quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Quadrilhas de burlões


"Nada me satisfaz mais na vida do que presenciar cenas em que o espírito de intrujice se manifesta com toda a sua regularidade. Aldrabões de feira com cobras ao pescoço, estadistas do império, ciganos de passamanarias, cantoras de café-concerto, prestidigitadores de cartola, coelhos e pombas, escamoteadores de carteiras sorrindo para os incautos, ditadores de países latinos, vendedores ambulantes de literatura crítica, tradutores de línguas vivas, chaffeurs de táxi italianos, gregos e árabes, mulheres sérias, curandeiros, bruxos, automóveis em segunda mão, emissoras nacionais, quadrilhas de burlões de nomeada internacional, animando jornais com os seus frutos regulares e destros em Paris, Madrid, Roma e Londres, maridos de herdeiras ainda fazendo cerimónia, trapaceiro sinónimo de trampolineiro, conferências de desarmamento, visitas de pêsames, contos do vigário, comunicados para esclarecer a opinião pública, bilhetes viciados de lotaria vendidos a parvónios no Terreiro do Paço, charlatão com rezas a preceito actuando de porta em porta e conquistando as beatas da freguesia, religiosos circunspectos, encontros meramente casuais, gato por lebre, sírio por sério. (...)"

Ruben A. 
Um adeus aos deuses, Livraria Portugal (1963) p.47

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Katherine Mansfield


"Katherine Mansfield (...) é (...) um caso em que há completa identidade entre a mulher e a artista. (...) Tudo o que encontramos na sua personalidade de mulher, encontramo-lo na sua personalidade de contista. (...) Numa carta ao seu marido John Middleton Murry, diz: «Foi esta a vida cerebral, esta vida intelectual à custa de tudo, que nos trouxe a este estado de coisas. Como poderá ela salvar-nos? Não vejo nenhuma possibilidade de salvação, se não aprendemos a viver também com as nossas emoções e os nossos instintos, mantendo-os todos em equilibro. (...) É apenas sendo fiel à vida, que posso ser fiel à arte. E fidelidade à vida significa bondade, sinceridade, simplicidade, probidade.», declara Katherine Mansfield no seu Diário. (...) Como mulher, dava a impressão de flutuar num mundo estranho, um pouco longe da vida e, no entanto, profundamente agarrada à terra. (..) Katherine Mansfield é a contista mais completa e a mulher mais apaixonada pela vida, que existiu. (...)."
António Quadros
"Uma pausa: Katherine Mansfield", Modernos de Ontem e de Hoje 
 Portugália Editora (1947), pp. 71-79

Dilema

"O romancista tem de enfrentar um gravíssimo dilema. Ou escreve romance, ou faz obra de arte. Escrever um romance e ao mesmo tempo uma obra de arte, eis o que é muito difícil de realizar. (...)"

António Quadros
"Os dois romances de Érico Veríssimo", Modernos de Ontem e de Hoje 
 Portugália Editora (1947), p. 209

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Erskine Caldwell


"A violência realista e dramática de Erskine Caldwell não é, pois, um grito de ódio contra uma classe. É, de preferência, um grito de ódio contra a humanidade em geral. Caldwell é um desiludido. Sabe que as circinstâncias podem modificar inteiramente os indivíduos. Sabe - e prova-o a todo o momento - que o homem pode ser um cão ou um deus, conforme as circunstâncias que o rodearem. Todavia, A Casa no Planalto demonstra que ele sabe também que as circunstâncias não são tudo. (...) O mesmo meio decadente produziu um degenerado Brady e um humanissímo Ben Baxter. E Erskine Caldwell revolta-se, e todos os seus livros são revoltas. Revoltas contra uma organização social que permite o emprego de negros à laia de animais de carga. Revoltas contra a condição humana que, mesmo quando não é escrava das circunstâncias, é-o para si própria. (...)"

António Quadros 
 "A tragédia de Erskine Caldwell", Modernos de Ontem e de Hoje 
 Portugália Editora (1947), pp. 204-205

Arthur Koestler


"Koestler nasceu na Hungria, filho de pai húngaro e mãe austríaca, mas a sua verdadeira pátria é a humanidade, pois não há nos seus livros nenhuma tradição nacional. Muito novo, foi para a palestina, onde, aos vinte anos, era correspondente de uma agência alemã. Estudou em Viena, entre outros ofícios, foi assistente de um arquitecto, e em Haifa, no Próximo Oriente, vendeu limões na rua. Depois instalou-se em Paris como jornalista e aí aderiu, em 1930, ao partido comunista. Como intelectual predominante da extrema esquerda, foi convidado pelos sovietes para visitar a U.R.S.S., estando muito tempo no Turquestão, na Ucrânia, mas principalmente em Kharkov e em Moscovo. Voltou desiludido e escreveu várias reportagens, como por exemplo, O Mito e a Realidade soviética e O fim de uma ilusão, em que ataca o regime da U.R.S.S. (...) Devido ao êxito das suas reportagens e da sua manera desassombrada de ver as coisas, foi enviado a Espanha durante a guerra civil, em 1936, pelo News Chronicle. Aí foi preso e condenado à morte como comunista perigoso, mas, devido aos esforços da Inglaterra, conseguiu ser trocado por uma alta personalidade e foi libertado. (...) Foi solto, preso de novo, e, nos fins de 1940, conseguiu chegar a Inglaterra através, como quase todos, de Lisboa. (...)"

António Quadros 
"Arthur Koestler, um produto desta guerra", Modernos de Ontem e de Hoje 
Portugália Editora (1947), pp.235-237

José Lins do Rego



"Nos romances de Lins do Rego, nada é feito em função das personagens, como no caso de Érico Verissimo, nem em função do tema, caso de Jorge Amado. Tudo é feito em função do seu lirismo temperamental, tendo como principal objectivo, a valorização desse lirismo. Lins do Rego afasta-se, assim, dos dois polos, à roda dos quais mais tem girado a literatura moderna: romance de análise e romance de tese. Não se trata de um lirismo do tipo Saroyan, a que poderemos chamar de lirismo simbólico, nem tão pouco de um lirismo do tipo Katherine Mansfield, lirismo proveniente da análise individual, ou de um lirismo do tipo Alain Fournier, lirismo de ambientes e de uma concepção isolada da realidade. Se quisermos empregar sínteses, diremos de preferência que o lirismo de Lins do Rego é dramático. Pessimista e triste. Melancólico, numa palavra. A melancolia das pequenas povoações perdidas no interior do Brasil - Pureza, Pedra Bonita, o Assú - daquela vida parada, sem horizontes, sempre a mesma. Aqueles homens sós, aqueles dramas sem projecção, isolados, paisagens grandiosas e esquecidas, esquecimento, o tempo que corre e nada acontece, nada, sempre a mesma vida, constituem matéria de Lins do Rego. Homens do interior e a paisagem, e o ambiente a pesar sobre eles, e um pequeno-grande acontecimento que vem agitar aquela tranquilidade, eis a essência dos seus romances. (...)

António Quadros
"O lirismo de José Lins do Rego", Modernos de Ontem e de Hoje
Portugália Editora (1947), p.132

Primeiro passo


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

"António Quadros um jovem crítico português"


"Talvez não estejamos desligados de Portugal, dos escritores portugueses contemporâneos, tanto quanto se diz. Há sempre os leitores de António Sérgio, João Gaspar Simões, Casais Monteiro, José Osório de Oliveira, Manuel Anselmo, sem falar dos poetas, é de um crítico jovem que quero tratar, de António Quadros, que reuniu em "Modernos de ontem e de hoje", os seus ensaios literários dos vinte anos, um voluminho simpático (Portugália Editora, Lisboa) que nos traz um mundo de escritores, de artistas que lhe serão caros e que encontram eco na nossa sensibilidade.  António Quadros diz as coisas que ele pensa com um jeito (fino, essa delicadeza incomum em alguns críticos, e os seus ensaios acabam sendo uma ronda amorosa em torno de escritores e ideias. Ronda de que ele não exclui os brasileiros, um José Lins do Rego, um Ribeiro Couto, um Enrico Verissimo. (...) António Quadros mostra, à medida que vamos entrando na sua intimidade, no seu convívio com os livros, uma inteligência muito sensível que pouco tem de adolescente, de vinte anos, que mais parece revelar um velho habitus literário. (...) Não sei de nada sobre ele a não ser este livro, não conheço referência a ele em outros escritores, mas acho que sei alguma coisa, acho que sei um pouco desta sensibilidade devotada ao belo, ao humano, que se oferece à gente neste volume de trezentas páginas. Os seus ensaios provam uma vivência literária e um estado intelectual e lírico que a gente encontra com menos assombro num Roberto Alvim Corrêa, num Augusto Meyer, para falar nos nossos, do que neste companheiro de vinte anos. (...)"

Carlos David
"Um jovem crítico português", Letras e Artes (Suplemento de "A Manhã") 
16-03-1952

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Mais do que uma vantagem


"A crença em Deus cumpre que seja mais do que uma vantagem. A ideia de Deus cumpre que se torne uma verdade. Acessível, pois, humanamente inobjectável. (...) "

António Quadros 
Uma Frescura de Asas, Europress (1990) p. 48