostinho da Silva
Espiral, Ano III, n.os 11-12, Lisboa, 1966
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Agostinho da Silva
A multidão dos fracos é cada vez de tentação maior
"O que, porém, sucede, é que se entretêm
demais os artistas, e nada julgam ser se o não fizerem, com filosofias
que apenas têm como origem o não se saber, o não se pensar e o não
se querer; esteticismos de sobremesa substituem o rancho de trabalhar
e produzir; nas conversas de sociedade de bom tom se diluem os
caracteres que só o silêncio e o isolamento poderia dignamente martelar; toma-se o tranquilizante para afastar angústia que tão bem-vinda seria
como sinal de Deus; bebe-se porque se está triste, não para celebrar a
alegria; ninguém mais sabe estar de pé ou andar a pé: cadeira e
automóvel se redesenham, se aperfeiçoam; e a multidão dos fracos é
cada vez de tentação maior para o domínio dos ousados sem escrúpulo (...)"
Agostinho da Silva
Espiral, Ano I, n.os 4/5, Lisboa:
Tipografia Peres, 1964-1965, p. 24-36
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Agostinho da Silva
O Brasil como se projeta
"O Brasil não poderá nunca ser o guia e o instaurador de uma
cultura de verdadeira convivência, entre os homens e dos homens com
o mundo, de verdadeira liberdade, que não é apenas a liberdade política,
mas igualmente a liberdade econômica, a liberdade de agir como ser
físico independentemente das reais ou supostas fatalidades do universo,
e de liberdade de criação poética, quer essa poesia seja a de uma
interjeição lírica, ou a de uma equação ou a de um motor melhor que
Diesel, sem que entenda que isso é conhecer como se formou, a partir das três grandes correntes do índio, do português, do africano,
como age no seu presente, depois de ter assimilado tanto outro
grupo imigratório e de se ter posto em contacto com tantos outros
povos do mundo, e sobretudo como se pensa, ou fantasia, ou se
projeta para seu futuro, quanto aos indivíduos que o compõem,
quer sejam os de um São Paulo, técnico e metropolitano, quer os
de um Nordeste que só agora começa libertando-se de ser uma
colônia do referido São Paulo. Se é que São Paulo não vai tentar
que continue seu regime colonial por meio de um neocapitalismo
disfarçado em nacionalismo econômico. (...)"
Agostinho da Silva
Cadernos de Estudos Brasileiros, Goiânia:
Centro de Estudos Brasileiros da Universidade Federal de Goiás,
nº 1, outubro de 1963, p. 29-34
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Agostinho da Silva
O brasil que os estrangeiros não conhecem
"No entanto, basta que o observador, pondo de lado os livros
das bibliotecas eruditas, e os quadros dos museus ou exposições
eruditas, e as reuniões dos homens eruditos, que com tanta frequência
se exportam ao estrangeiro, viaje pelo interior de Rio Grande ou Minas
ou atravesse os sertões do Nordeste e se demore com alguma atenção
no estudo daquela gente que um dia alimentou o Brasil, ou lhe deu as
primeiras bases daquele barroco que é apenas um dos aspectos de um
maior barroco atlântico tão demorado em surgir, ou afirmou em
Canudos, morrendo, o seu direito a originalidade, basta o conhecimento
embora ligeiro daquele Brasil que se recusa a julgar seu destino, esperar
no cais o último e louco ditame de além-mar, para entender como está inteiramente errado o Brasil que os estrangeiros conhecem e, por outro
lado, para perceber como assenta em bases inteiramente brasileiras
uma literatura como a de Mário de Andrade ou uma arquitectura que,
no melhor, já vai unindo a abstracção e o barroco. (...)"
Agostinho da Silva
57, Lisboa, n.º 5, setembro de 1958
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Agostinho da Silva
Os meus actos
"É saudade, mas não é só saudade. Isto vem de muito fundo.
Os meus actos são guiados por mãos desaparecidas e a minha
convivência é com fantasmas. (...)"
Raul Brandão
Os pescadores (1923)
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Raul Brandão
domingo, 18 de janeiro de 2015
Aos burgueses civilizados
"O homem medíocre caracteriza-se pelo medo constante do imprevisível e daí, no ilustrado analfabeto que é o burguês civilizado, a inabalável confiança na Ciência, que admira e à qual está intimamente agradecido porque lhe permite ter automóvel, televisão e frigorífico, mas sobretudo porque funciona para ele como a grande redutora do mistério que o perturba e inquieta. Nada há, para ele, que a Ciência não possa e saiba explicar. Deus será uma vaga ideia remota de que falam livros que nos vêm da época da ignorância humana e as religiões, tão antigas como a treva em que vivemos, como as lendas e a crendice popular. Pelo sim pelo não, alguns vão à missa, porque na Igreja está um Deus socializado, em relação ao qual a religião estabeleceu formas inócuas de convivência, que porventura lhes garantam a comodidade e o bem-estar na outra vida, se for caso dessa vida existir.
A Ciência é assim com inicial maiúscula o órgão de conhecimento da burguesia. Mas, se Deus puder vir a ser contado, pesado e medido, só então se torna indubitável para ela a sua existência. De vez em quando, porém, nasce um extravagante genial, que traz a inquietação que se julgara ter expurgado de uma vez para sempre, e que de novo acorda os outros homens para o sentido do mistério. Um Fernando Pessoa ou um Álvaro Ribeiro não se podem ignorar como ninguém pode ignorar Shakespeare, porque souberam escrever as palavras que fazem ver. Como neutralizá-los? Há dois processos: um é o de lhes calar o nome, como se eles não tivessem existido, mas como, mais tarde ou mais cedo, isso se torna impossível de manter, recorrem ao outro processo que é o de tomá-los como objectos da Ciência, estudando-os como se de plantas ou de animais se tratassem ou, quando muito, de fenómenos psicológicos ou parapsicológicos."
A Ciência é assim com inicial maiúscula o órgão de conhecimento da burguesia. Mas, se Deus puder vir a ser contado, pesado e medido, só então se torna indubitável para ela a sua existência. De vez em quando, porém, nasce um extravagante genial, que traz a inquietação que se julgara ter expurgado de uma vez para sempre, e que de novo acorda os outros homens para o sentido do mistério. Um Fernando Pessoa ou um Álvaro Ribeiro não se podem ignorar como ninguém pode ignorar Shakespeare, porque souberam escrever as palavras que fazem ver. Como neutralizá-los? Há dois processos: um é o de lhes calar o nome, como se eles não tivessem existido, mas como, mais tarde ou mais cedo, isso se torna impossível de manter, recorrem ao outro processo que é o de tomá-los como objectos da Ciência, estudando-os como se de plantas ou de animais se tratassem ou, quando muito, de fenómenos psicológicos ou parapsicológicos."
António Telmo
(inédito aqui)
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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
A ideologia da avaliação
"A ideologia da avaliação quer sempre incutir a falsa consciência, como todas as ideologias, de que é neutra e objectiva, e não subjectiva e produto de uma vontade particular. (...)"
António Guerreiro
Jornal Público, 16 de Janeiro de 2015
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António Guerreiro
quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
A vila é a vida que é o simulacro
“A vila é um simulacro. Melhor: a vida é um simulacro. (...)"
Raul Brandão
Húmus (1917)
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Raul Brandão
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
Portugal e Brasil
"A dimensão universal dos países ou das comunidades não se mede em termos de quantidade. Não são criadores de civilização, não são arautos do futuro, não são agentes do movimento histórico, que amplia e enriquece a humanidade, os países ou as comunidades por terem milhares de quilómetros quadrados, centenas de milhões de habitantes ou um grandioso potencial económico ou bélico.
Todas as nações são mátrias a um nível, mas só quando reconhecem e assumem a pátria ou o espírito dinâmico a que realmente pertencem, são capazes de virar o curso da história (...).
É nossa convicção que Portugal e Brasil de hoje, politicamente independentes e autónomos no plano da mátria ou da nação, todavia se unem na vinculação a uma pátria transcendente, representada em primeiro lugar pela língua comum, veículo de um espírito irradiante, expansivo e exigente do dinamismo que lhe estamos a negar, por desacerto filosófico. Que pátria é esta? A nossa pátria é a língua portuguesa. Não é Portugal e não é o Brasil. É infinitamente mais antiga, mais profunda, mais promissora e mais futurante. Falta-lhe um nome, que não ousaremos propor. Pátria paraclética, pátria espiritual, pátria movente, pátria todavia encoberta e em transe de revelação no drama e na epopeia da nossa história. António Vieira, um luso-brasileiro, chamou-lhe Quinto Império. (...)"
António Quadros
Seminário de Literatura e Filosofia Portuguesa
1988, Friburgo, Suíça
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Excertos da obra
Quem lhe mandou ser infinito?
«De porta em porta»
Alexandre O'Neill
Quem? O infinito?
Diz-lhe que entre.
Faz bem ao infinito
estar entre gente.
Uma esmola? Coxeia?
Ao que ele chegou!
Podes dar-lhe a bengala
que era do avô.
Dinheiro? Isso não!
Já sei, pobrezinho,
que em vez de pão
ia comprar vinho . . .
Teima? Que topete!
Quem se julga ele
se um tigre acabou
nesta sala em tapete?
Para ir ver a mãe?
Essa é muito forte!
Ele não tem mãe
e não é do Norte . . .
Vítima de quê?
O dito está dito.
Se não tinha estofo
quem o mandou ser
infinito?
Diz-lhe que entre.
Faz bem ao infinito
estar entre gente.
Uma esmola? Coxeia?
Ao que ele chegou!
Podes dar-lhe a bengala
que era do avô.
Dinheiro? Isso não!
Já sei, pobrezinho,
que em vez de pão
ia comprar vinho . . .
Teima? Que topete!
Quem se julga ele
se um tigre acabou
nesta sala em tapete?
Para ir ver a mãe?
Essa é muito forte!
Ele não tem mãe
e não é do Norte . . .
Vítima de quê?
O dito está dito.
Se não tinha estofo
quem o mandou ser
infinito?
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Alexandre O'Neill
Na luta
“Todo o espírito superior, na luta vencedora contra a materialização, ou se mata, como Antero de Quental, ou, como Frei Agostinho da Cruz, força a barreira tenebrosa e ajoelha, rezando, aos pés de Deus...”
Teixeira de Pascoaes
Os poetas lusíadas, Assírio e Alvim, Lisboa, 1987, p. 115
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Frei Agostinho da Cruz,
Teixeira de Pascoaes
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
Grau de passagem
“Todos os artistas que fizeram o seu auto-retrato ao longo dos tempos não foi porque se achassem particularmente belos ou interessantes mas porque assim avaliavam o seu grau de passagem. Eu escrevo o meu nome. (...)”
Ana Hatherly
A idade da escrita e outros poemas, Escrituras, 2005.
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Ana Hatherly
A face cansada da minha mãe
"O salão era excessivamente grande para mim, os cães ladravam para o agouro das trevas, eu estava só no mundo. De longe, da minha infância perdida, veio a ternura da memória, a face cansada de minha mãe, a luz suave de tudo para nunca mais. E uma saudade densa caiu-me, como um peso, na alma. E chorei longamente, um choro recolhido, só choro para mim. Chorei quanto pude, até que a noite foi minha irmã e eu fui irmão da noite, um diante do outro, calados e de mãos dadas.
(…) Desde então, sentimo-nos mais sós. Solidão estranha e inquieta. Erguia-se como um muro da desconfiança mútua, do receio da derrota e humilhação, da avidez do triunfo. Pequena guerra infantil, sim. E no entanto, como me agride ainda a sua crueldade! Decerto porque o peso da dor nada tem que ver com a qualidade da dor. Porque a dor é o que se sente e nada mais. Desisto definitivamente de me iludir com a minha força de adulto sobre o peso de uma amargura infantil. (...)."
Vergílio Ferreira
Manhã Submersa (1954)
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Vergílio Ferreira
sexta-feira, 9 de janeiro de 2015
No jardim
"No jardim que entrevejo pelas janelas caladas do meu sequestro, atiraram com todos os balouços para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto, e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginação, ter balouços para esquecer a hora. (...)"
Fernando Pessoa em carta a Mário de Sá-Carneiro
14-3-1916
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Fernando Pessoa,
Mário de Sá-Carneiro
Educar
"Em Portugal educar tem um sentido diferente; em Portugal educar significa burocratizar. Exemplo: Coimbra. (...)"
Almada Negreiros
Ultimatum Futurista (1917)
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Almada Negreiros
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
«Algumas atitudes de Jean Babilée em 'Le Jeune Homme et la Mort'» por António Pedro
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António Pedro,
Jean Babilée
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
Nem polémica nem academismo
José Régio
"Da literatura e da crítica, Nem polémica nem academismo"
Mundo Literário, Semanário de Crítica e informação
nº39, 1 de Fevereiro de 1947
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Joel Serrão,
José Marinho,
José Régio
Comedido, sergiano, discreto, morno
"Com risco de me tornar desagradável aos visados, exemplificarei com o seguinte caso: Sobre O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra [de José Marinho], publicou Joel Serrão, na «Seara Nova», um longo artigo. Joel Serrão é, sem dúvida, um nome já prestigioso entre os dos críticos mais recentemente revelados. Mas o que é, na realidade, o seu artigo sobre o livro de José Marinho? Uma declaração de oposição de atitudes: uma obra de polémica. Sobre um tão longo e meditado belo ensaio de crítica interpretativa, não quis ou não pode escrever Joel Serrão com a simpatia indispensável ao reconhecimento da qualidade da obra. Se me não atraiçoa a memória, o mais encomiástico adjectivo concedido por Joel Serrão ao livro de José Marinho - foi o comedido, sergiano, discreto, morno atributo de «relevante». (...)"
José Régio
"Da literatura e da crítica, obras de qualidade"
Mundo Literário, Semanário de Crítica e informação
nº36, 11 de Janeiro de 1947
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Joel Serrão,
José Marinho,
José Régio
"Irracionalidade do Eterno Retorno" por Sant'Anna Dionísio
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Sant'Anna Dionísio
Jorge de Sena sobre "Procura da poesia" de Carlos Drummond de Andrade
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segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
Dizem que não tenho idade para estar cansado
Poema Vesperal
Dizem que não tenho idade para estar cansado.
Digo que não tenho idade para estar cansado.
Mas eu estou irremediavelmente cansado...
Não sei se conheço ou não a Vida,
(Toda a gente diz que não, que é impossível...)
Contudo, estou cansado.
Representei
E cansei-me; e desatei a gritar tudo... toda a Verdade.
Febrilmente gritei, rasguei máscaras, cuspi máscaras...
Agora até disso estou cansado
E nem leio o meu Baudelaire... o Príncipe de Todos.
Experimentei "tomar alegria",
Ouvir danças bárbaras,
Ver danças bárbaras,
Grandes contorções modernas,
- Sabiam falso...
Mais tarde descobri morto aquele-menino-que-fui.
Chorei... tive saudades... ai!, puro menino saudável...
Cansei saudades e lágrimas também...
- Ainda procurei vibrar...
Vibrar!, vibrar!
Vibrou apenas minha carne
E até ficar axausta, também...
Estou muito cansado.
Só interessa ir para a cama
E dormir...
Dormir bem...
Dizem que não tenho idade para estar cansado.
Digo que não tenho idade para estar cansado.
Mas eu estou irremediavelmente cansado...
Não sei se conheço ou não a Vida,
(Toda a gente diz que não, que é impossível...)
Contudo, estou cansado.
Representei
E cansei-me; e desatei a gritar tudo... toda a Verdade.
Febrilmente gritei, rasguei máscaras, cuspi máscaras...
Agora até disso estou cansado
E nem leio o meu Baudelaire... o Príncipe de Todos.
Experimentei "tomar alegria",
Ouvir danças bárbaras,
Ver danças bárbaras,
Grandes contorções modernas,
- Sabiam falso...
Mais tarde descobri morto aquele-menino-que-fui.
Chorei... tive saudades... ai!, puro menino saudável...
Cansei saudades e lágrimas também...
- Ainda procurei vibrar...
Vibrar!, vibrar!
Vibrou apenas minha carne
E até ficar axausta, também...
Estou muito cansado.
Só interessa ir para a cama
E dormir...
Dormir bem...
Cristovam Pavia
Poesia Dom Quixote, (2010), pp 67 - 68.
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Cristovam Pavia
domingo, 4 de janeiro de 2015
Para um e para o outro
"O filósofo escolhe as palavras pela sua tenacidade e, como prosador que é, com palavras vai futurando para o homem um mundo de libertação; o poeta escolhe as palavras pela sua beleza (...). Mas acima das palavras está, para um e para o outro, o domínio do pensamento.(...)
Álvaro Ribeiro
Escritores Doutrinados (1965) pp. 14-15
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Alvaro Ribeiro
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
Vive assim como quiseras ter vivido quando morras.
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Luís Miguel Cintra,
Padre António Vieira
sexta-feira, 26 de dezembro de 2014
Alma minha gentil que te partiste
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéro, onde subiste
Memória desta vida se concente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Alguma coisa a dor que me ficou
Da mágoa sem remédio de perder-te.
Rogo a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
Camões Alma minha gentil que te partiste
na voz de João Villaret (1959)
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Camões,
João Villaret
Sem saber
"Sem saber ainda os traços do teu rosto
sei que me reconhecerei em ti
não fisionomicamente
mas no que é comum a todos os corpos
esses tropeços primeiros que a memória não segura
(...)"
sei que me reconhecerei em ti
não fisionomicamente
mas no que é comum a todos os corpos
esses tropeços primeiros que a memória não segura
(...)"
Vasco Gato
Fera Oculta (2014)
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Vasco Gato
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
«A Teoria do Mito na Filosofia Luso-Brasileira Contemporânea» de António Braz Teixeira
António Braz Teixeira faz uma análise do pensamento de diversos autores luso-brasileiros – desde Teófilo Braga a Urbano Zilles, passando por Oliveira Martins, Aarão de Lacerda, Teixeira Rego, Agostinho da Silva, Almada Negreiros, José Marinho, Eudoro de Sousa, Vicente Ferreira da Silva, Milton Vargas, Renato Cirell Czerna, Adolpho Crippa, Gilberto Kujawski, Vilém Flusser, Vergílio Ferreira, António Quadros, Afonso Botelho e Dalila Pereira da Costa. E é assim que presenciamos um caminho determinado e persistente, na sequência do historicismo de Vico e do idealismo de Schelling – visando um esforço de compreensão da especificidade do mito no pensamento de hoje."
Guilherme d'Oliveira Martins
A vida dos livros, aqui.
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António Braz Teixeira,
Guilherme d'Oliveira Martins
Nuno Bragança - U Omãi Qe Dava Pulus
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Nuno Bragança
quarta-feira, 17 de dezembro de 2014
Uma espécie de arranjinho optimista
"(...) O final feliz para a humanidade é uma espécie de arranjinho optimista que atraiçoa o poder profético da obra. Mas toda a acção do homem prossegue no sentido contrário: um combate sem tréguas ao amor, o vírus da humanidade de onde brotam perigosíssimos sentimentos, atitudes, valores como a solidariedade, a amizade, a liberdade, enfim o respeito pelo outro, pela sua diferença. O mundo deslumbrante que pretendemos é um mundo padronizado, sem lugar para a diferença, um mundo de relações causa-efeito sem espaço para o improviso, sem espaço para os acidentes, sem direito ao acaso. Este mundo em que hoje vivemos está repleto de gente que luta arduamente por um mundo desses, e luta a ponto de prescindir das suas vidas, são tirantes com lugar de chefia à frente de empresas, instituições, e espalham como podem, propagam como conseguem, os valores cristalizantes do seu mundo virtual. Um mundo virtual que ameaça engolir o mundo real, o mundo dessas pessoas que Babycakes Romero fotografa como quem regista as pinturas rupestres do futuro."
Henrique Manuel Bento Fialho
"As máquinas não fazem greve", aqui.
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Henrique Fialho
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
Inéditos
![]() |
"Tinha estado muita gente nos mesmos dois lugares como nós dois hoje ali sozinhos por causa um do outro. (...)"
"Almada Negreiros: O que Nunca Ninguém Soube que Houve”
Mostra patente no Museu da Electricidade até ao dia 29 de Março de 2015.
*a fotografia veio do Jornal i.
*a fotografia veio do Jornal i.
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Almada Negreiros
Mestre! a boneca estava vestida de cor-de-rosa!
"Eu tinha chegado tarde à escola. O mestre quis, por força, saber porquê. E eu tive que dizer: Mestre! quando saí de casa tomei um carro para vir mais depressa, mas, por infelicidade, diante do carro caiu um cavalo com um ataque que durou muito tempo.
O mestre zangou-se comigo: Não minta! diga a verdade!
E eu tive de dizer: Mestre! quando saí de casa... minha mãe tinha um irmão no estrangeiro e, por infelicidade, morreu ontem de repente e nós ficámos de luto carregado.
O mestre ainda se zangou mais comigo: Não minta! diga a verdade!!
E eu tive de dizer: Mestre! quando saí de casa... estava a pensar no irmão de minha mãe que está no estrangeiro há tantos anos, sem escrever. Ora isto ainda é pior do que se ele tivesse morrido de repente porque nós não sabemos se estamos de luto carregado ou não.
Então o mestre perdeu a cabeça comigo: Não minta, ouviu? Diga a verdade, já lho disse!
Fiquei muito tempo calado. De repente, não sei o que me passou pela cabeça que acreditei que o mestre queria efectivamente que lhe dissesse a verdade. E, criança como eu era, pus todo o peso do corpo em cima das pontas dos pés, e com o coração à solta confessei a verdade: Mestre! antes de chegar à Escola há uma casa que vende bonecas. Na montra estava uma boneca vestida de cor-de-rosa! Mestre! a boneca estava vestida de cor-de-rosa! A boneca tinha a pele de cera. Como as meninas! A boneca tinha tranças caídas. Como as meninas! A boneca tinha os dedos finos. Como as meninas! Mestre! A boneca tinha os dedos finos..."
Almada Negreiros
A Invenção do dia Claro, (1921)
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Almada Negreiros
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
Onde se lê Brasil deve ler-se todos os países
"Estou convencido de que se alguns extraterrestres desembarcassem amanhã no Brasil, haveria experts, jornalistas, especialistas e analistas de toda espécie para explicar às pessoas que, no fundo, não é uma coisa tão extraordinária assim, que já se tinha pensado nisso, que até já existia há muito tempo uma comissão especializada no assunto. E, sobretudo, que não há porque se afobar, pois isso é problema do governo. (...)"
Félix Guattari
Micropolítica: cartografias do desejo. (1986)
Micropolítica: cartografias do desejo. (1986)
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Félix Guattari
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
Vazio absoluto
"Cerca-me um vazio absoluto de fraternidade (...)"
Fernando Pessoa
(s.d)
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Fernando Pessoa
sexta-feira, 28 de novembro de 2014
Sobrancelhas
“Já se disse que nunca aflorou um sorriso à boca imperiosa do Redentor, mas com qual outra cambiante aos cantos dos lábios e por entre as sobrancelhas se poderia ter pronunciado certas palavras? (...)"
Cristina Campo
Os Imperdoáveis (2005)
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quinta-feira, 27 de novembro de 2014
Vieira
"É curioso que, sendo escassa a minha capacidade de entusiasmo, ela é
naturalmente mais solicitada pelos que se me opõem em
temperamento do que pelos que são da minha espécie espiritual. A
ninguém admiro, na literatura, mais que aos clássicos, que são a quem
menos me assemelho. A ter que escolher, para leitura única, entre
Chateaubriand e Vieira, escolheria Vieira sem necessidade de meditar. (...)"
Bernardo Soares
Livro do Desassossego
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