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terça-feira, 27 de maio de 2014

A Filosofia Portuguesa e o Sport Lisboa e Benfica

Eusébio e Cubillas
"Adepto do Belenenses desde tenra idade – ao que se sabe, em lance de afirmação diferenciadora perante os seus dois irmãos, um benfiquista, o outro sportinguista –, o filósofo [António Telmo] tornar-se-á, mais tarde, nos tempos áureos em que Eusébio e Coluna pontificam no Sport Lisboa e Benfica, fervoroso simpatizante do clube da Luz. É possível que o aceso benfiquismo de Afonso Botelho e de António Quadros, seus amigos e condiscípulos no magistério filosofal de Álvaro Ribeiro e José Marinho, tenha influenciado a mudança de sentido de Telmo, que, por um desses anos faustos dos encarnados, ao cruzar-se com Eusébio no Cinema Roma, em Lisboa, requesta um autógrafo ao pantera negra. É neste contexto de retumbante entusiasmo que, com alguma naturalidade, surge a entrevista concedida pelo filósofo, faz exactamente hoje meio século, ao O Benfica Ilustrado, suplemento mensal do jornal O Benfica, à época dirigido por Botelho. Muito longe da futilidade oca e ligeira que tantas e tantas vezes surpreendemos no periodismo desportivo, as palavras télmicas destacam-se pelo seu interesse e pela elevação de quem as profere: um filósofo é um filósofo!... (...) O jornal O Jogo, que vimos seguindo, dá-nos conta, na sua edição de 13 de Junho desse ano de 1997, das analogias que o pensador estabeleceu entre o jogo e a filosofia. Dois dias antes, em evidente registo lúdico, afirma-se haver quem, na Invicta, espere de Telmo um novo livro, intitulado O Império de Jardel... Humano, porventura demasiado humano para alguns, este outro António Telmo. Mas, afinal, o mesmo de sempre. Quando, com António Quadros, acabado o ágape filosófico com os mestres, mãos nos bolsos, assobiando, sorridente, entrava no primeiro café onde se lhes deparasse uma mesa de matraquilhos..."

Pedro Martins
Texto completo aqui


domingo, 20 de abril de 2014

A António Quadros



"Falo na ordem e no lugar estabelecidos e granjeio por isso o horizonte de muito caminho percorrido sem ter de proferir sobre ele o juízo final, que é acto mais divino do que humano. (...)"

Afonso Botelho
Três mestres do conhecimento (1993), p. 85

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Origem e regresso

Afonso Botelho
"Assim, ao conferir à morte a natureza de mistério e ao ver nela o ponto de partida ou o princípio do conhecimento, ultrapassa-se toda a limitação e dá-se ao conhecimento toda a riqueza que nele se oculta. Pensar a morte (...) implica pensar uma dupla relação - a relação vida-morte e a relação morte-imortalidade. (...) Deste modo, a teoria da morte, tal como Afonso Botelho a pensa, pressupõe, necessariamente, uma teodiceia (...) A teoria do amor, que o filósofo considerava inseparável e complementar da teoria da morte, funda-se num original fundamento ontológico: a doutrina do «ser em canto ser» (...)"
António Braz Teixeira
A Filosofia da Saudade (2006), p.64

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Teoremas de Filosofia



"Ninguém está preparado para aceitar o absurdo."

Afonso Botelho
O Toiro Celeste Passou (1963), p.44

sexta-feira, 4 de maio de 2012

O toiro celeste passou


"O Toiro Celeste Passou [Afonso Botelho, 1965] não é apenas a sua melhor novela: é também, não hesitamos em afirmá-lo, uma das mais invulgares novelas com que pode contar a nossa literatura contemporânea. (...) A novela flui com naturalidade, a partir de um dado inicial ou fabuloso, de função provocadora e dialéctica. (...) Este processo dá efectivamente à novela um cariz existencial que se irá confirmando pouco a pouco. Apresenta-nos Afonso Botelho a dialéctica da honra e da verdade, que também pode traduzir-se como dialéctica do personalismo e da filosofia. Mas onde, quanto a nós, Afonso Botelho supera a interpretação puramente kafkiana ou existencialista, é na coincidência com outras dimensões que abrem a simbólica da novela a uma amplitude muito maior. (...) Sejamos um pouco mais precisos. A novela abre com uma epígrafe aparentemente enigmática, mas que justifica inteiramente o seu titulo: Nout, a deusa do céu, acolhia o sol como o Toiro celeste, incarnação da virilidade (Textos da Pirâmide). Logo, apresenta-nos quatro amigos, de caracterologia diferente e bem marcada, jogando às cartas e conversando. Qual seria a sua reacção quando postos face a face com a sua própria verdade, com a verdade que o homem-pessoa, que o homem-convencional oculta de si próprio e sobretudo dos outros? É então que, provocado e invocado pelo diálogo, o toiro celeste passa, deixando na cabeça de cada um o ornato que tradicionalmente significa a infidelidade da mulher. (...)"

António Quadros
"Entre o Amor a Morte, entre a Honra e a Verdade" 
em Estruturas Simbólicas do Imaginário na Literatura Portuguesa (1992), pp. 158-159
[de artigos publicados no Diário Popular, de 11-08-1966 e de 19-03.1967]

segunda-feira, 21 de março de 2011

O magistério dos discípulos

Da esquerda para a direita: António Braz Teixeira, António Quadros, Pinharanda Gomes e Afonso Botelho. (Nas comemorações do centenário do nascimento de Leonardo Coimbra em 1983.)

segunda-feira, 14 de março de 2011

Dalila Pereira da Costa, conhecimento pela experiência mística


"O conhecimento pela experiência mística, que Fernando Pessoa considerava genuíno, embora inseguro, que na obra de Leonardo se liga à graça, na de Marinho à visão unívoca e na de Álvaro Ribeiro à gnose tem sem dúvida, na obra de Dalila Pereira da Costa, talvez a mais vivencial e contudo mais meditada expressão da nossa cultura moderna. [...] A filosofia portuguesa contemporânea, muito embora tenha predominantemente um caraácter teleológico e operativo, sobretudo com Sampaio Bruno, Leonardo Coimbra e Álvaro Ribeiro, tendendo não raro a distanciar-se do passivismo da postura intelectual recptiva e mística, não deica contudo de considerar o seu valor na ordem do conhecimento.
Bruno [...] radica toda a construção intelectual de A Ideia de Deus, em fenómenos auditivos inexplicáveis que experienciou e atribuiu a intervenções angélicas.
Leonardo Coimbra, falando da passividade mística, apontava no entanto para o acordo superior das duas formas de pensamento humano -  a científica e a mística.
Obra contrapolar de outras, marcadamente lógico-científicas, como A Razão Experimental, o seu livro A Alegria, A Dor e a Graça, está inteiramente repassado de uma sensibilidade mística, descrevendo a natureza, as criaturas, os seres humanos, Deus, como em verdadeiro trânsito da percepção sensorial para a apercepção espiritual, como em anunciação de uma fenomenologia ontopneumatológica pessoalmente vivida.
Álvaro Ribeiro, também com algumas reservas perante o pensamento místico, tanto no cristianismo como no budismo, admite em a A Arte de Filosofar uma gnoseologia da intuição, da imaginação, do sonho e da visão contemplativa, desde que pensadas à luz da razão conceptuante, à luz de um racionalismo aberto para o mistério.
José Marinho transporta abertamente a realidade da experiência mística ou unitiva como visão, visão unívoca, para o seu sistema filosófico. Ela é, a visão unívoca, como que a vivência agraciada que para os homens será o ponto luminoso pelo qual podem experienciar fugazmente a relação enigmática entre o Ser da Verdade e a Verdade do Ser, mau grado o mundo de cisão em que vivem.
Quanto a Afonso Botelho, na recente suma do seu pensamento que intitulou Da Saudade ao Saudosismo, elevou ao nível especulativo e filosófico as intuições de Pascoaes e de outros poetas saudosistas, delineando o conceito de uma filosofia gnoseológica da saudade, com nítidas afinidades místicas.
O livro [Místicos Portugueses do Século XVI] de Dalila Pereira da Costa, porém atinge uma dimensão singular na exegese da literatura mística, porque na sua personalidade se encontram harmoniosamente, tanto a inteligência hermenêutica apoiada na mais sólida cultura, como a predisposição e «saber de experiências feito» de quem é, ela própria, uma espiritual, uma mística, autora das páginas mais fulgurante de A Força do Mundo ou de Os Jardins da Alvorada.

António Quadros
Memórias das Origens, Saudades do Futuro (1992) pp.58-59

quarta-feira, 31 de março de 2010

"A situação pedagógica e a ideia de morte"

"[...] Admitindo, contudo, que, relativamente à essência, a lei eliminou a morte, resta ainda o amplo domínio da existência, onde os reflexos legislativos não chegam para iluminar as consciências. É que a morte tem a sua estática e a sua dinâmica, não por si, que o nada não possui movimento próprio, mas pelas consciências que do nada se apercebem. [...]"

Afonso Botelho, Revista Espiral número duplo 8/9 p.38