segunda-feira, 23 de abril de 2012

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Perfeitamente adequado

Delfim Santos
"O único critério de verdade útil para o conhecimento tem em si a expressão da sua relatividade. Possuir o sentido da sua relatividade não significa, porém, que este critério fez perder à verdade o seu valor absoluto, que lhe é exigido para ser verdade. Absoluto, no problema do conhecimento, equivale a «plenamente adequado». Verdade «relativa a» não significa que a verdade é, em si mesma, relativa. A verdade, no sentido total ou universal que criticamos, é sempre «relativa a» uma certa concepção do universo, sem por isso ter perdido o seu valor absoluto ou de plena adequação. «Absoluto» e «relativo » não se contradizem, porque qualquer conhecimento absoluto que pensemos é sempre «relativo a», sem em si próprio ser relativo. (...) A afirmação de que «absoluto» é contrário a qualquer espécie de relação não nos parece correcta. Absoluto significa em «relação perfeita a». No problema do conhecimento, «absoluto» significa «perfeitamente adequado», e esta adequação é uma relação que não torna o conhecimento relativo, como já afirmámos. O valor máximo para que todo o conhecimento aspira é a «adequação», e nisto reside o seu valor absoluto."


Delfim Santos
Conhecimento e Realidade
(1940)

Poetisar o lugar-comum

"A arte tem de seguir a vida, reentrar na casa, fazer-se familiar e doméstica. (...) Não mais veludos e tapetes de palácios, agora a vida humilde de mesteirais. (...) Urge (...) poetisar o lugar-comum. A casa."


Sampaio Bruno
Notas do Exílio (1891-1893)
Obra digitalizada aqui.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Em bocas de verdura

"Imaginai que, subterrâneo e distante, vos corre sob os pés um regato, e donde em onde a terra se abre em bocas de verdura, falando o refrescante murmúrio das águas profundas.
Assim são os Poetas."

Leonardo Coimbra
Camões e a fisionomia espiritual da Pátria (1920)
Obra digitalizada aqui.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Dalila Pereira da Costa por Paulo Samuel

"Para os que por ora ficam, resta o bastante: memória da convivência com uma pessoa humana singular, cuja sabedoria se escudava numa discreta presença que, contudo, por via da palavra, elidia o género, imarmanava géneros (literários e filosóficos) e gerava penetrante visão hierofânica de Portugal. (...) É do banquete com Dalila Pereira da Costa (...) que as afinidades e laços electivos - prolongados em afectos - propiciadores de um diálogo contínuo, que abrangeu domínios tão amplos como a partilha de memórias e episódios de vivências pessoais (...), a convivência do seu austero mas acolhedor palacete à Rua 5 de Outubro (...) sem esquecer a sua companhia em viagens para fora da cidade, ou mesmo a visita à sua quinta no Douro. Mas além desse espaço mais restrito e íntimo, outras circunstâncias vieram aprofundar tão fecunda relação. Entre outras, as que levaram a encontros e participações em iniciativas ligadas à divulgação da Filosofia Portuguesa, à evocação da «Renascença Portuguesa», a reuniões em sua casa a propósito da criação da revista Leonardo ou, mais tarde, no âmbito da sua relação à Fundação Lusíada. (...)"

Paulo Samuel
em As Artes entre as Letras
14 de Março de 2012

Pensar


"Os antigos filósofos (naturalmente) pensavam muito mais do que liam. Eis porque se agarravam tão tenazmente ao concreto. A imprensa modificou as coisas. Lê-se mais do que se pensa. Não temos hoje filosofias mas apenas comentários. É o que diz [Étienne] Gilson ao afirmar que à idade dos filósofos que se ocupavam de filosofia sucedeu a idade dos professores de filosofia que se ocupam de filósofos. Há nesta atitude modéstia e impotência. (...) Chegou-se ao ponto em que um livro de filosofia que fosse hoje publicado e não se apoiasse em nenhuma autoridade, citação, comentários, etc., não seria tomado a sério. E no entanto..."

Albert Camus
Primeiros Cadernos
Livros do Brasil (s/d) 
[Nota prefacial de António Quadros]

terça-feira, 10 de abril de 2012

Filosofia insuficiente


"A filosofia dos liceus é pobre demais, historiográfica de mais, esquemática demais para substituir o acesso a uma filosofia do ser e do espírito, a uma filosofia do homem, a uma filosofia da sociedade, a uma filosofia da ciência, a uma filosofia da natureza, a uma filosofia da técnica, a uma filosofia do direito e da política, sem as quais não se atinge mais do que um saber fragmentário, cindido do real, inapto para a integração do homem na problemática do viver e do conviver, útil para o desempenho limitado da profissão escolhida, mas insuficiente para que o licenciado possa dar uma colaboração criadora, inventiva, personalizada e cumulativa à sociedade onde deveria inserir-se de modo dinâmico e harmónico."

António Quadros
Franco-Atirador (1970) p.228

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Gostava de ser pulgão e viver numa roseira

Georges Duhamel

"Sou incorrigível. Cheguei hoje a esta conclusão luminosa. Dela se liberta, pouco a pouco, uma verdade de tal maneira amarga, que chega a ser reconfortante. Sim, sou incorrigível, eu e todos os homens. Se os homens pudessem melhorar, seria muito triste pensar que não o fazem. Mas pensarque não têm esse poder, leva-nos, pelo menos, a uma infinita indulgência. Indulgência que, no fim de contas, não consigo sentir, visto que a indulgência me falta por natureza, e a natureza é imutável. É bem claro. Não pode ser mais claro. Devia ter sido razoável e não ter querido coisas extravagante! Santos! Minha mãe talvez seja santa. Minha mulher, também. (...) Neve. Frio. Economizo o mais que posso, pois este fim de mês, que também é fim de ano, é particularmente duro. Quase tudo o que me restava, dei-o à minha família. Vivo acocorado junto a um fogãozinho  que anda ao retardador. Enquanto escrevo, observo a mão que segura a caneta. Pertencerá a Salavin? Nunca a tinha examinado tão cuidadosamente. Não me agrada. É feia. Nem sei como pude julgar que viria a ser qualquer coisa de puro, tendo umas mãos assim.
Gostava de ser pulgão e viver numa roseira."

Georges Duhamel
Diário de Salavin (1945)
Trad. de António Quadros

Não ponho nisso obstinação ou malícia

Georges Duhamel
"Se tivesse fé, é claro que teria mais oportunidades. Cresci no seio da religião católica. A crise da adolescência, a crise vulgar, despojou-me, esvaziou-me, limpou-me como uma tigela. Depois, contemos dois ou três anos de orgulho, cinco ou seis anos de romantismo, de desespero metafísico, e depois a vida do dia a dia, com todos os seus pequenos problemas guardados no armário, à espera de ser resolvidos. Um facto é incontestável: não tenho fé. Não tenho nisso orgulho algum, não ponho nisso obstinação ou malícia. (...) Não posso afirmar que amanhã continuarei a não ter fé. Espero tudo. (...) Se fosse obrigado a acreditar que seres admiráveis, minha mãe e minha mulher, por exemplo, alimentam pensamentos semelhantes aos meus, o meu amor e a minha admiração dariam lugar ao horror. É pouco mais certo que os homens favorecidos por uma perfeita fé, estão livres de tais pensamentos. Noto este facto pelo tranquilo orgulho que arvoram. (...) Faço da fé, talvez por ser coisa que não tenho, uma ideia esplêndida, augusta. No meu coração, confundo fé com paz, com repouso".

Georges Duhamel
Diário de Salavin (1945)
Trad. de António Quadros

terça-feira, 3 de abril de 2012

Leonardo Coimbra e Teixeira de Pascoaes

(s/d)

Via galeria lusografias

"Ao princípio, os directores eram quatro"


"Ao princípio os directores eram quatro: nós dois [António Quadros e Orlando Vitorino] e os escultores António Duarte e Martins Correia. A ideia foi, portanto, concebida, discutida e pensada por quatro pessoas. Mas, a certa altura, sem que tivesse havido qualquer divergência entre nós, aqueles dois artistas chegaram à conclusão de que não poderiam tomar parte efectiva na direcção da revista, devido à vida absorvente que levam. Quero acentuar, porém, que António Duarte e Martins Correia continuam connosco (...), colaborando, tanto quanto possível, em todos os números..."

António Quadros
Diário Popular
(03-10-1951)

segunda-feira, 2 de abril de 2012

O Pedro e o Mágico


"Um dia, como de costume, iam os quatro a caminho da escola, quando o pai se inclinou para o volante, e se pôs a espreitar para a buzina do carro. (...) O pai disse então:
- Que massada!
Os filhos ficaram intrigados, julgaram que o «Bate-Latas» estava com alguma avaria. O António perguntou:
- O que é pai?
O pai respondeu:
- Agora nunca mais posso tocar buzina!
(...)
Eu já estava desconfiado - disse o pai - Ontem à noite tinha visto umas luzinhas a saírem da buzina. Agora já sei o que é.
- O que é pai? (...)
- Foi uma família de pirilampos que veio instalar-se aqui na buzina, lá por dentro. Parece-me que são três.
(...)
Um dia, o pai inclinou-se como antigamente para a buzina, e chamou.
- Piri-Piri! Piri-Piri!
(...)
O António disse:
- O pai sabe muito bem que não há pirilampos, aí na buzina. (...)
-Já não somos bebés.
(...)
Chegaram à escola. Saíram a correr, como de costume. O pai ficou sozinho dentro do automóvel., Viu os filhos a conversar com os amigos. Disse-lhes adeus com a mão, e sorriu-lhes. (...)
Inclinou-se para o volante e disse, em voz baixa:
(...) é melhor irem-se embora, e escolherem outro carro e outra buzina. Adeus, Piri-Piri. (...)
Agora, que os pirilampos se tinham ido embora, já estava cheio de saudades de todos eles."

António Quadros
«Os pirilampos» em O Pedro e o Mágico (1972)