terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Tradução de António Quadros

"A srª. de Bornes levou-a (a Henriqueta) para um sanatório de Auteuil. Morreu, dois meses depois, de uma doença que não era mortal. Por outras palavras, apesar das precauções tomadas, suicidou-se tomando veneno”.

Jean Cocteau, Thomaz, O Impostor, Edição Livros do Brasil, Lisboa, 1955, p.187

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Tradução de António Quadros


"[...] Nem sequer tinha a certeza de estar vivo, já que vivia como um morto. Eu, parecia ter as mãos vazias. Mas estava certo de mim mesmo, certo de tudo, mais certo do que ele, certo da minha vida e desta morte que se aproximava. Sim, não sabia mais nada do que isto. Mas ao menos segurava esta verdade, tanto como esta verdade me segurava a mim. Tinha tido razão, tinha ainda razão, teria sempre razão. Vivera de uma dada maneira e poderia ter vivido de outra dada maneira. Fizera isto e não fizera aquilo. Não fizera uma coisa e fizera outra. E depois? Era como se durante este tempo todo tivesse estado à espera deste minuto... E dessa madrugada em que seria justificado. Nada, nada tinha importância e eu sabia bem porquê."

Albert Camus, O Estrangeiro

António Quadros, Amorim de Carvalho, entre outros

Círculo Eça de Queiroz. 1960.
Arquivos da Casa Amorim de Carvalho


No primeiro plano, o terceiro a contar da esquerda: Padre Moreira das Neves; no segundo plano, a contar da direita: Luís Forjaz Trigueiros, Eça Leal, António Quadros e Amorim de Carvalho.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Reunião do Conselho Consultivo da Fundação António Quadros

Ontem, dia 29 de Novembro de 2010, realizou-se no Círculo Eça de Queiroz, em Lisboa, a 2ª reunião do Conselho Consultivo da Fundação António Quadros. A sessão, presidida por Mafalda Ferro, António Roquette Ferro, Luís Gomes, Francisco d'Orey Manoel e Mário Quina, contou com a presença de António Braz Teixeira, António Quadros Ferro, Paulo Borges, Rita Ferro, Gonçalo Sampaio e Melo, Madalena Jordão, José Guilherme Victorino, entre outros membros do Conselho Consultivo.

Neste encontro, foi apresentado o plano de actividades para 2011, assim como o orçamento deste ano e do ano seguinte. Para além disto, discutiram-se todos os assuntos relacionados com os objectivos culturais da Fundação António Quadros. O anúncio da constituição do Prémio António Quadros Cultura e Pensamento em 2011 foi uma das grandes novidades apresentadas na sessão de ontem.

Desde a sua constituição, a Fundação tem vindo a realizar diversas actividades de indiscutível valor cultural e cientifico, nomeadamente a conservação e restauro de documentos e obras de arte que mantém no seu espólio, a organização e descrição da biblioteca de António Quadros e de todos os seus documentos e ainda o apoio sistemático à investigação.

Mais sobre a Fundação António Quadros aqui.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

António Quadros sobre António Telmo

"Conheci-o há pelo menos quarenta anos na «Universidade» da Filosofia Portuguesa, como ele atraído pelo magistério marginal de Álvaro Ribeiro e José Marinho, discípulos de Leonardo Coimbra, para quem a filosofia não era um modo de vida, mas um modo de ser…
Essa «Universidade» informal teve como sedes, primeiro o Café Palladium, onde ainda apareciam às vezes o Casais Monteiro, o Jorge de Sena, o Eudoro de Sousa, o José Blanc de Portugal, o António Banha de Andrade, o Eduardo Salgueiro ou o Domingos Monteiro, depois a Brasileira do Rossio, onde assentou arraial durante os anos em que nós lançámos com entusiasmo e espírito de desafio o Acto, o 57, a Espiral, anos em que aqueles nossos mestres saudosos publicaram, o primeiro A Arte de Filosofar (em 1955) e A Razão Animada (em 1957), o segundo a Teoria do Ser e da Verdade (em 1961). Mais tarde, outros cafés tomaram o lugar daqueles, o Colonial na Almirante Reis ou o Estrelas Brilhantes em Campo de Ourique… [...]"

António Quadros Continue a ler aqui.

Coitado do pobre Antero


Coitado do pobre Antero,
desnudado, analisado,
Não já o corpo, seu espírito,
Dissecado, Autopsiado.

Matou-se, mas era livre,
Liberdade era o seu bem,
Agora sua alma triste,
Já nem liberdade tem.

O que não disse, ele disse,
O que escreveu não pensou,
O que disse ele desdisse,
O que pensou não amou.

Coitado do pobre Antero!
Quero vê-lo, mas não posso...
Roubámos-lhe a liberdade,
Já não é dele, é só nosso.

António Quadros
por ocasião do Colóquio Anteriano em Ponta Delgada (14-10-1991)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Revista Cultura Entre Culturas nº 2

Já está à venda o 2º número da revista Cultura Entre Culturas, dedicada ao encontro entre o Ocidente e o Oriente. Para além das homenagens a Raimon Panikkar e António Telmo, recentemente falecidos, podem ler-se ensaios de Carlos João Correia, Rui Lopo, Amon Pinho e Paulo Borges e ainda textos de Ricardo Ventura, Matthieu Ricard, Françoise Bonardel, Miguel Gullander, Duarte Drumond Braga, entre outros.


Próximos Lançamentos

19 de Novembro, 21.30
Auditório da Câmara Municipal de Barcelos

23 de Novembro, 21.30
Clube Literário do Porto
Rua Nova da Alfândega, 22

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Histórias do Tempo de Deus


"Cada um dos contos que integram as Histórias do Tempo de Deus tem como eixo simbólico a reflexão sobre algumas das chaves de acesso à grande obra universal. Embora o diálogo filosófico e a construção das personagens enquanto tipos que permitem apresentar as "demonstrações alegóricas de ideias-tese preestabelecidas" (Ferreira, José Antunes - Introdução a Histórias do Tempo de Deus, Lisboa, Edições do Templo, 1979), confiram à obra o sentido de um "tratado completo de cosmologia" (id. ib.), de uma "teoria da alma, considerando-a na sua essência, na sua evolução, na sua transfiguração após a morte" (id. ib.), a verdade é que a reflexão filosófica não se sobrepõe a uma construção narrativa que permite vários níveis de leitura e, embora impondo a reflexão sobre uma macroestrutura densamente urdida e firmada na obra ensaística e filosófica do autor, não sobrecarrega uma forma narrativa enigmaticamente sedutora na sua aparente linearidade."

Histórias do Tempo de Deus. In Infopédia. Porto: Porto Editora, 2003-2010. [Consult. 2010-11-11]. Disponível em http://www.infopedia.pt/$historias-do-tempo-de-deus

Onde estás?


Os meus olhos não te vêem,
O meu nariz não te respira,
Os meus ouvidos não te ouvem,
O meu paladar não te apercebe,
Os meus dedos não te tocam,
Onde estás tu, Deus, que não te sinto?
A minha imaginação não te inventa,
O meu subconsciente não te revela,
A minha lógica não te deduz,
O meu espírito não te ensina,
A minha inteligência não te compreende,
Onde estás tu, Deus, que não te sei?
A minha paz precisa-te,
A minha ignorância busca-te,
A minha alma chama-te,
A minha fé espera-te,
A minha vida suplica-te,
Onde estás tu, Deus, que não te encontro?

António Quadros, Além da Noite, Parceria António Maria Pereira, 1949, p.127

sábado, 6 de novembro de 2010

Sampaio Bruno morreu há 95 anos


"Não é absurdo (digamos: ridículo) conceber que toda esta laboriosa evolução mundial se operou, opera, operará para que o Sr. Fulano saiba bem física e o Sr. Beltrano não tenha segundo no cálculo? [...] Saber por saber é uma espécie de masturbação superior. [...] Porque o desfecho e remate do homem não é gozar-se, repita-se. Se o mundo não existe para que o homem saiba, odioso seria fantasiar que o universo continua subsistindo para que o desfrute o homem. [...] O fim do homem neste mundo é libertar-se a si, libertando os outros seres. [...]"

Sampaio Bruno, A Ideia de Deus, (1902)
Livraria Chardron - Lello & Irmão Editores, pp. 468-469

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Da Literatura Portuguesa

"A interpretação  [fenomenológica] tem em regra o seu ponto de apoio em centro alheio ao movimento intrínseco que a inspira e tende a sobrepor um elemento a todos os outros, coisificando e limitando a pluri-dimensionalidade fenoménica."

António Quadros
"Da Literatura Portuguesa, Ensaio de Interpretação Fenomenológica"
Revista Espiral, nº4/5,  pp 57-71

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Nota à margem

Neste mundo em ruínas, onde não se escuta absolutamente nada, a não ser o silêncio e o "trabalho persistente do caruncho que rói há séculos na madeira e nas almas" (Raul Brandão) com a internet, pelo meio, a mudar-nos o cérebro, é preciso procurar no passado quem nos apazigue o sofrimento e nos salve a alma.

Sabemos como a felicidade e a perfeição dos homens deixou de ser uma utopia, para se tornar num simulacro tão ou mais falso do que o mundo mais utópico que alguma vez a humanidade concebeu. Mas que importância podem os escritores, os artistas e os filósofos ter, se também eles, na sua grande maioria, participam na construção dessa visão, pela conivência com que vivem e pensam este mundo, ora recusando fundamentalistas e obtusos outras formas de se fazer cultura, ora desistindo e entregando-se sem reservas ou autonomia, a bem da fraternidade, a interesses próprios?

Existe no homem, desde há largos anos, a ideia de que a cultura não serve para nada. Em sentido amplo, ou, simplesmente, em sentido restrito, tudo, no que lhe diz respeito, é o mesmo. A cultura é desprezada, quando não absolutamente esquecida. Subsiste ainda entre nós, a sensação de que o mundo se divide em duas partes e, bem vistas as coisas, talvez seja verdade. O fosso está cada maior, mais fundo do que no passado.

Seria de esperar que o mundo das ideias e o outro, tão diferentes entre si, se encontrassem (como quem, depois de ultrapassar as suas fronteiras, encontra do outro lado um inimigo ou apenas algo ou alguém que não conhece) porém, acomodados pelo reconhecimento da mediocridade alheia e assustados pelo desconhecido à sua frente, desprezam-se e recusam, com os meios que têm ao seu alcance, por ignorância ou excesso de sabedoria, a existência do outro nas suas vidas.

Não se conhecem, não se vêem, não sabem que o outro é seu semelhante. E nós, tão indiferentes ao mundo como os outros, cúmplices como eles quanto ao resto, já não sentimos nenhuma estranheza ou vontade.
António Quadros Ferro

terça-feira, 26 de outubro de 2010

António Quadros sobre Delfim Santos

"[...] Delfim Santos é a nosso ver o protagonista de um diálogo fecundo, o diálogo do pensamento português com a filosofia alemã, do qual vieram a resultar uma crítica e uma fundamentação teóricas de grande qualidade, estimulantes em aspetos essenciais para a nossa cultura ou para a nossa criatividade filosóficas. É curioso observar que os primeiros escritos de Delfim Santos, era ainda estudante universitário e nos primeiros anos da sua formatura, isto é, entre 1929 e 1932, foram de natureza espiritualista e cristã, numa linha de pensamento protestante e evangélica, tendo sido publicados, quase todos, na revista portuense, ligada à Igreja Evangélica, intitulada precisamente Portugal Evangélico. Dadas as tradicionais relações da teologia reformada ou protestante com algumas facetas mais características do pensamento germânico, em geral voluntarista e imanentista, não é para admirar que ao contrário da tendência habitual da cultura portuguesa para privilegiar o diálogo com a cultura francesa, Delfim Santos antes tenha escolhido o estágio em centros de estudo predominantemente austríacos e alemães."

António Quadros - "Delfim Santos: Introdução ao pensamento filosófico e pedagógico", Lisboa: Leonardo, Ano 2, num. duplo, set. 1989, 22-29, 91. Artigo completo aqui.

sábado, 23 de outubro de 2010

sobre a liberdade

“[…] Ora só pode entender-se que uma sociedade é verdadeiramente livre ou em potência de liberdade quando os cidadãos atingirem um grau mínimo de autonomia individual, isto é, quando souberem conjugar o seu emprenho pessoal nos interesses superiores da polis com a capacidade de optarem por si próprios, compreendendo a todo o momento o que de fundamental está em jogo e estando aptos a resistir à pressão intelectual que sobres eles é exercida pelo poder ou pelos poderes, através das mil formas de sedução, de propaganda, de manipulação e de «formação», que visam usá-los, por vezes mais do que servi-los.
A liberdade de pensamento é pois a primeira das liberdades e precede-as. Mas a liberdade de pensamento não é um dado natural, é uma difícil conquista, é, digamos, uma iniciação, que parte da descoberta da nossa própria subjectividade e que se desenvolve, escreve Álvaro Ribeiro noutro livro, no trânsito do intelecto passivo para o intelecto activo ou da menoridade intelectual para a maioridade mental. A liberdade do pensamento implica uma iniciação, uma descoberta e também um movimento ineterrupto e de algum modo ascético para o saber.”

António Quadros
Memórias das Origens - Saudades do Futuro
 Publicações Europa-América, 1992, pág. 302
*via cadernos de filosofia extravagante

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Tendências dominantes da filosofia portuguesa no séc. XX

“ […] A questão da filosofia portuguesa, tal como se põe a partir da década de quarenta, encetada por Álvaro Ribeiro na sua obra O Problema da Filosofia Portuguesa, radica, pois, da revalorização dos chamados pensadores de transição […] Não devidamente valorizados no seu tempo, tiveram de esperar duas ou três décadas para serem lidos e considerados como o germe da questão que prioritariamente no ocupa, a questão da filosofia portuguesa. Com efeito, do movimento da reabilitação destes pensadores, da leitura atenta da evolução dos seus escritos, nasce a caracterização mais ou menos sistemática das tendências que presidem ao nosso genuíno modo de filosofar.”

Maria José Cantista, "Tendências dominantes da filosofia portuguesa no séc. XX : algumas achegas acerca da contribuição de José Marinho" in Revista da Faculdade de Letras, Univerdade do Porto, Série de Filosofia, nº 9, (2ª série) 1992, pp 73-101 Continue a ler aqui.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

«Ratos, Camaleões, Rinocerontes, etc. (pequeno estudo zoológico)»

"Modestamente, venho-me dedicando há anos a estudos de zoologia. Sem pretender rivalizar com os grandes investigadores deste ramo científico, resolvo-me todavia hoje a publicar algumas notas, aliás seleccionadas de entre muito material acumulado e que um dia valerá a pena reunir e sistematizar para a posteridade.


Os ratos
Estes pequenos roedores são na realidade tímidos e vulneráveis. Escondem-se durante o dia, mas de noite (assustadiços como são) conseguem alimentar-se de sobejos e detritos, circulando nos forros das casas, nos canos de esgoto, nas lixeiras. Têm um instinto seguro. Quando a casa começa a arder, ei-los que fogem imediatamente em massa, antes de o perigo se tornar mortal. Escolhem então outra casa, outro lar. E de novo irão prosperar à sua maneira tímida e nojenta, em novos forros, em novos canos de esgoto, em novas lixeiras.

Os camaleões
São um fenómeno único de adaptação ao meio ambiente. Ante os riscos que a natureza e o mundo zoológico prodigam, não combatem nem fogem, mudam de cor. Quietos, adquirem por um prodígio inexplicável as tonalidades da vegetação com que procuram confundir-se. Pretos ou vermelhos, verdes ou azuis conforme convenha, qual a sua real identidade, qual a sua cor de origem? Impossível sabê-lo, o que neles é verdadeiro é a mentira das suas mudanças oportunas.

Os rinocerontes
Pesados, pré-históricos, olhos pequenos, investem a direito. São um anacronismo, um regresso ao tempo dos dinossauros. O seu galope assusta. Quem não é por mim é contra mim, parecem dizer.
Perante a investida, muitas das presumíveis vítimas preferem transformar-se, elas próprias, em rinocerontes, e juntar-se à manada pré-histórica. Foi o zoologista iminente Eugénio Ionesco quem pela primeira vez observou este fenómeno, a que chamou rinocerite e que é afinal uma versão activista da passiva camaleonite.

Os carneiros enraivecidos
Depois de abordar a problemática zoológica-transformista da rinocerite, o mestre Ionesco investigou o tema afim da carneirite. Interessou-se especialmente pelos carneiros enraivecidos, parecidos com os rinocerontes em fúria, se com menor majestade, certamente com maior capacidade gregária. Contudo, já se viu um rebanho inteiro de carneiros enraivecidos? Fica em aberto este grande problema. identificados por laços irracionais e emocionais, os carneiros enraivecidos tanto poderiam destruir tudo à sua frente, como precipitar-se de cabeça baixa no abismo. Por isso, mais tarde ou mais cedo há que rarificá-los e integrá-los com as ovelhas - vencê-los pelo número.

As ovelhas
Houve, há e haverá ovelhas. É inevitável a existência beatífica do rebanho de ovelhas, que dominam em geral a agressividade dos carneiros, até pela sua quantidade. Aquecendo-se umas contra as outras, descobrem instintivamente o êxtase da unidade, a que os mal intencionados chamam uniformidade. Bem enquadradas pelos cães de fila, que as conservam juntas, deixam-se conduzir docilmente seja para onde for, pacíficas e alvares; para o pasto, para a tosquia ou para o abate. Aliás, não importa para onde as conduzem. São uns seres cómodos e confiantes. A sua docilidade guiada, vigiada e igualizada é a sua felicidade e a sua segurança- O rebanho é que é o fim.

As aves de rapina
De garras aceradas, descem vertiginosamente das escarpas. Carnívoras, baixam sobre a ovelha incauta e contra elas é impotente o cão de guarda. Organizam-se batidas, mas há sempre inacessíveis ninhos de abutres ou de águias, desconhecidos dos caçadores zelosos. Aves de rapina desaparecem, mas outras continuam, para que não fique perturbado o equilíbrio ecológico.

Os chacais
As grandes feras da selva andam acompanhadas, à distância de bandos de chacais. As grandes feras morrem, outras as substituem, mas os chacais permanecem fiéis ao seu instinto de devoradores cobardes: seja qual for o rei da floresta, eles constituirão a guarda de vassalos aduladores, que dos seus restos se alimentam.

Os porcos
Na pocilga, engordam. Comer é o seu fito. Se o alimento falta, os seu grunhidos lancinantes atroarão o universo inteiro. Quem poderá então resistir a esse coral patético vindo das pocilgas?

Os crocodilos
Durante horas ou anos estiveram imóveis, apagados e anónimos, à espera da sua oportunidade. Súbito, ela chega: e o que parecia um tronco de árvore caído, é de repente uma boca hedionda toda feita de dentes aguçados, que apanha e dilacera o transeunte ingénuo ou distraído.

As formigas
Laboriosas e idênticas, trabalham todo o dia e todo o ano; laboriosas e idênticas, controem o formigueiro, onde repartem entre si o produto do seu incansável labor. A sociedade das formigas é a maravilha fatal da natureza. Complexada, a sociedade humana procura imitá-la, mas sem um verdadeiro êxito. Tanta desordem, no nosso mundo mal planificado, mal programado e mal igualizado. Quando é que os homens conseguirão finalmente expurgar a heresia da personalidade?

Os jovens lobos
Em alcateias, os lobinhos sanguinários (desobedecendo aos seus maiores) atacam quantos se lhe opõem. Matar e devorar o que ainda é vivo e lhes resiste é a sua filosofia barbárica e carnívora. O sangue ardente que lhes corre nas veias, só pode ser aplacado em grandes rituais obscuros de sacrifício. Oiçam-nos que uivam, antes de atacarem a manada de gordos ruminantes. Os velhos lobos recomendam-lhes prudência, moderação, inteligência. Se quiserem um dia ser formigas, têm de aprender a ser menos impulsivos.

Os cães
Há os cães de estimação e há os cães de circo. Há os cães domésticos, que fazem habilidades caseiras, e há os cães de guarda bem treinados, que obedecem cegamente às ordens dos pastores. Há os cães vadios, farejando, famélicos, os caixotes de lixo, e há os cães raivosos, que se vingam de o serem. Há os cães-polícia, prontos a saltar à garganta dos adversários ou dos invasores da propriedade, e há os mastins, babando-se em ódio, que são atiçados, tornados ferozes, lançados contra os homens. Mas a raça dos cães é sempre uma raça dependente e submissa. Guardando as ovelhas ou atirando-se às gargantas, o rosnar dos cães é a voz do seu dono.

Os burros
Espessos e obstinados que sejam, acabam sempre por ser montados. Têm longas orelhas ponteagudas, mas o mal é que não se vê com as orelhas. Ficam na sua, teimosos, porque nada entendem e nada sabem, a não ser de forragens e de pastos. Zurram como vivem: pequenamente, feiamente, estupidamente. Mas têm uma metafísica; a metafísica do coice.

Os papagaios
É na verdade curiosa a predisposição fonética dos papagaios. Basta ensinar-lhes uma palavra, uma palavra sonora, uma palavra fácil, uma palavra de passe, uma palavra de ordem, que eles aprenderão a dizê-la, e a repeti-la, e a voltar a repeti-la até à exaustão. Experimentem fazer a experiência com um grupo de papagaios. É um coro impressionante e convincente, pois dir-se-ia até que sabem o que vocejam ou gritam. Bem treinados, calculem, são capazes de dizer frases inteiras. Mas o seu pensamento rudimentar, nos seus cérebro minúsculos, é apenas fonético. É um eco mecânico, é um reflexo condicionado, é uma voz de papagaio."

António Quadros in A Arte de Continuar Português, Edições Templo, 1978, pp.139-144 (o texto, todavia, é de Maio de 1975)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

da Filosofia

"Nem a filomitia em si própria (o amor dos mitos), nem a filo-epistemia (o amor das ciências), nem sequer a filognosia em geral (o amor da gnose), nem a filopistia (o amor da crença ou da fé) e, muito menos a filotecnia (o amor das técnicas, hoje paixão que tende a anular os primeiros estádios para o saber), podem bastar-se a si próprias, aspirar um estatuto de independência. [...] A alternativa vitoriosa é a vigente: um agir intermédio de ideias feitas, um pensar por estereótipos, uma prática sem teoria, um estarmos fora de nós para não estar em parte alguma, apenas os passivos, dóceis, domesticados, seguidores de ideologias, de doutrinas, de normas ditadas de fora, que nos transformaram pouco a pouco, de povo criador de civilização que fomos, em povo mimético, compensando os seus complexos e recalques com o discurso provinciano da "opção europeia" extrapolada mimeticamente para lá das meras práticas do mercado."

António Quadros, "Álvaro Ribeiro, mestre da geração do 57", in Revista Leonardo (I, nº2) pp. 16-17

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Sartre e o existencialismo vistos por um filósofo católico (de Ismael Quiles e António Quadros)


Índice completo aqui.

Ismael Quiles Sanchez Pedralba, (1906 - 1993) foi um teólogo e filósofo espanhol fortemente influenciado por Martin Heidegger, Gabriel Marcel e Karl Jaspers. Escreveu, entre outras obras, La persona humana (1942), Aristóteles: vida, escritos, doctrina (1944), Filosofía del cristianismo (1944), Heidegger y el existencialismo de la angustia (1948), Sartre y el existencialismo del absurdo (1952), Más allá del existencialismo: filosofía in-sistencial (1958), Metafísica budista (1967), Filosofía y mística: yoga (1967), Filosofía y religión (1985).

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Conferência de António Quadros


Romantismo e misticismo na pintura de Teresa de Saldanha - 1988


"O homem europeu de 1820 herda de 1789 a revolta contra toda a autoridade eclesiástica ou teológica, mas apura o seu liberalismo e projecta-o no plano de uma espécie de religião de natureza transcendental. Aliás, a palavra alemã stimmung, mais do que a palavra sentimento, define com outra precisão o que é a vivência romântica: é, digamos, o estar em simpatia com o outro, e no plano das relações humanas a stimmung só encontra tradução na ideia de comunhão entre “o amador e a coisa amada”. Não é de modo algum despropositado considerar que o amor é a forma suprema do romantismo; a ponte, o elo de ligação entre dois seres, homem e mulher, não é o contrato de casamento, não é a vontade de constituir família, não é sequer a atracção sexual, embora possa também ser tudo isto secundariamente porque é essa espécie de milagre indefinível, pelo qual dois seres distintos, sem razões que como tal possam ser reconhecidas, entram em simpatia, em comunhão, em stimmung. É o que Goethe chamava, e deu o título ao seu famoso romance, as afinidades electivas; trata-se de uma afinidade por assim dizer inata entre dois seres, que, reconhecendo-se, se elegem mutuamente, aspirando a uma fusão completa, como no mito antigo, então de novo em grande voga, de Tristão e Isolda, que segundo Denis de Rougemont é o fundamento do amor no Ocidente. [...]"

Continue a ler aqui.

António Quadros (Por ocasião do 150º aniversário do  nascimento de Madre Teresa Saldanha, 1988, Fundação Calouste Gulbenkian)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

António Quadros, "Uma alma delicada" (Jornal Público, 21-03-2003)

Por Rita Ferro

Fica aquele olhar azul, torturado e amável. Vivia sem paz, mas dava-a: era acima de tudo uma alma delicada. Tinha tiques. Um deles, o de levantar o queixo e o pescoço bem alto sempre que qualquer coisa o preocupava: uma conferência por escrever, um funcionário doente, a reprovação de um neto. Tal como a minha avó, escreveu até cegar. E até depois disso, como ela. É a imagem que dele retenho, mais forte.
Sentado, nos últimos dias, com os papéis espalhados em cima da mesa, lançando àquele romance inacabado um último olhar de angústia: "A Paixão de Fernando P." Guardo essas páginas de prosa quase diáfana, onde a escrita, tão alinhada, parte do centro do papel para a direita - cegara de um olho.
Deixou-se internar pela última vez agarrado a livros.
"Leva a Bíblia, pai?" "Sim", respondeu já vago, "de certa forma". Era o "Húmus", do Raul Brandão, e o "Verbo Escuro", do Pascoaes.
Amigos da casa.

António Quadros, "um missionário da cultura" (Jornal Público, 21-03-03)


Há dez anos, ao raiar do dia, vítima de um tumor cerebral, morria em Lisboa António Quadros, um dos nomes mais emblemáticos da designada filosofia portuguesa e fundador do IADE, Instituto de Artes Visuais, Design e Marketing. Filho de António Ferro e de Fernanda de Castro, António Gabriel de Quadros Ferro nasceu em Lisboa a 14 de Julho de 1923. Amigo pessoal de Salazar e director do Secretariado Nacional de Informação (SNI), o pai insiste que vá para Direito. O jovem António Quadros ainda lá andou um ano. Aborrece-se de morte e muda-se para o lado de lá da Alameda da Universidade, para Letras. Num depoimento dado ao PÚBLICO, em Julho de 1992, justificou o "salto": "O facto de conhecer muitos escritores, de ter uma boa biblioteca influenciou-me... A minha vida fazia-se em cafés, em tertúlias, era muito boémia."A 8 de Dezembro de 1947, casa com Paulina Roquette Ferro, ao mesmo tempo que escreve o seu primeiro livro, "Modernos de Ontem e de Hoje" (ed. Portugália). Desta união teve três filhos: António, Rita e Mafalda Ferro. Um ano depois forma-se em Histórico-Filosóficas, na Faculdade de Letras de Lisboa. A política não o atrairá - nem antes nem depois do 25 de Abril. A veia ensaística prossegue com "Introdução a uma Estética Existencial" (1954, Portugália). À época, de resto, os seus autores de eleição são Sartre, Camus e Merleau-Ponty. Porém, Delfim Santos, que tinha sido seu professor, aponta-lhe outros horizontes - Nietzsche, Kierkegaard, Kafka - e três autores oriundos do personalismo: Bergson, Gabriel Marcel e Jaspers. Pelo caminho, tenta a poesia com "Além da Noite" (1949, Parceria A.M. Pereira), género que retomou três anos depois com "Viagem Desconhecida" (1952, Portugália). Quatro anos depois, aparece "A Angústia do Nosso Tempo e a Crise da Universidade" (1956, Edições Cidade Nova), onde defende a necessidade de uma regeneração da vida cultural portuguesa, na esteira de Leonardo Coimbra e Sampaio Bruno. Ou seja, depois do existencialismo e do personalismo, abraça as ideias da Renascença portuguesa. Ao "Diário de Notícias", em Dezembro de 1991, Quadros justificou o seu novo trilho: "De longe, dos confins do ser português, eles trouxeram o facho, o mesmo que alguns de nós (e eu serei o último dos últimos) queríamos poder levar mais adiante... O espírito português, o espírito universalista português."Os anos 50 são decisivos para Quadros. Conhece Álvaro Ribeiro e José Marinho. Os dois animam uma tertúlia que, regularmente, se reunia no Paladium, Brasileira do Rossio ou na cafeteria Colonial. A seu lado estão nomes como Afonso Botelho, Orlando Vitorino e António Brás Teixeira, entre outros. Às vezes apareciam grandes nomes da poesia portuguesa como Jorge de Sena, Rui Cinnaty, José Régio, José Blanc de Portugal ou Natália Correia. Mas, também, o iconoclasta Almada Negreiros.Em 1958, fica ligado à fundação da Sociedade Portuguesa de Escritores, desmantelada pela PIDE, em 1961, na sequência da atribuição do prémio de literatura a Luandino Vieira. Com Branquinho da Fonseca e Domingos Monteiro, instalou o sistema de Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian. E, em 1969, cria, visionariamente, o IADE, Instituto de Artes Visuais, Design e Marketing. António Quadros multiplica-se, assim, entre a acção a reflexão. Com "Histórias do Tempo de Deus" (1965, Livraria Morais Editores) ganha o Prémio Ricardo Malheiros, da Academia de Ciências de Lisboa, e o Prémio de Novelística da Casa da Imprensa; com "Pedro e o Mágico - Contos para Crianças" (1972, Editorial Notícias), o Prémio Nacional de Literatura Infantil. Dez anos depois, seria a vez de ser atribuído o Prémio de Ensaio do Município de Lisboa a "Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista" (1982-1983, Guimarães Editores). Um dia, Afonso Botelho traçou-lhe outro retrato: "Quadros era o mais dinamizador e o mais produtivo. Mas nunca teve a pretensão de ser chefe-de-fila. Foi sempre um missionário da cultura." Uma missão que só ganharia sentido para António Quadros na incessante interrogação do mistério que era para ele Portugal. Para responder às palavras/questões iniciais de "Portugal - Razão e Mistério" (1986, Guimarães Editores), a obra-síntese de toda a sua obra de António Quadros. O autor planeava fazê-lo em três volumes. Apenas vieram a lume dois. A doença, primeiro, e a morte, depois, impediram-no de cumprir o plano.

Carlos Câmara Leme

sábado, 25 de setembro de 2010

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

António Quadros e a história do design em Portugal

1969

Seria no ensino privado que o ensino do design ia começar verdadeiramente. António Quadros funda o IADE - Instituto de Arte e Decoração. Com a inauguração do Instituto, iniciava-se também o curso de Design de Interiores e Equipamento Geral. Com duração de três anos, esta formação seguia o modelo anglo-saxónico da Arts and Crafts e outros mais vanguardistas como o da Escola Politécnica de Design de Milão. Aqui viriam ensinar muitos estrangeiros, mas também nomes nacionais influentes como Lima de Freitas e António Pedro."

Do desenho ao design, texto de Mariana Monteiro (Revista Máxima Interiores, Dossier: «Cronologia do design português», Setembro, 2010) Continue a ler aqui.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A original perspectiva de António Quadros


"A original perspectiva metodológica, ontológica e axiológica assumida por António Quadros remete-nos [...] não à concepção europeia de filosofia - entendida pela Filosofia Portuguesa como uma discursividade lógica incapaz de realizar o salto entre distintos níveis ontológicos -, mas à ideia de filosofia enquanto arte, duplamente especulativa e operativa, de condução do processo de reintegração final entre o homem e o mundo, pela mediação da palavra divina."

 Símbolo Mito e Filosofia da História no pensamento de António Quadros
 Editora UEL, Universidade Estadual de Londrina, (1997), p. 304

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Entrevista de António Quadros a Álvaro Ribeiro

 "[...] Sentámo-nos e a paragem na continuidade da conversa deu-lhe insensivelmente um outro rumo. Um assunto na ordem do dia, depois da polémica entre José Régio e José-Augusto França, depois do «57» e das tempestades que em sua volta se levantaram, é o dilema - falso dilema, quer-me parecer - entre o nacional e o universal. Pergunto a Álvaro Ribeiro entre dois golos de um refresco:

A.Q: Um dos grandes argumentos - recentemente invocados em afirmações culturais de diversa origem contra a existência de filosofias nacionais e, consequentemente da filosofia portuguesa, é o de que o pensamento é universal... O que diz o Sr. Dr. sobre este tema?

A.R: Compreendo e respeito o ponto de vista, mas não me é possível perfilhá-lo. A simples experiência quotidiana ensina que o universal é recebido pelo espaço e pelo tempo. Além dessas limitações naturais, históricas e geográficas, existem hoje limitações técnicas, artificiais, como o falso ideal de um absurdo humanitarismo abstracto, que alguns querem impor pela força, para substituir o ideal da fraternidade universal. Ora repare que até os irmãos são diferentes.

"O testemunho de Álvaro Ribeiro", in Jornal 57, nº 3-4, p. 7.(Dezembro, 1957)

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

António Telmo (1927-2010)

"A distinção do que é dinâmico e do que é cinemático é essencial." p. 17

"Queremos insinuar que, sem realizar em nós um estado de vivência interna da natureza a partir do qual sentimos a natureza como o Todo Um, como uma serpente mágica que infinitamente se devora a si mesma, e nesse infinito devorar-se, a si mesma se aumenta infinitamente [...], não poderemos transitar da filosofia especulativa para a filosofia operativa. " p.70

"Será a filosofia superior à arte por se apresentar, não como um dom natural ou o exercício dum dom natural, mas como um processo bem determinado de desenvolvimento da intuição latente em todos os homens? Será porque o filósofo, depois de ter produzido a separação, não se perde como os poetas ou os místicos nesse mundo fluídico, mas guarda o poder de regressar com tudo o que lhe foi dado na intuição? Eis um ponto obscuro. [...] Nós preferiríamos [...] referir a filosofia a uma actividade de progressiva consciencialização das formas que actuam no corpo, em graus cada vez mais profundos. [...]"

Facilis descensus Averno;

Noctes atque dies patet atri ianua Ditis;
Sed revocare gradum superasque evadere ad auras,
Hos opus, hic labor est. (*)

*(«...a descida ao Inferno é fácil; noite e dia estão abertas as suas portas: mas regressar, «voltar de novo a ver as estrelas», eis a «grande obra»).

pp.73-74

António Telmo, Arte Poética
 (Teoremas de Teatro, 1963)

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

António Quadros por ele próprio

"[...] O autor pertence ao tipo de navegadores lentos e pacientes, explorando velhos e novos espaços por sua conta e risco. Não sabe construir rapidamente brilhantes catedrais. Não pretende lisonjear as tendências da massa, da multidão, dos ideais dominantes. Não reconhece verdadeiramente adversários em sua volta, porque de todos se sente irmão, na origem da sua actividade, na geratriz da sua energia ao serviço de uma causa. O fio estreito sobre que caminho, a muitos parecerá insatisfatório e frustre. É, porém, o seu fio de Ariadna no labirinto da vida, tal como a pode visionar. Da imperfeição do seu pensar ou da banalidade do que julga descobrir, extasiado, frequentemente, com panoramas que outros já abriram, percorreram, analisaram antes dele - e porventura com mais minúcia [...] não se penitencia, porque o pensar dramático do pesquisador não dá espaço para a penitência: seguir adiante, porque os degraus formados e transpostos estão já queimados, calcinados, aniquilados. A aventura do pensamento - mesmo que só intenção, só desejo, só ideal -, não admite retorno. Nenhum lar, confortável ou árido, o aguarda. Envolto em nevoeiro, ficou para trás o porto de onde partiu. Dele conserva uma recordação, uma saudade, talvez uma herança. [...] Mas o autor, a estas observações, apenas pode replicar, desatento: que caminho, que regresso, que erros, que passado meio esquecido já, é esse? Tudo não foi mais do que a amálgama escaldante, em ebulição, de uma experiência que se concentra no presente, pronta a dar o salto para o futuro. Sensação penosa, dolorosa é, em verdade, para o escritor, reler o que ficou escrito, o que se fixou escrito é a cristalização do imperfeito. No mesmo instante em que termina um livro, relê-lo, é tentado a tudo destruir para recomeçar de novo. O mesmo nos aconteceu, mas compreendemos que recomeçar de novo seria recomeçar eternamente de novo, num ritmo infindável e destrutivo. Por isso, aqui damos esta obra ao leitor com todas as suas imperfeições e, até, com o excesso da sua ambição. Ensaiando uma busca que se nos tornou imperiosa, vamos criando, ao mesmo tempo, uma forma de ser, de estar e de agir, que esperamos possa ultrapassar os limites da subjectividade. [...] Iniciemos, pois, a nossa multiforme investigação agente."

António Quadros, O Movimento do Homem,
 Sociedade de Expansão Cultural (1963) pp. 18-19

domingo, 29 de agosto de 2010

ainda sobre o artigo de Miguel Real (Jornal de Letras, 1041)

"[...] apenas uma possibilidade, não, de modo algum, uma inevitabilidade, nem sequer, muito menos, uma obrigação. Não se trata aqui, com efeito, de instituir um “serviço filosófico obrigatório” de forma a garantir a existência da “filosofia portuguesa”. Esta existirá apenas enquanto existir pelo menos uma pessoa que, de forma inteiramente livre, se assuma na dupla condição de “filósofo” e de “português”. Que cada um de nós dê pois, se quiser, o passo em frente…" Renato Epifânio. Continue a ler aqui.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A propósito do estado de saúde da Filosofia Portuguesa

"[...] Por muito que a alguns possa custar, pôr entre comas a Filosofia Portuguesa, como ontem o fez Real, não permite, de modo nenhum, significar que ela esteja comatosa (ou moribunda, ou defunta). Nem o seu estado de saúde pode, de resto, relevar do concerto enfatuado de umas quantas vontades. Nisto, como em tudo na vida, vale o velho dito de sabor judaico que manda conhecer as árvores pelos frutos. A colheita é sempre, e só, no futuro – e o mais é com Deus, verdades que desconheço se Miguel Real estará em condições de aceitar. " Pedro Martins. Continue a ler aqui.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

António Telmo sobre Marinho e Ribeiro

-António Telmo é considerado discípulo de Álvaro Ribeiro e de José Marinho. Como é a sua relação com a chamada Filosofia Portuguesa e que influência recebeu daqueles pensadores?

Devo-lhes tudo. Nós todos pertencíamos a esse grupo, mas em vez de um Mestre, como é costume, tínhamos dois. E os dois entendiam-se, olhavam para a mesma estrela mas os caminhos não eram os mesmos. Então aquilo fazia com que nós tivéssemos que estar sempre a ligar um ao outro, a ver como a coisa se ligava ou como se separava e isso exigia uma agilidade mental que se ia desenvolvendo até com o convívio, com o convívio com eles. Enquanto que o José Marinho falava muito, o Álvaro Ribeiro falava muito pouco, e tudo isso nos colocava num ambiente de grande veracidade. Todas aquelas coisas que preocupam os adolescentes, o amor e a relação com Deus, tudo isso aprendi ali com eles. Aprendi a clarificar a minha posição perante a Igreja, perante a Maçonaria, perante a política, e escrevi os meus livros. Embora os meus livros sejam originais porque não seguem nenhum deles, seguem… olhando também para a mesma estrela.

De uma entrevista de Américo Rodrigues a António Telmo para a Revista Praça Velha.

Homenagem a António Telmo


António Telmo, falecido no passado dia 21 de Agosto, será homenageado no dia 16 de Setembro, na Biblioteca Nacional, com a apresentação da obra O Portugal de António Telmo, organizada por Rodrigo Sobral Cunha, Renato Epifânio e Pedro Sinde. Participam ainda na sessão Miguel Real e Jesué Pinharanda Gomes. Mais informações aqui.

domingo, 22 de agosto de 2010

António Telmo 1927-2010

"Para o espírito que nega, se a demência for conseguida tudo o mais virá por acréscimo e consequência. É falso que o homem moderno viva em inquietação. Tornou-se indiferente ao que de monstruoso se vai produzindo, ao crime que perverte a natureza, a todas as formas de homogeneização que lhe destroem a individualidade. " António Telmo

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Fernanda de Castro

Leitura de poemas de Fernanda de Castro dia 29 no Café Progresso (Porto) pelas 21:30. Mais informações aqui.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Homenagem a António Quadros (14 de Julho de 2010)

"Para mim, hoje, António Quadros representa, acima de tudo, a saudade de uma grande amizade, de um longo convívio e de uma comunhão de ideais patrióticos e espirituais, de uma luta comum pelo reconhecimento do significado e valor da filosofia e da cultura portuguesas e luso-brasileira, pela actualização de fecunda, embora encoberta, ignorada e esquecida tradição cultural. Na data em que completaria 87 anos, recordo também o homem bom, desinteressado e corajoso, que se entregou, com a razão e o coração, a um ideal espiritual superior e cuja obra é, cada vez mais, reconhecida pela sua rica e múltipla originalidade, aberta compreensão e subtil inteligência hermenêutica."

António Braz Teixeira

"Ler António Quadros foi uma revelação. Conhecer António Quadros tornou-se uma descoberta permanente. Conversar com António Quadros era um encanto superlativo e intemporal. Rememorar António Quadros é deixar-nos invadir pela saudade, mas é também uma oportunidade de o celebrar. António Quadros marcou gerações sucessivas com uma cultura enciclopédica – sobretudo dos clássicos que "tratava por tu" –, com um inefável Amor a Portugal, com uma arguta percepção da peregrinação lusíada pelo mundo, com uma densidade comunicacional simples, mas profunda. Hoje, mais do que em qualquer outra época da nossa contemporaneidade recente, que falta nos faz António Quadros!

Roberto Carneiro

[newsletter nº 13, Julho de 2010, Fundação António Quadros]

quarta-feira, 21 de julho de 2010

11 de Novembro

"Veio o médico de serviço. Veio a irmã Eugénia, solícita, bondosa, passando-me a mão sobre a fronte. Vieram enfermeiros. Foi uma agitação ruidosa e insuportável. Conduziram-me de maca até à enfermaria. Deram-me não sei que pílulas, atarefaram-se em meu redor. Trouxeram-me de novo para o quarto e deitaram-me. Melhorei, um pouco pelo menos, e a dor fortíssima desapareceu, ficando só a mesma pressão sobre o peito. Sinto-me agoniado. Vou morrer? Vou morrer? [...] Pensar, lembrar, as duas dores confundem-se-me, a dor dos meus ideais abatidos (e todavia resistentes) e a dor desta opressão que me sufoca [...] Lembro-me do que me disseste, há muitos anos, na minha visita à Holanda quando exilado de Portugal. Ah! A hora primeira! Quando com assombro se descobre que não há margem para dúvidas! Quando se chega a de onde não se pode voltar! O que se encontra, meu Deus!
Foste arrepiantemente premunitório. O que se encontra? Um quarto de hospital, um cheiro a desinfectantes, a comiseração das pessoas que nos olham como se já não estivéssemos cá, as últimas despedidas, a visita de uma amiga querida mas logo saudosa, as más recordações, um olhar para trás e perceber que tudo passou velozmente e não aproveitámos o nosso tempo, um reviver os nossos erros e um menosprezar dos nossos possíveis acertos. Olhamos para dentro de nós e apercebemo-nos que fomos pouca coisa, de que somos pouca coisa. Escrevemos livros, sobretudo um livro, montámos toda uma teoria de respostas satisfatórias para as nossas mais fundas interrogações, julgámo-nos senhores de um saber superior ao da maioria dos nossos amigos ou contemporâneos, mas sempre a mesma pergunta contundente e inevitável. O que se encontra, meu Deus?"
António Quadros
Uma Frescura de Asas, Europress (1990) pp. 114-115

Helena

"[...] A que eu julgara ter morrido no meu coração como eu teria morrido no dela, a que eu magoara, a que sobrevivera à minha fuga lamentável estava agora comigo, apertando naturalmente a minha mão, acarinhando-a e tratando-me de novo [...] pelo meu nome próprio. As nossas mãos acomodaram-se, a minha palma e os meus dedos calejados de escritor e jornalista, a suavidade feminina da sua pele, que o manuseio dos livros e as lidas da casa não tinham conseguido desfrear. Eu desejava-a, sim desejava-a. Perguntarás, atónito: como, agora, assim, tu, velho filósofo doente? Uma alegria. Uma dor. Um querê-la absurdamente, quando sabia que nunca a poderia ter. Mas uma consolação. Eu vivia. Não ousámos sequer sorrir-nos. Quase embaciados os seus olhos, mas conseguiu dominar-se...Eu vivia, vivia uma vida de homem. Não era capaz de dizer mais do que: - Helena, Helena..."

António Quadros
Uma Frescura de Asas, Europress (1990) pp. 95-96

Dobrado sobre a grande máquina

“Marinho era o contemplador do número, do espírito recôndito, na experiencia anagógica da visão unívoca. Mas Álvaro Ribeiro era o operário de Deus, o trabalhador que, dobrado sobre a grande máquina do mundo e sobre o formigueiro dos homens, tentava fazê-los mover, arrolando cada um de nós para uma função própria e levando-nos as instruções deixadas pelo fabricante de origem. A cada pensador português, o seu poeta. Se Junqueiro para Bruno, Antero para Sérgio, Pascoaes para Leonardo e Marinho, Pessoa para Agostinho, o poeta de Álvaro Ribeiro era José Régio […]”
António Quadros
Memórias das Origens Saudades do Futuro,
Publicações Europa-América (1992) p. 318

quarta-feira, 14 de julho de 2010

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Da unidade do infinito no perfeito

"Não é absurdo (digamos: ridículo) conceber que toda esta laboriosa evolução mundial se operou, opera, operará para que o Sr. Fulano saiba bem física e o Sr. Beltrano não tenha segundo no cálculo? [...] Saber por saber é uma espécie de masturbação superior. [...] Porque o desfecho e remate do homem não é gozar-se, repita-se. Se o mundo não existe para que o homem saiba, odioso seria fantasiar que o universo continua subsistindo para que o desfrute o homem. [...] O fim do homem neste mundo é libertar-se a si, libertando os outros seres. [...]"

Sampaio Bruno, A Ideia de Deus, (1902)
Livraria Chardron - Lello & Irmão, Editores, pp. 468-469

terça-feira, 29 de junho de 2010

António Quadros sobre António Manuel Couto Viana (1923-2010)

"[...] Sem ambiguidades, Couto Viana vê o 25 de Abril e o período subsequente como a época da catástrofe, que precipitou o país para a decadência e para a proximidade da morte. Sem ambiguidades, afirma-se nacionalista, sebastianista e monárquico. Mas é chegado o momento, cremos, de os adversários e os oponentes se ouvirem uns aos outros. Uma voz como a de António Manuel Couto Viana tem de contar para a força das coisas porque exprime, mais do que a sua própria emotividade pessoal, os ecos de uma profunda vivência nacional, silenciada ou reprimida que seja pelos ideais convencionais hoje dominantes, embora já não tão seguros de si e dos seus dogmas. [...] Em poucos líricos como em Couto Viana, é tão punjente a dor por algo que se perdeu, menos do nosso passado, do que do nosso futuro."

António Quadros,
"António Manuel Couto Viana Entre o desespero e a esperança apesar de tudo"
 in A Ideia de Portugal na Literatura Portuguesa dos últimos 100 anos, pp. 225-228

[António Manuel Couto Viana nasceu em Viana do Castelo em 1923 e morreu em Lisboa em 2010. Fez parte da redacção da revista Tempo Presente e dirigiu a revista Graal. Para além de poeta, foi também ensaísta, contista, dramaturgo e encenador. Autor de uma obra extensa e diversificada, Couto Viana publicou, entre outras obras, O Coração e a Espada (1951), Marcha Solar (1959), A Rosa Sibilina (1960), Pátria Exausta (1971), Raiz da Lágrima (1973) Nado Nada (1977) Ponto de Não Regresso (1982), etc.]

Palavras de António Telmo

"António Quadros era um espírito superior. No horóscopo que dele fez Vasco da Gama Rodrigues, o signo de Câncer na segunda casa está povoado de estrelas todas juntas olhando o recém-nascido. A Lua no seu domicílio domina o céu. António Quadros não gostou do horóscopo, viu com incómodo que ele o caracterizava como um espírito lunar. E não se libertou desse desgosto mesmo quando outros astrólogos lhe lembraram que a Lua é o espelho do Sol e lhe mostraram que a conjugação de tantos astros no mesmo lugar do horóscopo era o sinal de um destino superior. Morreu exactamente na hora em que teve início a Primavera de 1993, ali onde a roda do tempo recebe o impulso que o liberta do nocturno Inverno. [...]"
António Telmo
Sabatina de Estudos da Obra de António Quadros (Colóquio)
Fundação Lusíada, 1995

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Nações terrestres e nações marítimas

"[...] Neste passo do nosso caminho parece adquirir grande pertinência a destrinça, por António Quadros operada no primeiro livro de Portugal, Razão e Mistério, entre nações terrestres e nações marítimas, num quadro elementar, simbólico de determinações ideais, que admite matizes e abarca igualmente as nações voláteis e as nações ígneas.

Na visão de Quadros – que, em certa medida, se revela tributária dos ensinamentos de Gaston Bachelard –, a predominância do elemento terra relaciona-se com “a radicação telúrica do homem, com os mitos e rituais de fertilidade nas civilizações agrárias, com a poética da paisagem e das raízes” [...]"
Pedro Martins, aqui

terça-feira, 22 de junho de 2010

Memórias de um letrado

"[...] Efectivamente, se a política está, ou deve estar, subordinada à filosofia, conforme ficou para sempre estabelecido por Aristóteles, ser-me-ia lícito e fácil inferir que a política portuguesa pressupõe, ou deve pressupor, uma filosofia portuguesa. [...] Ciente dos meus limites, nunca respondi à crítica infalível dos opositores malévolos. Respeito e defendo a liberdade de opinião; não gosto de dizer palavras desagradáveis às pessoas; espero a hora da justiça pela distinção entre o Mal e o Bem. [...]
Tudo o que é português - o pensamento, o conhecimento, o procedimento - passou a ser aferido e pautado pelos lineamentos internacionais que os estados mais fortes propunham ou impunham aos povos subdesenvolvidos. [...] O homem português deixara de pensar por si próprio, e descera àquela menoridade mental que convém à influência dos jornais, das revistas e dos livros que propagam e divulgam as certezas instantâneas da conservação social."

Álvaro Ribeiro,
Memórias de Um Letrado (1980) vol. 3.
Fotografia: BNP

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Invenção e Loucura

"Num ambiente social de poetas líricos, senão em valor absoluto, pelo menos com o valor da quantidade, raros são os que amadoreceram a noção do inconsciente individual e que assumiram toda a riqueza substancial e quase infinita do seu conteúdo, já na exegese, já na própria expressão poética. Ainda há quem explique o conceito de poesia pelo conceito de mistério, assim lhe conferindo abusivamente o carácter de uma religião: e não apenas de uma religião, de uma religião de dogma, cujo ritual se fundamentasse, não numa filosofia teológica, mas numa teologia dogmática onde o valor de mistério não pudesse, sequer, se posto em causa. [...] Confortado no seu apressado e espontâneo labor pela convicção do dito mistério, eis que o jovem poeta se põe a cantar, isto é, a falar uma linguagem de rimas, de metros, de palavras incomuns, de imagens alegóricas. Alimenta ele a convicção de que será visitado, misteriosamente, pelo génio poético, pelo génio da invenção, por esse génio subtil e invisível que, misteriosamente, assistiria cada poeta. [pelo contrário] o grande poeta é um homem que assume sobre si a representação de um desiquilibrio psíquico em relação aos outros homens. [...] Em verdade, em sua poética, ele procura comportar-se como inconsciente, na convicção que nos dará assim uma imagem, senão mais lógica e sensata, pelo menos mais verdadeira do mundo. Uma vez entrado nesta zona, que é a zona legítima da invenção, da partogénese criadora, o poeta pode comportar-se de duas formas: ou consciencializar e racionalizar, numa segunda instância todos os seus inconscientes e irracionais [...] ou abandonar-se inteiramente ao delírio do conhecimento inconsciente, relegando para um plano inferior o funcionamento racional. [...]"

António Quadros
A Existência Literária, Sociedade de Expansão Cultural (1959) pp. 81-82

quinta-feira, 17 de junho de 2010

O mistério do duplo movimento

"Somos razões mediadoras e inspiradas: a realidade dos nossos fracassos e também das nossas vitórias é uma prova de liberdade. Se o mistério do movimento de primeira instância, absoluto ou relativo, nos fala de uma liberdade inefável, a fenomenologia do movimento de segunda instância fala-nos de uma liverdade humana conceptuável e projectável. Assim, à luz do duplo movimento, transcendente e histórico, se conciliam liberdade e livre arbítrio. Deus precisa dos homens, como os homens precisam de Deus. A Unidade inicia misteriosamente a pluralidade, mas atribui-lhe o movimento para a evolução, no termo escatológico da qual estará porventura uma outra Unidade."
António Quadros
O Movimento do Homem (1963)
Sociedade de Expansão Cultural

terça-feira, 15 de junho de 2010

Uma oficina é um templo

"4 - Deus não exige de nós nenhum culto; prestamos a nossa homenagem a Deus, entramos em contacto pleno com o Universo, quando desenvolvemos a nossa Inteligência e o nosso Amor: um laboratório, uma biblioteca são templos de Deus; uma escola é um templo de Deus; uma oficina é um templo de Deus; um homem é um templo de Deus, e o mais belo de todos. Todos podemos ser sacerdotes, porque todos temos capacidades de Inteligência e de Amor; e praticamos o mais elevado dos cultos a Deus quando propagamos a cultura, o que significa o derrubamento de todas as barreiras que se opõem ao Espírito. Estão ainda longe de Deus, de uma visão ampla de Deus, os que fazem consistir o seu culto em palavras e ritos; mas dos que subirem mais alto não pode haver outra atitude senão a de os ajudar a transpor o longo caminho que ainda têm diante. Ninguém reprovará o seu irmão por ele ser o que é; mas com paciência e persistência, com inteligência e com amor, procurará levá-lo ao nível mais alto. [...]" O resto aqui.
Doutrina Cristã
Agostinho da Silva (1941) edição do autor

Estão à venda na Fundação António Quadros (livraria online)

quinta-feira, 10 de junho de 2010

O sendo e o sido na Filosofia da História

"Uma verdadeira teoria do conhecimento histórico procura, pois, não o dever ser social em ordem a uma dialéctica classista em nome da qual escolhe e ordena os factos, mas o ser do homem, na sua integralidade, entre constante conotação entre o sido que até nós chega e o sendo que vivencialmente experimentamos, contemplamos e analisamos. Tal como o conhecimento do outro não prescinde do conhecimento do eu, também o conhecimento do passado não dispensa o conhecimento do presente, que representa, na ordem temporal, o eu, até porque o presente não é um momento cronológico abstracto, mas sim o presente vivido pelo historiador. O sido é captado pelo sendo não tanto em termos dialécticos como em termos dinâmicos, porque o tempo não tem rupturas e o desfecho da história passada está sendo, continuamente está sendo, numa impossibilidade de detenção ou cristalização que desespera os sistematizadores de detenção ou cristalização de unidades bio-históricas à Spengler. O resultado dos movimentos do passado sou eu que os meço, e meço-os em mim, porque o meu dinamismo prospectivo e futurante corresponde exactamente, de uma forma irredutível a conceitos rígidos, à incompletude de tais movimentos. [...]"
António Quadros
Introdução à Filosofia da História
Editorial Verbo, 1982, p.64

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O Franco-Atirador


"Que é o franco atirador? Que significa a analogia? O franco-atirador é um homem que não faz parte dos exércitos regulares. Não é um mobilizado e não é um mercenário. É um homem que não anda com as massas, com os partidos e com os grupos de pressão. É um homem da terra, um homem que ama a sua terra, um homem cujo sentido de justiça e cuja ânsia de liberdade não obedecem a receitas, a slogans, a palavras de ordem. É um homem de paz, também. Um homem de paz não é um homem incapaz de combater: é um homem que só pega na sua espingarda quando vê ameaçadas aquelas coisas que ama e são as razões de ser da sua vida. Acusam o franco-atirador de ser um individualista, um solitário, um homem de perigosas iniciativas. Isto é capaz de ser verdade. Mas a opção contrária envolve um risco ainda maior. As pessoas começam por se juntar para uma grande acção solidária, para um empenhamento colectivo, e a certa altura dão por si, como escravos, a trabalhar contra a sua própria consciência - ou com ela tão adormecida já que os seus actos são automáticos, sem liberdade e sem verdade. Porque o fosso se tornou imenso, entre a base e a cúpula, entre os militantes e os chefes? Porque a psicologia das massas exige o adormecimento progressivo da consciência? Porque as ideias ou as ideologias são agora simplesmente estandartes, emblemas, muletas para amparar o vazio?  Há muitas razões, porventura todas elas verdadeiras. Mas acentue-se: nenhuma acção social, nenhum empreendimento, nenhuma ideologia grupal podem dispensar a iniciativa solitária e estimulante do franco-atirador, que representa por vezes, no plano social, a voz da consciência crítica, vigilante e independente. Ele é o homem que não vê muito bem para qual dos exércitos aponta a sua espingarda, porque só lhe importa afastar a gente que pisa a sua terra, que destrói as suas colheitas, que troça das suas verdades, que degrada os seus valores. [...] Os franco-atiradores são os homens que vêm lembrar-nos que somos ainda pessoas. [...] Aos franco-atiradores, sejam eles quem forem e estejam eles onde estiverem, que não poderei emular senão muito imperfeitamente, mas cujo exemplo brilha diante do meu espírito como vivo incitamento a um empenhamento existencial tanto mais profundo quanto mais autónomo, tanto mais social quanto mais pessoal, tanto mais crítico quanto mais esperançoso. [...]"
António Quadros,
O Franco-Atirador, 1970,  pp.9-11, Edições Espiral

segunda-feira, 7 de junho de 2010

O sebastianismo na obra de António Quadros

O Iade Chiado Center organiza no próximo dia 8, às 21h30, no Chiado, uma tertúlia sobre António Quadros. Rodrigo Cunha é o orador convidado. Mais informações aqui.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Rodrigo Sobral Cunha sobre «A Via Lusófona» de Renato Epifânio

"Ao contrário do que julgam aqueles que se encontram submersos na barbárie solipsista ou na barbárie do colectivismo uniforme, este livro de Renato Epifânio não é o diário de bordo de um navegador solitário: antes nele se encontram, como o vaivém das ondas, as notas de quem voga sobre esse murmúrio luso das águas que une quanto no tempo e no espaço parece separado. [...] " Continue a ler aqui.

notas sobre A Ideia de Deus


"À concepção de Amorim Viana, de um Deus todo luz e bem, que excluiria todo o negativo, o mal e as trevas, meras aparências enganadoras às quais nenhuma realidade essencial corresponderia, produto da deficiente visão humana, vai Sampaio Bruno opor, depois de pertinaz crítica, uma metafísica e uma teodiceia de sinal contrário, segundo as quais noções positivas seriam a fealdade, o erro e o mal e não a beleza, a verdade e o bem, e a origem do mal estaria no próprio Deus e na sua queda. [...]"

António Braz Teixeira
Deus, o Mal e a Saudade, Fundação Lusíada, (1993), pp. 66-67

sábado, 29 de maio de 2010

Convergências e Afinidades

"Julgo ter sido António Quadros (1923-1993) o primeiro que, em Portugal, chamou a atenção para os profundos e significativos paralelismos entre o pensamento, a cultura e a religiosidade russos e portugueses, de modo mais evidente a partir do Iluminismo.
Tendo visitado Moscovo e Sampetersbugo no final da década de 60 do século passado, o pensador português, no volume de impressões de viagem que então publicou, intitulado Uma Viagem à Rússia (1969), e, de forma mais desenvolvida e aprofundada, num extenso ensaio integrado no livro Ficção e Espírito, editado dois anos depois, não só chamou a atenção para o decisivo e invulgar relevo que, na espiritualidade dos dois povos extremos da Europa, assume o culto da Virgem Maria e do Espírito Santo, como estabeleceu oportuno paralelismo entre o pensamento iluminista que inspirou Pedro, o Grande, na edificação de Sampetersburgo, e o Marquês de Pombal, na reconstrução de Lisboa, e apontou flagrantes semelhanças entre a atitude cultural de Puskine (1799-1837) e a de Garrett (1799-1854) e a inspiração popular da renovação romântica que protagonizaram nas respectivas culturas, as profundas afinidades entre a criação romanesca de Raul Brandão (1867-1930) e as de Gogol e Dostoievski e entre teurgias de Soloviev (1853-1900) e de Sampaio Bruno (1857-1915) e as filosofias criacionistas de Berdiaev (1874-1948) e de Leonardo Coimbra (1883-1936), podendo ainda ter referido a séria consideração que o pensamento paradoxal de Chestov (1866-1938) mereceu de filósofos como Vieira de Almeida (1888-1962), Sant’ Anna Dionísio (1902-1991) e José Marinho (1904-1975), bem como a confluência ou anologia entre o paracletismo de Agostinho da Silva (1906-1994) e a doutrina da Sophia de Sergei Bulgakov (1871-1994), pensador cuja filosofia religiosa foi também objecto de compreensiva valorização por parte de Álvaro Ribeiro (1905-1981), tradutor de Soloviev. […]”

António Braz Teixeira
Convergências e afinidades entre o Pensamento Português e o Pensamento Russo (1874-1936)
[Comunicação apresentada à Classe de Letras na sessão de 24 de Abril de 2003]

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Quem acompanha a pedalada?

"[....] Procurando embora as grandes sínteses, António Quadros tem agigantado uma obra que acaba por prejudicar, pela extensão, aquele primeiro e último desiderato. A sua capacidade de trabalho e de produção intelectual parecem não de um só indivíduo, mas de uma equipa (e talvez o segredo esteja no subconsciente nacional colectivo...). No entanto, torna-se imperioso ao leitor português acompanhar tão ágil pedalada. E não sei quantas cabeças, hoje, neste país, manicómio em autogestão, terão cabeça para isso.
O que explica talvez o silêncio em volta. Tendo a maior parte dos seus livros um desafio polémico, ninguém no entanto se atreve a responder, quando se trata de analisar tão grande mole de hipóteses e teses. Arruma-se o assunto com um rótulo pejorativo, como já se arrumara, por exemplo, o Sérgio com outro rótulo pejorativo. É destino dos pensadores polémicos, neste Pais, ladrarem no deserto. [...]"
Afonso Cautela
Jornal «A Capital», secção Livros na Mão,
16 de Setembro de 1989

A Rosa Mística (Conto)

"Escrevo estas linhas porque não quero partir sem deixar algum sinal, mesmo imperceptível, da minha passagem. Quem vai lê-las? Interroguei-me longamente e agora prefiro deixar em branco esse aspecto da questão. É possível que seja um funcionário da justiça, um burocrata, um homenzinho de veste cinzenta, de cara cinzenta e de alma cinzenta. Não me admirava que, por malas-artes, este meu primeiro e último escrito fosse desembocar na secretária atulhada de algum jornalista profissional. [...] O eco, o eco mesmo pálido e vago, mesmo mínimo que as minhas palavras possam provocar em alguém, é o meu único testamento. Deixo mais do que dinheiro, creio bem. Deixo a minha frustração e a minha esperança em algumas páginas sujas de tinta. Deixo uma vida inteira em sua essência. [...] E se, impiedoso e cego até final o destino soprar as folhas que escrevi aos quatro ventos? Creiam, é neste momento a minha maior angústia. Tudo teria sido em vão e acaso poder-se-ia concluir que Deus não existe, nem qualquer outro poder semelhante, nem sequer uma força criadora, majestosa e absurda? Julgo, porém, que as coisas não sucedem sem motivo e, embora há muito tenha deixado de reverenciar esse Deus feito e concebido à imagem e semelhança dos homens (quando dizem ser o contrário), encontro em mim neste instante decisivo um grande amor por quem me conferiu uma existência tão frágil e desnecessária, mas me permitiu, no entanto, este assomo último de homem, este preito à vida que, sei-o bem, vai ser interpretado exactamente ao invés. [...]"
António Quadros
Anjo Branco, Anjo Negro, (1973)
Parceria A.M. Pereira pp. 59-60

quarta-feira, 26 de maio de 2010

O amor de Deus pelas criaturas

"Se o amor de Deus pelas criaturas se não individualiza para com estas, a noção de Providência perde-se no conceito indiferente da finalidade genérica. O arranjo universal do existente, em sua ordem e harmonia, não dá mais do que o andamento regular e sistematizado do conjunto; mas toda a carinhosa protecção dum pai para com seus filhos esvai-se; somos cidadãos duma república sob o inflexível império da lei, que é igual para todos. A misericórdia suma, pela via das advertências, dos cuidados, das repressões e das redenções, volve ao nada. [...]"
Sampaio Bruno
A Ideia de Deus, Lello & Irmãos - Editores, 1987, p. 306

A propósito do texto em baixo

"[...] Ah! Adivinho-te a nova curiosidade. Prevejo-te a perguntar-me: - Mas porquê, e para quê, da intimidade das quentes confissões, amarfanhada arrastaste a confidência melindrosa até à barra glacial da indiferença pública? Porquê?
 Pois, na verdade, redargo, não atendeste em que falei daquele meu livro, má coisa, publicado em 1874?! Eu consagrei esse livro à memória de meu pai, falecido a 23 de Fevereiro. Com efeito, era, em parte, o reflexo do ensino que ele me ministrara contra as superstições, e aí estava bem. Mas excedi-o pela vilta de ímpias audácias. E aí não podia estar pior.[...]"
Sampaio Bruno
A Ideia de Deus, Lello & Irmãos - Editores, 1987, p. 34

terça-feira, 25 de maio de 2010

Da análise da crença cristã

"[...] Agora cumpre-nos tão somente declarar bem alto que o cristianismo é uma religião obsoleta, anacrónica, moribunda; uma religião que assenta sobre os cadáveres dos desgraçados, sobre as ossadas denegridas dos queimados vivos. Sim! Uma religião que, depois de mentir à razão e à consciência pelos seus dogmas estultos, pelos seus livres santos, pelas suas doutrinas canónicas, acende fogueiras e levanta forcas, queima em Espanha, trucida em França, delira satanicamente em Roma, uma religião, cujos textos servem assim os padres, uma religião que aspira à catolicidade, à suprema, ao despotismo, é uma religião toda humana, com os nossos vícios e paixões, com a nossa cólera e o nosso furor, é uma religião verdadeiramente infame. [...] Quando o povo pensar, compreenderá tão bem os seus deveres morais e eis que eu já não sou destruidor de todo o edifício social. [...] Querer que o cristianismo seja a religião do futuro seria querer que ontem fosse hoje. Seria um não senso e uma blasfémia. [...]"
Sampaio Bruno,
Analyse da Crença Christã, (1874)
Typ. de Arthur José de Sousa, Porto, pp.311-312

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Da Felicidade

"Não creio que se possa definir o homem como um animal cuja característica ou cujo último fim seja o de viver feliz, embora considere que nele seja essencial o viver alegre. O que é próprio do homem na sua forma mais alta é superar o conceito de felicidade, tornar-se como que indiferente a ser ou não feliz e ver até o que pode vir do obstáculo exactamente como melhor meio para que possa desferir voo. Creio que a mais perfeita das combinações seria a do homem que, visto por todos, inclusive por si próprio, como infeliz, conseguisse fazer de sua infelicidade um motivo daquela alegria serena que o leva a interessar-se por tudo quanto existe, a amar todos os homens, apesar do que possa combater, e é mais difícil amar no combate que na paz, e sobretudo conservar perante o que vem de Deus a atitude de obediência ou melhor, de disponibilidade, de quem finalmente entendeu as estruturas da vida."
Agostinho da Silva
Aproximações
Guimarães Editores, (1960) p.51