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sexta-feira, 26 de junho de 2015

Ana Hatherly e a Filosofia Portuguesa

"Quem me introduziu no círculo da Filosofia Portuguesa foi o António Quadros (...) e se bem que eu viesse a ser pouco mais do que ocasional participante nas reuniões do grupo, que então se realizavam no café Colonial da Avenida Almirante Reis, o meu contacto com os dois Mestres que a elas presidiam chegam a ser bastante significativo para mim nessa época, sobretudo com José Marinho, com quem tinha muito mais afinidades e que encontrava frequentemente em casa de amigos comuns. (...)"
Ana Hatherly
"Recordações de José Marinho e do grupo da Filosofia Portuguesa nos anos 60" 
em José Marinho, 1904-1975: todo o pensar liberta (2004)

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Manoel de Oliveira 1908-2015

"Quando comecei a fazer cinema não conhecia ninguém das tertúlias literárias. [Mais tarde] o Casais Monteiro, o Leonardo Coimbra, o José Marinho, o Álvaro Ribeiro, o Delfim Santos e outros (...) foram eles que me foram dando indicações sobre livros importantes.”

Manoel de Oliveira
«Expresso» 16 de Outubro de 1993

terça-feira, 10 de março de 2015

Conferências, livros, bibliografias...

"A arte de filosofar não consiste em escrever livros, em proferir conferências, em minutar lições que, ostensivamente, efectuem transmissão de ensino público. Todas as manifestações da filosofia que os bibliógrafos registam os biógrafos explicam, combinando a bibliografia com a biografia, resultam de uma actividade inaudível e invisível a que se dá o nome secreto de pensamento (...)"

Álvaro Ribeiro
A Arte de Filosofar
Portugália Editora, 1955

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Problemático é


“A unidade teorética do sistema de cultura pode ser encontrada na relação do pensamento humano com a realidade absoluta; problemático é apenas o fundamento da opção por um determinado modo de vida espiritual. (...)"

Álvaro Ribeiro
O Problema da Filosofia Portuguesa, Lisboa, (1943) 
Editorial “Inquérito”, p.38

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

O respeito pela verdade manda dizer

"O respeito pela verdade manda dizer que esta escola superior funcionou afastada da simpatia dos portugueses cultos e dos representantes das entidades oficiais, pois basta rememorar que até professores e estudantes das Faculdades mais antigas olhavam com desdém para a nova escola de humanidades. A extinção da Faculdade de Letras foi admitida com indiferença pela maioria da população da cidade. Não houve perseverança, nem persistência na atitude que competia às autoridades políticas e administrativas, às instituições culturais, à imprensa diária e até às associações de interesses económicos: renovar, tantas vezes quantas as possíveis ou necessárias, o respeitoso e fundamentado requerimento em que se solicitasse do Ministro da Educação Nacional o restabelecimento de uma escola indispensável ao aperfeiçoamento cultural das novas gerações portuenses. (...)" 

 Álvaro Ribeiro
«O Tripeiro», l de Novembro, 1945. Porto

domingo, 18 de janeiro de 2015

Aos burgueses civilizados

"O homem medíocre caracteriza-se pelo medo constante do imprevisível e daí, no ilustrado analfabeto que é o burguês civilizado, a inabalável confiança na Ciência, que admira e à qual está intimamente agradecido porque lhe permite ter automóvel, televisão e frigorífico, mas sobretudo porque funciona para ele como a grande redutora do mistério que o perturba e inquieta. Nada há, para ele, que a Ciência não possa e saiba explicar. Deus será uma vaga ideia remota de que falam livros que nos vêm da época da ignorância humana e as religiões, tão antigas como a treva em que vivemos, como as lendas e a crendice popular. Pelo sim pelo não, alguns vão à missa, porque na Igreja está um Deus socializado, em relação ao qual a religião estabeleceu formas inócuas de convivência, que porventura lhes garantam a comodidade e o bem-estar na outra vida, se for caso dessa vida existir.
A Ciência é assim com inicial maiúscula o órgão de conhecimento da burguesia. Mas, se Deus puder vir a ser contado, pesado e medido, só então se torna indubitável para ela a sua existência. De vez em quando, porém, nasce um extravagante genial, que traz a inquietação que se julgara ter expurgado de uma vez para sempre, e que de novo acorda os outros homens para o sentido do mistério. Um Fernando Pessoa ou um Álvaro Ribeiro não se podem ignorar como ninguém pode ignorar Shakespeare, porque souberam escrever as palavras que fazem ver. Como neutralizá-los? Há dois processos: um é o de lhes calar o nome, como se eles não tivessem existido, mas como, mais tarde ou mais cedo, isso se torna impossível de manter, recorrem ao outro processo que é o de tomá-los como objectos da Ciência, estudando-os como se de plantas ou de animais se tratassem ou, quando muito, de fenómenos psicológicos ou parapsicológicos."

 António Telmo 
(inédito aqui)

domingo, 4 de janeiro de 2015

Para um e para o outro


"O filósofo escolhe as palavras pela sua tenacidade e, como prosador que é, com palavras vai futurando para o homem um mundo de libertação; o poeta escolhe as palavras pela sua beleza (...). Mas acima das palavras está, para um e para o outro, o domínio do pensamento.(...)

Álvaro Ribeiro
Escritores Doutrinados (1965) pp. 14-15

terça-feira, 1 de abril de 2014

O que me vale, acredite, é o vício de escrever para longe...

"Nesta Lisboa dos cafés vão-se desmoronando as tertúlias, em consequência das invejas e das intrigas. Há duas semanas que não vejo o António Quadros. As conversas habituais causam desânimo. O que me vale, acredite, é o vício de escrever para longe... (...)"

Álvaro Ribeiro
em carta para António Telmo | 30 de Outubro de 1958

segunda-feira, 17 de março de 2014

Correspondência entre António Telmo e António Quadros

"Entre 1986 e 1987, António Quadros publica os dois volumes de Portugal Razão e Mistério, obra que motiva o maior número de cartas trocadas entre os dois pensadores. Depois do primeiro livro, no dia 31 de Maio de 1986, António Telmo, coloca António Quadros ao lado de Álvaro Ribeiro e José Marinho, como um dos mais importantes pensadores portugueses do século XX. Apesar disto, revela a frustração pelo pouco eco que a filosofia portuguesa tem em Portugal, mesmo aquela que é protagonizada pelos seus melhores intérpretes. Conta ainda que, José Marinho, pouco antes de morrer dissera que Se tiver de voltar de novo à vida, peço a Deus para não nascer português. É um povo de vesânicos. Houvesse o Álvaro Ribeiro nascido na França, na Alemanha, na Inglaterra e seria hoje admirado como o maior filósofo da actualidade. (...)"

Correspondência entre António Telmo e António Quadros
o neto, no 21º aniversiário da morte de António Quadros

quarta-feira, 5 de março de 2014

Era ainda o sentimento da nossa própria importância

António Telmo

"O grupo de filosofia portuguesa reunia-se nesse tempo na Brasileira do Rossio, hoje, como a maioria dos cafés, transformada em banco. Vale a pena descrevê-la, uma vez que muitos leitores já não puderam conhecê-la. É hoje em mim uma impressão de duas colunas de mármore castanho e brilhante da Arrábida numa casa comprida, escura e cheia do fumo dos cigarros. De um e de outro lado, espelhos paralelos multiplicavam as suas imagens até ao infinito. Supúnhamos ser uma antiga loja maçónica e os mais novos, na sua fantasia de adolescentes, viam no facto de ali ser o lugar de reunião da filosofia portuguesa uma escolha intencional dos mais velhos. 
Constava que Álvaro Ribeiro era maçon. Para nós, a Maçonaria que, mais tarde, viria a patentear-se-nos como uma organização política de práticas e fins medíocres, era um lugar misterioso do espírito, que continha, envolvida de grande segredo, o ensinamento primeiro e último. Esta falsa noção actuava como um catalisador. Não seria, pois, possível atingir o verdadeiro conhecimento através dos livros e da reflexão própria. Eu não aprendera ainda a separar o homem social do homem real, sobretudo ou muito menos naqueles com quem privava diariamente. Conhecemos uma pessoa por um nome que nada nos diz na medida em que serve apenas para a determinar na multidão indefinida das outras pessoas; ligamo-la a uma família, a uma profissão, a um meio social; atribuímos-lhe mais ou menos valor; relacionamo-la principalmente connosco, com os nossos interesses, prezando-a ou desprezando-a conforme actua em relação ao sentimento que vivemos da nossa própria importância. 
Era ainda o sentimento da nossa própria importância que funcionava na criação de um falso mistério à volta da pessoa de Álvaro Ribeiro. A possibilidade de virmos a ser iniciados na Maçonaria através dele tornara-o prestigioso e prodigioso a nossos olhos. Púnhamos assim véus sobre véus a esconder o verdadeiro mistério que é o do ser singular, tal como é em si, na relação vivente com a insondável origem donde todos os seres provêm e perdíamos assim a possibilidade de nos conhecermos, perscrutando-nos, na mesma insondável relação. Todavia, eu gostava de subir o Chiado lentamente, porque era um espanto a singularidade de cada rosto, olhado numa espécie instintiva de dupla atenção. Todos aqueles rostos, um a um, sobretudo os olhos, emergiam repentinamente do desconhecido que me habitava. (...)"

António Telmo
Na casa de meu pai, éramos três irmãos (inédito)
 Texto completo aqui.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Carta de Álvaro Ribeiro a António Telmo, 30 de Outubro de 1958

(...) Nesta Lisboa dos cafés vão-se desmoronando as tertúlias, em consequência das invejas e das intrigas. Há duas semanas que não vejo o António Quadros. As conversas habituais causam desânimo. O que me vale, acredite, é o vício de escrever para longe…


Leia aqui.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Meu Caro António Quadros

António Quadros, António Telmo e Maria Antónia
"Estremoz
31 de Maio de 1986

Meu caro António Quadros

(...)

Eu vejo no seu livro [Portugal, Razão e Mistério], não obstante o seu autor parecer ou julgar dizer o contrário, uma dimensão interior, quiçá inconsciente, convergindo com a posição dos nossos mestres [José Marinho e Álvaro Ribeiro]. A imagem da Pátria é a de um povo nómada, navegante do tempo por sete graus sucessivos; se a ideia não fosse prejudicada pela imagem genealógica da árvore cujas raízes afundam na terra megalítica, o mesmo paradigma numeral explicaria talvez nos sete climas dos barcos que construímos cortando a árvore. Mas a minha alegria é a de ver que o grupo da filosofia portuguesa se revela bem vivo, no pensamento, através de livros de excepcional valor, como os do Orlando [Vitorino], os do Pinharanda [Gomes], os seus. Disse-me um dia o António Quadros, na minha casa em Estremoz, que não lhe parecia que nenhum de nós fosse capaz de realizar uma obra verdadeiramente filosófica como a do Álvaro Ribeiro ou do José Marinho. Vamo-nos superando e este seu livro é já um grau acima dos outros. O que nos dirão o segundo e terceiro volumes?
Só depois, pelo menos do segundo, uma vez de posse de todos os elementos do seu pensamento, lhe escreverei a carta prometida. Esta é mais o testemunho da minha amizade e da minha solidariedade espiritual consigo. Interessa-me particularmente a relação que estabelece entre a Igreja de Pedro e a Igreja de João, mas, antes da publicação do segundo volume, é prematuro reflectir consigo sobre essa relação, pôr interrogações, levantar obstáculos, traçar vias.
(...) Faço votos que obtenha a mais vasta e, sobretudo, profunda influência.
Aproveito a ocasião para lhe agradecer os dois volumes de «Fernando Pessoa». Aqui também todos temos de reconhecer que o António Quadros é o único que tem sabido pôr as coisas no lugar sobre o grande poeta e quem quiser estudá-lo e compreendê-lo terá de passar através do que V. tem vindo a escrever.
Creia que sou inteiramente sincero. Se não o fosse, não teria junto atrás um apontamento de objecção que desenvolverei na carta prometida.

Um grande abraço (...)

António Telmo"

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Correio da Manhã, 4 de Dezembro de 1986.

Orlando Vitorino
Correio da Manhã - Perante tantos e tão grandes ataques, onde poderemos encontrar o Pensamento português?
Orlando Vitorino - Ao lado de toda esta acção política efectiva, comandada por um pensamento político estrangeiro, tem continuado a desenvolver-se o Pensamento português. O que existe do patriótico em Portugal está concentrado, ou melhor, está refugiado desde há dois ou três séculos no Pensamento filosófico.
(...)
CM - E a Filosofia portuguesa tem força para sobreviver e ajudar Portugal a resistir?
OV - Com certeza. Temos o exemplo do Leonardo Coimbra, a figura central da Filosofia portuguesa, que viveu nas condições mais hostis, mais desfavoráveis, e conseguiu ser o maior filósofo contemporâneo, não só de Portugal como de toda a Europa. Leonardo Coimbra resistiu às maiores intrigas políticas, urdidas quer através dos partidos da época quer através do Parlamento. 
A força de uma Filosofia reside na verdade do pensamento por ela transmitido e, depois de Leonardo Coimbra, essa verdade de pensamento foi pacientemente sistematizada por um homem chamado Álvaro Ribeiro, tarefa a que entregou toda a sua vida, com ausência total de ambições e com sacrifício do seu bem-estar.

Excerto de uma entrevista a Orlando Vitorino. 
Texto de  Victor Medanha. Correio da Manhã, 4 de Dezembro de 1986.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Carta de António Quadros a António Telmo

"Vale de Óbidos, 27-02-1990

Meu caro António Telmo,

Escrevo-lhe de Vale de Óbidos (perto de Rio Maior), onde arranjámos uma casinha de campo, com um pomar, e onde esperamos tê-lo um dia, não muito distante, para conversarmos com calma à sombra de um grande limoeiro fronteiro à porta que da sala dá para o terreno arborizado em que ando a plantar um simulacro de jardim.
Tem a calma e o silêncio que pede este Outono da nossa vida. É uma paixão de Outono, para nós dois…
Recebi a sua carta e o seu livro. A sua carta melancólica, recordando os nossos amigos desaparecidos… O mundo faz-se e desfaz-se todos os dias e, para nós, mais se desfaz do que se faz. Ao contrário do Álvaro [Ribeiro], creio que a saudade é um sentimento positivo: por ela, eles não desapareceram por completo do nosso convívio; por ela, eles continuam a estimular-nos e a exigir de nós o possível e o impossível.
Que seria de nós, sem essa presença invisível dos mestres, aguilhões do nosso espírito, alimentando a nossa perpétua insatisfação? Por mim, continuo a conversar com eles, e se eles me dizem que fiz pouco, que quase nada fiz, então sou obrigado a continuar…Também os amigos da nossa idade, o Rui, o Francisco, o Morgado, o A. Coelho mantêm ou ajudam a manter o espírito do “57”. Eles acreditaram, trabalharam, não lhes podemos falhar, enquanto formos vivos.
(...)
Sei que você andou muito por baixo, e creia que pensei muito em si. Afinal de contas, mesmo pesando todas as diferenças, não seremos os dois, os mais afins de entre os discípulos de A. e M., da primeira geração? De certo, eu sou mais “ortodoxo” (talvez por falta de ousadia intelectual interior), decerto, você foi sempre mais fundo do que eu, em todas as vias por que enveredou. Você tem a capacidade de ir ao âmago dos problemas e de estabelecer sínteses fulgurantes, em palavras concisas. (...) Eu permaneço nos arredores, fascinado do lado de fora, sem contudo atravessar o umbral da porta. (...)
Apesar destas diferenças, em ambos há o interesse pela poesia, pela simbólica artística, pelo oculto e pela filosofia em todas as suas formas (mas sobretudo por uma filosofia de Espírito), sendo também de notar que, ao contrário da maioria dos nossos companheiros, reconhecemos os nossos mestres, Leonardo e Bruno, Pascoaes e Pessoa, Álvaro e Marinho, integrando-os, com as suas antinomias, na nossa vivencialidade gnóstica.
Devo dizer-lhe também que o seu livro me deslumbrou. Decerto, já conhecia muitos dos capítulos. Agora reunidos, contudo, surgem em coerência, como um todo poderoso e unívoco, como uma viagem do seu espírito para um Monte Abiegno que você já atingiu, com o preço do seu isolamento, aí em Estremoz, e de renúncia às ambições, às glórias e aos interesses efémeros deste mundo.
Quando você escreve em Gnose:

Não sei como tentar, e se sei, temo
O fulgor essencial que mata ou cega,

fico a pensar que, ao dizer se sei, admite o quanto avançou já na via gnóstica. Teme o fulgor esssencial: será mesmo que mata ou cega (duas proposições, aliás, diferentes)? Leonardo, Marinho, não o terão experimentado, sem por tal terem morrido ou cegado? Fulgor da visão unívoca, de saudade, de graça, porventura do êxtase a que acedem certos místicos, como a Dalila… (...) Ando a pensar em escrever um terceiro livro de contos, que se intitularia Mistérios. Já comecei mesmo a escrevê-lo, mas como o meu espírito anda demasiado errante, o querer fazer muitas coisas ao mesmo tempo porque a clepsidra se nos vai esvaziando a olhos vistos (...) estou parado a meio da primeira história...*
Contudo, segui-o apesar disso durante grande parte do caminho: o bastante para lhe poder dizer agora que vocês é dos poucos, de entre os discípulos, que deixará uma obra consistente e com páginas fulgurantes e inesquecíveis. (...)

Não deixe de me responder.
Um abraço do seu dedicado
António Quadros"

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*António Quadros não chegaria a publicar mais nenhum livro de contos, ainda assim, daria à estampa mais três obras: Memórias das Origens. Saudades do Futuro; Estruturas simbólicas do Imaginário na Literatura Portuguesa; Trovas para o Menino Imperador do Espírito Santo.

«Renovação Democrática»


"A Renascença Portuguesa chegou a editar um modesto quinzenário que pretendeu exprimir as relações da nova cultura com a nova política. A essa revista efémera foi dado o significativo título de «Princípio», na qual a esquecida palavra «República» era substituída pela palavra «Democracia», termo de incerteza semântica nas discussões dos políticos de tendências várias e contraditórias. No quarto e último número deste periódico, visado pela censura militar, ainda foi inserto um esperançoso anúncio do boletim francês da «Sociedade das Relações Culturais entre a U.R.S.S. e o Estrangeiro».
Leonardo Coimbra absteve-se de dar a colaboração prometida ao novo periódico de renovação democrática. Não concordava com os tópicos de uma doutrina extremista, assimilada facilmente por adolescentes sem experiência politica. Amenamente fazia a crítica de alguns artigos que considerava teoricamente adversos à distinção entre o Mal e o Bem, polos recíprocos da liberdade e da justiça."

Álvaro Ribeiro
Memórias de um Letrado III pp. 36-37
Guimarães Editores (1980)

domingo, 22 de janeiro de 2012

Régio e Álvaro

José Régio
"José Régio era, para Álvaro [Ribeiro], não só o poeta católico, superior a Claudel, mas o ponto de referência da cisão entre os leonardinos e sergianos. Não podia esquecer a fuga de Régio para o campo sergiano. Mas tinha de lhe perdoar. Para tanto escreveu essa admirável interpretação psicológica e tipológica A Literatura de José Régio (1969) obra nada atendida pelos literatos, e que alguns poderão considerar como exorbitante do valor literário de Régio. Ilusão: Régio é um grande escritor, aqui e em qualquer parte do mundo. Régio é um admirável pensador de ideias e perscrutador de mistérios humanos e divinos. Álvaro devia-lhe, e não apenas por amizade, uma exege. Que resultou em hermenêutica: ele preencheu, com dados próprios, as eventuais carências filosóficas do pensamento de Régio. A quem colocou no seu lugar, entre os que abandonaram a escola leonardina, criacionista, em favor da escola sergiana, cousista. Parece que Régio entendeu bem como, sob a apologia, lhe era enviada a epístola correctiva.(...) Ao publicar a obra A Literatura de José Régio, Álvaro Ribeiro deu um passo voluntário e comedido para uma aproximação formal e essencial da Filosofia e da Literatura portuguesas. (...) A julgar a literatura regista, Álvaro teria também de julgar a literatura alvarista pois, estamos em crer, as situações espirituais de Álvaro e de Régio são afins, embora existencialmente diversas. Mas houve lugar para a biografia e, onde a houve, também houve lugar para a autobiografia: o percurso espiritual de um filósogo em face de um seu irmão espiritual, de um seu companheiro natural. Régio foi em Literatura o que Álvaro veio a ser em Filosofia: a singularidade situacional, o exílio."

Pinharanda Gomes
em A Escola Portuense
(2005), p.151

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Reuniões do senso comum e da fantasia colectiva

"A solenidade das conversas não é a solenidade dos Congressos. Os Congressos, de um modo geral, servem para dar aparência singular ao que é quotidiano e habitual. Com esta solenidade exterior só aparentemente se começará a consagrar a filosofia portuguesa, visto que, de tais reuniões, dirigidas predominantemente aos sentidos da vista ou do ouvido, apenas se deduz a visão e a audição do que já existia, ou do que não existia nem jamais existirá. São, portanto, reuniões do senso comum e da fantasia colectiva."

Álvaro Ribeiro
 «Os Reis Magos e a Tradição Portuguesa», 
em As Portas do Conhecimento, IAC, 1987, p. 132.

À espera de Marinho

José Marinho

"O magistério de Álvaro [Ribeiro] e de [José] Marinho ultrapassava o plenário. Cada um dos discípulos dispunha de frequentes oportunidades de conversar com Álvaro a sós: ou em sua casa, ou noutro Café, ou no mesmo, a hora diferente da habitual. Era um dos aspectos sugestivos da vida do grupo, porque tanto Marinho como Álvaro apreciavam conversas separadas, mas não se mostravam muito agradados quando vinham a saber, do outro, que as havia. Com Marinho estes encontros separados eram por via da regra na Pastelaria Nova Iorque, a Entrecampos (agora um banco), onde também aparecia o matemático lógico Germano Rocha, que se exaltava nas discussões com Marinho. Pelo contrário, Álvaro nem permitia, nem dava azo a exaltações. Tudo o que se dizia tinha de ser muito bem pensado, e muito bem dito. Regra de ouro: um pensamento correcto exprime-se, sem atropelos, numa frase correcta, linear, bem construída. Como, às vezes, com certa ironia Marinho murmurava, Álvaro do que gostava era de silogismos. Por sua vez, Álvaro ironizava que Marinho do que gostava era de enigmas. Tudo em amizade, na verdade. (...)
As tertúlias da «Filosofia Portuguesa» raro iniciavam a conversa sobre um tema, antes de José Marinho chegar. Decerto os mais novos discorriam acerca disto ou daquilo, de livros que andavam lendo, ou laborando em miscelâneas de opinião, Álvaro Ribeiro assistindo, paciente, dizendo uma ou outra palavra, para ajudar a exposição de cada um, mas evitava animar instinto dialéctico, e a tendência para a discussão. (...) a aula só começava com Marinho, cujo horário de trabalho não lhe permitia chegar antes das seis da tarde. Ao aparecer, e depois de se arrumar indagava: «Qual é o tema?», ou «Que tema há para hoje?» (...) É relevante fixar este costume, de não se iniciar a conversa na ausência de Marinho, como que num acto de lealdade. (...) Ambos se tratavam por «senhor» não havia tu cá tu lá entre ambos. (...) Depois da morte de José Marinho verificou-se uma interrupção das tertúlias das Quintas Feiras (...) Numa carta que de Álvaro recebi ainda nesse ano de 1975, explicava ele a suspensão das reuniões, confessando como seria doloroso estarmos juntos à espera do Mestre, que não viria. (...)"

Pinharanda Gomes
em "A tertúlia de Álvaro Ribeiro e de José Marinho"
Revista Nova Águia, nº 8, 2011, pp 117-125.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Tertúlia em casa de Adolfo Casais Monteiro

Delfim Santos

"(...) ao contrário de um simples serão de cavaqueio, o formato da tertúlia incluía então o revezar dos participantes no tratamento de um tema a ser debatido por todos os comensais: Casais [Monteiro], em postal a Delfim [Santos] de 22.11.42, informa que não tivera tempo para «preparar a perlenga» prevista para o dia seguinte, pedindo escusa da falta e solicitando mora de uma semana. E o mesmo Delfim, precisamente sobre uma sessão que iria registar para a posteridade e que aqui nos ocupará, esclarece que naquela noite «era Álvaro [Ribeiro] que pertencia fazer um pequeno relato de um dos livros de Leonardo [Coimbra], a que se seguiria discussão esclarecedora». Foi sobre um desses simpósios filosóficos mais formais, que pela noite se prolongavam após a ceia em casa do poeta seu condiscípulo, que Delfim Santos escreveu um relato à clef que agora remetia a Casais naquela carta, ocultando sob pseudónimo, como era corrente fazer-se, os nomes reais dos intervenientes: Álvaro Ribeiro se tornaria 'Alberto'; Sant'Anna Dionísio seria 'Rodrigo'; José Marinho manteria o seu nome próprio; Eudoro de Sousa se encobriria sob 'Ernesto'; Adolfo Casais Monteiro velar-se-ia em 'António' e por fim o próprio Delfim Santos se autonomeava 'Martinho', invocando o magistério haurido nas obras de Martin Heidegger. Expediente destinado apenas a leitores menos avisados pois os nomes apresentavam chaves de fácil leitura para os que conheciam este círculo filosófico..."

Filipe Delfim Santos
em "Um colóquio agora mais útil", 
Revista Nova Águia, nº 8, pp 39-40.