segunda-feira, 25 de maio de 2015

Pai e filho


Na miséria deste mundo

"Na miséria deste mundo - e no conforto deste mundo, em todas as situações deste mundo - o homem é sempre o homem, um ser mistério-interrogativo do seu destino, vocacionado para a morte e nunca totalmente distraído da incompletude e da frustração da sua personalidade satisfeita. (...)"

António Quadros

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Não se educa com teorias

“Não existe, nem creio que alguma vez exista, uma forma exacta de educar, pois que a sociedade está constantemente a evoluir e a sua própria evolução implica a negação pela juventude da validade dos princípios educativos imposta pelos antecessores. Não existem educadores perfeitos, e quando há pretensos educadores perfeitos, os seus produtos são casos patológicos (...)".

“Cada um eduque com verdade e espontaneamente e que os educadores sejam personagens reais e não autómatos eruditos e sofisticados (…) 

Se a educação pode ser encarada como um fenómeno cultural que orienta o diálogo com o educando e os outros educadores, a ação educativa deve sempre basear-se na relação espontânea, afetiva e instintiva pois que quem educa são as personagens verdadeiras e não as figuras ideais. Não se educa com teorias mas com princípios e preconceitos adquiridos na experiência e no convívio familiar e comunitário, não sendo a educação uma matéria que se ensine, mas fundamentalmente uma atitude que reflete o confronto entre as vivências do educando que fomos com o educador que pretendemos ser (...)”.

João dos Santos

Quando uma relação humana se estabelece

“Só se educa quando uma relação humana se estabelece, se desenvolve e se confirma na intimidade de cada uma da crianças e adultos em presença (...)".

João dos Santos

Psicanálise e Ciência da Educação

"O maior interesse da Psicanálise para a Ciência da Educação funda-se sobre um enunciado que se tornou evidente, o de que não pode ser educador senão aquele que pode sentir do interior a vida psíquica infantil e quando nós, adultos, não compreendemos as crianças é porque deixámos de compreender a nossa própria infância (...)"

João dos Santos

Sabedoria

"O importante é trazer no coração a vida que nos sopram aqueles que tinham a sabedoria (...)"

João dos Santos

Se as escolas

“Se as escolas fossem oficinas onde a criatividade tivesse um papel primordial mesmo na aprendizagem da leitura e contas, as crianças trariam consigo e dentro de si mais objectos de amor para se protegerem da vida. (...)” 

 João dos Santos

quarta-feira, 13 de maio de 2015

João Cabral de Melo Neto e Ruben A.

"Aquela nossa viagem de automóvel foi uma das melhores que fiz na vida e ainda tenho nos olhos tudo o que vi (...)"

João Cabral de Melo Neto sobre um passeio ao norte 
de Portugal na companhia de Ruben A.
28 de Abril de 1968


Egipto

"Com a publicação do romance póstumo Kaos, termina a carreira literária de Ruben A., a menos que o livro, várias vezes anunciado pelo autor mas nunca aparecido Egipto - Os mortos também comem, possa surgir um dia das profundezas de um qualquer recôndito. (...)"

Liberto Cruz e Madalena Carretero Cruz
Ruben A. Uma biografia, Editorial Estampa (2012), p.279

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Um nervosismo absurdo, sem cura, que me havia de prejudicar pela vida fora

"O efeito medíocre das minhas classificações nunca me preocupou muito... Um nervosismo absurdo, sem cura, que me havia de prejudicar pela vida fora, tanto em casos amorosos como em situações de relativa importância. Deformava a realidade e criava em seu lugar uma poderosa imaginação... deu-me uma certa humildade que conservei intacta pela vida fora. Realmente nunca passei a arrogante."

Ruben A.
O mundo à minha procura I (1964)

terça-feira, 5 de maio de 2015

Sobretudo o grito

"E o grito - sobretudo o grito - que se vai atenuando, mas que ainda ecoa, como último sinal de triunfo de quem acabou a violência e está farto de matar (...)"

Raul Brandão
Os Pescadores (1923)

terça-feira, 21 de abril de 2015

Ambiguidade congénita

"(...) A ambiguidade da metafísica não surge como defeito, inerente ou não, mas condição preliminar do pensamento que pretende descobrir o sentido da existência. O pensamento exige sempre um contrario para se afirmar. Nenhuma noção pode ser pensada exclusivamente por si, é sempre necessária outra e nesta dualidade reside a ambiguidade congénita de todo o pensamento, e em especial do pensamento metafísico. O nada é impensável, mas o pensamento pretende objectivá-lo como pensável. A existência é impensável, mas sem ela o pensamento não poderia manifestar-se. E deste modo, a metafísica é consciente e paradoxal ambiguidade." 

 Delfim Santos 
 "Da ambiguidade na metafísica" 
 Actas del Primer Congreso Nacional de Filosofia 
tomo 2, 840-846, separata (1949)

A metafísica é trânsito

"Mas em antecipação e em conclusão digamos que física não se opõe à metafísica, como é corrente a partir de Leibniz. O rio não se opõe à margem. As margens é que são entre si opostas. Isto é, não há metafísica sem física, nem física sem metafísica, como não pode haver ultrapassagem de um rio que não seja rio. (...) A metafísica é por si garantia da coexistência dos opostos sem os quais ela nada poderia ser. O que em Aristóteles se opõe ao físico é o lógico e não o metafísico. (...) A metafísica é trânsito em função de duas instâncias; é fácil desconhecer o real, é mais difícil desconhecer o ideal como ingrediente de pensamento. Não é só difícil mas impossível, e nisto reside a força aparente da prova idealista. O real exige como prova testemunhal de si próprio o pensamento, e daí a suposição da anterioridade e superioridade de valor do pensamento perante a existência. Mas metafísica, como vimos, não é só pensamento, mas esforço de correlação entre o pensamento e a existência. (...)"

Delfim Santos 
"Da ambiguidade na metafísica" 
Actas del Primer Congreso Nacional de Filosofia tomo 2, 840-846, separata
(1949)

O de onde e para onde da metafísica

"O termo metafísica tem dois núcleos de referência. Está relacionado com "física" e é actividade transponente, como indica o prefixo "meta". Mas a transponência é acto que implica dois sentidos. Meta é indicio de "direcção para", mas nada nos diz acerca do sentido da direcção. Metafísica é, pois, actividade de pensamento que ultrapassa a física. Mas ultrapassar a física não tem sentido unívoco, como não tem sentido unívoco ultrapassar um rio. Um rio tem duas margens e para que a expressão seja clara em seu sentido temos de saber "de que" margem e "para que" margem se passou para compreendermos plenamente o sentido da ultrapassagem. Assim com a metafisica, o termo não é unívoco porque não nos diz de "onde" ou "para onde" se dirige a ultrapassagem. (...)"

 Delfim Santos 
"Da ambiguidade na metafísica" 
Actas del Primer Congreso Nacional de Filosofia 
tomo 2, 840-846, separata
(1949)

O nada não nos diz nada sobre a metafísica

"O problema metafísico do Nada compreende, como problema, toda a metafísica, mas se esse e outros problemas compreendem toda a metafísica e por ele são problemas, nem por isso se nos diz o que seja a metafísica. (...)"

Delfim Santos
"Da ambiguidade na metafísica"
Actas del Primer Congreso Nacional de Filosofia
tomo 2, 840-846, separata
(1949)

domingo, 19 de abril de 2015

Ruben A.

Ruben A. em Ponte de Lima com Sophia de Mello Breyner
e Francisco Sousa Tavares

- Em que idade escreveu (e publicou) o primeiro livro?
- 28 anos. Páginas I. 1949. Fez cócegas na sonolência nacional. Quem as fez acordar do barbitúrico râncico foi o João Gaspar Simões e o António Quadros. É a verdade, a eles devo muito.

Ruben A.
Diário Popular, 10 de Julho de 1975

quarta-feira, 15 de abril de 2015

"A obra e o pensamento de Ariano Suassuna" | Colóquio


Realiza-se, no próximo dia 15 de Abril, pelas 14h30, no palácio da independência em Lisboa, o colóquio "A obra e o pensamento de Ariano Suassuna", dedicado ao autor d'O Auto da Compadecida.

PROGRAMA

14h30 | Sessão de Abertura
José Esteves Pereira

15h00 | Comunicações
António Braz Teixeira | Teatro
António Cândido Franco | Poesia
Constança Marcondes César | Romance

16h00 | Comunicações
Manuel Cândido Pimentel | Teoria Estética
José Almeida | Movimento Armorial
Manuel Gandra | Ariano Suassuna e o Sebastianismo

17h00 | Comunicações
Paulo Dias Oliveira | Ariano Suassuna e o Integralismo
Pedro Sinde | A Compadecida de Suassuna - Da teologia à expressão popular
Renato Epifânio | Ariano Suassuna e Agostinho da Silva

18h00 | Apresentação de obras
- "Olhares luso-brasileiros", de Constança Marcondes César
- "A Obra e o Pensamento de Eudoro de Sousa", obra colectiva

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Dalila Pereira da Costa


Excertos do documentário "Nome de Guerra, a Viagem de Junqueiro", produzido pela Escola de Belas Artes da Universidade Católica do Porto.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

A religião e a arte

"Considerando, porém, a religião e a arte, ambas se me afiguram, ainda que de um modo distinto é certo, intimamente voltadas para o homem e o universo, para a condição humana e a natureza Divina. E nisto não residirá a memória e a saudade do Paraíso perdido, de que nos fala a Bíblia, tesouro inesgotável da nossa cultura europeia? (...)"

Manoel de Oliveira
Centro Cultural de Belém, Lisboa, 12.5.2010 

Manoel de Oliveira 1908-2015


'Non' ou A Vã Glória de Mandar (1990)

Manoel de Oliveira 1908-2015

"Quando comecei a fazer cinema não conhecia ninguém das tertúlias literárias. [Mais tarde] o Casais Monteiro, o Leonardo Coimbra, o José Marinho, o Álvaro Ribeiro, o Delfim Santos e outros (...) foram eles que me foram dando indicações sobre livros importantes.”

Manoel de Oliveira
«Expresso» 16 de Outubro de 1993

segunda-feira, 30 de março de 2015

Religiosa heterodoxia


"Religiosos têm sido os maiores poetas portugueses." António Quadros defendeu esta ideia em 1979, num texto de evocação de José Régio, a quem atribuía o pódio do génio poético português no século XX, a par de Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa. É impossível saber se, porventura vivo, o filósofo estenderia hoje a graça a Herberto Helder (que tanto o admirava). Contudo, também deste poeta se poderá dizer que foi heterodoxo, certamente torturado, por vezes dubitativo. Todos, cada um a seu modo, “não realizaram obra confessional, eclesial, ritualista, antes partiram de uma longa ou de curtas mas perturbantes experiências místicas, ou metagnósicas, de que regressaram perturbados, mas ao mesmo tempo iluminados, deslumbrados, sublimados”.
Herberto Helder fê-lo sem fidelidade a Deus (“destruído pelo extremo exercício da beleza”), mas com um visionarismo largo e profundo da vida, nascido da tentativa de toque poético nas coisas mesmas, directas e quotidianas (“vem aí o sagrado, e tornam-se radiosas as coisas mínimas”). Numa simultânea carnificação e coisificação da palavra, o poeta pesquisou gestos primitivos (como levar a colher à boca), uma iluminação primordial, a “alquimia do verbo” possuindo “todas as paisagens do mundo”, tal como Rimbaud a sonhou. (...)

Filipa Melo
Jornal Sol | 29-03-2015

sexta-feira, 27 de março de 2015

O encontro de Sampaio Bruno com António Nobre


"Na escura rua de Trévise me procurou, abandonando por horas a sua preferida margem esquerda, de que lhe era tão penoso afastar-se, António Nobre, uma tarde em que eu sofria cruelmente. Esta visita sensibilizou-me; como me encantou a conversação do poeta, pelo tom subtil da melindrosa reserva na consolação, a um tempo caridosa e primorosa, d’um’alma em carne viva, como a minha por então andava. (...)"

Sampaio Bruno
do prefácio a Despedidas (livro póstumo) 
de António Nobre 

Fernando Gil e José Marinho

(...)

DN: Como é que surge a filosofia para si? O seu percurso é algo atípico; fez uma breve incursão na Sociologia, licenciou-se em Direito, e em 61 decidiu-se pelo estudo da Filosofia em Paris.

Fernando Gil: Nessa altura, em 61, já tinha escrito um livrinho de filosofia. 

DN: Não foi uma espécie de ousadia escrever um livrinho de filosofia sem antes a ter estudado?

Fernando Gil: Foi com certeza o exemplo de um mestre, José Marinho, que eu frequentava em cafés da Avenida de Roma, que podia animar um jovem, que tinha tido alguma revelação da filosofia através do prefácio da «Fenomenologia da Percepção» de Merleau-Ponty, a avançar sozinho. O José Marinho era, justamente, um filósofo insensato, e animava tudo o que pudesse parecer um caminho pessoal. Não fui só eu; várias pessoas à volta dele beneficiaram desse apoio. Talvez tenha sido ainda mais insensato porque escrevi o livro sabendo muito pouco de filosofia.

DNa | Diário de Notícias | 2000

segunda-feira, 23 de março de 2015

Confluências n.º5

Confluências, n.º 5, colecção Cadernos de Filosofia Extravagante
 Janeiro de 2015

A jovem não escondeu o seu desapontamento

"Formávamos uma pequena multidão. Pelo menos, deve ter sido assim que para nós olhou a rapariga que, naquele momento, se acercou do grupo. Forasteira, teria cerca de 20 anos e vinha ao fresco, vaporosa, balnear, esperançada na réstia de um Verão a destempo face à iminência da hora em mudança. 
Quis saber o que ali se iria passar. Dissemos-lhe que já se tinha passado. (...) Alguém lhe terá então falado da homenagem prestada a Agostinho, do lançamento do livro com as suas cartas para António Telmo. E a palavra filosofia, naturalmente, veio à baila. A jovem não escondeu o seu desapontamento perante o quadro: – Filosofia??!! quase protestou, envolvendo o desdém da pergunta num esgar de desconsolo. Esperaria talvez poder assistir à projecção de um filme, suplemento prazenteiro à inopinada vilegiatura, e deparara-se afinal com um bando plúmbeo de monos dissecadores de alfarrábios. Em suma: uma seca! 
Não obstante, reteve o nome de Agostinho: – Agostinho da Silva? Mas ele ainda é vivo? – indagou. Paciente, proficientemente, esclarecemo-la, explicando-lhe que a apresentação das Cartas de Agostinho da Silva para António Telmo constituíra, justamente, uma comemoração, entre outras, em que Sesimbra foi aliás pródiga no ano passado, dos vinte anos da sua partida. Para o nosso desespero ser completo, veio ainda uma terceira questão: – E a filosofia dele era estilo quê? Tipo Platão? 
Mais disse a suave rapariga outonal ser aluna do IADE, em Lisboa. Muito gostaria de lhe ter feito a pergunta que então me não ocorreu: se acaso sabia quem tinha fundado a escola que frequentava? Imagine o leitor que se trata de um filósofo, para mais um filósofo português, de seu nome António Quadros. Este amigo de António Telmo e Agostinho da Silva, regressado à pátria após uma estada no Brasil, onde fora realizar conferências, foi o núncio do convite que o segundo, com Eudoro de Sousa, dirigira ao primeiro para se lhes juntar, em Brasília, como professor da Universidade onde os dois então pontificavam. Corria pelo meado a década de sessenta. E o resto é sabido. (...)
Por muito que custe à excelente moça balnear, parece haver sempre uma opção filosófica depositada nos gestos, mesmo os mais pequenos, só na aparência insignificantes, com que urdimos as teias das nossas vidas. Quando Agostinho da Silva virava costas ao mergulho nas ondas do mar a seus pés, e com estes de abalada se afoitava a calcorrear os morros que circundam a cova funda, para visitar o amigo Rafael Monteiro na sua casa castelã, estava por certo a fazer uma escolha, tão escorada no sentimento como no pensamento. E quando António Quadros congeminou o desígnio, entre nós pioneiro, de criar uma escola de arte e decoração que viria a concretizar em 1969, facultando aos estudantes portugueses um curso de Design de Interiores e Equipamento Geral concebido sob padrões internacionais de vanguarda, bem sabia que as imagens não raro decidem das ideias por que guiamos os nossos passos. (...)"

Pedro Martins, aqui.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Do ontem hoje

"Pretendo aludir nestas linhas a dois vícios que inferiorizam grande parte da nossa literatura contemporânea, roubando-lhe esse carácter de invenção, criação e descoberta que faz grande a arte moderna. São eles: a falta de originalidade e a falta de sinceridade. (...)"

José Régio
Presença, n.º1, 10 de Março de 1927

quinta-feira, 12 de março de 2015