segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O 3º volume de «Portugal, Razão e Mistério»


A última carta que António Quadros envia a António Telmo data de Fevereiro de 1991. É uma epístola onde o escritor descreve, uma vez mais, a luta que sentia para escrever o terceiro volume de Portugal Razão e Mistério. Nesta altura, debatia-se, escrevia, riscava tudo, rasgava as páginas, voltava ao início e mudava  várias vezes o nome do livro, para ver se o conseguia escrever. Mas não conseguia. Não conseguiu. Foi a partir de 1987 que começou a pairar sobre António Quadros, mas também entre os restantes homens da Filosofia Portuguesa, e não só, o fantasma do terceiro livro de Portugal, Razão e Mistério. O projecto, nunca concretizado, conheceu o primeiro título logo naquele ano. A obra chamar-se-ia: Saudade da Pátria Prometida, título que António Quadros abandona e muda, no ano seguinte, para Filosofia Portuguesa e Razão Teleológica.
Podemos hoje falar, sem pudor, do sofrimento de António Quadros em relação a tudo isto, sofrimento várias manifestado a António Telmo, como é bem visível numa carta que envia ao autor de A Arte Poética em Janeiro de 1987:
“Só peço a Deus que me dê tempo, força e cabeça para concluir as obras que tenho projectadas. O terceiro e quarto volume de Portugal Razão e Mistério; um livro sobre a filosofia portuguesa, de Bruno a Orlando; um outro livro, sobre O Primeiro Modernismo Português […] e ainda outros que tenho na cabeça.”.
De tudo isto, António Quadros concluiu quase tudo, menos a terceira parte da sua obra maior. Chegaria, aliás, a confessar, uns dias depois, que devido ao cansaço provocado pelos recentes problemas de saúde, não estaria à altura do projecto. Efectivamente, a partir de 1990, os problemas de saúde de António Quadros agravam-se, embora, mesmo nos últimos anos, a sua vontade fosse a de finalizar o tríptico. No dia 22 de Março de 1990, volta a escrever a Telmo, contando como vivia os seus dias numa espécie de bloqueio interior. Por detrás deste bloqueio havia o receio de que o terceiro volume não tivesse a repercussão dos dois primeiros.

Ainda assim, a sua produção literária não diminuía. Nesse ano, estreia-se no romance e publica Uma Frescura de Asas, onde descreve os sintomas de uma angina de peito que sentira dois anos antes. Fizera também uma brilhante biografia de Sampaio Bruno, única entre os estudos sobre o filósofo d' A Ideia de Deus. Entre 1990 e 1991 prosseguem por via epistolar os contactos de António Quadros com António Telmo. Em carta enviada de Estremoz no dia 6 de Março de 1990, António Telmo lamenta novamente não ter ainda recebido o livro que formaria o tríptico de Portugal, Razão e Mistério e confessa ainda que António Quadros é um dos raros espíritos com quem convive superiormente. Uns dias depois, aconselha António Quadros, a deixar “entrever” o terceiro livro, “de modo a amar escrevê-lo”. Este conselho surge imediatamente depois de António Quadros ter confessado a António Telmo o que até hoje não se sabia: apenas escrevera o prólogo.

Tratava-se de um longo texto, já dactilografado, sobre a sua infância, a juventude, a família, a faculdade, o 57, os mestres Álvaro Ribeiro e José Marinho, os encontros com Mircea Eliade em Cascais e o grupo da Filosofia Portuguesa; entre outros: Afonso Botelho, António Braz Teixeira, Pinharanda Gomes, Dalila Pereira da Costa, Orlando Vitorino e António Telmo. Era, naturalmente, pouco, para o próprio António Quadros. Mas, quanto a nós, era muito, era tudo. 
O último livro, a derradeira palavra, seria uma saudação, um profundo e reconhecido agradecimento a todo o grupo. António Quadros viria a morrer no dia 21 de Março de 1993 com a obra completa.

António Quadros Ferro
adaptação livre de uma comunicação feita em Fevereiro de 2011 
por ocasião do Colóquio «A Obra e o Pensamento de António Telmo».