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quarta-feira, 11 de abril de 2012

Dalila Pereira da Costa por Paulo Samuel

"Para os que por ora ficam, resta o bastante: memória da convivência com uma pessoa humana singular, cuja sabedoria se escudava numa discreta presença que, contudo, por via da palavra, elidia o género, imarmanava géneros (literários e filosóficos) e gerava penetrante visão hierofânica de Portugal. (...) É do banquete com Dalila Pereira da Costa (...) que as afinidades e laços electivos - prolongados em afectos - propiciadores de um diálogo contínuo, que abrangeu domínios tão amplos como a partilha de memórias e episódios de vivências pessoais (...), a convivência do seu austero mas acolhedor palacete à Rua 5 de Outubro (...) sem esquecer a sua companhia em viagens para fora da cidade, ou mesmo a visita à sua quinta no Douro. Mas além desse espaço mais restrito e íntimo, outras circunstâncias vieram aprofundar tão fecunda relação. Entre outras, as que levaram a encontros e participações em iniciativas ligadas à divulgação da Filosofia Portuguesa, à evocação da «Renascença Portuguesa», a reuniões em sua casa a propósito da criação da revista Leonardo ou, mais tarde, no âmbito da sua relação à Fundação Lusíada. (...)"

Paulo Samuel
em As Artes entre as Letras
14 de Março de 2012

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Sant'Anna Dionísio e a "Quinta Amarela" no Porto

Sant'Anna Dionísio
- desenho de Carlos Carneiro -

"Após uma brevíssima passagem por Coimbra (...) onde terá sido aluno de Carolina Michaelis de Vasconcelos e para a qual aí preparou um trabalho escolar que lhe revelaria, durante as pesquisas, uma espantoso plágio de um professor universitário, Sant'Anna Dionísio transfere-se para a primeira e, a seu modo, única Faculdade de Letras do Porto, na qual concluirá a sua licenciatura em Filologia Germânica. (...) A Faculdade funcionava então na chamada «Quinta Amarela», que Sant'Anna Dionísio bem conheceu, pois matricular-se-á num novo curso, desta feita em Filosofia, para cujo resultado oficial apresentará, no fim dos anos necessários, uma tese sobre «Bergson», valorizada em 29 de Outubro de 1926, com 16 valores. (...) Da «Quinta Amarela» (...) deixou-nos ele viva descrição, de cores e odores, comentando que este local representava um renovado Jardim da Amizade, de grega reminiscência, onde «em horas intemporais» livremente se filosofava. Além do edifício, «...sossegada moradia urbana, rodeada de muros e arvoredo, ocupada até 1910 por uma dúzia de freiras de não sei que Ordem e que uma década depois (...) se converteria em provisória sede da tão promissora como efémera Faculdade de Letras da Universidade do Porto» havia sobretudo o envolvimento natural, de apelo panteísta, que ele assim retrata: «(...) havia velhas japoneiras, que pela Páscoa, se cobriam de camélias rubras e brancas; tufos de mirto e loureiro; maciços de alecrim; caneleiras de flores rubicundas e essência adocicada; (...) dois ou três velhos castanheiros ao fundo, no extremo da antiga cerca e, pelo meio, conduzindo a diversos recantos, pacatas veredas flanqueadas de buxo que, com o tempo, se converteriam em meia dúzia de casamentos felizes e dois ou três dramas camilianos.». (...)"

Paulo Samuel
em O Tripeiro, 1991.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Jorge de Sena, Leonardo Coimbra e a Renascença Portuguesa


"(...) o gérmen da atitude política irá modelar em Jorge de Sena um comportamento isento, disputado para um partidarismo que tanto proveio de monárquicos como de comunistas, mas que inabalavelmente preservou sem concessões à direita ou à esquerda, na consciência do homem livre e insubmisso. (...) Em contrapartida, a crítica de Jorge de Sena surge-nos como que a fazer coro ou, no mínimo, objectivamente infundamentada, quando procura dirimir um movimento portuense tão importante como o da Renascença Portuguesa, em especial, quando sem fundamento intenta menosprezar personalidades tão meritórias e vincadas como a de Leonardo Coimbra, Que terá levado este homem inteligente a pretender assacar o demérito ao filósofo do Criacionismo, ou a não tolerar, no seu tempo, ideias de um Álvaro Ribeiro? Estaria Sena tão bem informado sobre o valor intrínseco de cada um destes homens (assim como do alcance e significado da Renascença Portuguesa) ou, pelo contrário, agiria apenas de acordo com o que uma certa tendência da intelectualidade portuguesa dos seus - e ainda nossos - dias, pretendia falsear? Aliás, não concedeu ele uma atenção particular na valorização da poesia e de um poeta renascentista como Teixeira de Pascoaes? Fiquemos, fundamentalmente, pelos méritos."

Paulo Samuel
Jorge de Sena e a fidelidade ao Porto, pp. 12-13
(Porto, 1989)