Excertos do documentário "Nome de Guerra, a Viagem de Junqueiro", produzido pela Escola de Belas Artes da Universidade Católica do Porto.
quarta-feira, 8 de abril de 2015
Dalila Pereira da Costa
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Guerra Junqueiro
quinta-feira, 2 de abril de 2015
A religião e a arte
"Considerando, porém, a religião e a arte, ambas se me afiguram, ainda que de um modo distinto é certo, intimamente voltadas para o homem e o universo, para a condição humana e a natureza Divina. E nisto não residirá a memória e a saudade do Paraíso perdido, de que nos fala a Bíblia, tesouro inesgotável da nossa cultura europeia? (...)"
Manoel de Oliveira
Centro Cultural de Belém, Lisboa, 12.5.2010
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Manoel de Oliveira
Manoel de Oliveira 1908-2015
'Non' ou A Vã Glória de Mandar (1990)
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Manoel de Oliveira
Manoel de Oliveira 1908-2015
"Quando comecei a fazer cinema não conhecia ninguém das tertúlias literárias. [Mais tarde] o Casais Monteiro, o Leonardo Coimbra, o José Marinho, o Álvaro Ribeiro, o Delfim Santos e outros (...) foram eles que me foram dando indicações sobre livros importantes.”
Manoel de Oliveira
«Expresso» 16 de Outubro de 1993
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Manoel de Oliveira
segunda-feira, 30 de março de 2015
Religiosa heterodoxia
"Religiosos têm sido os maiores poetas portugueses." António Quadros defendeu esta ideia em 1979, num texto de evocação de José Régio, a quem atribuía o pódio do génio poético português no século XX, a par de Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa. É impossível saber se, porventura vivo, o filósofo estenderia hoje a graça a Herberto Helder (que tanto o admirava). Contudo, também deste poeta se poderá dizer que foi heterodoxo, certamente torturado, por vezes dubitativo. Todos, cada um a seu modo, “não realizaram obra confessional, eclesial, ritualista, antes partiram de uma longa ou de curtas mas perturbantes experiências místicas, ou metagnósicas, de que regressaram perturbados, mas ao mesmo tempo iluminados, deslumbrados, sublimados”.
Herberto Helder fê-lo sem fidelidade a Deus (“destruído pelo extremo exercício da beleza”), mas com um visionarismo largo e profundo da vida, nascido da tentativa de toque poético nas coisas mesmas, directas e quotidianas (“vem aí o sagrado, e tornam-se radiosas as coisas mínimas”). Numa simultânea carnificação e coisificação da palavra, o poeta pesquisou gestos primitivos (como levar a colher à boca), uma iluminação primordial, a “alquimia do verbo” possuindo “todas as paisagens do mundo”, tal como Rimbaud a sonhou. (...)
Herberto Helder fê-lo sem fidelidade a Deus (“destruído pelo extremo exercício da beleza”), mas com um visionarismo largo e profundo da vida, nascido da tentativa de toque poético nas coisas mesmas, directas e quotidianas (“vem aí o sagrado, e tornam-se radiosas as coisas mínimas”). Numa simultânea carnificação e coisificação da palavra, o poeta pesquisou gestos primitivos (como levar a colher à boca), uma iluminação primordial, a “alquimia do verbo” possuindo “todas as paisagens do mundo”, tal como Rimbaud a sonhou. (...)
Filipa Melo
Jornal Sol | 29-03-2015
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Herberto Helder
sexta-feira, 27 de março de 2015
O encontro de Sampaio Bruno com António Nobre
"Na escura rua de Trévise me procurou, abandonando por horas a sua preferida margem esquerda, de que lhe era tão penoso afastar-se, António Nobre, uma tarde em que eu sofria cruelmente. Esta visita sensibilizou-me; como me encantou a conversação do poeta, pelo tom subtil da melindrosa reserva na consolação, a um tempo caridosa e primorosa, d’um’alma em carne viva, como a minha por então andava. (...)"
Sampaio Bruno
do prefácio a Despedidas (livro póstumo)
de António Nobre
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Sampaio Bruno
Fernando Gil e José Marinho
(...)
DN: Como é que surge a filosofia para si? O seu percurso é algo atípico; fez uma breve incursão na Sociologia, licenciou-se em Direito, e em 61 decidiu-se pelo estudo da Filosofia em Paris.
Fernando Gil: Nessa altura, em 61, já tinha escrito um livrinho de filosofia.
DN: Não foi uma espécie de ousadia escrever um livrinho de filosofia sem antes a ter estudado?
Fernando Gil: Foi com certeza o exemplo de um mestre, José Marinho, que eu frequentava em cafés da Avenida de Roma, que podia animar um jovem, que tinha tido alguma revelação da filosofia através do prefácio da «Fenomenologia da Percepção» de Merleau-Ponty, a avançar sozinho. O José Marinho era, justamente, um filósofo insensato, e animava tudo o que pudesse parecer um caminho pessoal. Não fui só eu; várias pessoas à volta dele beneficiaram desse apoio. Talvez tenha sido ainda mais insensato porque escrevi o livro sabendo muito pouco de filosofia.
DNa | Diário de Notícias | 2000
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terça-feira, 24 de março de 2015
Herberto
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segunda-feira, 23 de março de 2015
Confluências n.º5
A jovem não escondeu o seu desapontamento
"Formávamos uma pequena multidão. Pelo menos, deve ter sido assim que para nós olhou a rapariga que, naquele momento, se acercou do grupo. Forasteira, teria cerca de 20 anos e vinha ao fresco, vaporosa, balnear, esperançada na réstia de um Verão a destempo face à iminência da hora em mudança.
Quis saber o que ali se iria passar. Dissemos-lhe que já se tinha passado. (...)
Alguém lhe terá então falado da homenagem prestada a Agostinho, do lançamento do livro com as suas cartas para António Telmo. E a palavra filosofia, naturalmente, veio à baila. A jovem não escondeu o seu desapontamento perante o quadro: – Filosofia??!! quase protestou, envolvendo o desdém da pergunta num esgar de desconsolo. Esperaria talvez poder assistir à projecção de um filme, suplemento prazenteiro à inopinada vilegiatura, e deparara-se afinal com um bando plúmbeo de monos dissecadores de alfarrábios. Em suma: uma seca!
Não obstante, reteve o nome de Agostinho: – Agostinho da Silva? Mas ele ainda é vivo? – indagou. Paciente, proficientemente, esclarecemo-la, explicando-lhe que a apresentação das Cartas de Agostinho da Silva para António Telmo constituíra, justamente, uma comemoração, entre outras, em que Sesimbra foi aliás pródiga no ano passado, dos vinte anos da sua partida. Para o nosso desespero ser completo, veio ainda uma terceira questão: – E a filosofia dele era estilo quê? Tipo Platão?
Mais disse a suave rapariga outonal ser aluna do IADE, em Lisboa. Muito gostaria de lhe ter feito a pergunta que então me não ocorreu: se acaso sabia quem tinha fundado a escola que frequentava? Imagine o leitor que se trata de um filósofo, para mais um filósofo português, de seu nome António Quadros. Este amigo de António Telmo e Agostinho da Silva, regressado à pátria após uma estada no Brasil, onde fora realizar conferências, foi o núncio do convite que o segundo, com Eudoro de Sousa, dirigira ao primeiro para se lhes juntar, em Brasília, como professor da Universidade onde os dois então pontificavam. Corria pelo meado a década de sessenta. E o resto é sabido. (...)
Por muito que custe à excelente moça balnear, parece haver sempre uma opção filosófica depositada nos gestos, mesmo os mais pequenos, só na aparência insignificantes, com que urdimos as teias das nossas vidas. Quando Agostinho da Silva virava costas ao mergulho nas ondas do mar a seus pés, e com estes de abalada se afoitava a calcorrear os morros que circundam a cova funda, para visitar o amigo Rafael Monteiro na sua casa castelã, estava por certo a fazer uma escolha, tão escorada no sentimento como no pensamento. E quando António Quadros congeminou o desígnio, entre nós pioneiro, de criar uma escola de arte e decoração que viria a concretizar em 1969, facultando aos estudantes portugueses um curso de Design de Interiores e Equipamento Geral concebido sob padrões internacionais de vanguarda, bem sabia que as imagens não raro decidem das ideias por que guiamos os nossos passos. (...)"
Por muito que custe à excelente moça balnear, parece haver sempre uma opção filosófica depositada nos gestos, mesmo os mais pequenos, só na aparência insignificantes, com que urdimos as teias das nossas vidas. Quando Agostinho da Silva virava costas ao mergulho nas ondas do mar a seus pés, e com estes de abalada se afoitava a calcorrear os morros que circundam a cova funda, para visitar o amigo Rafael Monteiro na sua casa castelã, estava por certo a fazer uma escolha, tão escorada no sentimento como no pensamento. E quando António Quadros congeminou o desígnio, entre nós pioneiro, de criar uma escola de arte e decoração que viria a concretizar em 1969, facultando aos estudantes portugueses um curso de Design de Interiores e Equipamento Geral concebido sob padrões internacionais de vanguarda, bem sabia que as imagens não raro decidem das ideias por que guiamos os nossos passos. (...)"
Pedro Martins, aqui.
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segunda-feira, 16 de março de 2015
O progresso é um mito que sobrevive
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John Gray
sexta-feira, 13 de março de 2015
Do ontem hoje
"Pretendo aludir nestas linhas a dois vícios que inferiorizam grande parte da nossa literatura contemporânea, roubando-lhe esse carácter de invenção, criação e descoberta que faz grande a arte moderna. São eles: a falta de originalidade e a falta de sinceridade. (...)"
José Régio
Presença, n.º1, 10 de Março de 1927
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José Régio
quinta-feira, 12 de março de 2015
(d)e
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Almada Negreiros
Frisos
"Eu amo a Lua do lado que eu nunca vi.
Se eu fosse cego amava toda a gente. (...)"
Se eu fosse cego amava toda a gente. (...)"
Almada Negreiros
Frisos, Canção da Saudade
Orpheu I
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Almada Negreiros
terça-feira, 10 de março de 2015
Conferências, livros, bibliografias...
"A arte de filosofar não consiste em escrever livros, em proferir conferências,
em minutar lições que, ostensivamente, efectuem transmissão de ensino público.
Todas as manifestações da filosofia que os bibliógrafos registam os biógrafos
explicam, combinando a bibliografia com a biografia, resultam de uma actividade
inaudível e invisível a que se dá o nome secreto de pensamento (...)"
Álvaro Ribeiro
A Arte de Filosofar
Portugália Editora, 1955
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Alvaro Ribeiro
quinta-feira, 5 de março de 2015
O sensacionismo
“O sensacionismo, que mais tarde Fernando Pessoa teorizaria em numerosos escritos, é, com Cesário Verde, a primeira irrupção do moderno na poesia portuguesa. A poesia vai alimentar-se na prosa para se renovar. É uma poética do aquém, que valoriza e restaura a consciência e a qualidade das coisas, do que é circunstancial, material e concreto. (...)”
António Quadros
O primeiro modernismo português (1989)
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Cesário Verde,
Excertos da obra,
Fernando Pessoa
quarta-feira, 4 de março de 2015
E as de Deus
"Blagues? E as de Deus? (...)"
Álvaro de Campos
(s.d)
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Álvaro de Campos
terça-feira, 3 de março de 2015
Mircea
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Mircea Eliade
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
Jura-me
" (...)
– Jura-me que nunca hás-de envelhecer – disse-te.
– Juro.
– E que nunca hás-de morrer.
– Sim.
– E que a beleza estará sempre contigo. E a glória. E a paz.
– Juro."
– Jura-me que nunca hás-de envelhecer – disse-te.
– Juro.
– E que nunca hás-de morrer.
– Sim.
– E que a beleza estará sempre contigo. E a glória. E a paz.
– Juro."
Vergílio Ferreira
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Vergílio Ferreira
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
Pelos vencidos
"Não te poderás considerar um verdadeiro intelectual se não puseres a tua vida ao serviço da justiça; e sobretudo se te não guardares cuidadosamente do erro em que se cai no vulgo: o de a confundir com a vingança. A justiça há-de ser para nós amparo criador, consolação e aproveitamento das forças que andam desviadas; há-de ter por princípio e por fim o desejo de uma Humanidade melhor; há-de ser forte e criadora; no seu grau mais alto não a distinguiremos do amor (...)"
Agostinho da Silva, “Pelos vencidos”,
Considerações [1944], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 112.
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Agostinho da Silva
terça-feira, 24 de fevereiro de 2015
A poesia permanecerá como a afirmação mais capaz de acusar todas as traições do homem ao seu destino humano
"A poesia subsiste, a poesia subsistirá. Independentemente de questões intrínsecas, que explicarão o êxito momentâneo de certas obras, apostamos numa forma de arte que particularmente se apoia na linguagem e nas suas mais profundas virtualidades, vizinha afinal de uma linguagem popular que, embora prejudicada pelo êxodo rural e pelo consequente domínio, mais aparente do que real, de um idioma reduzido, fundamental digest, não deixará de sobreviver enquanto sobre a terra algum homem houver. A poesia núcleo e limite das artes que se apoiam na linguagem que distingue o homem dos outros animais, apresenta-se-nos como o último reduto dessas artes. Atitude utópica, aposta, justificação própria? Depois do que já, ao longo deste artigo, dissemos, cremos honestamente que não. Na pior das hipóteses, mortal como o homem e como a sua única terra, a poesia permanecerá não só como a forma mais pura de arte literária mas também como a indisciplinadora mais audaz, como a afirmação mais vigilante de uma consciência individual e social capaz de acusar todas as traições do homem ao seu destino humano. (...)"
Ruy Belo
Poesia, Último Reduto da Literatura?
(Diário de Lisboa, 14-04-1972)
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Ruy Belo
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
Problemático é
“A unidade teorética do sistema de cultura pode ser encontrada na relação do pensamento humano com
a realidade absoluta; problemático é apenas o fundamento da opção por um determinado modo de vida
espiritual. (...)"
Álvaro Ribeiro
O Problema da Filosofia
Portuguesa, Lisboa, (1943)
Editorial “Inquérito”, p.38
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Alvaro Ribeiro
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
Proença, Cortesão, Sérgio e o grupo Seara Nova
"O Colóquio sobre Proença, Cortesão, Sérgio e o Grupo Seara Nova, organizado por Amon Pinho, António Pedro Mesquita e Romana Valente Pinho na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 2009, constituiu um importante acontecimento académico e, sem dúvida, um dos mais fecundos encontros científicos jamais promovidos em torno do grupo seareiro e das suas mais relevantes personalidades. E tantos foram, desde os que ocorreram na década de oitenta do passado século, assinalando os centenários dos nascimentos dessas mesmas personalidades, até ao que se realizou já na primeira década deste século sobre António Sérgio e organizado pelo Centro Regional do Porto da Universidade Católica Portuguesa. E, no entanto, de cada vez que nos aproximamos dos grandes vultos seareiros, somos sempre surpreendidos por novos ângulos de abordagem e originais aprofundamentos das múltiplas dimensões dos respectivos magistérios. Como se fossem filões inesgotáveis a inspirarem sucessivas vagas de pesquisa por parte de renovadas gerações de estudiosos".
António Reis
do Prefácio
*Apresentação dia 5 de Março, às 18h30, na sala D. Pedro V da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
Carnaval
(...)
Tenho náusea carnal do meu destino.
Quase me cansa me cansar.
E vou, Anónimo, (...) menino,
Por meu ser fora à busca de quem sou.
Tenho náusea carnal do meu destino.
Quase me cansa me cansar.
E vou, Anónimo, (...) menino,
Por meu ser fora à busca de quem sou.
Álvaro de Campos
(s.d.)
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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
Pôem-se as pessoas a perguntar
― Uns Holandeses compraram o iade, sabia?
Põem-se as pessoas a perguntar.
― Claro. Ele diz, pregando-lhes um susto.
Longo silêncio.
Digamos que hesitam.
Falam: ― É que, assim, bom, por um lado...
Preparam a tagarelice.
Ouvem-se passos.
Um homem avança muito rapidamente.
É de noite.
― Desculpar-me-á, mas.
― Ora, compreendo perfeitamente.
E sai de cena.
Ouve-se um assobio e dois bocejos.
Um terceiro homem entra no aposento.
Minutos depois sai a plateia.
FIM
Põem-se as pessoas a perguntar.
― Claro. Ele diz, pregando-lhes um susto.
Longo silêncio.
Digamos que hesitam.
Falam: ― É que, assim, bom, por um lado...
Preparam a tagarelice.
Ouvem-se passos.
Um homem avança muito rapidamente.
É de noite.
― Desculpar-me-á, mas.
― Ora, compreendo perfeitamente.
E sai de cena.
Ouve-se um assobio e dois bocejos.
Um terceiro homem entra no aposento.
Minutos depois sai a plateia.
FIM
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015
"Actualmente a Universidade em nada se diferencia do liceu"
Francisco Sottomayor entrevista António Quadros
Flama, ano XIV, n.º 516, Lisboa, 24 de Janeiro, 1958, pp. 7-8
via Liceu Aristotélico
via Liceu Aristotélico
Filho de António Ferro, o homem que pôs em movimento o melhor pensamento do Orfeu, e de Fernanda de Castro, sem dúvida a primeira poetisa portuguesa de todos os tempos, à qual só é comparável Florbela Espanca, António Quadros teve de defrontar, para rasgar o caminho da sua descoberta filosófica, os obstáculos da maledicência e da inveja que sempre explicam, por motivos inferiores, o que depois o filósofo atento à individualidade dos Verbos vê radicado numa inspiração própria.
Autor de numerosa e variada obra, publicou dois livros de poesia Além da Noite e Viagem Desconhecida, e vários livros de ensaio como Modernos de Ontem e de Hoje, Introdução a uma estética existencial, Problemática Concreta da Cultura Portuguesa, etc.
Encontrei António Quadros na Brasileira do Rossio, onde o conhecido escritor se costuma reunir com os seus camaradas do 57. A ideia de o entrevistar nasceu de ser o autor de A Angústia do nosso tempo e a crise da Universidade.
- O Sr. Dr. publicou, em 1956, um livro intitulado A Angústia do nosso tempo e a crise da Universidade. No ano seguinte começou a publicar a sua revista 57 que agora se apresenta como orgão do "Movimento de Cultura Portuguesa". Haverá alguma relação entre as duas publicações?
- É com o maior prazer, Francisco Sottomayor, que respondo à sua pergunta. Foi em 1952, isto é, quatro anos depois da minha formatura, que comecei a escrever sobre os problemas da educação e da Universidade. Estes problemas de há muito me vinham preocupando, praticamente desde os meus primeiros dias de aluno universitário. Com efeito, desde logo verifiquei que a Universidade não se diferenciava substancialmente do liceu. Durante os meus quatro anos de aprendizato pude observar, em primeiro lugar, que a Universidade não ministrava qualquer forma de educação do espírito, em segundo lugar, que o seu ensino era meramente histórico e positivista. Mais concretamente: todas as aulas de filosofia ou de história eram constituídas por secas exposições de doutrinas ultrapassadas, segundo histórias, compêndios ou sínteses de vulgarização cultural. Verifiquei que não apenas o professor ocultava as suas fontes de informação, como não manifestava no seu ensino uma adesão a qualquer das doutrinas, que eram expostas como peças de museus.
- Compreendo perfeitamente. O Sr. Dr. refere-se ao carácter meramente historicista do ensino universitário da filosofia. Os historiadores, os técnicos da história, são como que máquinas de transformação do tempo em passado.
- Foi assim, por exemplo, que em História da Filosofia Moderna, nunca passámos de Kant. Foi asssim que nunca foi dada a menor indicação sobre uma filosofia portuguesa actual ou mesmo potencial. Foi assim que me ensinaram vários resumos de doutrinas passadas ou alheias, mas nunca me ensinaram a pensar. O Francisco Sottomayor tem inteira razão. Se fora da Universidade eu não tivesse encontrado um verdadeiro mestre estaria ainda na situação daqueles alunos brilhantes que conquistaram boas notas e os favores da classe catedrática os quais, uma vez terminado o curso, nunca mais se ocuparam ou preocuparam da situação do homem no mundo, na relação entre Deus e a Natureza, ou de qualquer problema de ordem superior. Com uma única diferença; fui um aluno medíocre. Estudar pouco e mal foi a minha defesa contra um sistema negador do pensamento, da imaginação e da liberdade de conceber novas gerações, inadequada aos problemas e às preocupações do homem português.
- Acha o Sr. Dr. que os universitários se interessam autenticamente pelos problemas da cultura ou que apenas pretendem passar nos exames para concluir o mais depressa possível os seus longos cursos? O estudante universitário não terá tempo para se dedicar à cultura ou, pelo contrário, dedicar-se-lhe-ia inteiramente se o regime de estudos fosse outro?
- Creio que o universitário, como universitário, é praticamente indiferente à cultura. Creio que o universitário, como homem, está aberto aos problemas do espírito. O que se verifica é que há duas espécies de universitários: os que se identificaram totalmente com o universitarismo, desprezando outras fontes de cultura mais viva, criadora e nacional; e os que procuram fora da Universidade os esclarecimentos que a instituição, com a sua burocracia de funcionários, não tentou sequer dar-lhes. Aqueles preocupam-se apenas com os exames e os concursos e constituem o campo de recrutamento dos professores catedráticos e dos políticos; estes uma minoria, são os heróis: maltratados pelo sistema universitário, maltratados pela sociedade, radicada no sistema, muitas vezes ficam pelo caminho, muitas vezes desistem, e quando o não fazem obtêm as piores classificações. Mas é deles que saem os filósofos, os escritores, os artistas, os missionários de uma cultura autêntica e insofismada. Aqueles dominam o mundo, mas são estes que o fazem caminhar para o futuro.
- Estou-me lembrando de um artigo publicado no Diário Ilustrado por um empregado da Universidade, em que se defendia a doutrina contrária, como se Sampaio Bruno tivesse sido universitário, como se Leonardo Coimbra não tivesse desistido das provas de concurso à Faculdade de Letras de Lisboa, como se Fernando Pessoa não tivesse dito que quando se sai de uma faculdade, o primeiro trabalho é desaprender o que ali se aprendeu...
- Se o regime de estudos fosse modificado? Mas com certeza que o universitário seria diferente. Bastava que a Universidade se propusesse realizar fins espirituais e não, como até aqui, unicamente fins de técnica ou erudição.
- Eu sou estudante na Faculdade de Ciências. O Sr. Dr. é formado em filosofia pela Faculdade de Letras. Pode-me dizer a sua opinião sobre se os cursos de ciências deveriam ter cadeiras de filosofia e os cursos de filosofia deveriam ter cadeiras de ciências?
- Sem dúvida. Todo o homem é um pensador, porque todo o homem pensa, mas todo o homem deve ser um filósofo porque não se admite viver de olhos fechados. Deus deu aos homens um corpo, uma alma e um espírito e portanto deu-lhes as faculdades necessárias para procurar a beleza, o bem e a verdade. Existir em puro egoísmo do quotidiano repugna a todos os homens, mesmo que o façam por deficiência de educação. Se a filosofia, na concepção portuguesa de sinal aristotélico é o estudo da antropologia, da cosmologia e da teologia, é evidente que todo o universitário, ao mesmo tempo que aprende uma técnica e uma profissão, deve estudar o Homem, a Natureza e Deus, sem exclusão de qualquer destes três ramos, pois é na sua interligação mútua que a verdade se dá aos homens.
- O Sr. Dr. referiu-se aos problemas teológicos. Parecendo que não, são eles os que mais interesse despertam entre os estudantes universitários, por vezes descontentes com a apologética. Um exemplo disso, é o facto de ter sido muito discutida a sua posição, e a de alguns colaboradores do 57, quanto ao mistério da SS. Trindade e, particularmente, quanto ao paracletismo e uma preponderância actual do Espírito Santo da terceira pessoa da Trindade Divina.
- Refere-se, sem dúvida, à minha crítica ao recente trabalho de Agostinho da Silva sobre a filosofia da história portuguesa, à luz de uma missão do Espírito Santo. Sei que esse meu artigo teve várias interpretações, nem sempre certas, e a culpa foi porventura minha... e da dificuldade de um tão alto problema teológico. O que penso, como católico e como aprendiz de teólogo, é que é preciso interpretar a História à luz, não apenas de uma Antropologia cosmológica, mas sobretudo à luz de uma Antropologia cosmoteológica. Por outro lado, afigura-se-me que a religião e, no caso que mais interessa, a religião portuguesa, não procedeu à actualização da SS. Trindade, em todas as suas três pessoas. Esquece-se demasiado que o catolicismo é uma religião trinitária e cai-se demasiadas vezes na concepção em que Deus se revela como uma única pessoa: a de Cristo. Ora é preciso insistir, para o desenvolvimento do espírito humano e da humanidade, em que a SS. Trindade é, por outras palavras, a actualização de Deus, Deus em missão junto dos homens. Esta missão está perfeitamente esclarecida desde S. Paulo quanto à pessoa do Pai (o tempo da lei) e à pessoa do Filho (o tempo da fé). A lei moral e os Sacramentos consignam e promovem a ligação dos homens, ou a sua resposta, ao Pai e ao Filho. Já quanto à missão do Espírito Santo, o Consolador, o dispensador da sabedoria, o promotor da fraternidade universal, os homens de hoje parecem ser-lhe mais surdos ou mais cegos. Daqui a minha insistência.
- Sim, agora vejo. Também eu fui levado a ver no seu artigo uma directriz conducente à defesa de um culto de tipo protestante, com a respectiva submissão ao amor abstracto e correspondente concretização em acções sociais. Porque, já que se trata de filosofia portuguesa, há que referir o problema às acções católicas que foram os descobrimentos marítimos. Não é assim, Sr. Dr.?
- Os descobrimentos marítimos, a primeira grande missão da história portuguesa, estão ligados a Cristo porque foram realizados pela Ordem de Cristo, de que foram grão-mestres D. Dinis, o Infante D. Henrique e D. Manuel, mas também ao Espírito Santo como o sublinha particularmente Agostinho da Silva, interpretando alguns sinais irrefutáveis, como os Painéis de Nuno Gonçalves, que retratam, com a presença do Infante e dos navegadores uma cerimónia do culto do Espírito Santo, e a instauração do mesmo culto pelos nossos navegadores do século XV na Madeira e nos Açores, onde aliás ainda hoje se realizam as festas do Espírito Santo. Estas tradições parece terem-se perdido, e creio que a religião portuguesa muito ganhará em repensar a missão da terceira pessoa da SS. Trindade. Não podem esquecer, além disso, a profunda relação entre a Virgem e o Espírito Santo. O estudo desta relação em muito iluminará, estou convencido, a grande adesão do povo português a Nossa Senhora, protectora de Portugal.
- Agostinho da Silva refere-se à heresia de Joaquim de Flora...
- Não conheço as obras do franciscano Joaquim de Flora, mas creio que os seus adeptos quiseram promover a separação dos três cultos, o do Pai, o do Filho e o do Espírito Santo, quase os considerando três religiões separadas. Tal não é o meu pensamento. Como lhe disse, apenas me seria grato ver completado, em acção, o trinitarismo da religião católica portuguesa que no domínio do Espírito Santo se me afigura vaga, nebulosa, ineficaz e indiferente. Ora a iluminação do espírito humano pelo Espírito Divino, iluminação constante e vitalmente necessária, não me parece ser factor de somenos. A este respeito, é bem claro o Evangelho de S. João. Para que a cultura se harmonize com o culto e a filosofia com a religião, fim superior do espírito, é necessário que o trinitarismo divino, a relação dos homens com o Pai, o Filho e também o Espírito Santo, seja efectuada sem indiferença por qualquer destes reinos do infinito divino.
- Aliás, isto de insistir no Espírito Santo quando outros insistem no materialismo dialéctico, poderá representar uma tese de uma antítese ou uma antítese de uma tese, cuja síntese portuguesa, em teologia, se situará nos mistérios marianos.
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terça-feira, 10 de fevereiro de 2015
O galego ajudou o português de Lisboa a casar-se e a ser feliz
Fernando Assis Pacheco em entrevista a Xan Leira. Na Galiza, em 1995.
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Fernando Assis Pacheco
Dança
"São homens da dança todos os que a sentem, não como supérfulo, mas como uma exigência vital. (...)"
António Quadros
"A dança, primeira forma da para-existência artística"
57, ano I, n.° 3-4
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sábado, 7 de fevereiro de 2015
Um dia Paris aborreceu-se
"(...) Um dia Paris aborreceu-se e expulsou os reis, outro dia aborreceu-se e acolheu os imperadores. Às vezes Lisboa aborrece-se e entra na política – como homens que entram no banho são pisados pela maresia, são feridos pelas areias, esfriados pela neblina e vêm, contentes e transidos, enxugar-se ao sol!
Lisboa toma atitudes, clama, conjura nas esquinas, e bondosamente afastada pela policia, e vem, toda gloriosa e feliz pelas tiranias derrubadas, reler a cartilha! (...) Fica-te em paz, Lisboa! És Baixa e magnífica. Os que te quiserem abençoar terão. de se curvar um pouco para a lama: mas consola-te, se alguém te quiser amaldiçoar terá de se aproximar bastante de Deus!
Tu dorme, digere, ressona, soluça e cachimba. E se algumas lágrimas em ti caírem, vai-as enxugar depressa ao sol! Fica-te em paz! Os que têm alma não querem a luz dos teus olhos; podes consumi-la a contemplar o céu e os universos; por causa do teu olhar sempre erguido para lá, ninguém terá ciúmes do céu!
Os que têm coração não querem as carícias das tuas mãos: podes emagrecê-las a rezar a Jesus; por causa das tuas mãos sempre erguidas para ele, ninguém terá ciúmes de
Deus!
Tu tens a beleza, a força, a luz, a graça, a plástica, a água resplandecente. a linha magnífica. resigna-te. ó Lisboa querida. o clara cidade bem-amada. ó vasta graça silenciosa, resigna-te. o doce Lisboa, coroada de céu, resigna-te – a não ter alma! "
Eça de Queiroz
"Et nune semper" em Prosas Bárbaras
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Eça de Queiroz
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
O respeito pela verdade manda dizer
"O respeito pela verdade manda dizer que esta escola superior funcionou afastada da simpatia dos portugueses cultos e dos representantes das entidades oficiais, pois basta rememorar que até professores e estudantes das Faculdades mais antigas olhavam com desdém para a nova escola de humanidades. A extinção da Faculdade de Letras foi admitida com indiferença pela maioria da população da cidade. Não houve perseverança, nem persistência na atitude que competia às autoridades políticas e administrativas, às instituições culturais, à imprensa diária e até às associações de interesses económicos: renovar, tantas vezes quantas as possíveis ou necessárias, o respeitoso e fundamentado requerimento em que se solicitasse do Ministro da Educação Nacional o restabelecimento de uma escola indispensável ao aperfeiçoamento cultural das novas gerações portuenses. (...)"
Álvaro Ribeiro
«O Tripeiro», l de Novembro, 1945. Porto
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Alvaro Ribeiro
Só aparentemente
"Aparentemente, a Escola era frustre. A sua própria instalação suburbana, numa moradia de arquitectura banal, parecia dar-lhe um certo ar de envergonhada. As carteiras eram mesquinhas, as salas exíguas, as cátedras quase ridículas. Por isso nas outras Faculdades se dizia com ar displicente: — «B a Faculdade das Tretas» — «É a Capelinha de Leonardo». (...)"
Sant'Anna Dionísio
"A Quinta amarela", O Primeiro de Janeiro, 12-3-1958
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Leonardo Coimbra,
Sant'Anna Dionísio
Festas da terra
"Seria necessário, entretanto, acrescentar algo mais. Pois ainda não foi dito que a
felicidade deve ser inseparável do otimismo, custe o que custar. Ela está ligada ao amor —
o que não é a mesma coisa. Pois conheço certos momentos e lugares em que a felicidade
pode parecer-nos tão amarga que preferimos apenas sua promessa. Isso porque, nesses
momentos ou nesses lugares, eu não tinha coragem bastante para amar, isto é, para não
renunciar. O que é preciso mencionar aqui é o ingresso do homem nas festas da terra e da
beleza. Pois, nesse instante, tal como o neófito deixa cair seus derradeiros véus, o homem
abre mão, diante de seu deus, da insignificante moeda de sua personalidade. (...)"
Albert Camus
"O Deserto" em Núpcias, O Verão
Editora Nova Fronteira (1979)
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Albert Camus
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
A sofridão transborda-se
"Em Portugal a emigração não é, como em toda a parte, a transbordação de uma população que sobra; mas a fuga de uma população que sofre. (...)"
Eça de Queiroz
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Eça de Queiroz
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
O gato e o corão
"Recebi do Mário Rui, o islamita, uma preciosa oferta, o Corão em Árabe, com dourados, um livro muito belo que, infelizmente não posso ler.
Em casa, estive a folheá-lo com a minha mulher e pu-lo por fim sobre o tampo da camilha, à volta da qual estávamos sentados. O nosso gato saltou para cima da camilha, subiu para cima do livro, com as quatro patas nos seus quatro ângulos e estendeu-se deixando levantada a parte de trás como quem se espreguiça, desenhando exactamente a figura da prosternação, que é nos muçulmanos o terceiro momento da prece. E coisa ainda mais espantosa e assombro dos assombros, ficou nessa postura imóvel dutante quinze minutos. Estava voltado para Meca.
Contei ao Mário Rui, mas, sem dizer uma palavra, despediu-se de mim com um aceno de cabeça. O que ficou pensando?"
Congeminações de um Neopitagórico (2006-2009)
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António Telmo
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
Por conseguinte
"Admitindo, porém, que o corpo seja totalmente divisível,
suponhamo-lo dividido. O que poderá restar? Uma grandeza?
Tal não será possível, pois haveria algo que não teria sido
dividido, e admitimos que o corpo era totalmente divisível. No
entanto, se não restasse corpo nem grandeza e houvesse divisão,
ou o corpo seria constituído por pontos, sendo desprovidas
de grandeza as coisas de que fosse composto, ou nada
seria em absoluto, — pelo que, neste caso, o corpo de nada seria
proveniente e de nada seria composto, e o seu todo nada mais
seria do que aparência. (...) Por conseguinte, se se supuser que qualquer corpo, qualquer
que seja o seu tamanho, é totalmente divisível, serão estas
as consequências. (...)"
Aristóteles
Sobre a geração e a corrupção (2009)
Centro de Filosofia da UL | Imprensa Nacional-Casa da Moeda
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Aristóteles,
Platão
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