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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

A existência é a essência


"Não é típica do existencialismo (...) a negação da essência, do absoluto, do que transcende a finitude e a multiplicidade do mundo quotidiano. Asseverando que a existência precede a essência ou até que a existência é a essência, quer o pensamento existencialista dar categoria metafísica às formas da vida opulenta e vária em que os humanos se inserem. Se um caminho se pode traçar do imanente para o transcendente, tal caminho desenvolve-se necessariamente a partir do existente como tal. Derivadamente lhes pareceu que, de entre todas as faculdades humanas, é o sentimento a que assinala uma relação mais natural, espontânea e imediata com o devir existencial. (...)"

António Quadros 
"A Cultura Portuguesa perante o Existencialismo" 
em Sartre e o Existencialismo de Ismael Quiles, Arcádia, (1959), p.20

Mais aqui.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Ser português é uma filosofia

"Compreendi que, para pensar a existência, devia assumir e desposar os modos de existência que me eram próximos e palpáveis. Ser português era a categoria metafísica da minha raiz. A partir daqui cresceria a minha árvore ou outra opção não teria senão o destino de líricos ou historiadores que vem sendo fado de tantos dos que entre nós se dedicam ao pensamento.
(...) Ser português é, desde logo, uma forma de comunicação do homem com o mundo. Ser português é um pensamento. (...) É uma filosofia. (...)"

António Quadros
"A Cultura Portuguesa perante o Existencialismo"
em Sartre e o Existencialismo de Ismael Quiles
(Arcádia, 1959), pp. 30-31

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Burocracia, vacuidade e historicismo

"Difícil se torna exprimir hoje, passados já dez, doze anos, o que para mim representou, como iniciação cultural, a descoberta dos movimentos convergentes da fenomenologia e do existencialismo. Saía por essa altura da Faculdade de Letras de Lisboa, então instalada no velho e poeirento edifício da Academia de Ciências, e lia com avidez as obras de Sartre. Na Faculdade nada me propiciara em tal direcção, a não ser a ausência de qualquer direcção. Posso dizer que, se alguma mola propulsora encontrei no então Curso de Ciências Histórico-Filosóficas, foi a absoluta consciência do vazio espiritual que a inconsciência desse vazio nos mestres amargamente me sugeriu. No plano moral, é certo que a humilhação das lições dogmáticas, dos exames mnemónicos e da total incapacidade para encontrar, tocar, abrir as virtualidades originais de cada aluno me deu grandes reservas de força anímica para começar enfim a minha preparação intelectual, uma vez obtido, depois de vários vexames, o almejado diploma de curso superior - um documento burocrático com fins burocráticos e nada mais. Fui sem dúvida dos mais obscuros alunos da faculdade e, após incidentes como a pública manifestação de desconfiança por parte do presidente de júri de licenciatura, ilustre professor catedrático, quanto a ter sido eu realmente o autor da tese apresentada, muito admirado fiquei quando recebi a notícia da minha absolvição, isto é, da minha aprovação, embora com modesta nota. Por que me dera o ensino filosófico da nossa Universidade tão abismal sensação de vacuidade, de inutilidade? (...) O que repelira desde o início, não só o meu espírito como até a minha sensibilidade, fora a ausência de qualquer dinamismo no ensino universitário com o qual fui obrigado a pactuar, ausência que hoje atribuo ao excesso de historicismo de que padece não só a educação como a cultura portuguesa. (...) No fim do curso, na famigerada disciplina semestral de História da Filosofia em Portugal - já então não compreendia muito bem por que, se se ensinava Literatura Portuguesa, se não podia ensinar Filosofia Portuguesa -, como o professore propusesse aos alunos a elaboração de monografias históricas sobre pensadores nacionais, um colega redigiu um estudo sobre o antipositivista Domingos Tarroso, autor, já no século passado, de um tratado intitulado «Filosofia da Existência». Ousara ele considerar Tarroso um percursor do existencialismo e bem assim valorizar esta corrente filosófica. Encontrei este colega há meses e lembrámos com amargura os momentos de humilhação por que ele passou ante a total incompreensão e as invectivas irónicas do professor! Também a aridez historicista desta cadeira, em que praticamente se vedava aos portugueses o direito de pensarem por si mesmos, me levou mais tarde a averiguar, mormente depois de ter encontrado Álvaro Ribeiro, que ao tema se devotara, a possível autonomia e originalidade de um pensamento português, de uma filosofia portuguesa. 
É sem dúvida curioso como, desde os primeiros anos universitários, no meu espírito se uniram a tese existencialista e a tese da filosofia portuguesa - um ramo, aliás, da tese das filosofias nacionais. Ambas eram objecto de uma feroz oposição catedrática. (...) Escolha, se havia, era extra-universitária. " 

António Quadros
"A Cultura Portuguesa perante o Existencialismo"
em Sartre e o Existencialismo de Ismael Quiles
(Arcádia, 1959)
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Ismael Quiles Sanchez Pedralba, (1906 - 1993) foi um teólogo e filósofo espanhol fortemente influenciado por Martin Heidegger, Gabriel Marcel e Karl Jaspers. Escreveu, entre outras obras, La persona humana (1942), Aristóteles: vida, escritos, doctrina (1944), Filosofía del cristianismo (1944), Heidegger y el existencialismo de la angustia (1948), Sartre y el existencialismo del absurdo (1952), Más allá del existencialismo: filosofía in-sistencial (1958), Metafísica budista (1967), Filosofía y mística: yoga (1967), Filosofía y religión (1985).

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Sartre e o existencialismo vistos por um filósofo católico (de Ismael Quiles e António Quadros)


Índice completo aqui.

Ismael Quiles Sanchez Pedralba, (1906 - 1993) foi um teólogo e filósofo espanhol fortemente influenciado por Martin Heidegger, Gabriel Marcel e Karl Jaspers. Escreveu, entre outras obras, La persona humana (1942), Aristóteles: vida, escritos, doctrina (1944), Filosofía del cristianismo (1944), Heidegger y el existencialismo de la angustia (1948), Sartre y el existencialismo del absurdo (1952), Más allá del existencialismo: filosofía in-sistencial (1958), Metafísica budista (1967), Filosofía y mística: yoga (1967), Filosofía y religión (1985).