quinta-feira, 12 de março de 2015

Frisos

"Eu amo a Lua do lado que eu nunca vi.
Se eu fosse cego amava toda a gente. (...)"

Almada Negreiros
 Frisos, Canção da Saudade 
Orpheu I

terça-feira, 10 de março de 2015

Conferências, livros, bibliografias...

"A arte de filosofar não consiste em escrever livros, em proferir conferências, em minutar lições que, ostensivamente, efectuem transmissão de ensino público. Todas as manifestações da filosofia que os bibliógrafos registam os biógrafos explicam, combinando a bibliografia com a biografia, resultam de uma actividade inaudível e invisível a que se dá o nome secreto de pensamento (...)"

Álvaro Ribeiro
A Arte de Filosofar
Portugália Editora, 1955

quinta-feira, 5 de março de 2015

O sensacionismo

“O sensacionismo, que mais tarde Fernando Pessoa teorizaria em numerosos escritos, é, com Cesário Verde, a primeira irrupção do moderno na poesia portuguesa. A poesia vai alimentar-se na prosa para se renovar. É uma poética do aquém, que valoriza e restaura a consciência e a qualidade das coisas, do que é circunstancial, material e concreto. (...)” 

António Quadros
 O primeiro modernismo português (1989)

quarta-feira, 4 de março de 2015

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Jura-me

" (...)
– Jura-me que nunca hás-de envelhecer – disse-te.
– Juro.
– E que nunca hás-de morrer.
– Sim.
– E que a beleza estará sempre contigo. E a glória. E a paz.
– Juro."
Vergílio Ferreira

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Pelos vencidos

"Não te poderás considerar um verdadeiro intelectual se não puseres a tua vida ao serviço da justiça; e sobretudo se te não guardares cuidadosamente do erro em que se cai no vulgo: o de a confundir com a vingança. A justiça há-de ser para nós amparo criador, consolação e aproveitamento das forças que andam desviadas; há-de ter por princípio e por fim o desejo de uma Humanidade melhor; há-de ser forte e criadora; no seu grau mais alto não a distinguiremos do amor (...)" 

Agostinho da Silva, “Pelos vencidos”, 
Considerações [1944], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 112.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A poesia permanecerá como a afirmação mais capaz de acusar todas as traições do homem ao seu destino humano

"A poesia subsiste, a poesia subsistirá. Independentemente de questões intrínsecas, que explicarão o êxito momentâneo de certas obras, apostamos numa forma de arte que particularmente se apoia na linguagem e nas suas mais profundas virtualidades, vizinha afinal de uma linguagem popular que, embora prejudicada pelo êxodo rural e pelo consequente domínio, mais aparente do que real, de um idioma reduzido, fundamental digest, não deixará de sobreviver enquanto sobre a terra algum homem houver. A poesia núcleo e limite das artes que se apoiam na linguagem que distingue o homem dos outros animais, apresenta-se-nos como o último reduto dessas artes. Atitude utópica, aposta, justificação própria? Depois do que já, ao longo deste artigo, dissemos, cremos honestamente que não. Na pior das hipóteses, mortal como o homem e como a sua única terra, a poesia permanecerá não só como a forma mais pura de arte literária mas também como a indisciplinadora mais audaz, como a afirmação mais vigilante de uma consciência individual e social capaz de acusar todas as traições do homem ao seu destino humano. (...)"

Ruy Belo
Poesia, Último Reduto da Literatura?
(Diário de Lisboa, 14-04-1972)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Problemático é


“A unidade teorética do sistema de cultura pode ser encontrada na relação do pensamento humano com a realidade absoluta; problemático é apenas o fundamento da opção por um determinado modo de vida espiritual. (...)"

Álvaro Ribeiro
O Problema da Filosofia Portuguesa, Lisboa, (1943) 
Editorial “Inquérito”, p.38

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Proença, Cortesão, Sérgio e o grupo Seara Nova


"O Colóquio sobre Proença, Cortesão, Sérgio e o Grupo Seara Nova, organizado por Amon Pinho, António Pedro Mesquita e Romana Valente Pinho na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 2009, constituiu um importante acontecimento académico e, sem dúvida, um dos mais fecundos encontros científicos jamais promovidos em torno do grupo seareiro e das suas mais relevantes personalidades. E tantos foram, desde os que ocorreram na década de oitenta do passado século, assinalando os centenários dos nascimentos dessas mesmas personalidades, até ao que se realizou já na primeira década deste século sobre António Sérgio e organizado pelo Centro Regional do Porto da Universidade Católica Portuguesa. E, no entanto, de cada vez que nos aproximamos dos grandes vultos seareiros, somos sempre surpreendidos por novos ângulos de abordagem e originais aprofundamentos das múltiplas dimensões dos respectivos magistérios. Como se fossem filões inesgotáveis a inspirarem sucessivas vagas de pesquisa por parte de renovadas gerações de estudiosos". 

António Reis
do Prefácio

*Apresentação dia 5 de Março, às 18h30, na sala D. Pedro V da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Carnaval

(...)
Tenho náusea carnal do meu destino. 
Quase me cansa me cansar. 
E vou, Anónimo, (...) menino, 
Por meu ser fora à busca de quem sou. 

Álvaro de Campos
(s.d.)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Pôem-se as pessoas a perguntar

Uns Holandeses compraram o iade, sabia?

Põem-se as pessoas a perguntar.

 ― Claro. Ele diz, pregando-lhes um susto.

Longo silêncio.
Digamos que hesitam.
Falam: ― É que, assim, bom, por um lado...

Preparam a tagarelice.
Ouvem-se passos.
Um homem avança muito rapidamente.
É de noite.

― Desculpar-me-á, mas.
― Ora, compreendo perfeitamente.

E sai de cena.

Ouve-se um assobio e dois bocejos.
Um terceiro homem entra no aposento.
Minutos depois sai a plateia.

FIM

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

"Actualmente a Universidade em nada se diferencia do liceu"



 Francisco Sottomayor entrevista António Quadros 
Flama, ano XIV, n.º 516, Lisboa, 24 de Janeiro, 1958, pp. 7-8
via Liceu Aristotélico

Filho de António Ferro, o homem que pôs em movimento o melhor pensamento do Orfeu, e de Fernanda de Castro, sem dúvida a primeira poetisa portuguesa de todos os tempos, à qual só é comparável Florbela Espanca, António Quadros teve de defrontar, para rasgar o caminho da sua descoberta filosófica, os obstáculos da maledicência e da inveja que sempre explicam, por motivos inferiores, o que depois o filósofo atento à individualidade dos Verbos vê radicado numa inspiração própria.

Autor de numerosa e variada obra, publicou dois livros de poesia Além da Noite e Viagem Desconhecida, e vários livros de ensaio como Modernos de Ontem e de Hoje, Introdução a uma estética existencial, Problemática Concreta da Cultura Portuguesa, etc.
Encontrei António Quadros na Brasileira do Rossio, onde o conhecido escritor se costuma reunir com os seus camaradas do 57. A ideia de o entrevistar nasceu de ser o autor de A Angústia do nosso tempo e a crise da Universidade.

- O Sr. Dr. publicou, em 1956, um livro intitulado A Angústia do nosso tempo e a crise da Universidade. No ano seguinte começou a publicar a sua revista 57 que agora se apresenta como orgão do "Movimento de Cultura Portuguesa". Haverá alguma relação entre as duas publicações?

- É com o maior prazer, Francisco Sottomayor, que respondo à sua pergunta. Foi em 1952, isto é, quatro anos depois da minha formatura, que comecei a escrever sobre os problemas da educação e da Universidade. Estes problemas de há muito me vinham preocupando, praticamente desde os meus primeiros dias de aluno universitário. Com efeito, desde logo verifiquei que a Universidade não se diferenciava substancialmente do liceu. Durante os meus quatro anos de aprendizato pude observar, em primeiro lugar, que a Universidade não ministrava qualquer forma de educação do espírito, em segundo lugar, que o seu ensino era meramente histórico e positivista. Mais concretamente: todas as aulas de filosofia ou de história eram constituídas por secas exposições de doutrinas ultrapassadas, segundo histórias, compêndios ou sínteses de vulgarização cultural. Verifiquei que não apenas o professor ocultava as suas fontes de informação, como não manifestava no seu ensino uma adesão a qualquer das doutrinas, que eram expostas como peças de museus.

- Compreendo perfeitamente. O Sr. Dr. refere-se ao carácter meramente historicista do ensino universitário da filosofia. Os historiadores, os técnicos da história, são como que máquinas de transformação do tempo em passado.

- Foi assim, por exemplo, que em História da Filosofia Moderna, nunca passámos de Kant. Foi asssim que nunca foi dada a menor indicação sobre uma filosofia portuguesa actual ou mesmo potencial. Foi assim que me ensinaram vários resumos de doutrinas passadas ou alheias, mas nunca me ensinaram a pensar. O Francisco Sottomayor tem inteira razão. Se fora da Universidade eu não tivesse encontrado um verdadeiro mestre estaria ainda na situação daqueles alunos brilhantes que conquistaram boas notas e os favores da classe catedrática os quais, uma vez terminado o curso, nunca mais se ocuparam ou preocuparam da situação do homem no mundo, na relação entre Deus e a Natureza, ou de qualquer problema de ordem superior. Com uma única diferença; fui um aluno medíocre. Estudar pouco e mal foi a minha defesa contra um sistema negador do pensamento, da imaginação e da liberdade de conceber novas gerações, inadequada aos problemas e às preocupações do homem português.

- Acha o Sr. Dr. que os universitários se interessam autenticamente pelos problemas da cultura ou que apenas pretendem passar nos exames para concluir o mais depressa possível os seus longos cursos? O estudante universitário não terá tempo para se dedicar à cultura ou, pelo contrário, dedicar-se-lhe-ia inteiramente se o regime de estudos fosse outro?

- Creio que o universitário, como universitário, é praticamente indiferente à cultura. Creio que o universitário, como homem, está aberto aos problemas do espírito. O que se verifica é que há duas espécies de universitários: os que se identificaram totalmente com o universitarismo, desprezando outras fontes de cultura mais viva, criadora e nacional; e os que procuram fora da Universidade os esclarecimentos que a instituição, com a sua burocracia de funcionários, não tentou sequer dar-lhes. Aqueles preocupam-se apenas com os exames e os concursos e constituem o campo de recrutamento dos professores catedráticos e dos políticos; estes uma minoria, são os heróis: maltratados pelo sistema universitário, maltratados pela sociedade, radicada no sistema, muitas vezes ficam pelo caminho, muitas vezes desistem, e quando o não fazem obtêm as piores classificações. Mas é deles que saem os filósofos, os escritores, os artistas, os missionários de uma cultura autêntica e insofismada. Aqueles dominam o mundo, mas são estes que o fazem caminhar para o futuro.

- Estou-me lembrando de um artigo publicado no Diário Ilustrado por um empregado da Universidade, em que se defendia a doutrina contrária, como se Sampaio Bruno tivesse sido universitário, como se Leonardo Coimbra não tivesse desistido das provas de concurso à Faculdade de Letras de Lisboa, como se Fernando Pessoa não tivesse dito que quando se sai de uma faculdade, o primeiro trabalho é desaprender o que ali se aprendeu...

- Se o regime de estudos fosse modificado? Mas com certeza que o universitário seria diferente. Bastava que a Universidade se propusesse realizar fins espirituais e não, como até aqui, unicamente fins de técnica ou erudição.

- Eu sou estudante na Faculdade de Ciências. O Sr. Dr. é formado em filosofia pela Faculdade de Letras. Pode-me dizer a sua opinião sobre se os cursos de ciências deveriam ter cadeiras de filosofia e os cursos de filosofia deveriam ter cadeiras de ciências?

- Sem dúvida. Todo o homem é um pensador, porque todo o homem pensa, mas todo o homem deve ser um filósofo porque não se admite viver de olhos fechados. Deus deu aos homens um corpo, uma alma e um espírito e portanto deu-lhes as faculdades necessárias para procurar a beleza, o bem e a verdade. Existir em puro egoísmo do quotidiano repugna a todos os homens, mesmo que o façam por deficiência de educação. Se a filosofia, na concepção portuguesa de sinal aristotélico é o estudo da antropologia, da cosmologia e da teologia, é evidente que todo o universitário, ao mesmo tempo que aprende uma técnica e uma profissão, deve estudar o Homem, a Natureza e Deus, sem exclusão de qualquer destes três ramos, pois é na sua interligação mútua que a verdade se dá aos homens.

- O Sr. Dr. referiu-se aos problemas teológicos. Parecendo que não, são eles os que mais interesse despertam entre os estudantes universitários, por vezes descontentes com a apologética. Um exemplo disso, é o facto de ter sido muito discutida a sua posição, e a de alguns colaboradores do 57, quanto ao mistério da SS. Trindade e, particularmente, quanto ao paracletismo e uma preponderância actual do Espírito Santo da terceira pessoa da Trindade Divina.

- Refere-se, sem dúvida, à minha crítica ao recente trabalho de Agostinho da Silva sobre a filosofia da história portuguesa, à luz de uma missão do Espírito Santo. Sei que esse meu artigo teve várias interpretações, nem sempre certas, e a culpa foi porventura minha... e da dificuldade de um tão alto problema teológico. O que penso, como católico e como aprendiz de teólogo, é que é preciso interpretar a História à luz, não apenas de uma Antropologia cosmológica, mas sobretudo à luz de uma Antropologia cosmoteológica. Por outro lado, afigura-se-me que a religião e, no caso que mais interessa, a religião portuguesa, não procedeu à actualização da SS. Trindade, em todas as suas três pessoas. Esquece-se demasiado que o catolicismo é uma religião trinitária e cai-se demasiadas vezes na concepção em que Deus se revela como uma única pessoa: a de Cristo. Ora é preciso insistir, para o desenvolvimento do espírito humano e da humanidade, em que a SS. Trindade é, por outras palavras, a actualização de Deus, Deus em missão junto dos homens. Esta missão está perfeitamente esclarecida desde S. Paulo quanto à pessoa do Pai (o tempo da lei) e à pessoa do Filho (o tempo da fé). A lei moral e os Sacramentos consignam e promovem a ligação dos homens, ou a sua resposta, ao Pai e ao Filho. Já quanto à missão do Espírito Santo, o Consolador, o dispensador da sabedoria, o promotor da fraternidade universal, os homens de hoje parecem ser-lhe mais surdos ou mais cegos. Daqui a minha insistência.

- Sim, agora vejo. Também eu fui levado a ver no seu artigo uma directriz conducente à defesa de um culto de tipo protestante, com a respectiva submissão ao amor abstracto e correspondente concretização em acções sociais. Porque, já que se trata de filosofia portuguesa, há que referir o problema às acções católicas que foram os descobrimentos marítimos. Não é assim, Sr. Dr.?

- Os descobrimentos marítimos, a primeira grande missão da história portuguesa, estão ligados a Cristo porque foram realizados pela Ordem de Cristo, de que foram grão-mestres D. Dinis, o Infante D. Henrique e D. Manuel, mas também ao Espírito Santo como o sublinha particularmente Agostinho da Silva, interpretando alguns sinais irrefutáveis, como os Painéis de Nuno Gonçalves, que retratam, com a presença do Infante e dos navegadores uma cerimónia do culto do Espírito Santo, e a instauração do mesmo culto pelos nossos navegadores do século XV na Madeira e nos Açores, onde aliás ainda hoje se realizam as festas do Espírito Santo. Estas tradições parece terem-se perdido, e creio que a religião portuguesa muito ganhará em repensar a missão da terceira pessoa da SS. Trindade. Não podem esquecer, além disso, a profunda relação entre a Virgem e o Espírito Santo. O estudo desta relação em muito iluminará, estou convencido, a grande adesão do povo português a Nossa Senhora, protectora de Portugal.

- Agostinho da Silva refere-se à heresia de Joaquim de Flora...

- Não conheço as obras do franciscano Joaquim de Flora, mas creio que os seus adeptos quiseram promover a separação dos três cultos, o do Pai, o do Filho e o do Espírito Santo, quase os considerando três religiões separadas. Tal não é o meu pensamento. Como lhe disse, apenas me seria grato ver completado, em acção, o trinitarismo da religião católica portuguesa que no domínio do Espírito Santo se me afigura vaga, nebulosa, ineficaz e indiferente. Ora a iluminação do espírito humano pelo Espírito Divino, iluminação constante e vitalmente necessária, não me parece ser factor de somenos. A este respeito, é bem claro o Evangelho de S. João. Para que a cultura se harmonize com o culto e a filosofia com a religião, fim superior do espírito, é necessário que o trinitarismo divino, a relação dos homens com o Pai, o Filho e também o Espírito Santo, seja efectuada sem indiferença por qualquer destes reinos do infinito divino.

- Aliás, isto de insistir no Espírito Santo quando outros insistem no materialismo dialéctico, poderá representar uma tese de uma antítese ou uma antítese de uma tese, cuja síntese portuguesa, em teologia, se situará nos mistérios marianos.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

O galego ajudou o português de Lisboa a casar-se e a ser feliz

Fernando Assis Pacheco em entrevista a Xan Leira. Na Galiza, em 1995.

Dança

"São homens da dança todos os que a sentem, não como supérfulo, mas como uma exigência vital. (...)"

António Quadros
"A dança, primeira forma da para-existência artística"
 57, ano I, n.° 3-4

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Um dia Paris aborreceu-se

"(...) Um dia Paris aborreceu-se e expulsou os reis, outro dia aborreceu-se e acolheu os imperadores. Às vezes Lisboa aborrece-se e entra na política – como homens que entram no banho são pisados pela maresia, são feridos pelas areias, esfriados pela neblina e vêm, contentes e transidos, enxugar-se ao sol! Lisboa toma atitudes, clama, conjura nas esquinas, e bondosamente afastada pela policia, e vem, toda gloriosa e feliz pelas tiranias derrubadas, reler a cartilha! (...) Fica-te em paz, Lisboa! És Baixa e magnífica. Os que te quiserem abençoar terão. de se curvar um pouco para a lama: mas consola-te, se alguém te quiser amaldiçoar terá de se aproximar bastante de Deus! Tu dorme, digere, ressona, soluça e cachimba. E se algumas lágrimas em ti caírem, vai-as enxugar depressa ao sol! Fica-te em paz! Os que têm alma não querem a luz dos teus olhos; podes consumi-la a contemplar o céu e os universos; por causa do teu olhar sempre erguido para lá, ninguém terá ciúmes do céu! Os que têm coração não querem as carícias das tuas mãos: podes emagrecê-las a rezar a Jesus; por causa das tuas mãos sempre erguidas para ele, ninguém terá ciúmes de Deus! Tu tens a beleza, a força, a luz, a graça, a plástica, a água resplandecente. a linha magnífica. resigna-te. ó Lisboa querida. o clara cidade bem-amada. ó vasta graça silenciosa, resigna-te. o doce Lisboa, coroada de céu, resigna-te – a não ter alma! "
Eça de Queiroz
"Et nune semper" em Prosas Bárbaras

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

O respeito pela verdade manda dizer

"O respeito pela verdade manda dizer que esta escola superior funcionou afastada da simpatia dos portugueses cultos e dos representantes das entidades oficiais, pois basta rememorar que até professores e estudantes das Faculdades mais antigas olhavam com desdém para a nova escola de humanidades. A extinção da Faculdade de Letras foi admitida com indiferença pela maioria da população da cidade. Não houve perseverança, nem persistência na atitude que competia às autoridades políticas e administrativas, às instituições culturais, à imprensa diária e até às associações de interesses económicos: renovar, tantas vezes quantas as possíveis ou necessárias, o respeitoso e fundamentado requerimento em que se solicitasse do Ministro da Educação Nacional o restabelecimento de uma escola indispensável ao aperfeiçoamento cultural das novas gerações portuenses. (...)" 

 Álvaro Ribeiro
«O Tripeiro», l de Novembro, 1945. Porto

Só aparentemente

"Aparentemente, a Escola era frustre. A sua própria instalação suburbana, numa moradia de arquitectura banal, parecia dar-lhe um certo ar de envergonhada. As carteiras eram mesquinhas, as salas exíguas, as cátedras quase ridículas. Por isso nas outras Faculdades se dizia com ar displicente: — «B a Faculdade das Tretas» — «É a Capelinha de Leonardo». (...)"

Sant'Anna Dionísio
"A Quinta amarela", O Primeiro de Janeiro, 12-3-1958

Festas da terra


"Seria necessário, entretanto, acrescentar algo mais. Pois ainda não foi dito que a felicidade deve ser inseparável do otimismo, custe o que custar. Ela está ligada ao amor — o que não é a mesma coisa. Pois conheço certos momentos e lugares em que a felicidade pode parecer-nos tão amarga que preferimos apenas sua promessa. Isso porque, nesses momentos ou nesses lugares, eu não tinha coragem bastante para amar, isto é, para não renunciar. O que é preciso mencionar aqui é o ingresso do homem nas festas da terra e da beleza. Pois, nesse instante, tal como o neófito deixa cair seus derradeiros véus, o homem abre mão, diante de seu deus, da insignificante moeda de sua personalidade. (...)"

Albert Camus
"O Deserto" em Núpcias, O Verão
Editora Nova Fronteira (1979)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A sofridão transborda-se

"Em Portugal a emigração não é, como em toda a parte, a transbordação de uma população que sobra; mas a fuga de uma população que sofre. (...)"

Eça de Queiroz

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

O gato e o corão

"Recebi do Mário Rui, o islamita, uma preciosa oferta, o Corão em Árabe, com dourados, um livro muito belo que, infelizmente não posso ler. 
Em casa, estive a folheá-lo com a minha mulher e pu-lo por fim sobre o tampo da camilha, à volta da qual estávamos sentados. O nosso gato saltou para cima da camilha, subiu para cima do livro, com as quatro patas nos seus quatro ângulos e estendeu-se deixando levantada a parte de trás como quem se espreguiça, desenhando exactamente a figura da prosternação, que é nos muçulmanos o terceiro momento da prece. E coisa ainda mais espantosa e assombro dos assombros, ficou nessa postura imóvel dutante quinze minutos. Estava voltado para Meca. 
Contei ao Mário Rui, mas, sem dizer uma palavra, despediu-se de mim com um aceno de cabeça. O que ficou pensando?"

Congeminações de um Neopitagórico (2006-2009)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Por conseguinte

"Admitindo, porém, que o corpo seja totalmente divisível, suponhamo-lo dividido. O que poderá restar? Uma grandeza? Tal não será possível, pois haveria algo que não teria sido dividido, e admitimos que o corpo era totalmente divisível. No entanto, se não restasse corpo nem grandeza e houvesse divisão, ou o corpo seria constituído por pontos, sendo desprovidas de grandeza as coisas de que fosse composto, ou nada seria em absoluto, — pelo que, neste caso, o corpo de nada seria proveniente e de nada seria composto, e o seu todo nada mais seria do que aparência. (...) Por conseguinte, se se supuser que qualquer corpo, qualquer que seja o seu tamanho, é totalmente divisível, serão estas as consequências. (...)"

Aristóteles
Sobre a geração e a corrupção (2009)
Centro de Filosofia da UL | Imprensa Nacional-Casa da Moeda

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Ensaio para uma teoria do Brasil

"Não me parece que no futuro cultural do Brasil a filosofia, tal como a entendemos até hoje, venha a ter uma grande importância, possivelmente porque há uma íntima contradição entre os seus objetivos e os seus métodos; de fato não se pode fazer filosofia como tanta vez se tem tentado, com o resultado de se produzir apenas literatura e da pior, sem métodos rigorosamente discursivos, em que sempre intervém como peça fundamental a distinta existência dum sujeito e dum objeto; mas a meta última de um verdadeiro impulso filosófico, como doutrina de compreensão ou doutrina de salvação, é a de se atingir um estado em que se apresente uma última realidade não dicotômica na qual nos incluamos, ou ela nos inclui a nós; por outras palavras, procuramos um sujeito ou pelo menos um ser em que se fundam sujeito e objeto, o que significa que há um ponto além do qual é impossível avançar em filosofia por métodos filosóficos; e aqui aponta, por um lado, o misticismo, por outro a filosofia apenas vivida, não sistematizada, que tem sido característica da nossa gente comum. (...)"

Agostinho da Silva
Espiral, Ano III, n.os 11-12, Lisboa, 1966

A multidão dos fracos é cada vez de tentação maior

"O que, porém, sucede, é que se entretêm demais os artistas, e nada julgam ser se o não fizerem, com filosofias que apenas têm como origem o não se saber, o não se pensar e o não se querer; esteticismos de sobremesa substituem o rancho de trabalhar e produzir; nas conversas de sociedade de bom tom se diluem os caracteres que só o silêncio e o isolamento poderia dignamente martelar; toma-se o tranquilizante para afastar angústia que tão bem-vinda seria como sinal de Deus; bebe-se porque se está triste, não para celebrar a alegria; ninguém mais sabe estar de pé ou andar a pé: cadeira e automóvel se redesenham, se aperfeiçoam; e a multidão dos fracos é cada vez de tentação maior para o domínio dos ousados sem escrúpulo (...)"

Agostinho da Silva
Espiral, Ano I, n.os 4/5, Lisboa: 
Tipografia Peres, 1964-1965, p. 24-36

O Brasil como se projeta

"O Brasil não poderá nunca ser o guia e o instaurador de uma cultura de verdadeira convivência, entre os homens e dos homens com o mundo, de verdadeira liberdade, que não é apenas a liberdade política, mas igualmente a liberdade econômica, a liberdade de agir como ser físico independentemente das reais ou supostas fatalidades do universo, e de liberdade de criação poética, quer essa poesia seja a de uma interjeição lírica, ou a de uma equação ou a de um motor melhor que Diesel, sem que entenda que isso é conhecer como se formou, a partir das três grandes correntes do índio, do português, do africano, como age no seu presente, depois de ter assimilado tanto outro grupo imigratório e de se ter posto em contacto com tantos outros povos do mundo, e sobretudo como se pensa, ou fantasia, ou se projeta para seu futuro, quanto aos indivíduos que o compõem, quer sejam os de um São Paulo, técnico e metropolitano, quer os de um Nordeste que só agora começa libertando-se de ser uma colônia do referido São Paulo. Se é que São Paulo não vai tentar que continue seu regime colonial por meio de um neocapitalismo disfarçado em nacionalismo econômico. (...)"

Agostinho da Silva
Cadernos de Estudos Brasileiros, Goiânia: 
Centro de Estudos Brasileiros da Universidade Federal de Goiás, 
nº 1, outubro de 1963, p. 29-34

O brasil que os estrangeiros não conhecem

"No entanto, basta que o observador, pondo de lado os livros das bibliotecas eruditas, e os quadros dos museus ou exposições eruditas, e as reuniões dos homens eruditos, que com tanta frequência se exportam ao estrangeiro, viaje pelo interior de Rio Grande ou Minas ou atravesse os sertões do Nordeste e se demore com alguma atenção no estudo daquela gente que um dia alimentou o Brasil, ou lhe deu as primeiras bases daquele barroco que é apenas um dos aspectos de um maior barroco atlântico tão demorado em surgir, ou afirmou em Canudos, morrendo, o seu direito a originalidade, basta o conhecimento embora ligeiro daquele Brasil que se recusa a julgar seu destino, esperar no cais o último e louco ditame de além-mar, para entender como está inteiramente errado o Brasil que os estrangeiros conhecem e, por outro lado, para perceber como assenta em bases inteiramente brasileiras uma literatura como a de Mário de Andrade ou uma arquitectura que, no melhor, já vai unindo a abstracção e o barroco. (...)"

Agostinho da Silva
57, Lisboa, n.º 5, setembro de 1958

Os meus actos

"É saudade, mas não é só saudade. Isto vem de muito fundo. Os meus actos são guiados por mãos desaparecidas e a minha convivência é com fantasmas. (...)"

Raul Brandão
Os pescadores (1923)

domingo, 18 de janeiro de 2015

Aos burgueses civilizados

"O homem medíocre caracteriza-se pelo medo constante do imprevisível e daí, no ilustrado analfabeto que é o burguês civilizado, a inabalável confiança na Ciência, que admira e à qual está intimamente agradecido porque lhe permite ter automóvel, televisão e frigorífico, mas sobretudo porque funciona para ele como a grande redutora do mistério que o perturba e inquieta. Nada há, para ele, que a Ciência não possa e saiba explicar. Deus será uma vaga ideia remota de que falam livros que nos vêm da época da ignorância humana e as religiões, tão antigas como a treva em que vivemos, como as lendas e a crendice popular. Pelo sim pelo não, alguns vão à missa, porque na Igreja está um Deus socializado, em relação ao qual a religião estabeleceu formas inócuas de convivência, que porventura lhes garantam a comodidade e o bem-estar na outra vida, se for caso dessa vida existir.
A Ciência é assim com inicial maiúscula o órgão de conhecimento da burguesia. Mas, se Deus puder vir a ser contado, pesado e medido, só então se torna indubitável para ela a sua existência. De vez em quando, porém, nasce um extravagante genial, que traz a inquietação que se julgara ter expurgado de uma vez para sempre, e que de novo acorda os outros homens para o sentido do mistério. Um Fernando Pessoa ou um Álvaro Ribeiro não se podem ignorar como ninguém pode ignorar Shakespeare, porque souberam escrever as palavras que fazem ver. Como neutralizá-los? Há dois processos: um é o de lhes calar o nome, como se eles não tivessem existido, mas como, mais tarde ou mais cedo, isso se torna impossível de manter, recorrem ao outro processo que é o de tomá-los como objectos da Ciência, estudando-os como se de plantas ou de animais se tratassem ou, quando muito, de fenómenos psicológicos ou parapsicológicos."

 António Telmo 
(inédito aqui)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

A ideologia da avaliação

"A ideologia da avaliação quer sempre incutir a falsa consciência, como todas as ideologias, de que é neutra e objectiva, e não subjectiva e produto de uma vontade particular. (...)"

António Guerreiro
Jornal Público, 16 de Janeiro de 2015

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

A vila é a vida que é o simulacro

“A vila é um simulacro. Melhor: a vida é um simulacro. (...)"

Raul Brandão
Húmus (1917)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Portugal e Brasil

"A dimensão universal dos países ou das comunidades não se mede em termos de quantidade. Não são criadores de civilização, não são arautos do futuro, não são agentes do movimento histórico, que amplia e enriquece a humanidade, os países ou as comunidades por terem milhares de quilómetros quadrados, centenas de milhões de habitantes ou um grandioso potencial económico ou bélico. Todas as nações são mátrias a um nível, mas só quando reconhecem e assumem a pátria ou o espírito dinâmico a que realmente pertencem, são capazes de virar o curso da história (...).
É nossa convicção que Portugal e Brasil de hoje, politicamente independentes e autónomos no plano da mátria ou da nação, todavia se unem na vinculação a uma pátria transcendente, representada em primeiro lugar pela língua comum, veículo de um espírito irradiante, expansivo e exigente do dinamismo que lhe estamos a negar, por desacerto filosófico. Que pátria é esta? A nossa pátria é a língua portuguesa. Não é Portugal e não é o Brasil. É infinitamente mais antiga, mais profunda, mais promissora e mais futurante. Falta-lhe um nome, que não ousaremos propor. Pátria paraclética, pátria espiritual, pátria movente, pátria todavia encoberta e em transe de revelação no drama e na epopeia da nossa história. António Vieira, um luso-brasileiro, chamou-lhe Quinto Império. (...)"

António Quadros
Seminário de Literatura e Filosofia Portuguesa
 1988, Friburgo, Suíça

Quem lhe mandou ser infinito?

«De porta em porta»
Alexandre O'Neill

Quem? O infinito?
Diz-lhe que entre.
Faz bem ao infinito
estar entre gente.

– Uma esmola? Coxeia?
Ao que ele chegou!
Podes dar-lhe a bengala
que era do avô.

– Dinheiro? Isso não!
Já sei, pobrezinho,
que em vez de pão
ia comprar vinho . . . 

– Teima? Que topete!
Quem se julga ele
se um tigre acabou
nesta sala em tapete?

– Para ir ver a mãe?
Essa é muito forte!
Ele não tem mãe
e não é do Norte . . . 

– Vítima de quê?
O dito está dito.
Se não tinha estofo
quem o mandou ser
infinito?

Na luta

“Todo o espírito superior, na luta vencedora contra a materialização, ou se mata, como Antero de Quental, ou, como Frei Agostinho da Cruz, força a barreira tenebrosa e ajoelha, rezando, aos pés de Deus...” 

Teixeira de Pascoaes
Os poetas lusíadas, Assírio e Alvim, Lisboa, 1987, p. 115

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Grau de passagem


“Todos os artistas que fizeram o seu auto-retrato ao longo dos tempos não foi porque se achassem particularmente belos ou interessantes mas porque assim avaliavam o seu grau de passagem. Eu escrevo o meu nome. (...)” 
Ana Hatherly
A idade da escrita e outros poemas, Escrituras, 2005.